(Por Estátua de Sal, 01/05/2026, republicação de 01/05/2017 aumentada)

Já banalizámos a Liberdade. Como banal já é também o sol, a guerra, a miséria e a morte. Como se pela Liberdade não tivesse sido necessário lutar, sofrer, trepar muros a pique, e também morrer. Como se aquilo que aos trabalhadores é dado fosse uma dádiva divina e não o resultado de um combate de séculos, sangrento muitas vezes, e que irá durar até ao fim dos tempos.
Numa época prenhe dos sobressaltos da dívida, do déficit, do PIB e dos cofres vazios de um Portugal carente, esquecemos muitas vezes que há coisas que nenhum dinheiro compra. A História e a memória dos homens. “Aqueles que se vão da lei da morte libertando“, como dizia Camões. Temos, pois, a riqueza do nosso passado.
Um passado nem sempre trágico, nem sempre marítimo, e por vezes heróico.
Como em Abril de 1974. Como em Maio de 1974. Para que a memória dos mais velhos não se apague, para que a memória dos mais novos nos acolha, em testemunho e norte para a luta dos vindouros.
Não festejamos a chegada da Primavera. Essa já chegou. Festejamos o trabalho e os trabalhadores. Porque a festa também pode ser luta, rumo para a fraternidade que gera a união. União na festa, união na luta contra a exploração. Sim, contra a iniquidade desse pacote laboral de miséria acrescida e anunciada que nos querem impor, porque para o capital os lucros nunca são suficientes e a exploração de quem trabalha não deve conhecer limites e deve, por isso mesmo, aumentar ainda mais.
Contra a precariedade, pois. Luta pela alvorada de uma vida digna a que muitos não tem direito. E são cada vez mais. Sem esperança e sem futuro mas com medo. Medo do amanhã porque nada mais têm de seu que não o suor, as lágrimas e a vontade de estar vivos.
E dizem os oráculos que tem que ser assim. Menos direitos, menos salários, mais e mais horas de trabalho. É a competitividade, dizem também os fariseus, os adoradores do bezerro de ouro.
Mas nada é imutável, mas também nada nos é dado sem peleja. Em 1974 lutou-se e celebrou-se a Liberdade de lutar. Hoje podemos e devemos lembrar esse momento. (Ver textos, fotos e vídeos, aqui). Para que nos sirva de guia. A luta, aparentemente, é diferente. Ou talvez não. Porque a luta é sempre contra o conformismo, contra o nosso silêncio perante a arbitrariedade, a injustiça e a desigualdade.
E, essa luta será sempre uma labareda perene no coração de todos aqueles que se empenham em lutar por um mundo melhor. Que sejamos muitos. Que sejamos cada vez mais.
Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Coitado!
Não banalizo a liberdade.
Sei bem os seus limites, sei bem como e fácil perde la.
A pretexto de uma doença fomos transformados em prisioneiros das nossas próprias casas, o nosso país esteve ano e meio em estado de emergência, as ruas por onde sempre andamos tornaram se hostis, os bancos “trancados” com fitas de delimitação de cenas de crimes para que ninguém se sentasse neles, os restaurantes, os teatros, os cinemas fechados, só podíamos ir ao supermercado, cheguei a ir ao mesmo supermercado três vezes no mesmo dia, era o que o único sítio onde nos deixavam ir.
Não podia ir ao concelho vizinho comprar uma alface num bom supermercado que lá havia mas para ir trabalhar já podia atravessar três. Vá se lá perceber isso.
Não se podia ir a praia em pleno mês de Janeiro.
Ir tomar banho no mar entre Novembro e Abril e a coisa mais solitária que ha. Só se pegassemos a doença a um cachalote que desse a costa.
Mas eu arrisquei multa pesada para continuar a lá ir. E continuei.
Tive sorte. Porque os bufos também voltaram.
Os que denunciavam o velho que comia a sandes comprada ao postigo ficando ali em em vez de ir para casa.
Os que denunciavam o proprietário do restaurante que deixava homens que trabalhavam na estrada comer num telheiro que tinha a comida que ali tinham comprado ou traziam na marmita em vez de comer ao frio e a chuva. Os que denunciavam o idoso dono de uma antiga taberna que ali se continuava a juntar a noite com alguns clientes mais fiéis e amigos.
Diziam lhes “seja um agente de saúde pública”, estimulavam a bufaria e os bufos foram muitos.
Quando vieram umas vacinas nunca utilizadas em humanos, a não ser, com resultados miseráveis, em doentes terminais de cancro, claro que muita gente caiu.
Queriam a sua vida de volta, a sua liberdade de volta, o fim dos bufos.
Não passava pela cabeça de ninguém que aquilo pudesse ser prejudicial, até mortal.
Para mim isso foi a gota de agua sobre “o modo de vida ocidental”.
Fomos transformados em miseráveis ratos de laboratório.
Era impossível que não soubesse que aquilo podia fazer mal, que podia matar ou estropear.
Perdi muita gente, gente que prezava. Gente que podia ainda estar aqui. Gente que morreu cedo demais.
E gente que não voltará a ser a mesma.
Não. Eu não banalizo a liberdade.
Porque sei quando perdi a liberdade e quando vi a morte com enxada e tudo.
E chamem lhe obsessão que e para o lado que eu durmo melhor.
Não. Eu não banalizo a liberdade. Porque sei quando a perdi.