Tanto barulho para nada

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 14/05/2019)

Francisco Louçã

(Louça estava inspirado quando escreveu este artigo. Pelo estilo, pela forma, mas também pelo conteúdo. Nada como umas “diatribes” de Costa e do PS, mais a deprimência da campanha eleitoral para as Europeias, para fazer com que os textos saiam da pena do escrevente numa síntese feliz de razão e coração.

Esse vazio do debate sobre a Europa trouxe-me à memória um título notável de um romance da saudosa escritora Irene Lisboa: “Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma”. Sim, a Europa é cada vez mais isso mesmo: uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma.

Comentário da Estátua de Sal, 14/05/2019)


É mais do que certo que o passar do tempo é cruel para o nevoeiro. A primeira sondagem depois da grandiosa crise política, da “bomba orçamental” e da ameaça de demissão do governo, que tinha o objetivo esplendoroso de antecipar eleições para final de julho, revelou que o PS só subiu uns pequenitos 0,8% em relação ao mês anterior, mantendo-se sempre abaixo dos valores de 2018. Está tão longe como sempre esteve da maioria absoluta, se é que não fica mais longe depois de gastar os cartuchos de pólvora. Só fica, portanto, a história de um truque, e veremos nos próximos meses se o efeito de desgaste provocado por tanto barulho para nada é ou não ocultado pelo efeito emocional da triunfal exibição de poder.

Para as eleições europeias, no imediato, o impacto da inventona é apesar de tudo mais imprevisível. Um grande arremedo como este, que tem sido festejado pelos social-democratas costistas como um apogeu da política, procura o efeito maquiavélico: grita muito, mobiliza as tuas tropas, assusta os adversários, impressiona os hesitantes. O ódio aos professores, privilegiados, culpados dos baixos salários dos trabalhadores do privado, um perigo para as contas públicas, uma ameaça a Portugal, a quinta coluna da nova troika, foi assim instrumentalizado como um ativo eleitoral para encher comezainas e comícios. Foi o suficiente para que o partido reagisse com o entusiasmo de quem saúda a passagem do Rubicão por Júlio César, de tal modo que, nos vapores da janta, até se esquece do candidato, que aliás é personagem secundário em toda a encenação.

Quem escrevia que o arguto primeiro ministro até estaria contente com a queda do PS nas eleições europeias, para assim se abalançar a um discurso dramático para as legislativas, bem pode agora rever o seu oráculo. O governo, se pressentiu o risco de uma votação poucochinha, recorreu à sua bomba atómica quando lhe surgiu o pretexto. Dá nisso uma lição, penso que é mesmo a mais importante para amigos e inimigos: não joga a feijões a nada e, se há o risco da desmesura, melhor que seja absolutamente espampanante. Estamos na era da política do choque e pavor.

Esta estratégia ofusca as eleições europeias. Quem é que agora vai discutir a Europa, queixam-se as boas almas? Têm toda a razão, mas o comboio já passou. Aliás, discutir a Europa seria um erro lamentável que um bom estratega das grandes famílias europeias nunca cometeria.

É melhor que nem se note o que se passa: com o inenarrável Nigel Farage a comandar, destacado, as sondagens no Reino Unido, depois das aventuras acarinhadas no limite da ilegalidade e da chantagem pelas autoridades europeias e pelos seus parceiros, os tories ingleses; o presidente Júpiter transformado num fantasma refugiado no palácio; Erdogan a cobrar o estipêndio que lhe é garantido pelos cofres de Bruxelas para bloquear refugiados;e com os caciques da Europa de leste a garantirem lealdade ou a Trump ou a Putin, o dia da dia do poder europeu tornou-se ou uma farsa ou uma tragédia.

Por isso mesmo, a escolha de alguns candidatos foi dizer tudo e o seu contrário. Os que todos os anos aprovam meticulosamente a redução do orçamento comunitário chegam agora à campanha a invetivar a falta de ambição dos comissários; os que imitam a prosápia dos estados fortes pegam cartazes a pedir que se aproveitem bem os dinheirinhos de Bruxelas; os que aplaudiram a austeridade e pediram sanções desfazem-se agora em lágrimas perante os seus efeitos na vida das pessoas; os que aprovaram o referendo do Brexit queixam-se amargamente dos ingleses; os que deram o seu beneplácito à redução dos fundos para Portugal indignam-se agora com a sua própria decisão; os que viram em Macron o príncipe salvador e em Merkel o bastião da Europa pedem agora à massa que se amande contra o eixo franco-alemão; os que aprovaram o Tratado Orçamental descobriram que é “estúpido”, descuidando do que isso diz deles próprios. Se suspeita que, passado o eflúvio eleitoral, tudo voltará ao normal, ao orçamento de sempre, aos arranjos de sempre, à modorra de sempre, apimentada porventura pelas alianças entre conservadores e extrema-direita, que já são o novo normal, não estará longe da sensatez.

O efeito tem sido garantido: de vitória em vitória, a União tornou-se uma apoquentação, a Comissão uma choldra, o Banco pode cair nas mãos de novos aventureiros e parece que tudo caminha nesse sentido. Diplomacia não existe, solidariedade é uma piada, trabalho em comum só se for em prol da economia alemã. Assim, em cada eleição vivemos o susto da realidade. Os cônsules da Europa estão a esforçar-se arduamente para que se confirme este destino que dizem temer.

Assim sendo, mais do que a ofuscação da “questão europeia”, o que fica demonstrado com este episódio da crise da “bomba” é uma escolha que marca como um ferrete: agora, só vale a política de curtissimo prazo. Queimar os navios antes de chegar à praia, gestos operáticos para pedir aplauso, tremendismo declarativo, insídia pessoal e olhos esbugalhados na campanha, os que têm governado a Europa só têm isto a oferecer. É pouco, mas eles até acham que já é demais.


Advertisements

A sondagem que diz que vai haver nova “geringonça”

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/04/2019)

Daniel Oliveira

As sondagens, como os resultados eleitorais, não se devem resumir ao quem ganha e quem perde. Não por uma questão de justiça ou de injustiça, mas porque essas leituras não nos dão uma grelha que permita analisar a realidade política e prever o futuro. Como tão bem se percebeu nas últimas eleições legislativas.

Olhando para a última sondagem da Aximage, e pensando apenas na conjuntura política mais recente, há pelo menos uma coisa que parece evidente: o caso das famílias parece ter conseguido absorver os ganhos eleitorais dos passes sociais. A isto devemos juntar o razoável desinteresse pelas eleições europeias que faz com que o voto de protesto se mobilize, levando os governos a ter piores resultados. Isto quer dizer que, com a abstenção, as coisas até podem ser piores para o Governo. Uma das críticas feitas a António José Seguro foi não ter conseguido mobilizar o descontentamento numas eleições propícias a isso.

Segundo a sondagem, o PS conquistará 33,6%, o PSD 31,1%, a CDU 9,4%, o BE 8% e o CDS 6,8%. Registe-se ainda os miseráveis 1,3% da Aliança, que empata com o PAN. Em relação às últimas europeias, MPT e Livre desaparecem. Nas últimas Europeias, o PS teve 31,4%, PSD/CDS 27,7%, a CDU: 12,7%, o MPT 7,1% e o BE 4,6%. Nas últimas legislativas o PSD/CDS teve 38,4% (isto inclui o resultado do PSD-Madeira), o PS teve 32,3%, o BE teve 10,2% e a CDU teve 8,3%.

Olhando para esta sondagem concluiríamos apenas que é provável que se repita a “geringonça”, agora com o PS em primeiro mas muitíssimo longe da maioria absoluta. É o melhor resultado possível para quem defenda a repetição desta solução política

Façamos então a comparação com as últimas eleições para saber do que estamos mesmo a falar. Olhando para esta sondagem, o PS sobe 2% em relação às europeias e 1% em relação às legislativas. O PSD e o CDS, que concorreram juntos nessas duas eleições, sobem 10% em relação às europeias – o MPT teve 7% e isso explica a mudança – e descem 0,5% em relação às legislativas. A CDU desce quase 3% em relação às europeias e sobe 1% em relação às legislativas – é habitual ter mais nas europeias, beneficiando da abstenção. O Bloco de Esquerda sobe quase 4% em relação às europeias, quando viveu um dos piores momentos da sua história, e desce 2% em relação às legislativas – costuma ter mais nas legislativas. PSD e Bloco são os únicos a ganhar deputados.

Sabendo o que aconteceu nas últimas legislativas, talvez o mais importante seja mesmo olhar para os dois grandes blocos políticos. A direita mantém-se nos 38% em relação às legislativas e só sobe 10% em relação às europeias porque parece recuperar os eleitores do MPT. Os partidos da geringonça mantêm-se nos 51% que tiveram nas últimas legislativas e europeias. O que é surpreendente é a estabilidade do sistema e a aparente capacidade da direita absorver o voto de protesto em Marinho Pinto. Não estão aqui os novos partidos e não sabemos quem perderá mais com eles. Mas olhando para esta sondagem concluiríamos apenas que é provável que se repita a “geringonça”, agora com o PS em primeiro mas muitíssimo longe da maioria absoluta. Na realidade, este é o melhor resultado possível para quem defenda a repetição desta solução política.

Mas isto não invalida que a pré-campanha do PS tem sido miserável. António Costa é um desastre nestes momentos. Não sabe fazer campanha, não sabe prever problemas, não sabe empolgar o partido. É melhor na arte da negociação do que na arte da mobilização. Ou acorda agora, durante esta campanha, ou no fim de maio vai ter uma surpresa. Mesmo não mudando o cenário político, esta sondagem dá um elã ao PSD, que tenderá a mobilizar voto útil a esvaziar ainda mais o CDS. Sabendo que não regressam ao poder este ano, o grande objetivo será a vitória moral. Que daria, é bom perceber, uma botija de oxigénio a Rui Rio.

Sondagem: PS destacado, mas longe da maioria. Portugueses gostam do Governo

(In Expresso Diário, 08/03/2019)


António Costa vê o seu partido com mais 12 pontos que o PSD de Rui, que está perto do pior resultado de sempre

Em ano de várias eleições, o Expresso tem novas sondagens. Esta semana começam os inquéritos feitos para o Expresso e a SIC pelo ICS e o ISCTE, com o trabalho de campo a ser realizado pela GfK Metris. Intenção de voto e avaliação do Governo são dois dos tópicos perguntados aos portugueses. Confira os resultados.


Qual o partido melhor colocado para vencer as legislativas? Poderá haver maioria absoluta? Das novas forças presentes na competição eleitoral, qual está melhor colocada nesta altura?

Estas são algumas das questões a que procuramos responder no lançamento dos novos estudos e sondagem para o Expresso e a SIC, que resultam de uma parceria com o Instituto de Ciências Sociais e o ISCTE, e que contam com o trabalho de campo feito pela GfK Metris.

Mas esta primeira sondagem conta com outros pontos de interesse: perguntamos aos inquiridos o que pensam do Governo de António Costa e como o comparam com o executivo anterior, de Passos Coelho. Olhamos para a popularidade dos nossos políticos aos olhos dos portugueses. Tentando por exemplo perceber se Marcelo é mais popular à esquerda ou à direita. E fomos saber qual a avaliação que os portugueses fazem da situação económica – um dado absolutamente decisivo e influente no comportamento dos eleitores no dia de irem às urnas votar.

Este estudo foi coordenado por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa (ISCTEIUL), tendo o trabalho de campo sido realizado pela GfK Metris. O responsável pela equipa é Pedro Magalhães, e dela fazem parte nomes como os de Marina Costa Lobo e Pedro Adão e Silva. Os três assinam textos de análise sobre pontos da sondagem na edição do Expresso desta semana.

PS DESTACADO, MAS LONGE DA MAIORIA

O gráfico mostra que o PS dispõe de vantagem sobre o PSD, mas que CDU, CDS e BE estão, para todos os efeitos, empatados. Mais abaixo, PAN e Aliança obtêm, respetivamente, 3% e 2% das intenções de voto.

Os socialistas têm 12 pontos de vantagem sobre o PSD. Uma folga confortável para pensarem em vencer eleições. Mas o resultado do partido de António Costa deixa-o bem longe da meta da maioria absoluta dos deputados no Parlamento. Os restantes partidos da geringonça aparecem com oito por cento das intenções de voto cada.

À direita, o partido de Rio arrisca nesta altura vir a ter um dos piores resultados do PSD na urnas. E a soma com o CDS é semelhante à obtida pelo PS em 2015.

Quanto aos pequenos e sobretudo aos novos partidos, uma da curiosidade deste ano, apenas a Aliança de Santana Lopes consegue um resultado que merece registo.

QUANTO VALE ESTE GOVERNO?

Há mais inquiridos a fazerem uma apreciação positiva do desempenho do Governo do que uma apreciação negativa. Pouco mais de metade dos inquiridos consideram que o Governo está a fazer um “Bom” trabalho, com as opiniões positivas a totalizarem 54% nesta amostra.Cerca de um em cada três inquiridos acha que o Governo está a fazer um trabalho “Mau”ou “Muito mau”. Cerca de um em cada dez inquiridos não exprimiu opinião, e as posições extremas foram escolhidas por uma percentagem reduzida de inquiridos.

Nesta amostra, a avaliação do Governo piora ligeiramente à medida que aumenta a instrução, mas a avaliação é globalmente positiva mesmo entre o segmento mais escolarizado. A relação entre as predisposições partidárias e ideológicas dos inquiridos e a sua apreciação do desempenho do Governo é forte: a percentagem dos simpatizantes do PS que faz uma apreciação positiva é mais de três vezes superior à que se encontra entre os simpatizantes do PSD. Uma disparidade semelhante — se bem que não tão expressiva — encontra-se entre os inquiridos que se posicionam à esquerda e os que se posicionam à direita.

QUAL É O MELHOR GOVERNO?

Comparado o trabalho do atual governo com o do governo anterior, apenas 15% consideram que o atual governo está a fazer um “Pior” ou “Muito pior” trabalho, contra 49% que defendem a ideia oposta. Contudo, cerca de um em cada três inquiridos não deteta diferenças entre este governo e o anterior.

PROJEÇÃO DA INTENÇÃO DE VOTO

COMO VOTARIA SE HOUVESSE HOJE ELEIÇÕES LEGISLATIVAS?

Projeção excluindo abstencionistas (9%) e após imputação de indecisos (17%) e recusas (0,2%). Entre parêntesis, % em relação ao total da amostra.










FICHA TÉCNICA

ESTE ESTUDO FOI COORDENADO POR UMA EQUIPA DO INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (ICS-ULISBOA) E DO ISCTE – INSTITUTO UNIVERSITÁRIO DE LISBOA (ISCTEIUL), TENDO O TRABALHO DE CAMPO SIDO REALIZADO PELA GFK METRIS. O UNIVERSO DO ESTUDO É CONSTITUÍDO PELOS INDIVÍDUOS, DE AMBOS OS SEXOS, COM IDADE IGUAL OU SUPERIOR A 18 ANOS RESIDENTES EM PORTUGAL CONTINENTAL. OS RESPONDENTES FORAM SELECIONADOS ATRAVÉS DO MÉTODO DE QUOTAS, COM BASE NUMA MATRIZ QUE CRUZA AS VARIÁVEIS SEXO, IDADE (7 GRUPOS), INSTRUÇÃO (3 GRUPOS), OCUPAÇÃO (2 GRUPOS), REGIÃO (7 REGIÕES GFK METRIS) E HABITAT/DIMENSÃO DOS AGREGADOS POPULACIONAIS (5 GRUPOS). A PARTIR DE UMA MATRIZ INICIAL DE REGIÃO E HABITAT, FORAM SELECCIONADOS ALEATORIAMENTE 83 PONTOS DE AMOSTRAGEM ONDE FORAM REALIZADAS AS ENTREVISTAS, DE ACORDO COM AS QUOTAS ACIMA REFERIDAS. A INFORMAÇÃO FOI RECOLHIDA ATRAVÉS DE ENTREVISTA DIRECTA E PESSOAL NA RESIDÊNCIA DOS INQUIRIDOS, EM SISTEMA CAPI. A INTENÇÃO DE VOTO FOI RECOLHIDA RECORRENDO A SIMULAÇÃO DE VOTO EM URNA. O TRABALHO DE CAMPO DECORREU ENTRE OS DIAS 9 E 21 DE FEVEREIRO DE 2019 E FOI REALIZADO POR 45 ENTREVISTADORES, QUE RECEBERAM FORMAÇÃO ADEQUADA ÀS ESPECIFICIDADES DO ESTUDO. FORAM CONTACTADOS 2541 LARES ELEGÍVEIS (COM MEMBROS DO AGREGADO PERTENCENTES AO UNIVERSO), TENDO SIDO OBTIDAS 801 ENTREVISTAS VÁLIDAS (TAXA DE RESPOSTA DE 32%). TODOS OS RESULTADOS FORAM SUJEITOS A PONDERAÇÃO POR PÓS-ESTRATIFICAÇÃO DE ACORDO COM A FREQUÊNCIA DE PRÁTICA RELIGIOSA DOS CIDADÃOS PORTUGUESES RESIDENTES NO CONTINENTE COM 18 OU MAIS ANOS, A PARTIR DOS DADOS DA VAGA MAIS RECENTE DO INQUÉRITO SOCIAL EUROPEU. A MARGEM DE ERRO MÁXIMA ASSOCIADA A UMA AMOSTRA ALEATÓRIA SIMPLES DE 801 INQUIRIDOS É DE +/- 3,5%, COM UM NÍVEL DE CONFIANÇA DE 95%.