As eleições do Benfica e a manifestação de trabalhadores em Lisboa

(Carlos Esperança, in Facebook, 09/11/2025)

Na imagem o desfile dos manifestantes captado por um jornal diário.

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Ontem, com a Pátria suspensa nas eleições presidenciais (do Benfica), a ameaçar uma longa noite para contagem dos votos em Portugal e no Mundo, desliguei cedo a TV.

Compreendi que a SIC-N, RTP-3; CNN; CMTV e NOW, justamente preocupadas com o que estava em jogo, nem em rodapé distraíssem os telespetadores dos mapas interativos e dos sábios que explicavam aos portugueses a evolução dos resultados eleitorais.

Parece que nas duas voltas, a de ontem substituiu a anterior no Guiness, em número de votantes, um orgulho para Portugal e uma glória para o mundo, com a saborosa vitória de Portugal sobre a Espanha em número de eleitores que foram às urnas.

Sem querer fazer comparações vou referir-me a um assunto, secundário é certo, sem negar o mérito do regresso às boas tradições, a devoção a Fátima, o entusiasmo com o Futebol e o êxtase com o Fado ou pôr em causa Deus, Pátria e Família, a trilogia que regressa. Os leitores hão de perdoar-me a referência à manifestação com milhares de trabalhadores, promovida pela CGTP, a contestar em Lisboa alterações às leis laborais, que o Governo está a elaborar.

Não se duvida das boas intenções nem da argumentação convincente de que os trabalhadores não querem vínculos efetivos e se opõem a contratos experimentais que passem a definitivos ou a despedimentos que exijam justa causa.

Será, finalmente, a vitória do conceito de um grande ideólogo, Passos Coelho, que em 11-05-2012 o teorizou: «Despedir-se ou ser despedido não pode ser um estigma, tem de representar uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma escolha livre, uma mobilidade da própria sociedade» (sic).

Deixo ainda as sábias palavras de um ex-deputado, autarca e governador Civil do PSD, que espalhou pelo Facebook, em 20 de outubro p.p.: «As pessoas que pagam impostos e que precisam dos serviços, escolas, hospitais, centros de saúde, tribunais … são novamente prejudicadas e desprezadas pelos grevistas. Os 3 maiores partidos poderiam e deveriam dar as mãos para responder com firmeza a esta rapinagem dos sindicatos».

Perdoem-me, pois, a referência à manifestação que apanhei por acaso num intervalo das eleições presidenciais referidas.

Acordei hoje com a notícia sobre a vitória avassaladora do incumbente. Rui Costa continua, segundo ouvi, presidente de 8 milhões de portugueses.

O Benfica não é uma nação, é uma lição

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 16/07/2021)

1 Muito a contragosto, acreditem, não me resta outra atitude que não a de dar os parabéns a essa grande instituição que é o Sport Lisboa e Benfica. O Benfica (peço licença para abreviar o nome da instituição) é, de ciência jornalística, a coisa mais importante que existe e acontece em terras lusas. Pode o Sporting ser campeão uma vez a cada 19 anos ou o Porto uma vez a cada dois, que o Benfica é sempre a notícia principal, em termos futebolísticos. Pode o Glorioso chegar ao fim de uma época sem ser campeão em modalidade alguma, nem sequer ao bilas, e nem por isso deixa de ocupar as manchetes de toda a imprensa desportiva. Se não há triunfos nem glórias para celebrar, há sempre o Jesus, o Rui Costa e o Vieira para ouvir, ou os fantásticos jogadores que vão chegar e o mais do que certo e indisputável sucesso na época que se vai seguir, como notícia. E se não há nada, mesmo nada de que falar na frente desportiva e apenas notícias vexatórias (que chegam por via da justiça e jamais da imprensa), então ainda mais o Benfica se torna objecto incontornável, obsessivo, omnipresente, de toda a imprensa, pois que — di-lo um exército de entendidos, em tom pesaroso — “está em causa o maior clube português, uma das mais prestigiadas instituições do país”.

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Branson, Bezos e Musk vão todos partir para o Espaço? O que é isso ao pé da situação de Vieira e do Benfica? A China ameaça explicitamente invadir Taiwan e os talibãs ameaçam reconquistar o Afeganistão num ápice? Isso não interessa nada, o Benfica é que é. As multinacionais vão finalmente ser taxadas? Oh, o que interessa isso ao povo? Por acaso, até estávamos na semana em que ia acontecer a final do Europeu, que ainda há pouco parava o país e fazia as mais altas instâncias da República andarem num virote por essa Europa fora? Mas isso o que interessa agora, comparado com a situação do Benfica, capaz de fazer esperar 20 minutos todos os jornais televisivos da noite para transmitir em directo o palpitante ‘discurso de Estado’ de Rui Costa, tomando posse como director interino do Benfica e abrindo caminho para horas a fio de comentários dos ‘espertos’ sobre os decisivos quatro minutos de discurso do presidente de todos os portugueses?

Durante 12 gloriosos dias (e continua…), Portugal e o mundo não existiram: existiu apenas o glorioso Sport Lisboa e Benfica. Ditosa pátria que tal possibilidade tens!

Mas, não desesperemos: a boa notícia é que, provavelmente, atingimos o ground zero. A partir daqui é de esperar que só se possa subir.

2 Mas, seja: rendo-me à instituição e à sua ditadura. Sobre o caso de Vieira e os outros, não me vou pronunciar quanto ao fundamento das suspeitas, tão amplamente divulgadas: deixo isso para os apressados justiceiros do costume, na imprensa e nas redes sociais. Mas destaco quatro coisas:

— Que esses não aprenderam nada nem gastaram uns minutos a reflectir sobre o iminente desfecho do caso Tancos e da inevitável absolvição do ex-ministro Azeredo Lopes, cuja sumária condenação logo subscreveram, assim que o Ministério Público avançou com as suas suspeitas, sem sustentação válida alguma.

A pressão populista inibe-os do dever de distinguir entre suspeitas, acusação, defesa, julgamento e caso julgado. Queimando etapas a mando do desejo das fogueiras populares, apoiando-se descaradamente nas violações do segredo de justiça e fazendo da presunção de inocência uma mera figura de retórica, eles são promotores determinantes dos linchamentos em praça pública;

— Que é estranho que o MP avance primeiro com aquilo que a turbamulta mais gosta — o habitual ror de crimes de catálogo — e deixe de fora as suspeitas denunciadas por Rui Pinto e não só, que remetem para os resultados desportivos do Benfica, e que há anos vegetam sem seguimento (“Mala Ciao” e outros que tais);

— Que constato, sem espanto, mas ainda assim enojado, a velocidade com que tantos que, anos a fio, incensaram Vieira, se lhe curvaram em salamaleques e venderam páginas de jornais à sua conta, logo tenham fugido a galope ou carregado contra ele assim que o viram em desgraça;

— E, finalmente, registo que alguém, um advogado — Manuel Magalhães e Silva —, fez o que há muito deveria ter sido feito por colegas seus, em circunstâncias semelhantes: romper com a estratégia que ele chamou de “comportamento padrão” do trio Rosário Teixeira/Paulo Silva/Carlos Alexandre. Ou seja, ver o seu cliente ser crucificado e previamente julgado e condenado na praça pública através de fugas de informação do processo supostamente em segredo de justiça, sem que, manietado pelo mesmo segredo de justiça que a outra parte não respeita, se pudesse defender. Falando do processo abertamente na TVI — e com razão ou sem ela, o que, para o caso, não importa —, Magalhães e Silva rompeu com a desigualdade gritante entre acusação e defesa. Repito: com razão ou sem ela quanto aos factos, o Estado de direito e o que ainda resta dos nossos direitos de cidadania contra os justiceiros instantâneos só pode agradecer-lhe.

3 Contou o Expresso da semana passada, e confirmaram depois outras fontes, que Marcelo está “céptico, crítico e mais distante” do Governo do que alguma vez esteve. Segundo os relatos, consta que o Presidente, depois de ouvir duas organizações empresariais, e destas ouvir o mesmo que os organismos internacionais já tinham dito — que vamos ser o país europeu a menos crescer este ano e o último a recuperar da crise —, estará finalmente a vacilar na firme sustentação que nos últimos cinco anos sempre deu, mais do que a esta fórmula de governo, a esta florentina cultura de sobrevivência governativa. Que estará finalmente a alimentar dúvidas de que a garantia da aprovação dos orçamentos a qualquer preço e ano após ano é mesmo sinónimo de estabilidade política. E se essa invocada e tão procurada estabilidade, a obsessão de “não somar crise à crise”, não será, afinal, o caminho para a estagnação e raiz profunda dos nossos males crónicos. Quando, por exemplo, a ministra da Agricultura se regozija por ter alcançado mais 4% de verbas da PAC para fazer aqui mais do mesmo — mais daquela política predadora e suicidária que aqui descrevi há semanas — e declara que está fora de causa uma “disrupção” da política agrícola, ela não simbolizará bem até onde vai a ambição e o horizonte deste Governo, naquilo que é determinante: deixar tudo na mesma, não mudar nada de essencial, aproveitar o dinheiro de Bruxelas enquanto vier e distribuí-lo pelos mesmos de sempre, afilhados e protegidos do Estado, e com os mesmos resultados de sempre.

A acrescentar a isto, “consta” igualmente que, depois de seis meses a chefiar a Europa e em contacto íntimo com os grandes da Europa, António Costa também terá sido acometido pela “síndrome de Lisboa”, que no passado tentou gente como Vitorino, Barroso, Guterres. Ou seja, o quintal luso, este conflituoso território que nem se governa nem se deixa governar, já lhe parece demasiado pequeno para os seus sonhos e talentos. Tudo isto não escapa, claro, ao perspicaz Marcelo. Nas suas longas noites de alerta, ele já antevê um país a marcar passo, os dinheiros europeus gastos a acalmar greves e a aprovar orçamentos à esquerda, António Costa a milhas, o PS entregue à turbamulta dos “verdadeiros socialistas”, o PSD balcanizado em tribos regionais de Gaia a Loulé, ele próprio apoiado apenas nessa segunda figura do Estado que é o triste Ferro Rodrigues e os portugueses incendiados e incendiando tudo nas “democráticas” redes sociais. É um pesadelo. Que, todavia, era de prever: nunca a paz podre regenerou ou, menos ainda, solucionou coisa alguma.

A situação, vista do balcão do Palácio de Belém, é de uma fina ironia e, na perspectiva de Marcelo, seguramente que de uma profunda injustiça também. Durante cinco anos, sem desfalecimentos nem estados de alma visíveis, ele caucionou e amparou a solução de poder e de governo de António Costa. Concedo que não tinha, nem constitucional nem politicamente, outra alternativa, mas tratava-se de uma questão de medida, de graduação desse apoio: de não confundir o curto prazo com o futuro, as sucessivas conjunturas que sempre serviram a Costa para manter tudo na mesma com a concordância na falta de uma perspectiva de mudança e crescimento. Também é verdade que a ausência de uma alternativa firme e credível ao governo de Costa não facilitou a tarefa a Marcelo, e não lhe cabia nem ele quis — e bem — ceder à tentação de antecessores seus de ser ele a alternativa (e esperemos que assim se mantenha). Todavia, se não lhe cabia vir em auxílio do PSD e de Rui Rio, de lhes ensinar como é que deviam ser oposição, já não me parece que, enquanto Presidente, tivesse de se manter em silêncio nas várias vezes em que Rio esboçou propostas de entendimento com o PS em questões essenciais para reformar o regime e foi desdenhosamente tratado por António Costa. Porque aí esteve em causa a saúde da democracia e o combate aos populismos, que o próprio Marcelo reconhece como um perigo crescente do regime. O Presidente não tem de assistir calado a que uma parte substancial do país político democrático seja distratado por quem ocasionalmente está no poder, que o aparelho de Estado seja preenchido paulatinamente pela gente do partido do Governo à custa de subterfúgios óbvios, que reformas essenciais sejam inviabilizadas porque o PS acarinha mais a maioria que o mantém no poder do que a maioria que pode reformar para melhor o país. E hoje é o PS, amanhã será o PSD. O que afasta as pessoas da política é exactamente isto. Não são elas que se afastam da política, é a política que as afasta de si. E os abraços de Marcelo não chegam para as reaproximar.

Agora a viver no Palácio de Belém — talvez para se sentir mais próximo do que interessa —, Marcelo deve estar a sentir o labirinto em que se deixou cair. E a ironia é que, quando António Costa voar daqui para fora, ele vai sentir-se mais sozinho do que alguma vez imaginou. Com saudades de Costa e do PS que ele domesticava, o PSD fora de jogo e o país pior do que o encontrou.

4 E agora, tréguas. A todos os meus amigos, boas férias; a todos os meus inimigos, longas férias.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Esta crónica será interrompida durante quatro semanas, regressando na edição de 20 de agosto


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O intocável de Portugal

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 01/01/2020)

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Não é o mais poderoso, não é o mais influente, mas é o mais intocável de Portugal: o presidente do Benfica. Não este, todos. Mas, de todos, este é o que mais poder centra e concentra. Um poder aquém e além-desporto, que faz a ação política, judicial e jornalística sentir-se condicionada. Às vezes pelo que esta faz, mais vezes pelo que não faz. É também por isso que o fim dos debates combates televisivos é um desafio em si mesmo. É apenas um dos necessários.

Em 13 anos de direções de jornais, conheci frentes diversas do exercício do poder, contra o qual os jornalistas estão por função e vocação. Há forças, insídias, orquestrações e eficácias em todos eles, da política aos bancos, das organizações semiclandestinas às empresas, mas nenhum deles se compara ao futebol na falta de regras, na agressividade, na comunicação ameaçadora, seja na cartilharia de alguns comentadores ou na artilharia de trolls nas redes sociais. E tudo isso (e mais) cria navalhas verbais e não-verbais contra quem quer que seja, semeando respeito pelo desrespeito e afastando pessoas, pelo desprezo ou pelo medo.

A decisão anunciada pela SIC e prenunciada pela TVI de acabar com debates com comentadores afetos aos clubes não é um saneamento, é uma medida pela nossa sanidade e de emancipação dos próprios meios de comunicação social à pressão de os clubes mandarem até no espaço em que se lhes faz contraditório. Aplaudo de pé.

O fim dos debates combates televisivos de futebol não é uma decisão sanitária mas de sanidade. Mas nem isso pára a ameaça de violência que afasta a sociedade

Se dou exemplos sobre mim é só para servir de testemunha: durante a investigação do Football Leaks juntei a mensagens anónimas participadas à polícia uma série de mentiras factuais ditas em sinal aberto na televisão sobre quem sou, fui, que amigos tenho e até a que casamentos fui. Mentiras ridículas, que nem merecem ser citadas senão para relatar que muitas outras há que são perigosas, pondo em causa a honra e até a vida de algumas pessoas. Não exagero nem invento.

O problema não é a paixão que cega, é o medo que faz fechar os olhos. Sobretudo quando esse medo impregna as instituições. De todos, os mais medrosos (ou calculistas) são os políticos. Lamento pôr todos no mesmo saco, é claro que não são todos iguais (viva Ana Gomes!), mas o silêncio concreto adornado de anúncio de medidas gerais é uma covardia que persiste. “À justiça o que é da justiça” e etc. Ou os casos de violência. Ou o silêncio chocante em casos como o de Marega, vítima de racismo horripilante em Guimarães, que acabou por dar mais ou menos em nada.

Sou benfiquista, estou com azia por termos perdido um campeonato que podíamos ter ganho: serve compensação ao campeonato de 2015/16, que ganhámos ao Sporting sem merecer nem (espero eu) pagar aos deuses para expiar pecados. Ser benfiquista só me torna mais exigente com o meu clube do que com outros.

É por isso que este não é um texto sobre futebol, mas sobre a sociedade em que vivemos, a justiça que queremos e a liberdade que precisamos de defender.

Luís Filipe Vieira tirou o Benfica do lodo desportivo e financeiro, ao lado de Domingos Soares de Oliveira. O clube não tem hoje rival na estratégia de formação nem nas contas da SAD. Mas o seu poder cresceu de mais e chegou a um ponto em que parecia intocável. Perdeu o apoio de Ricardo Salgado e de Morais Pires, porque o BES colapsou deixando créditos por cobrar como os dele. Hoje, também a banca se livrou do futebol, que já não financia. Mas a forma como muitos políticos e alguns jornais se lhe vergam demonstra poder a mais, o que na verdade responsabiliza quem se verga. Na Justiça, não me lembro de um presidente envolvido em tantos casos, mesmo que espante ver o clube amnistiado do caso Paulo Gonçalves e me enfureça ver Rui Pinto enjaulado como um ladrão de vidas. Não quero justiça, quero a Justiça, a que condena ou absolve sem medo nem favor. E observo como, apesar de tudo, a Justiça é hoje mais forte do que no tempo dos apitos dourados, arquivados na indecência dos anos.

Também não percebo como se gastam €20 milhões a contratar um treinador. Mas reconheço a manobra de contratar Jesus para mudar de assunto sobre a derrota no campeonato e alumiar as almas dos benfiquista para as próximas eleições. Afinal, é preciso ganhar. Um presidente do Benfica, supõe-se, é intocável.