(Rui Pereira, in Facebook, 19/05/2026), Revisão da Estátua)

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Há mais de seis décadas que Cuba é vítima de um crime de lesa-humanidade, o bloqueio inumano promovido pelos Estados Unidos desde 1960, ano após ano maciçamente condenado pela Assembleia Geral da ONU e por quem, conhecendo a situação, conserve um pingo de decência.
Agora, o parlamento português aprovou um voto infame que, em vez de condenar o cerco contra Cuba e o seu povo (ou a par desta condenação, como se as duas coisas fossem iguais), se pronuncia pela liberalidade da política interna cubana, à luz do que o “Ocidente” chama “democracia”.
Tentar exterminar pela sede, pela fome, com bombas ou sem bombas (já houve as duas versões) um povo inteiro, como faz Trump e fizeram todos os presidentes norte-americanos contra os cubanos, eis a democrática liberalidade aprovada pelos deputados portugueses.
Com exceção de três: Paula Santos, Alfredo Maia e Paulo Raimundo. Ou seja, o grupo parlamentar do Partido Comunista Português, pagando por isso o preço do isolamento, do insulto, da chacota, do ódio político tipicamente burguês que lhe é historicamente dedicado.
Dos neoliberais que herdam a tradição de governo económico do Chile após o golpe de Estado fascista da Junta Militar de Pinochet, não se espera que façam outra coisa que não a sua cumplicidade com o neofascismo, um dado histórico do chamado neoliberalismo, como ficou demonstrado em Santiago, a partir de setembro de 1973.

Do oportunismo mais ou menos seletivo da chamada extrema-direita (Chega), que está para o neofascismo como a cortina está para o palco antes de começar o teatro, idem. Mas aqui, o caso é mais de polícia que de política.
Dos PS, o com D e o sem D (ditos “socialistas” ou ditos “social-democratas”), também não vale a pena esperar muito mais. A decência, uma vez perdida, dificilmente se recupera e esta perdeu-se em 1914.
Dos deputados únicos, eleitos por causas mais ou menos sectoriais, sem uma política ou uma doutrina que os sustente, poderá dizer-se que votam “à zona”, consoante a negociação dos seus assuntos em cada momento (Partido dos Animais -PAN ou JPP, do arquipélago da Madeira).
Já os partidos que se reivindicam de esquerda, o Livre na sua vocação futura de apêndice do PS sem D (ou mesmo com D, quem sabe?) o mundo visto pela janela dos gabinetes políticos ou académicos tem um perfume burguês que não deixa sentir o que se sabe, nem saber o que se sente. O pesadelo, ali, é climatizado, como diria Henry Miller. E a vida sorri, sempre, conquanto a carreira de subir na vida corra bem ao alpinista.
O Bloco de Esquerda também apresentou uma moção. Essencialmente voltada contra o bloqueio a Cuba, lá tinha a menção aos “presos políticos” do regime cubano, acabando, por fim, a votar favoravelmente, por abstenção, o documento neofascista. E, aqui, o assunto fia mais fino. Qualquer cidadão português de esquerda não compreende como o Bloco – oriundo do maoísmo, trotskismo e das diferentes correntes ‘renovadoras comunistas'”, ou seja, gente que sabe História -, leva o oportunismo ao extremo da indecência. O que se está a praticar em Cuba, não agora mas desde há décadas, é o estrangulamento nomeadamente militar (o BE talvez lhe chamasse “terrorista” se fosse ao contrário) da revolução cubana, nem que para isso seja necessário chegar ao risco de extermínio do seu povo.
O Bloco, por mais eternamente adolescente que seja a sua condição de esquerda, não pode colocar no mesmo plano a situação de um conjunto de pessoas presas por oposição, muitas vezes armada, ao regime – como aconteceu em Portugal, quando gente pegou em armas nos anos 1980, como bem sabem os bloquistas -, e o sangramento do povo cubano pela mais sórdida forma de guerra, o cerco. O modelo da peste e da lepra, como lhe chamou Michel Foucault, que no Bloco há quem saiba de quem se trata.
Quando escreveu “naufrágio com espectador”, o filósofo alemão Hans Blumernberg sustentava que a grande, e porventura imoral, vantagem de ser espectador de um naufrágio consistia em não ser o náufrago. Mas, há naufrágios, como este, da decência, em que, pela sua atuação, os próprios espectadores se tornam náufragos de si mesmos. E cabe acrescentar que não tenho gosto algum nesta inevitável constatação.