O Opus Dei

(Carlos Esperança, 26/03/2021)

1 – O Opus Dei e São Josemaria

Em 26 de junho de 1975 faleceu monsenhor Josemaria Escrivá, indefetível apoiante do genocida Francisco Franco e fundador do Opus Dei, apoiante dos negócios políticos de João Paulo II, que levaram à falência fraudulenta do banco Ambrosiano e à criação de centenas de santos em Espanha, todos mártires do mesmo lado da guerra civil.

Levou a vida ao serviço de Deus e do fascismo, seguiu as tropas sediciosas a Madrid, e os seus devotos, a quem indicou o caminho, levaram à falência os impérios Matesa e Rumasa, para maior glória da prelatura e benefício dos desígnios do Monsenhor.

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Mal refeito da defunção, obrou 3 milagres, mais 1 do que necessário para a santidade. O primeiro foi no ramo da oncologia, a uma freira, prima de um ministro de Franco, que logo morreu curada. Está nos altares e deixou um exército de prosélitos, apto a enfrentar o islamismo e a subsidiar o Vaticano, onde, depois de dois pontífices amigos, o Espírito Santo iluminou mal os cardeais do consistório e lhes negou o terceiro.

Fundador de uma das mais reacionárias seitas católicas, usava o cilício como prova de amor ao deus que defendeu o generalíssimo, a monarquia, o catolicismo e o garrote, em Espanha.

O 25 de Abril, em Portugal, não o abalou na fé, debilitou-o na saúde. As eleições livres de 1975 só o deixaram respirar mais dois meses. Também Franco, ditador até ao último sacramento, finar-se-ia escassos 5 meses após o santo, bem confessado, melhor comungado e excelentemente ungido e cerimoniado, com o povo de rastos, a cumprir de joelhos as suas últimas vontades quanto ao regime de Espanha e ao destino do cadáver.

2 – A santidade do Opus Dei

“O Opus Dei é uma instituição que busca a perfeição espiritual dos seus membros e a satisfação da vontade divina.”

Acontece, às vezes, que a vocação para a política e para o sector financeiro extravase a necessidade de salvação da alma e comprometa a imagem dos seus membros.

Os jejuns, as orações e os cilícios não ocupam todo o tempo destinado à santidade. Foi o que permitiu ao virtuoso Escrivá apoiar o franquismo sem se esquecer, certamente, de rezar por mais de 900 mil espanhóis assassinados ou deportados pela ditadura.

O virtuoso monsenhor, que já em vida revelou odor a santidade, sentido por pituitárias pias, foi rapidamente canonizado por João Paulo II.

Claro que o Opus Dei teve percalços. Os casos Rumasa e Matesa são nódoas que caíram no pano impoluto da Obra, falências dolosas que os inimigos de Deus aproveitaram para denegrir a santa prelatura. Mais tarde a falência fraudulenta do Banco Ambrosiano salpicaria o Opus Dei e as autoridades italianas quiseram julgar o arcebispo Marcinkus, valendo-lhe a bondade de João Paulo II que não consentiu a extradição e impediu a investigação dos crimes.

Era o que faltava, enxovalhar nos tribunais a Obra que subsidiou o Solidariedade e que a única coisa que não consegue do Céu é que lhe mande dinheiro.

O Supremo Tribunal Suíço, localizado em Lausanne, caracterizou, numa sentença, o Opus Dei como «associação secreta» que atua «ocultamente» com um máximo de opacidade nos seus assuntos. (1).

Coisas de juízes terrenos, que ignoram a transparência do Opus Dei em relação a Deus.


(1) O Mundo Secreto do Opus Dei – Robert Hutchison (pg. 450), 29-07-2007

Apostila – Deve dizer «o» Opus Dei e não «a» Opus Dei. Opus é do género neutro em latim o que dá masculino em português, mas está vulgarizado o feminino, referido à Obra pia, associação pouco recomendável.

Para que preciso de um rei

(Arturo Pérez-Reverte, In Diário de Notícias, 22/08/2020)

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Faz tempo que acabou o tabu, e com razão. O rei Juan Carlos I, que comandou a Transição e frustrou o golpe de Estado que pretendia liquidá-la, a quem devemos um reconhecimento político indubitável, tinha vindo a submergir-se num lamaçal de igual dimensão de impunidade e pouca-vergonha, de conluios ocultos e braguilha aberta, até ao ponto de acabar por se transformar na principal ameaça contra o seu próprio legado. Para aqueles que pretendem liquidar a monarquia, a personagem estava a facilitar-lhes a vida, pois os sonhos húmidos de muitos protagonistas da atual política acarinham a imagem de um monarca que compareça, não perante um juiz, mas sim perante um Parlamento, com eles na tribuna e a apontarem o dedo. Fazendo de acusadores públicos à maneira de Fouquier-Tinville, com uma guilhotina simbólica em pano de fundo, enquanto os seus papás e familiares os veem em direto pela televisão e comentam: “Vejam até onde chegou o meu Manolín, ou a minha Conchita, que fazem corar um rei.”

Para ser sincero, duvido que a jovem Leonor chegue a reinar algum dia. Fica feio dizê-lo, mas é o que penso. Imagino que terei deixado de fumar nessa altura, portanto também não me afeta grande coisa. Mas o presente, sim, afeta-me. Vivo em Espanha e espero continuar a fazê-lo mais uns anos; por isso preciso que este seja um lugar habitável. Não digo perfeito, mas habitável. Mas quando ouço a rádio ou ligo a televisão e escuto a chusma infame que a partir do governo ou da oposição maneja os cordelinhos da minha vida, não gosto do que existe, nem do que aí vem. Há muitas coisas que ignoro, mas durante um terço da minha vida vivi em lugares perigosos e gabo-me de reconhecer um filho da puta quando o vejo.

Quando me perguntam se sou monárquico ou republicano costumo responder que o que a mim me excita é uma república romana com os seus Cincinatos, Cipiões e Gracos, que tinha um nível; ou, na falta dela, uma república como a francesa, resultado da que em 1789 mudou o mundo, tornou iguais os cidadãos, aboliu privilégios corporativos, provinciais e de classe, e tornou possível que a bandeira francesa ondule hoje em todas as escolas e que, depois de um atentado terrorista, nos estádios de futebol se cante A Marselhesa.

Sou republicano, em suma, da linha dura, jacobina quando necessário: cidadãos livres, mas tratados com dureza quando põem em perigo a liberdade. E no que respeita a monarquias hereditárias, bem, claro que não. Quando penso em Fernando VII, Isabel II ou Afonso XIII, passa-me a vontade. Mas estamos a falar de Espanha, deste momento. E isso já é outra coisa.

Vamos ver se me consigo explicar. Uma república precisa de um presidente culto, sábio, respeitado por todos. Um árbitro supremo cuja serenidade e atitude o situem acima de lutas políticas, interesses e mesquinhezes humanas. Alguém é capaz de nomear um político, homem ou mulher, que encaixe nessa descrição em Espanha? Mais ainda, imaginam esse árbitro supremo, essa autoridade absoluta, encarnados em Pedro Sánchez? Em Pablo Iglesias e na sua república plurinacional da senhorita Pepis? Em Mariano Rajoy e na sua obtusa e passiva estupidez? Nesse palhaço irresponsável e transatlântico chamado Rodríguez Zapatero, que desenterrou uma nova guerra civil? Num Felipe González, a quem agora não sai da boca a palavra Espanha que enquanto esteve no poder evitou sempre pronunciar? Em Rufián? Em Torra? Em Casado? Em Abascal? Em Irene Montero?

Quanto a vós não sei, mas eu, que estou a ficar velho, preciso de alguém acima de tudo isso. Um cimento comum, um mecanismo unitário que mantenha a harmonia de terras e gentes tão complexas e perigosas a que chamamos Espanha. Sobretudo, porque os ataques atuais à monarquia não correspondem a uma reflexão intelectual de pensadores sérios, mas antes ao velho afã centrífugo de demolir um Estado em troca de interesses privados, trapaças locais, demagogias idiotas e argumentos de assembleia de faculdade. Imaginam uma Constituição redigida por Echenique, Otegui ou Puigdemont?… Enquanto aguarda a libertação da sombra nefasta de seu pai, Felipe VI é um homem sereno e bem-formado, irrepreensível até hoje, muito mais Grécia do que Bourbon. Estou convencido de que é uma boa pessoa e um sujeito honrado, e não há nada até agora que me leve a pensar o contrário. Creio que é um bom tipo, como se costuma dizer, e ninguém que tenha trocado duas palavras com ele afirmará o contrário. Ama Espanha e acredita de verdade que é útil para a preservar em tempos de tormenta. Faz o que pode e o que o deixam fazer. E, na minha opinião, é a única barreira que nos resta face ao disparate e ao caos em que isto se pode tornar se nos descuidarmos um pouco mais. Disse-lhe uma vez: o senhor é uma questão de simples utilidade pública. O que não é pouco, tratando-se de Espanha. A ténue linha vermelha. Disse-lhe isso e ele sorriu como sempre faz, gentil e prudente. E, no entanto, gostei mais dele por esse sorriso.

Escritor espanhol
Artigo originalmente publicado na revista 
XL Semanal

A fuga do rei Juan Carlos

(Red Roja, in Resistir, 05/08/2020)

O abcesso de podridão explodiu e o borbón – ao qual chamam de emérito, para maior escárnio – escapou para assegurar o saqueio acumulado durante décadas e a sua impunidade.

Mas a evidência da corrupção da monarquia permite revelar outras.

A vitória do fascismo mediante um dos massacres mais terríveis da história moderna foi também uma espoliação maciça, uma imensa acumulação de capital roubado, que garantiu a sua continuidade mediante a monarquia borbónica. Com as dezenas de milhares de assassinados que continuam enterrados nas valas – para vergonha de governos “pregressistas” de todos os níveis do Estado – pretende-se manter sepultado também o saqueio gigantesco sobre o qual se fundaram e no qual se desenvolveram os grandes capitais do Reino de Espanha.

O fecho de abóbada sobre a qual se veio assentando a pilhagem supranumerária dos cofres públicos – que se soma à exploração capitalista – é a monarquia borbónica. E o rei, muito consciente de tudo isso, vinha exigindo receber o dízimo do grande negócio.

Com todas as cumplicidades políticas, também devidamente remuneradas, o monarca constituiu-se em cúpula da rede de corrupção que permitiu amassar fortunas aos proprietários das grandes empresas. As “mordidas dos 3%” que reluziram na Catalunha são só uma pequena parte da cascata de comissões e subornos que edificaram a fortuna do borbón e, por debaixo dele, dos diferentes níveis da administração e das empresas que obtém lucros a partir de decisões políticas. As viagens oficiais carregadas de empresários, destacados políticos e altos funcionários, com o rei à cabeça, são a imagem viva da utilização do Estado ao serviço do capital.

É essa cadeia de cumplicidade e delitos, que infecta todas as estruturas do poder político e económico, que tem mantido a impunidade do rei como chefe do bando de ladrões.

Felipe VI senta-se num trono alagado de sangue e corrupção. E ocupa-o por ser o filho do rei designado pelo ditador mais criminoso que houve na história dos povos do Estado espanhol e também, herdeiro parte da mãe da sangrenta e corrupta monarquia grega colaboradora directa da ditadura fascista.

Os poderes de facto – o capital e seus aparelhos do Estado – com cumplicidade do governo “progressista”, obrigaram o borbón a escapar. Tal como quando lhe exigiram a abdicação, pretendem que mude algo para que nada mude – e o “emérito” é o bode expiatório. Em 2014 o detonador foi o medo de uma mobilização popular alimentada pelas consequências da crise e à qual se fez acreditar então que “Podemos” mudar as coisas mediante as eleições.

Hoje, perante o tsunami económico e social que se está a abater sobre a classe operária, a decisão foi fulminante para tentar escorar uma monarquia cada vez mais fraca. Mas agora, para maior escárnio, o governo e os meios de comunicação do poder, tentam apresentar a fuga do ladrão pai como uma contribuição para a estabilidade do trono do filho.

A colaboração do governo PSOE-Podemos no encobrimento do ladrão fugido revela mais uma vez a sua função real de escoramento de todas as estruturas do Regime de 78 e do grande capital. E, naturalmente, sua capacidade nula para mudar uma ínfima parte do código genético franquista dos aparelhos do Estado.

Enquanto os cárceres estão cheios de presos políticos, quando ainda estão quentes decisões judiciais que tentam esmagar a liberdade de expressão para denunciar à mesma monarquia jovens adeptos do rap como Pablo Hasel ou mantém encarcerados os dirigentes políticos catalães que organizaram um referendo, algum ingénuo poderia perguntar: Os altos tribunais do Estado colocarão o borbón em [ordem de] busca e captura? Emitirá o Ministério do Interior uma ordem de detenção internacional? Apreenderão suas propriedades como garantia do pagamento das enormes quantidades roubadas precisamente por exercer a chefatura máxima do Estado? Evidentemente, não. E não se trata de procurar através das urnas outro Podemos mais poderoso.

A perseguição àqueles que reclamam liberdade continuará, os mortos continuarão nas valas e seus assassinos continuarão morrendo impunes e cobertos de medalhas, enquanto os povos do Estado espanhol não mandarem à lixeira da história todas as estruturas de poder do Regime instaurado pela Constituição de 1978.

Nestes momento em que a indignação popular põe em manifesto a debilidade relativa das estruturas de poder – a própria fuga do borbón é mostra disso – Red Roja conclama à classe operária e aos povos do Estado espanhol, assim como às organizações capazes de representar sua soberania e independência, a mobilizar-se contra a monarquia e pela ruptura com todas as instituições herdeiras da Ditadura.

Uma tarefa pendente num caminho longo

Mas acabar com a monarquia e demais instituições do Regime de 78 é uma tarefa pendente num caminho mais longo.

As crises – e a que vivemos é de grandes proporções – são momentos de oportunidade para impulsionar a tarefa histórica de uma organização revolucionária: contribuir para destruir o capitalismo e construir o socialismo. Sabemos também que esse objectivo requer conceber o caminho que conduza rumo à construção do poder do povo e da direcção política capaz de levá-lo a cabo.

Entendemos que o avanço de ambos os processos não é o resultado de declarações de vontade ou de decisões de gabinete. É possível só com as energias que a luta de classes é capaz de desencadear e com a condição de que estas não possam ser absorvidas e reconduzidas aos seus próprios fins pelo poder.

Com a finalidade de introduzir elementos de ruptura com a ordem actual nas lutas populares pelas suas necessidades vitais, Red Roja faz um apelo ao debate para a constituição de uma Frente de Salvação Popular [1] cujos pontos cumpram com o objectivo central: serem entendidos como imprescindíveis pelo povo e incapazes de serem concedidos pelo poder, ao qual não cabe senão enfrentar sem conciliação possível.

Tais elementos são:
1º Expropriação da banca privada.
2º Recusa a pagar a chamada “dívida pública”.
3º Ruptura com os ditames da UE.
4º Intervenção das grandes empresas de produção e distribuição.
5º Implementar a planificação racional e democrática da economia.