Quando o Ocidente descobriu as mulheres iranianas (quase meio século depois)

(Luis Rocha, in Facebook, 13/01/2026)


Há tragédias históricas que se repetem como farsa, e depois há farsas que insistem em apresentar-se como pensamento sério. Uma delas é o coro recente de intelectuais de algibeira, esses comentadores rústicos que descobriram ontem os “direitos das mulheres iranianas”, como quem descobre um continente no Google Maps, mas esquecem convenientemente como e porquê essas mulheres vivem hoje sob uma ditadura teocrática.

Façamos então o percurso, com datas, factos e alguma memória histórica, aquela coisa incómoda que estraga as boas indignações primárias de rede social.

Em 1953, o Irão tinha um primeiro-ministro eleito, Mohammad Mossadegh. Nacionalizou o petróleo, afrontou os interesses britânicos e, por arrasto, americanos. E o resultado dessa ousadia foi um golpe de Estado organizado pela CIA e pelo MI6. Democracia derrubada, Mossadegh neutralizado e o Xá reinstalado como monarca absoluto. Tudo em nome da liberdade, claro. Da liberdade do petróleo, entenda-se.

Segue-se um quarto de século de ditadura pró-ocidental com repressão, polícia política (a SAVAK, treinada com carinho pelos aliados), tortura, censura e um processo de “modernização” imposto a partir de cima, desligado da sociedade real. O Ocidente aplaudia. E os intelectuais de feicebuque ainda não tinham nascido.

Neste ambiente, as forças políticas progressistas foram sistematicamente esmagadas. Presas, executadas, empurradas para a clandestinidade. Quem sobreviveu foi o clero xiita, protegido pela estrutura das mesquitas, pelas redes sociais tradicionais e por um discurso simples, anti-imperialismo, justiça social, dignidade nacional. Enquanto os tanques do Xá patrulhavam as ruas, os ayatollahs organizavam-se nas sombras.

Chegamos aos anos 70. O regime apodrece, a desigualdade cresce, a repressão sufoca. O Ocidente, com a subtileza habitual de um elefante numa loja de porcelanas, pressiona o Xá para “abrir um bocadinho o regime”. Medida que não foi nem carne nem peixe, enfraquecendo a ditadura sem criar alternativa. Quando o edifício caiu, caiu inteiro.

Em 1979 o Xá foge. Não há política progressista organizada, não há partidos fortes, não há sindicatos livres. Há mesquitas cheias, redes religiosas prontas e um líder carismático acabado de aterrar vindo de Paris. Khomeini. A revolução é capturada. A teocracia instala-se. E, poucos meses depois, começa a limpeza. Primeiro à esquerda, depois os liberais, depois as mulheres.

Sim, as mulheres. As mesmas que hoje são exibidas por comentadores que acordaram para a causa há cerca de 5 minutos. As mesmas cujos direitos foram sacrificados no altar da geopolítica ocidental e da destruição deliberada das forças progressistas iranianas. Mas isso não dá jeito explicar. Dá muito mais jeito fingir que o problema começou com um turbante, e não com um golpe de Estado patrocinado por Washington e Londres.

É aqui que entram os intelectuais da açorda, de dedo em riste e memória de passarinho. Falam da “barbárie islâmica” como se tivesse caído do céu. Indignam-se seletivamente, como quem escolhe causas num menu. Nunca uma palavra sobre Mossadegh. Nunca uma linha sobre a CIA. Nunca um suspiro pelas organizações de esquerda que poderiam ter sido aliadas naturais do feminismo e da emancipação social.

Defender os direitos das mulheres iranianas é justo e necessário. Fazê-lo sem contexto histórico, transformando a tragédia num exercício de moralismo colonial tardio, é apenas hipocrisia saloia. É como incendiar uma casa, impedir os bombeiros de entrar e décadas depois aparecer à porta para discutir a cor das cortinas.

A República Islâmica não nasceu de Alá. Nasceu da política externa ocidental e da eliminação sistemática de qualquer alternativa progressista. Ignorar isso não é inocente, é cumplicidade retrospetiva assassina.

Mas, claro, a pesquisa histórica dá trabalho. Muito mais cómodo é continuar a falar alto, dizer pouco e fazer pose como consciência do mundo com a boca cheia e a cabeça vazia.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://www.history.com/…/cia-assisted-coup-overthrows…

https://www.britannica.com/event/1953-coup-in-Iran

https://en.wikipedia.org/…/1953_Iranian_coup_d%27%C3%A9tat

https://www.noticiasprogressistas.com.br/legado-negatico…

https://www.dw.com/…/como-eua-e-ir%C3%A3-se…/a-73049135

https://www.dw.com/…/h%C3%A1-60-anos-golpe…/a-17023074,

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

As eleições do Benfica e a manifestação de trabalhadores em Lisboa

(Carlos Esperança, in Facebook, 09/11/2025)

Na imagem o desfile dos manifestantes captado por um jornal diário.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Ontem, com a Pátria suspensa nas eleições presidenciais (do Benfica), a ameaçar uma longa noite para contagem dos votos em Portugal e no Mundo, desliguei cedo a TV.

Compreendi que a SIC-N, RTP-3; CNN; CMTV e NOW, justamente preocupadas com o que estava em jogo, nem em rodapé distraíssem os telespetadores dos mapas interativos e dos sábios que explicavam aos portugueses a evolução dos resultados eleitorais.

Parece que nas duas voltas, a de ontem substituiu a anterior no Guiness, em número de votantes, um orgulho para Portugal e uma glória para o mundo, com a saborosa vitória de Portugal sobre a Espanha em número de eleitores que foram às urnas.

Sem querer fazer comparações vou referir-me a um assunto, secundário é certo, sem negar o mérito do regresso às boas tradições, a devoção a Fátima, o entusiasmo com o Futebol e o êxtase com o Fado ou pôr em causa Deus, Pátria e Família, a trilogia que regressa. Os leitores hão de perdoar-me a referência à manifestação com milhares de trabalhadores, promovida pela CGTP, a contestar em Lisboa alterações às leis laborais, que o Governo está a elaborar.

Não se duvida das boas intenções nem da argumentação convincente de que os trabalhadores não querem vínculos efetivos e se opõem a contratos experimentais que passem a definitivos ou a despedimentos que exijam justa causa.

Será, finalmente, a vitória do conceito de um grande ideólogo, Passos Coelho, que em 11-05-2012 o teorizou: «Despedir-se ou ser despedido não pode ser um estigma, tem de representar uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma escolha livre, uma mobilidade da própria sociedade» (sic).

Deixo ainda as sábias palavras de um ex-deputado, autarca e governador Civil do PSD, que espalhou pelo Facebook, em 20 de outubro p.p.: «As pessoas que pagam impostos e que precisam dos serviços, escolas, hospitais, centros de saúde, tribunais … são novamente prejudicadas e desprezadas pelos grevistas. Os 3 maiores partidos poderiam e deveriam dar as mãos para responder com firmeza a esta rapinagem dos sindicatos».

Perdoem-me, pois, a referência à manifestação que apanhei por acaso num intervalo das eleições presidenciais referidas.

Acordei hoje com a notícia sobre a vitória avassaladora do incumbente. Rui Costa continua, segundo ouvi, presidente de 8 milhões de portugueses.

A extrema-direita anda por aí e é bom que nos manifestemos contra ela

(Por oxisdaquestão in Blog oxisdaquestao, 27/10/2024, revisão da Estátua)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

A manifestação de milhares TAMBÉM foi contra o fascismo de Ventura, o nosso Bolsonaro de Xabregas. É o que o título não diz e sugere muito mal. A extrema-direita está infiltrada nas forças de segurança e é o chefe do Chega que o mostra quando proclama que os agentes devem disparar a matar, aliás como fazem nos EUA, o que garante milhares de assassinados por ano às mãos dos agentes “da ordem”.

Não basta usar o ódio racial contra as minorias para se afirmar e conquistar votos, os votos pidescos que a nossa sociedade ainda alberga; é um arruaceiro que se assume, tendo as costas quentes de organismos da segurança estrangeiros e muito dinheiro a correr em notas de dólares e sobras da fuga ao fisco de patrões nacionais e, talvez, espanhóis.

A televisão pública deu tempo de antena desmesurado a este energúmeno e ao seu capanga gordo; é o que a comunicação social vem fazendo, usando o seu sensacionalismo no negócio de bosta em que se transformou. Disputa-se a imbecilidade e falta de decoro do homem que é um político artificial e folclórico, mas perigoso, muito perigoso! É que o ódio NUNCA serve para boas realizações por ser primitivo, ignorante e violento. Não faltam golpes de estado nem guerras com origem em sentimentos e comportamentos de ódio.

Mais uma vez o jornal Público faz de detergente. A foto ao lado é de UMA manifestação, que esteve contra a morte de um homem inocente às mãos da polícia, ou seja da violência do Estado. Diz o título “implorou-se que se olhe para os bairros”. Também, talvez.

Mas a manifestação foi de repúdio pela ação da polícia e o assassinato de um cidadão. Contra o perigo da extrema-direita, em geral, e da que está presente nas forças de segurança; contra o partido que promove e beneficia de liberdade para atentar contra a paz e tranquilidade dos cidadãos nas suas palavras e actos.

Mas, então, se “os bairros” são fruto do regime capitalista na pobre colónia que somos, quem é que vai “olhar” para os “bairros” como algo que está mal e deve ser de OUTRA maneira? Há quantas décadas existem “os bairros”, servindo para abrigar trabalhadores pobres, desempregados e excluídos? Certo: há demasiado tempo. É Moedas-Montenegro que vão “olhar” para eles? Algum socialista, tipo Ana Gomes ou Assis, António José Seguro ou o moço atual?

Saudemos o facto de ter havido uma manifestação contra a violência e o ódio que querem instalar na nossa sociedade,  e de que Ventura – e o seu gordo ajudante -, são dois imbecis arautos e fomentadores.