A Irlanda conhece as dores do medo

(João Gomes, in Facebook, 19/05/2026)


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A Irlanda olha para Gaza com uma memória que muitos preferem esquecer. Não se trata apenas de solidariedade ideológica, nem de um impulso romântico de apoio aos mais fracos. Trata-se de reconhecimento histórico. Os irlandeses sabem o que significa viver décadas sob pressão política, militar e psicológica de uma potência muito mais forte. Sabem o que é crescer entre muros invisíveis de medo, repressão, vigilância e humilhação. Sabem o que significa ver a própria identidade transformada num problema geopolítico.

Durante grande parte da sua história moderna, a Irlanda viveu sob o peso do domínio britânico. E mesmo depois da independência, a ferida permaneceu aberta na Irlanda do Norte: bairros militarizados, detenções sem julgamento, violência sectária, operações militares, atentados, medo constante. Londres justificava muitas dessas medidas em nome da segurança e do combate ao terrorismo. A população irlandesa, sobretudo a católica no Norte, ouvia repetidamente que as restrições às suas liberdades eram necessárias para garantir estabilidade.

É precisamente por conhecer esse discurso que muitos irlandeses olham hoje para os palestinianos com inquietação moral. Reconhecem padrões familiares: ocupação prolongada, controlo de território, postos de controlo, punições colectivas, deslocamentos forçados, linguagem securitária usada para justificar sofrimento humano contínuo. Não significa ignorar os ataques terroristas do Hamas nem negar o direito de Israel à segurança. Significa apenas compreender que o medo não pode servir eternamente como licença para a desumanização.

Talvez por isso a Irlanda tenha assumido, nos últimos anos, uma posição mais incómoda dentro da Europa. Uma posição que muitos governos europeus evitam adoptar por cálculo político, interesses estratégicos ou receio diplomático. Dublin tem insistido na necessidade de respeitar o direito internacional, condenando excessos militares e defendendo o reconhecimento efectivo dos direitos palestinianos. E isso irrita sectores que preferem uma Europa silenciosa ou cuidadosamente ambígua.

O problema é que a Europa fala constantemente de “ordem internacional baseada em regras”, mas parece aplicar essas regras de forma selectiva. Quando se trata de Israel, as grandes potências europeias recuam, hesitam ou escondem-se atrás de fórmulas diplomáticas vazias.

A Alemanha, marcada pelo peso histórico do Holocausto, transformou muitas vezes o apoio ao Estado israelita numa espécie de dogma político quase intocável. Mas a memória do horror nazi não deveria impedir a crítica legítima a decisões políticas e militares contemporâneas. Pelo contrário: deveria tornar a defesa do direito internacional ainda mais intransigente.

O Reino Unido continua preso à sua relação estratégica com Washington e à lógica tradicional da sua política externa no Médio Oriente. Há uma ironia nisto tudo: o país que durante décadas combateu violentamente movimentos irlandeses em nome da segurança mostra hoje enorme complacência perante políticas que muitos observadores internacionais consideram incompatíveis com os princípios humanitários que o próprio Ocidente diz defender.

E a França, apesar da retórica humanista, oscila entre declarações de preocupação e prudência diplomática, evitando quase sempre medidas políticas concretas que possam exercer verdadeira pressão sobre Israel.

No fundo, a Europa exige ao mundo respeito pelas resoluções internacionais, mas revela uma estranha timidez quando chega o momento de exigir que Israel cumpra decisões das Nações Unidas, respeite os limites impostos pelo direito humanitário ou aceite mecanismos internacionais de responsabilização. Condena violações noutros continentes com firmeza moral, mas torna-se cautelosa quando o custo político aumenta.

Essa duplicidade destrói credibilidade. E destrói também a ideia de que os direitos humanos são universais.

A Irlanda, precisamente porque conhece as dores do medo, compreende algo essencial: nenhuma segurança construída sobre humilhação permanente produzirá paz duradoura. Povos que vivem sem horizonte político acabam por transmitir o desespero de geração em geração. Foi assim na Irlanda durante décadas. E é isso que muitos receiam hoje na Palestina.

Talvez seja por isso que a voz irlandesa incomoda tanto. Porque recorda à Europa aquilo que ela própria prefere esquecer: que a paz não nasce apenas da força militar, mas da coragem política para aplicar os mesmos princípios a todos – aliados incluídos.

2 pensamentos sobre “A Irlanda conhece as dores do medo

  1. A Irlanda foi violada nas gentes e na terra.
    Os ingleses destruíram quase todo o coberto vegetal da Irlanda. As árvores foram derrubadas em nome da segurança. Para que eventuais guerrilheiros não se pudessem esconder.
    Não e muito diferente do que fazem colonos e soldados israelitas quando destroem oliveiras em terras palestinianas.
    Embora no caso israelita não se invoque segurança quando se abate árvores.
    Foram as gigantescas árvores centenárias da Irlanda que alimentaram os alvores da Revolucao Industrial, antes da utilização generalizada do carvão, muito dele trazido de minas do Norte de Inglaterra e da Escócia, onde laborava uma mão de obra em regime de escravatura não declarada.
    Nos alvores do Século XIX os mineiros não podiam abandonar livremente as minas e eram sujeitos a fortes penalidades se o tentassem fazer.
    Era a única maneira de impedir que as famílias de mineiros, sujeitos a uma exploração impiedosa, abandonassem o trabalho e procurassem outros meios de vida.
    Isto enquanto hipocritamente os ingleses combatiam o tráfico negreiro de potências que podiam ser seus rivais comerciais como Portugal e Espanha.
    E enquanto combatiam o tráfico negreiro, pirateando navios e enforcando as tripulações nos mastros sem julgamento nem porra nenhuma, condenavam a Irlanda a fome e a destruição.
    Pouco a pouco grandes proprietários ingleses foram abocanhando grandes propriedades vedadas e votadas a criação de gado bovino.
    Os camponeses irlandeses foram confinados em espaços cada vez mais pequenos, onde pagavam pesadas rendas, onde a única solução para a sobrevivência era a monocultura da batata, uma planta pouco exigente e de alta produtividade em pouco espaço.
    Quando uma praga afectou as batatas, foi o caos.
    Aquilo a que os irlandeses ainda hoje chamam The Great Famine foi a mais brutal campanha de extermínio que se viveu na Europa do Século XIX.
    A praga da batata foi deliberadamente utilizada para destruir “Papistas”.
    Uma população católica tão desprezada como hoje sao os palestinianos muçulmanos e cristãos.
    Numa população estimada em oito milhões de habitantes, cerca de dois milhões morreram de fome e outros dois milhões emigraram.
    Os Estados Unidos precisavam de mao de obra e não havia lá nenhum Trump. Foi a sorte de muitos.
    Não e de hoje que os direitos humanos são utilizados como arma politica contra inimigos políticos ou ideologicos ou territórios que o Ocidente quer pilhar. E a Irlanda sabe disso como ninguém.
    Porque enquanto os irlandeses morriam a fome sem que Inglaterra movesse uma palha, e quando o fazia era enfiando os desgraçados nas infames casas de trabalho onde muitos milhares morreram de exaustão, fome e frio, a marinha inglesa andava a piratear navios em nome do combate ao tráfico negreiro.
    Que era uma barbaridade mas a verdade e que Inglaterra se estava nas tintas para os negros escravizados ou submetidos a contratos de trabalho abusivos e tudo isso era cálculo para conseguir vantagens comerciais e ate no limite abocanhar territórios.
    E e por essa memória que os responsáveis políticos irlandeses sabem que a nossa defesa de Israel não tem nada a ver com memória histórica mas com a procura de controle de recursos do Médio Oriente.
    E muitos não querem participar nessa fraude.
    Sabem que os defensores de Israel, tal como os ingleses que combatiam a escravatura nos mares do Atlântico o fazem por hipocrisia e controle de recursos.
    Não há aqui memória histórica nem faria sentido que a houvesse.
    A troco de que se permite a violação de um povo, os ataques aos vizinhos de Israel, o abocanhar de territórios, expulsões, extermínio, tortura generalizada, sodomia, em nome das fogueiras da Inquisição ou das câmaras de gás?
    Tenham vergonha no focinho.

  2. A Irlanda foi vítima de genocídio por parte da Inglaterra no século XIX. Centenas de milhares de famílias completas: avós, pais, filhos e netos morriam de fome e frio nas estradas da Irlanda, vítimas duma exploração cruel. Aconcelho um pequeno livro de Eça de Queiroz: Cartas de Inglaterra.

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