O povo russo teme um novo “Gorbatchov” e o Rússia Unida sobe 16,1%

(João Ferreira, in Facebook, 21/09/2026)


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Os números são claros: o partido Rússia Unida passou de 49,82% nas eleições legislativas de 2021 para cerca de 57,83% em 2026. A diferença nominal é de 8,01 pontos percentuais, correspondendo a um crescimento proporcional de aproximadamente 16,1%. Estes eram ainda resultados preliminares, apurados quando estavam contabilizados cerca de 93% dos protocolos eleitorais. Resultados comparativos de 2021 e 2026.

A interpretação dominante na comunicação social ocidental será previsível: controlo político, ausência de oposição, propaganda do Kremlin e manipulação da sociedade russa. Eu proponho uma leitura diferente, construída não a partir dos púlpitos mediáticos de Washington, Londres ou Bruxelas, mas a partir da memória histórica do próprio povo russo.

Este resultado eleitoral não é apenas um voto no Rússia Unida. É, em grande medida, um voto contra o medo de a Rússia voltar a cair nas mãos de um novo Gorbatchov.

Para compreender essa reacção é necessário perceber que os russos não viveram os anos 90 através de documentários ocidentais. Viveram-nos na própria pele. Viram o Estado desmoronar-se, a economia ser saqueada, as empresas estratégicas entregues a oligarcas, o rublo perder valor, os salários e pensões desaparecerem e milhões de pessoas serem empurradas para a pobreza, para o alcoolismo, para o crime e para uma humilhação nacional sem precedentes.

No Ocidente, Mikhail Gorbatchov foi transformado num herói romântico: o homem da abertura, da paz e do fim da Guerra Fria. Na memória de uma larga parte da sociedade russa, porém, representa outra coisa: o dirigente que acreditou nas promessas dos adversários, desmontou os instrumentos de poder do seu próprio país e abriu caminho à destruição da União Soviética e ao desastre que se seguiu sob Boris Iéltsin.

Eu sintetizo essa percepção numa expressão deliberadamente brutal: “Gorbatchov tornou-se a prostituta da História da Rússia”. Entregou tudo, acreditou em tudo e recebeu em troca a desagregação do Estado que dirigia, a expansão do adversário militar e uma década de miséria para o seu próprio povo.

A documentação norte-americana entretanto desclassificada demonstra que Gorbatchov recebeu sucessivas garantias políticas dos principais dirigentes ocidentais sobre a segurança soviética e sobre a não expansão da NATO para Leste. A célebre fórmula de James Baker

 “nem uma polegada para Leste”

não ficou consagrada num tratado geral, mas integrou uma sequência de garantias diplomáticas dadas por Baker, Bush, Genscher, Kohl, Thatcher, Mitterrand e outros responsáveis ocidentais. Os documentos mostram que a liderança soviética foi, pelo menos, levada a acreditar que a NATO não avançaria em direcção às fronteiras russas. Documentos desclassificados sobre as garantias dadas a Gorbatchov.

A História mostrou o valor dessas garantias. A NATO não desapareceu quando desapareceu o Pacto de Varsóvia. Pelo contrário: expandiu-se sucessivamente para Leste, incorporou antigos membros do bloco soviético, aproximou infra-estruturas militares das fronteiras russas e transformou a fragilidade da Rússia dos anos 90 numa oportunidade estratégica.

É neste enquadramento que interpreto a guerra por procuração travada na Ucrânia. Na minha leitura, a Ucrânia não é o objectivo final: é o território utilizado para desgastar militarmente a Rússia, destruir a sua economia, provocar descontentamento interno e tentar produzir em Moscovo uma mudança de regime favorável aos interesses norte-americanos.

Victoria Nuland, que foi subsecretária de Estado norte-americana para os Assuntos Políticos que desempenhou durante anos um papel central na política dos Estados Unidos para a Ucrânia e para o espaço pós-soviético, admitiu publicamente no programa 60 minutos da CNN norte Americana que investiram mais de 5 mil milhões de Dollars no golpe de estado da Ucrânia e que valeu apena. Um plano oficial consequente para dividir a Rússia em sete países.

O objectivo de enfraquecer estruturalmente a Rússia foi assumido publicamente por Washington. Em Abril de 2022, o então secretário da Defesa norte-americano, Lloyd Austin, declarou que os Estados Unidos queriam ver a Rússia suficientemente enfraquecida para deixar de possuir capacidade de realizar operações semelhantes. Declaração de Lloyd Austin.

Poucos meses depois, uma comissão oficial do Congresso norte-americano promoveu uma sessão intitulada “Descolonizar a Rússia: um imperativo moral e estratégico”. O próprio título revela que o objectivo de fragmentar territorial e politicamente a Federação Russa portanto como se demonstrou não pertence apenas à imaginação de Moscovo. É uma ideia debatida abertamente em estruturas políticas norte-americanas. Audição oficial da Comissão de Helsínquia dos Estados Unidos.

Circulam ainda em meios políticos e estratégicos ocidentais diferentes mapas e projectos que imaginam a Federação Russa dividida em várias entidades, algumas propostas como já referi e demonstrei apresentam sete grandes espaços, outras um número superior. Pode não existir um documento oficial norte-americano que determine exactamente essa divisão. Mas o povo russo reconhece que a lógica estratégica é evidente: uma Rússia fragmentada seria mais fraca, mais facilmente condicionada, menos capaz de defender os seus recursos naturais e incapaz de contrariar a hegemonia dos Estados Unidos.

Sete países dependentes são mais fáceis de manietar do que uma federação continental, nuclear, soberana e dotada de recursos praticamente inesgotáveis.

O povo russo conhece esta lógica. Conhece-a porque já experimentou as consequências da fraqueza. Sabe que a promessa ocidental de amizade dos anos 90 coincidiu com o saque económico, a expansão da NATO e a perda de influência internacional. Sabe que, quando a Rússia estava de joelhos, o Ocidente não a ajudou a levantar-se: aproveitou-se da sua posição.

É por isso que o crescimento do Rússia Unida deve ser compreendido também como uma reacção defensiva. Não significa necessariamente que 57,83% dos eleitores aprovem cada decisão do partido, cada dirigente ou cada medida do Governo. Significa que, perante a pressão militar, económica e política externa, uma parte considerável da sociedade russa prefere a continuidade do poder a uma nova experiência de desagregação conduzida por um dirigente disposto a confiar novamente nas promessas ocidentais.

Quanto mais o Ocidente declara que pretende enfraquecer a Rússia, mais fortalece politicamente o Kremlin. Quanto mais ameaça dividir o território russo, mais une a população em torno do poder existente. Quanto mais sanções, armas, ataques e discursos sobre “descolonização”, maior se torna o receio de um novo Gorbatchov.

O resultado eleitoral de 2026 não representa apenas uma vitória do Rússia Unida. Representa a derrota de uma expectativa alimentada durante anos em Washington e nas capitais europeias: a esperança de que a guerra, as sanções e o desgaste económico fizessem o povo russo revoltar-se contra o Kremlin.

Produziram o efeito contrário.

Os russos não votaram apenas no partido de Putin. Votaram contra o regresso a 1991. Votaram contra uma nova década de humilhação. E votaram, sobretudo, contra o aparecimento de outro Gorbatchov.

Spinumviva. Pedro Nuno Santos foi mesmo suicida?

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 18/12/2025)


Na quarta-feira, não fiquei à espera da comunicação do primeiro-ministro depois de conhecido o arquivamento da averiguação preventiva à empresa Spinumviva. Não ouvi em directo a acusação ao Ministério Público (e aos jornalistas) de “tentação totalitária”.

Já tinha adiado na véspera um jantar com vários amigos por causa do debate presidencial entre Seguro e Cotrim Figueiredo e estava a ser alvo de “bullying” amigável. Os jornalistas, comentadores, etc. não conseguem ter uma excitante vida social em tempo de debates parlamentares ou eleições. Digamos que este ano, desse ponto de vista, foi complicado.

No jantar – num excelente e barato restaurante chinês em Alvalade – os meus amigos (alguns terão votado PS nas últimas legislativas) comentavam como foi paradoxal que este caso se tenha voltado contra o PS. No fundo, lamentavam que Pedro Nuno Santos tivesse sido tão azelha que, ao chumbar a moção de confiança do Governo, facilitou as eleições antecipadas que o Governo tanto queria. Em consequência, o PS acabou por ter menos deputados do que o Chega.

“Podia ter imposto a comissão de inquérito à Spinumviva e viabilizado a moção de confiança só para não fazer o favor a Luís Montenegro”. Este argumento dos meus amigos foi defendido por alguns elementos da direcção mais restrita do PS na época, que já estavam convictos de que as eleições não seriam um passeio para os socialistas.

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Nesta quinta-feira, Pedro Nuno Santos recorreu às redes sociais para voltar a explicar a sua posição. Escreveu que “independentemente da existência ou da ausência de responsabilidade judicial, do ponto de vista político o que sabemos é suficiente para se concluir que Luís Montenegro não tem condições de idoneidade para o cargo que ocupa. Não foi esse o juízo popular, mas isso não mudou a minha avaliação do carácter e da idoneidade do primeiro-ministro”.

Acrescenta uma nota para reafirmar que o PS não desejou as eleições, mas foi obrigado a isso. “Luís Montenegro pediu a confiança que o PS não lhe podia dar. A condição para a não apresentação de uma moção de confiança era uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] feita à medida do primeiro-ministro, com prazos limite para o seu fim. O que obviamente rejeitámos porque significaria o abandalhamento das instituições da República”. E mais: “Basta perceber a prática de Luís Montenegro evitar dar informações e a disponibilizar informações, e a atrasar-se como fez com o Ministério Público, para percebermos o que queria fazer com uma CPI tão limitada no tempo como exigia”.

As justificações para não aceitar uma “Comissão de Inquérito à medida” são legítimas, ainda por cima sabendo o que se sabe com a falta de transparência do primeiro-ministro. A alternativa era engolir o sapo e viabilizar a moção de confiança e deixar correr a comissão de inquérito.

Luís Montenegro iria fazer o PS pagar muito caro o ter dado confiança ao Governo – como fez logo de início, fazendo chantagem política com os socialistas por terem viabilizado o programa do Governo, que não é sequer votado, apenas sujeito a moções de censura que o PS chumbou.

É verdade que Pedro Nuno Santos estava entre a espada e a parede. A dúvida é: se não tivesse havido eleições, se o PS tivesse engolido o sapo e viabilizado o Governo Montenegro, Pedro Nuno Santos ainda seria líder do PS? Sabemos que Pedro Nuno Santos não suportaria viabilizar mais um Orçamento do Governo – e portanto, neste momento, estaríamos a viver de duodécimos.

É verdade que Marcelo Rebelo de Sousa já não podia dissolver a Assembleia da República. De qualquer forma, na altura ainda não tínhamos conhecimento de que o próximo Presidente da República, qualquer que ele venha a ser, não considera que o chumbo do orçamento seja razão para a convocação de eleições.

Talvez engolir o sapo de viabilizar a confiança ao Governo só para ter a comissão de inquérito tivesse sido uma atitude pragmática. Até porque, depois do estado em que ficou nas legislativas, o PS deixou cair totalmente a ideia de fazer uma comissão de inquérito.

Ontem, na SIC Notícias, falando em nome pessoal, o deputado do PS Miguel Costa Matos defendeu a constituição de uma comissão de inquérito ao caso. Tendo em conta o trauma que a Spinumviva deixou no PS, e o prudente esquecimento a que foi votada depois das legislativas, tenho as minhas dúvidas que tenha grande apoio dentro do partido.

José Luís Carneiro lamentou que tivesse havido eleições – “muitos recursos foram exauridos por força do momento eleitoral”, quando o Governo devia estar era a pensar “nas preocupações fundamentais das pessoas”. Percebe-se que a sua opção teria sido outra.

Até para o ano.

As eleições do Benfica e a manifestação de trabalhadores em Lisboa

(Carlos Esperança, in Facebook, 09/11/2025)

Na imagem o desfile dos manifestantes captado por um jornal diário.

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Ontem, com a Pátria suspensa nas eleições presidenciais (do Benfica), a ameaçar uma longa noite para contagem dos votos em Portugal e no Mundo, desliguei cedo a TV.

Compreendi que a SIC-N, RTP-3; CNN; CMTV e NOW, justamente preocupadas com o que estava em jogo, nem em rodapé distraíssem os telespetadores dos mapas interativos e dos sábios que explicavam aos portugueses a evolução dos resultados eleitorais.

Parece que nas duas voltas, a de ontem substituiu a anterior no Guiness, em número de votantes, um orgulho para Portugal e uma glória para o mundo, com a saborosa vitória de Portugal sobre a Espanha em número de eleitores que foram às urnas.

Sem querer fazer comparações vou referir-me a um assunto, secundário é certo, sem negar o mérito do regresso às boas tradições, a devoção a Fátima, o entusiasmo com o Futebol e o êxtase com o Fado ou pôr em causa Deus, Pátria e Família, a trilogia que regressa. Os leitores hão de perdoar-me a referência à manifestação com milhares de trabalhadores, promovida pela CGTP, a contestar em Lisboa alterações às leis laborais, que o Governo está a elaborar.

Não se duvida das boas intenções nem da argumentação convincente de que os trabalhadores não querem vínculos efetivos e se opõem a contratos experimentais que passem a definitivos ou a despedimentos que exijam justa causa.

Será, finalmente, a vitória do conceito de um grande ideólogo, Passos Coelho, que em 11-05-2012 o teorizou: «Despedir-se ou ser despedido não pode ser um estigma, tem de representar uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma escolha livre, uma mobilidade da própria sociedade» (sic).

Deixo ainda as sábias palavras de um ex-deputado, autarca e governador Civil do PSD, que espalhou pelo Facebook, em 20 de outubro p.p.: «As pessoas que pagam impostos e que precisam dos serviços, escolas, hospitais, centros de saúde, tribunais … são novamente prejudicadas e desprezadas pelos grevistas. Os 3 maiores partidos poderiam e deveriam dar as mãos para responder com firmeza a esta rapinagem dos sindicatos».

Perdoem-me, pois, a referência à manifestação que apanhei por acaso num intervalo das eleições presidenciais referidas.

Acordei hoje com a notícia sobre a vitória avassaladora do incumbente. Rui Costa continua, segundo ouvi, presidente de 8 milhões de portugueses.