O intocável de Portugal

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 01/01/2020)

Não é o mais poderoso, não é o mais influente, mas é o mais intocável de Portugal: o presidente do Benfica. Não este, todos. Mas, de todos, este é o que mais poder centra e concentra. Um poder aquém e além-desporto, que faz a ação política, judicial e jornalística sentir-se condicionada. Às vezes pelo que esta faz, mais vezes pelo que não faz. É também por isso que o fim dos debates combates televisivos é um desafio em si mesmo. É apenas um dos necessários.

Em 13 anos de direções de jornais, conheci frentes diversas do exercício do poder, contra o qual os jornalistas estão por função e vocação. Há forças, insídias, orquestrações e eficácias em todos eles, da política aos bancos, das organizações semiclandestinas às empresas, mas nenhum deles se compara ao futebol na falta de regras, na agressividade, na comunicação ameaçadora, seja na cartilharia de alguns comentadores ou na artilharia de trolls nas redes sociais. E tudo isso (e mais) cria navalhas verbais e não-verbais contra quem quer que seja, semeando respeito pelo desrespeito e afastando pessoas, pelo desprezo ou pelo medo.

A decisão anunciada pela SIC e prenunciada pela TVI de acabar com debates com comentadores afetos aos clubes não é um saneamento, é uma medida pela nossa sanidade e de emancipação dos próprios meios de comunicação social à pressão de os clubes mandarem até no espaço em que se lhes faz contraditório. Aplaudo de pé.

O fim dos debates combates televisivos de futebol não é uma decisão sanitária mas de sanidade. Mas nem isso pára a ameaça de violência que afasta a sociedade

Se dou exemplos sobre mim é só para servir de testemunha: durante a investigação do Football Leaks juntei a mensagens anónimas participadas à polícia uma série de mentiras factuais ditas em sinal aberto na televisão sobre quem sou, fui, que amigos tenho e até a que casamentos fui. Mentiras ridículas, que nem merecem ser citadas senão para relatar que muitas outras há que são perigosas, pondo em causa a honra e até a vida de algumas pessoas. Não exagero nem invento.

O problema não é a paixão que cega, é o medo que faz fechar os olhos. Sobretudo quando esse medo impregna as instituições. De todos, os mais medrosos (ou calculistas) são os políticos. Lamento pôr todos no mesmo saco, é claro que não são todos iguais (viva Ana Gomes!), mas o silêncio concreto adornado de anúncio de medidas gerais é uma covardia que persiste. “À justiça o que é da justiça” e etc. Ou os casos de violência. Ou o silêncio chocante em casos como o de Marega, vítima de racismo horripilante em Guimarães, que acabou por dar mais ou menos em nada.

Sou benfiquista, estou com azia por termos perdido um campeonato que podíamos ter ganho: serve compensação ao campeonato de 2015/16, que ganhámos ao Sporting sem merecer nem (espero eu) pagar aos deuses para expiar pecados. Ser benfiquista só me torna mais exigente com o meu clube do que com outros.

É por isso que este não é um texto sobre futebol, mas sobre a sociedade em que vivemos, a justiça que queremos e a liberdade que precisamos de defender.

Luís Filipe Vieira tirou o Benfica do lodo desportivo e financeiro, ao lado de Domingos Soares de Oliveira. O clube não tem hoje rival na estratégia de formação nem nas contas da SAD. Mas o seu poder cresceu de mais e chegou a um ponto em que parecia intocável. Perdeu o apoio de Ricardo Salgado e de Morais Pires, porque o BES colapsou deixando créditos por cobrar como os dele. Hoje, também a banca se livrou do futebol, que já não financia. Mas a forma como muitos políticos e alguns jornais se lhe vergam demonstra poder a mais, o que na verdade responsabiliza quem se verga. Na Justiça, não me lembro de um presidente envolvido em tantos casos, mesmo que espante ver o clube amnistiado do caso Paulo Gonçalves e me enfureça ver Rui Pinto enjaulado como um ladrão de vidas. Não quero justiça, quero a Justiça, a que condena ou absolve sem medo nem favor. E observo como, apesar de tudo, a Justiça é hoje mais forte do que no tempo dos apitos dourados, arquivados na indecência dos anos.

Também não percebo como se gastam €20 milhões a contratar um treinador. Mas reconheço a manobra de contratar Jesus para mudar de assunto sobre a derrota no campeonato e alumiar as almas dos benfiquista para as próximas eleições. Afinal, é preciso ganhar. Um presidente do Benfica, supõe-se, é intocável.


O elogio de Lage

(Martim Silva, in Expresso Diário, 20/05/2019)

Bruno Lage

(Ganhou no relvado, não sei se justa ou injustamente. Deixo tal debate para a miríade de especialistas que abundam no espaço público e que dão preleções detalhadas sobre as tácticas e as minudências técnicas do jogo.

Mas com justiça ganhou na palavra para os adeptos e no fair-play para com os adversários na hora da vitória.

Comentário da Estátua, 21/05/2019)


Depois de conquistar o título de campeão nacional de futebol, com uma inédita recuperação de um clube que a meio do campeonato levava sete pontos de atraso para o então líder, não é difícil encontrar adjetivos para realçar o trabalho de Bruno Lage, até ao início do ano um ilustre desconhecido, à frente do Benfica.

O jovem treinador mudou o esquema tático, mudou alguns dos principais jogadores da equipa, não hesitou em promover e dar destaque a jovens promessas ainda virgens na primeira equipa e, sobretudo, conseguiu imprimir uma alegria de jogo e uma capacidade ofensiva que Rui Vitória já não lograva.

Isto é a parte do futebol.

Mas o elogio a Lage deve ir muito além do futebol ou das quatro linhas. Num futebol feito de casos e questiúnculas, de polémicas e ataques, de ameaças e crispação, as suas palavras no sábado à noite merecem ser muitas vezes sublinhadas.

Claro que o exemplo dado demora a dar frutos e a criar raízes. O treinador do Benfica bem pediu aos adeptos que deixassem o Marquês de Pombal como o encontraram, mas as suas palavras – “Malta, é só para avisar que ninguém vai para casa sem deixar a praça limpa” – caíram em saco roto e no dia seguinte os serviços de higiene urbana da Câmara de Lisboa tiveram de fazer horas extraordinárias.

Da mesma forma que o ódio gera ódio e o ressentimento fomenta o ressentimento, também o respeito pelo outro e o civismo acabam por dar frutos

Mas o que importa é o exemplo dado. É deixar lá a semente plantada. Da mesma forma que o ódio gera ódio e o ressentimento fomenta o ressentimento, também o respeito pelo outro e o civismo acabam por dar frutos quando praticados e apregoados de forma reiterada.

Disse Bruno Lage na hora da vitória: “Tem de partir de nós, do nosso exemplo, começar a olhar para os nossos adversários e, quando eles ganharem, também lhes dar mérito. Só assim é que também eles vão começar a dar-nos mérito.” Mais: “O futebol é apenas o futebol e há coisas mais importantes na nossa sociedade e no nosso país pelas quais temos que lutar”.

Rapidamente as palavras do treinador foram elogiadas pelo próprio Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República.

Se cada jogador, treinador ou dirigente seguir o mesmo caminho, seguramente que o futebol português, que é um espetáculo incrível, move multidões e é um negócio que movimenta muitos milhões, ficará muito melhor.

O ano termina cheio de polémicas à volta das arbitragens. Mas alguém se lembra como era o nosso campeonato antes da existência do videoárbitro? O VAR tem imensas falhas, mas um futebol assético e imune a falhas é algo que nunca teremos. E a ajuda dos meios eletrónicos diminuiu o número de erros existentes. Ponto final.

Bem se pode dizer que é fácil ser magnânimo na hora da vitória. Cá estaremos para ver o que acontece em dias menos felizes. Mas não é difícil reconhecer que nestes meses Lage teve quase sempre um discurso muito sereno e positivo. Ou seja, as palavras de sábado não são propriamente uma surpresa.

Para o futuro, o que fica é isto: mil vezes ter treinadores com um discurso positivo e carregado de civismo e exemplos pedagógicos do que aqueles que preferem a arruaça e o insulto e uma crispação permanente que só nos puxa mais para baixo.

O Benfica tem um Lage. Os outros clubes precisam de muitos Lages também. Os clubes e não só…

INQUIETANTE SISTEMA (REVELAÇÕES DA ACUSAÇÃO CONHECIDA COMO CASO BENFICA)

(Virgínia da Silva Veiga, 08/09/2018)

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Contas por alto, a acusação que envolve o Benfica tem tudo de grave menos o futebol. Em breve leitura, é possível verificar que, em Portugal, no espaço de um ano, um funcionário judicial pôde aceder ao computador de uma Procuradora, segundo os registos ali constantes, mais de 450 vezes. Não é uma, não foram duas, foram quase cinco centenas de vezes, sobre diferentes processos a que somou pesquisas em processos administrativos e de trabalho, ao sistema da Segurança Social e aos DIAPs de Lisboa e do Porto. E a notícia é o futebol.

É verdadeiramente inquietante ler a acusação, que se tornou notícia futebolística, quando encerra factos reveladores de um sistema de espionagem em Portugal, a envolver vários funcionários e uma Procuradora, Ana Paula Vitorino. Diz-se ali que a respectiva palavra passe serviu de acesso a centenas de consultas de variadíssimos processos.

O acaso assume gravidade gritante ao saber-se que a mesma Procuradora é a assessora directa da Procuradora Distrital de Lisboa, Maria José Morgado.

Em Março último, a revista Sábado – como, estamos para saber, como sempre – teve conhecimento da utilização dos dados pessoais, secretos e transmissíveis através dos quais diversos processos foram consultados, os mais a partir de Guimarães e de Fafe.

Nessa altura, a PGR emitiu um comunicado que hoje se revela verdadeiramente assustador. Afirmava, então: “tal utilização efectuou-se sem o conhecimento ou consentimento da titular das credenciais, a qual, sendo completamente alheia ao sucedido não é, nem nunca foi, suspeita ou visada na investigação em curso”.

Como é possível?! Se alguém aceder ao computador de um funcionário para cometer um crime – ao computador de qualquer um de nós – o detentor do mesmo tem que ficar objectivamente sobre suspeita e ser investigado até a seu próprio pedido. No mínimo, há uma quebra de zelo. Alguém tem que explicar como teve o agora famigerado José Pinto acesso a dados de absoluta intimidade.

A Procuradora em causa, não se duvidando da inocência – até por servir a quem servia – , tem que justificar ao país, ela e a Procuradora Joana Marques Vidal, como tal pode acontecer, tem que, evidentemente deixar de exercer as funções de assessoria até se encontrar tudo devidamente esclarecido. É mais que caso de polícia, é um caso de espionagem mais grave ainda por se tratar de assessora da pessoa que todos respeitamos.

A referida acusação afirma que o arguido principal se serviu das palavras-passe de outros funcionários. Todos, procuradora e funcionários, foram relegados ao papel de testemunhas sem que se saiba ou explique quem são, no sentido de quais as ligações que têm ou tiveram com o arguido, e como foi possível estarem envolvidos num processo de espionagem que envolveu, não apenas o futebol, mas espionagem ao Ministro das Finanças e ao caso Galp.

Aliás, a acusação revela candidamente que – e cito – José Silva consultou, igualmente com os dados da referida Procuradora, vários processos da 9ª secção do DIAP de Lisboa “alguns sem relação com o futebol”. Refere de seguida sete processos onde não esclarece quem eram as partes envolvidas, os Inquéritos 183/17.4JGLSB, 5310/17.5T9LSB, 5354/17.79LSB, 770/16.4JDLSB, 7566/17.4T9LSB, 7957/17.OT9LSB, 7590/17.T9LSB, 6784/15.4JFLSB, que talvez alguém saiba identificar ou seja parte neles.

O mesmo arguido vem acusado de deter em sua casa 8 computadores, uma impressora, 2 monitores e um teclado todos pertencentes ao Ministério da Justiça. Como é que isto foi possível?

A espionagem que – sublinho – envolve a assessora da Procuradora Distrital de Lisboa, vários funcionários judiciais e o acesso a processos civis, criminais, de trabalho e administrativos, não está a ser alvo de qualquer investigação, não mereceu uma palavra do PR, da Ministra da Justiça e, como dito, de Joana Marques Vidal, a qual, como supra referido, apenas emitiu um comunicado sobre o assunto exactamente para anunciar … nada estar a ser investigado, cingindo o caso a futebol e elevando Proença à honra de ter conseguido ser acusado por violação do Segredo de Justiça em Portugal.