O Porto é lindo, desde que os pobres não apareçam

(Luís Rocha, in Facebook, 15/10/2026, Revisão da Estátua)


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Podemos perfeitamente permitir que o Governo aprove leis da habitação que atirem milhares de pessoas para a rua.

Podemos até olhar para o lado enquanto os senhorios recuperam os velhos hábitos dos senhores feudais, pondo inquilinos na posição de servos da gleba, que trabalham só para pagar o privilégio de dormir com um tecto por cima da cabeça.

Aceitamos sem grande espanto uma sociedade onde ter casa própria começa a ser um capricho reservado a quem nasceu em berço de ouro e comia as papinhas em colher de prata.

O que não se pode tolerar, de maneira nenhuma, é que alguém monte uma tenda de campismo numa praça pública e estrague a fotografia aos turistas.

No Porto, a acampada pelo direito à habitação, instalada na Praça de D. João I, acabou esta madrugada com uma daquelas operações policiais que os organizadores denunciam como violenta e desproporcionada. O balanço do movimento aponta para trinta e sete feridos, dois dos quais em estado grave.

A PSP, por seu turno, diz que não tem informação sobre feridos. É um desencontro de dados magnífico. De um lado há pessoas a queixarem-se de terem levado porrada, do outro, uma instituição inteira que aparentemente não deu por nada. Talvez as nódoas negras ainda não tenham preenchido o formulário correcto no balcão digital do município. É uma hipótese.

Pedro Duarte, o presidente da Câmara do Porto, já tinha avisado que seria absolutamente implacável com quem voltasse a montar tendas na via pública. É extremamente reconfortante ver este aprumo estético num homem com passado na Microsoft, que olha para a miséria humana como um simples bug de sistema que se resolve limpando a memória RAM da praça.

A crise da habitação pode continuar a ferro e fogo, as rendas podem engolir salários inteiros, os jovens podem perfeitamente adiar o início da vida adulta até aos quarenta anos, mas uma tenda que rompa a geometria do espaço público ultrapassa todos os limites do civismo. Uma cidade moderna convive bem com pessoas sem casa. E convive ainda melhor com casas sem pessoas. Agora, pessoas sem casa a tornarem o problema visível a dois passos dos Aliados? Isso desvaloriza o metro quadrado e obriga o senhor engenheiro a olhar para coisas feias a caminho do gabinete.

Ninguém diz que Pedro Duarte tenha descido pessoalmente à praça de bastão na mão, até porque o linho dos seus fatos à medida não resistiria ao suor e à poeira de uma carga policial.

Não vale a pena inventar o que já é suficientemente grave sem ficções. Mas a responsabilidade política tem o péssimo hábito de não desaparecer atrás de um cordão policial. Quando um autarca adopta a postura de um xerife do faroeste e anuncia implacabilidade contra quem protesta por um tecto, convém perceber o tipo de entusiasmo que a sua linguagem costuma despertar em quem segura o cassetete.

A investigação terá agora de esclarecer quem decidiu a intervenção e se a força foi proporcional. Na dúvida, e conhecendo a burocracia, o mais provável é concluir-se que as costelas dos manifestantes é que embateram de forma ilegal e agressiva nos bastões regulamentares.

O psicólogo Leon Festinger chamou de dissonância cognitiva ao desconforto que sentimos quando aquilo que defendemos entra em conflito com aquilo que fazemos. Não sei se Pedro Duarte sofre desse incómodo. A avaliar pela sua brilhante carreira entre a assessoria e a política de aparelho, é possível que tenha desenvolvido uma imunidade particular à realidade, sobretudo quando esta teima em não obedecer às conveniências de quem manda.

No Porto, todos se podem manifestar livremente, desde que o façam em silêncio, em pensamento, sem ocupar espaço tridimensional e, de preferência, sem aparecer nas fotografias de promoção turística da cidade. A liberdade é uma coisa belíssima nos discursos de tomada de posse. Na praça, começa a precisar de uma licença camarária e de um parecer estético do executivo para se fazer notar.

A Constituição protege o direito de reunião e de manifestação. Esqueceu-se foi de salvaguardar que o cidadão só pode protestar quando o presidente da Câmara do Porto concorda com o assunto ou gosta da cor da lona do acampamento. Haverá regras para o espaço público, com certeza, mas uma irregularidade administrativa na colocação de umas estacas não transforma os manifestantes em alvos de carreira de tiro. Uma coisa é mandar os serviços municipais recolher tendas, outra coisa é despachar dezenas de pessoas para o hospital de Santo António. A diferença não é propriamente um pormenor de secretaria que se emende com tinta de corretor.

E imaginemos o escândalo se os manifestantes tivessem reagido. Se, em vez de tentarem proteger a cabeça, tivessem respondido à força com força. Teríamos os comentadores de fato e gravata na televisão a salivar por mão pesada, editoriais indignados sobre a ameaça ao Estado de Direito e Pedro Duarte a pedir um pelotão de fuzilamento, para recuperar a paz na Invicta. Os manifestantes seriam apresentados como perigosos radicais que não sabem respeitar a autoridade de quem foi eleito.

Quando a violência vem de baixo, é um atentado à democracia, quando vem de cima, há sempre um regulamento camarário qualquer à mão para justificar o serviço de limpeza.

E o que exigiam aquelas pessoas? Não pediam uma vivenda com piscina ou uma segunda residência na Foz. Protestavam apenas, porque trabalhar quarenta horas por semana já não chega para pagar um T1 com humidade em Campanhã. Parece um pedido razoável, mas talvez esteja desactualizado face ao novo urbanismo de luxo. A nova política social da cidade deve consistir em ensinar os mais pobres a desaparecerem discretamente, de preferência por via de combustão espontânea ou camuflagem urbana, para não perturbarem o trânsito dos circuitos turísticos.

A Câmara limpou as tendas. A crise ficou exatamente no mesmo sítio. Intacta. Os feridos também. E amanhã haverá quem atravesse a praça sem sequer sonhar com o que ali se passou na véspera, porque a cidade estará novamente lavada, varrida e pronta para o próximo festival de marketing territorial.

Se o problema da habitação ficou assim resolvido para a autarquia, Pedro Duarte já pode submeter a candidatura do Porto a Capital Europeia do Cimento Imaculado.

No lugar das tendas, o executivo camarário bem podia mandar instalar uns manequins de gesso com fatos à medida vindos da sua alfaiataria presidencial, daqueles que têm um aprumo impecável, não conspiram contra o metro quadrado e, acima de tudo, não sangram para cima do granito quando a polícia os arruma ao pontapé.

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas

https://www.rtp.pt/…/movimento-pela-habitacao-denuncia…

https://www.rtp.pt/…/nao-consegues-pagar-renda-traz…

https://rr.pt/…/porto-psp-intervem-em-protesto…/489246

https://observador.pt/…/psp-faz-intervencao-musculada…

https://www.dn.pt/…/confrontos-nos-protestos-pela…

https://pt.euronews.com/…/manifestantes-pelo-direito-a…

https://www.dnoticias.pt/…/509099-praca-d-joao-i-no…

O espectro da juventude assola a Europa

(Raquel Varela, in jornalmaio.org, 07/10/2026)


Primeiro foram os estudantes a manifestar-se como há muito se não via. A extrema-direita disse que eram os islâmicos a tomar a França. Depois vieram milhares de pais e avós para as ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais.


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Liguei à minha amiga Anne, delicada e elegante, chegada ao topo da carreira de professora numa escola secundária de Paris. Respondeu-me: “Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.” 

Tudo começou na semana passada, com bloqueios nos liceus contra os cortes na educação, por bons professores, não professores exaustos, e por mais tempo livre, não horários tão pesados. 

Nem programa digital, nem funis de acesso à universidade. 

Macron, o presidente que é banqueiro de profissão, mandou-lhes o corpo de intervenção e deteve seis mil. Enquanto prepara um orçamento com a maior despesa militar da história e cortes de 57 mil milhões de euros no ensino, nos salários, na saúde.

A extrema-direita propagou desinformação: que eram os islâmicos a tomar a França. 

A reação não foi, talvez, a esperada.

Milhares de pais e avós nas ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais. 

Desesperado, Macron decretou ensino online para dia 5, tentando parar o bloqueio de mil liceus. Mas eles resistiram. Mesmo com ensino online, mais de 600 liceus estiveram em luta. 

No dia seguinte, chegaram os sindicatos. 

Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.

Um sindicalista ferroviário, maquinista, declara-se (CNN) ao lado dos estudantes: “Não é só contra o colapso do sistema educativo público, mas contra o colapso geral dos serviços públicos (…) a perda de poder de compra, a exploração e o aumento do dinheiro para o sector militar e a polícia (…) agora, em cada fábrica, cada empresa, cada trabalhador pergunta se não é tempo de uma greve, uma frente única para lutarmos juntos, todos juntos.”

Os avós que fizeram o Maio de 68 aplaudiram da varanda, os professores, com os ferroviários, fizeram cordões a proteger os estudantes da polícia. Os sindicatos juntaram-se a apoiar. No dia 6, uma jornada histórica juntou lado a lado estudantes, professores e outros trabalhadores. 

Macron, que mandara a polícia, libertou uma verba histórica para as escolas. Aceitou acabar com as barreiras de acesso à universidade e até uma hora e meia de almoço, em vez de uma hora. Uma primeira vitória dos estudantes. As escolas não são fábricas! 

Ontem diziam-nos jovens manipulados pela extrema-direita nas redes sociais  — não que muitos assim não se sentissem —, sem relações reais, deprimidos. Hoje estes jovens vivem o que para sempre ficará como uma das maiores experiências de transformação e de crescimento das suas vidas. 

Largadas as vestes de meninos mal-educados a pedir coisas aos papás, passam a sujeitos da história. Perceberam que ninguém vai a lado nenhum sozinho. Lutam juntos, discutem cara a cara em plenário, reúnem-se e responsabilizam-se pelas suas ações.

Percebem, na forma da força brutal da polícia, o que é o Estado. Chegam, assim, à vida política. Para trás fica o show de manipulação televisiva, uma “modernidade” em que uma classe parasitária que acumula as maiores riquezas da história distribui mais e mais sacrifícios a todos os outros. 

A juventude mais jovem respondeu que “não queremos brioches, não queremos guerra, não queremos degradação”.

A França de 15 e 16 anos dá o mote. Começaram nos bairros mais pobres, chegaram à classe trabalhadora “média”, que os apoia em massa, tal como os sindicatos e os professores. 

Os crápulas que acumulam milhões, destroem os serviços públicos e querem levar a juventude para a guerra veem-se agora a braços com a resistência, que — tudo o indica — apenas começa. 

A extrema-direita, que tentou pôr todos contra todos, vê-se agora não a preparar uma eleição desenhada para tudo ficar na mesma, mas contra jovens e trabalhadores, a lutar, organizados, com jornais, partidos, associações. 

Dos estudantes em luta à greve geral, não vai, em França, mais do que o percurso de um boulevard. 

É isso que eles, Macron, Lecornu, Le Pen, sabem. É isso que eles, todos, temem.

Fonte aqui

Quando o Ocidente descobriu as mulheres iranianas (quase meio século depois)

(Luis Rocha, in Facebook, 13/01/2026)


Há tragédias históricas que se repetem como farsa, e depois há farsas que insistem em apresentar-se como pensamento sério. Uma delas é o coro recente de intelectuais de algibeira, esses comentadores rústicos que descobriram ontem os “direitos das mulheres iranianas”, como quem descobre um continente no Google Maps, mas esquecem convenientemente como e porquê essas mulheres vivem hoje sob uma ditadura teocrática.

Façamos então o percurso, com datas, factos e alguma memória histórica, aquela coisa incómoda que estraga as boas indignações primárias de rede social.

Em 1953, o Irão tinha um primeiro-ministro eleito, Mohammad Mossadegh. Nacionalizou o petróleo, afrontou os interesses britânicos e, por arrasto, americanos. E o resultado dessa ousadia foi um golpe de Estado organizado pela CIA e pelo MI6. Democracia derrubada, Mossadegh neutralizado e o Xá reinstalado como monarca absoluto. Tudo em nome da liberdade, claro. Da liberdade do petróleo, entenda-se.

Segue-se um quarto de século de ditadura pró-ocidental com repressão, polícia política (a SAVAK, treinada com carinho pelos aliados), tortura, censura e um processo de “modernização” imposto a partir de cima, desligado da sociedade real. O Ocidente aplaudia. E os intelectuais de feicebuque ainda não tinham nascido.

Neste ambiente, as forças políticas progressistas foram sistematicamente esmagadas. Presas, executadas, empurradas para a clandestinidade. Quem sobreviveu foi o clero xiita, protegido pela estrutura das mesquitas, pelas redes sociais tradicionais e por um discurso simples, anti-imperialismo, justiça social, dignidade nacional. Enquanto os tanques do Xá patrulhavam as ruas, os ayatollahs organizavam-se nas sombras.

Chegamos aos anos 70. O regime apodrece, a desigualdade cresce, a repressão sufoca. O Ocidente, com a subtileza habitual de um elefante numa loja de porcelanas, pressiona o Xá para “abrir um bocadinho o regime”. Medida que não foi nem carne nem peixe, enfraquecendo a ditadura sem criar alternativa. Quando o edifício caiu, caiu inteiro.

Em 1979 o Xá foge. Não há política progressista organizada, não há partidos fortes, não há sindicatos livres. Há mesquitas cheias, redes religiosas prontas e um líder carismático acabado de aterrar vindo de Paris. Khomeini. A revolução é capturada. A teocracia instala-se. E, poucos meses depois, começa a limpeza. Primeiro à esquerda, depois os liberais, depois as mulheres.

Sim, as mulheres. As mesmas que hoje são exibidas por comentadores que acordaram para a causa há cerca de 5 minutos. As mesmas cujos direitos foram sacrificados no altar da geopolítica ocidental e da destruição deliberada das forças progressistas iranianas. Mas isso não dá jeito explicar. Dá muito mais jeito fingir que o problema começou com um turbante, e não com um golpe de Estado patrocinado por Washington e Londres.

É aqui que entram os intelectuais da açorda, de dedo em riste e memória de passarinho. Falam da “barbárie islâmica” como se tivesse caído do céu. Indignam-se seletivamente, como quem escolhe causas num menu. Nunca uma palavra sobre Mossadegh. Nunca uma linha sobre a CIA. Nunca um suspiro pelas organizações de esquerda que poderiam ter sido aliadas naturais do feminismo e da emancipação social.

Defender os direitos das mulheres iranianas é justo e necessário. Fazê-lo sem contexto histórico, transformando a tragédia num exercício de moralismo colonial tardio, é apenas hipocrisia saloia. É como incendiar uma casa, impedir os bombeiros de entrar e décadas depois aparecer à porta para discutir a cor das cortinas.

A República Islâmica não nasceu de Alá. Nasceu da política externa ocidental e da eliminação sistemática de qualquer alternativa progressista. Ignorar isso não é inocente, é cumplicidade retrospetiva assassina.

Mas, claro, a pesquisa histórica dá trabalho. Muito mais cómodo é continuar a falar alto, dizer pouco e fazer pose como consciência do mundo com a boca cheia e a cabeça vazia.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://www.history.com/…/cia-assisted-coup-overthrows…

https://www.britannica.com/event/1953-coup-in-Iran

https://en.wikipedia.org/…/1953_Iranian_coup_d%27%C3%A9tat

https://www.noticiasprogressistas.com.br/legado-negatico…

https://www.dw.com/…/como-eua-e-ir%C3%A3-se…/a-73049135

https://www.dw.com/…/h%C3%A1-60-anos-golpe…/a-17023074,

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