Passos Coelho e os que comem criancinhas

(António Fernando Nabais, in Aventar, 21/04/2024)

Quadro de Goya – Saturno devora um filho

No tempo do salazarismo, havia um faduncho anticomunista que servia para alimentar o medo do papão leninista-estalinista-siberiano. Incluía, o dito faduncho, versos como “Maldita seja a Rússia soviética!” e “Malditos os que comem criancinhas!”. Quando se pensava que já não seria possível reencontrar um discurso tão primário, eis que Passos Coelho reaparece para reavivar fantasmas em que ele próprio não acredita, mas que lhe dão jeito para a campanha em que se integra, juntamente com outros intelectuais do mesmo calibre, como Paulo Otero ou João César das Neves, alguns dos autores que integram a colectânea “Identidade e Família”.

Descaindo os cantos da boca, de modo a imitar uma gravitas de estadista, Passos Coelho disse que há uma «sovietização do ensino».

Um dos mitos alimentados pela direita tola (ou pela direita que fala para tolos) é o de que a Escola Pública é uma verdadeira madraça dominada por comunistas e outros parentes desgraçadamente próximos que andam a catequizar as pobres criancinhas, que, a não serem comidas ao pequeno-almoço, hão-de transformar-se, por força da doutrinação, em futuros comedores de criancinhas, em consumidores de drogas pesadas, médias, leves e pesos-pluma e em heterossexuais convertidos em quaisquer outros sexuais que tentarão obrigar toda a população a mudar a orientação sexual.

A acreditar em Passos Coelho (a propósito de acreditar em Passos Coelho, convém relembrar), os professores portugueses andaram a receber instruções para encher a cabeça dos alunos de ideias satanicamente esquerdistas. Temos, então, de imaginar que, de acordo com a cabecinha de Passos, os professores constituem um conjunto homogéneo de pessoas

  1. acéfalas: que obedeceriam a qualquer instrução ministerial;
  2. de esquerda: haveria um ou outro professor de direita, mas viveriam, na melhor das hipóteses, aterrorizados com as brigadas vermelhas de docentes que vigiam as escolas, de kalashnikov em punho, a fim de manter o comunismo em boa ordem;
  3. sem ética: porque se achariam no direito de usar as aulas para deixar de ensinar as matérias, com comícios em cada sala de aula e com as turmas transformadas em células de pequenos soviéticos, com o caderno diário a ser substituído pelo kit pedagógico da foice e do martelo.

No mundo fantástico da cabeça de Passos Coelho, os alunos serão, ainda, seres amorfos que se limitam a obedecer cegamente às ordens dos professores. Os alunos seriam gente, toda ela, sem cabeça e sem espírito crítico, incapazes de não cumprir uma única tarefa que lhes seja imposta pelos canibais infanticidas que se disfarçam de professores.

As próprias famílias, acuadas nas suas casas, viveriam petrificadas, impossibilitadas de criticar os professores, porque, vivendo em residências sovietizadas, estão a ser permanentemente escutadas, enquanto, lá fora, as tropas rubras dos professores batem as ruas, de noite e de dia, enquanto sovietizam os passeios, as ruas, as janelas e os postes de iluminação pública.

Como explica, ainda, o Rui Correia, até a tia – talvez de Passos Coelho – é soviética, o que, a ser verdade, deve ser um desgosto enorme para a família.

Fonte aqui.


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Pedro Passos Coelho da família tradicional e da direita radical

(Carmo Afonso, in Público, 09/04/2024)


Afirmam estar a fazer uma defesa, mas fazem na verdade um ataque à liberdade de todos os que não vivem de acordo com os seus princípios e valores.


Compareci à apresentação do livro Identidade e Família, por Pedro Passos Coelho. As notícias que davam conta do evento continham ingredientes irresistíveis. Diziam que o livro alertava contra a “destruição da família”. Achei particularmente interessante este excerto da introdução: “Não podemos desvalorizar os adversários da família, umas vezes mais à luz do dia, outras vezes de um modo mais subtil e larvar, mas nem por isso menos dissolvente.” Foi assim que ganharam a minha atenção e a minha presença.

Nasci numa família a que todos chamariam tradicional. Tenho um pai e uma mãe que se casaram e que vivem juntos há mais de 55 anos. Costumam ser elogiados por estarem casados há tanto tempo e por se manterem como estruturas para a filha e netos, que, ao contrário deles, não tendem para as famílias desenhadas a régua e esquadro. Os meus pais nunca foram alvo de preconceitos ou de discriminação pelo facto de terem constituído uma família tradicional. Se têm “adversários”, nunca se deram a conhecer. A pergunta que faço é: de onde vem a ameaça de que estas pessoas falam?

Os autores do livro, bem como Pedro Passos Coelho, acenam com esta ameaça ficcionada à família tradicional para legitimarem uma ameaça que é real: a ameaça que todos eles representam a quem constituiu família fora do molde patriarcal e a quem não se coaduna com um modelo familiar. Isto não é admissível. Estas pessoas escrevem livros e promovem apresentações com o fito de condicionar ou limitar outras opções que outras pessoas livremente tomaram. Afirmam estar a fazer uma defesa, mas fazem na verdade um ataque à liberdade de todos os que não vivem de acordo com os seus princípios e valores.

Pode também dar-se o caso de estas pessoas percecionarem a existência de novos modelos familiares e de novas opções de vida e identidades como constituindo uma ameaça à família tradicional. No fundo, o único cenário em que não se sentiriam ameaçadas seria o de um retrocesso de algumas décadas, altura em que todos se casavam com pessoas do sexo oposto, tinham filhos e suportavam o casamento por mais infelizes que se sentissem. Altura também em que as mulheres não trabalhavam ou ganhavam muito menos do que os maridos e se dedicavam à casa e à educação dos filhos. Isto não é nenhum delírio da minha parte. Vi, no mesmo dia, um dos autores do livro, Paulo Otero, criticar, num programa de televisão, “a falta de valorização do estatuto da mulher enquanto dona de casa.”

E isto leva-nos a outro aspeto importante. Sempre, mas sempre, que ouvimos falar estes defensores da família tradicional, podemos ter a certeza de que estamos perante quem pretende, sobretudo, o retrocesso na luta das mulheres pela igualdade. Sem tirar nem pôr. É também disto que se trata. Continuam a acalentar a idealização de uma mulher submissa e dedicada, tal qual nos lembramos e tal qual vemos descrita nos manuais de aconselhamento feminino do Estado Novo. Lembro-me de um excerto do livro A Mulher na Sala e na Cozinha que era brilhante e exemplar: recomendava às mulheres que fizessem um banquete no dia de aniversário dos seus maridos para os homenagearem. E recomendava igualmente que fizessem um banquete no dia do seu próprio aniversário com o mesmo propósito. Bons tempos, não era?Não é só sobre a família tradicional. Na verdade, o livro mistura vários temas que não têm uma conexão evidente. Critica o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por casais homossexuais, a eutanásia, a transexualidade, etc. Mas claro que existe aqui um denominador comum. É uma agenda reacionária.

Por que razão Pedro Passos Coelho decidiu apadrinhar o livro e a iniciativa? Só ele saberá, mas podemos chegar a algumas conclusões. Passos Coelho falou pouco sobre o livro e fez da apresentação um comício político no qual couberam as principais bandeiras políticas da direita radical.

Deu destaque à defesa de um entendimento com o Chega, expondo publicamente uma exuberante rota de colisão com Luís Montenegro. Passos Coelho, o político que, à direita, teria mais condições para fazer frente a Ventura, segue na direção oposta. Agora reparem que, com tudo isto, ajuda a criar uma aura de moderação a Luís Montenegro e a consolidar a AD, liderada por Montenegro, como alternativa ao Chega. Talvez o tiro lhe saia pela culatra.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


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A valsa do centrão, a acalmação e PPC (o tenor careca) no bolso do Venturas

(Por oxisdaquestão in blog oxisdaquestao, 09/04/2024, revisão da Estátua)

Sem grandes dotes para governar sequer, cada qual o seu condomínio, vão amparar-se para que o centrão seja aceite pelos grandes capitalistas do país e pelos oficiais da NATO que zelam pela “estabilidade” da zona. Pedro Nuno Santos vai tentar um acordo para resolver um problema que o anterior governo de maioria do PS não conseguiu resolver, não teve ensejo ou não esteve para lá virado!

 A política de colónia pobre tem destas coisas que não são para se entenderem. Montenegro, para garantir os votos dos funcionários públicos diz que é o seu governo que vai negociar na tentativa de … Dão-se os primeiros passos para a governação em função dos votos, todas as decisões têm os olhos postos na base eleitoral, no seu alargamento, na sua boa disposição.

Dá votos ou não dá votos? Os dois jovens políticos farão os seus números de equilibrismo, a comunicação social jogará com a matéria, Marcelo trará o Conselho de Estado no bolso do casaco, prestará declarações dia sim, dia sim e estará em sintonia com os donos do mundo ocidental. Estamos na acalmação, depois da defenestração dum Primeiro-ministro, com maioria absoluta, que só não fugiu da Ericeira num submarino inglês …

Passos volta a expressar-se como um extremista de direita. E o nosso Milei do Alto do Pina aproveita para dizer que, afinal, não é só ele: há o careca cantor que chegou a Primeiro-ministro porque o BCE assim o exigiu. E havia nós que estavam por dar enquanto Coelho pairava, qual drone, à espreita do momento e local para aterrar.

Passos andava aos caídos, que é como quem diz sem ter onde cair morto, até tudo se encaixar. Se Montenegro e Pedro Nuno fazem uma dupla de reformistas, social-democratas e tudo, Ventura e o tenor careca são a extrema-direita derivada do salazarismo sebento e pidesco que deveria ter acabado, mas pelos vistos, não acabou…

Anima-se a paleta política que não augura nada de bom para os trabalhadores e os reformados. E, se pensarmos que os generais querem o serviço militar obrigatório, alugar quarteis e camaratas, levantar refeitórios de bancos corridos e louça de alumínio amassada, para aumentarem de número e de pré, então valha-nos Deus Nosso Senhor e as suas chagas sempre abertas e a pingar! A história reata-se em Santa Comba depois de um 28 de maio, movimentado em motas pretas pela A1 abaixo, na 1ª manifestação da União Nacional à guisa de motoqueiros de Famel Zundapp a dois tempos.

O mundo produzido pelo capitalismo é para eles. Verdadeiramente para eles. E quem não está bem que se mude, procure um capitalismo melhor, o dos mil e poucos euros. Ou dos quarteis, sim, dos quarteis. Das casernas, da comida roubada, dos sargentos, dos berros, das formaturas e dos exercícios noturnos. Das armas de guerra, instrumentos de morte. Do desperdício de tempo e da acção psicológica a inventar inimigos que não existem. Da vida interrompida sem nenhum propósito que não seja evitar o desemprego dos coronéis, generais e vice-almirantes.

O comissário dos cagalhões. Abre-se o lugar para o homem e no tal dia é empossado por uma Van Der Leyen de merda. O político português é genial, só pode ser genial. Moreira é um deles.


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