Uma Nação de piratas

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 20/08/2026)


As parcerias com o Reino Unido requerem cautela e atenção de quem as celebra. Londres nunca abdica de correr no seu próprio carril independente dos objetivos comuns celebrados.


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Refiro-me à Inglaterra ou se quisermos à Grã-Bretanha. O tema dava para uma tese de doutoramento. Recuando no tempo, convém lembrar como durante os séculos XVI e XVII, a monarquia inglesa abraçou a pirataria como um instrumento de política externa e como no século XVIII a descartou quando já não lhe era conveniente, como a considerou fora da lei e passou a perseguir os piratas. Este princípio da conveniência com pouco apego a princípios éticos tem vindo a nortear a política externa inglesa desde então.

Os oligarcas russos conhecem esta realidade em primeira mão. Inicialmente foram recebidos de braços abertos. A City funcionou durante muitos anos como a lavandaria industrial do seu dinheiro. Era a participação nos fundos de investimentos, nas cadeias de hotéis, nos iates e nos clubes de futebol, mas quando isso se tornou inconveniente não tiveram qualquer pejo em os esfaquear pelas costas e congelar os seus bens e o seu dinheiro. Está bem presente o que aconteceu a Roman Abramovich e com o dinheiro da venda do Chelsea.

É assim que a Grã-Bretanha se tem comportado, e se continua a comportar, não se inibindo de se autoproclamar um baluarte dos valores liberais, que se desvanecem de imediato quando cheira a poder e dinheiro. Não se estranha, por isso, que Londres tenha estendido a carpete vermelha a ditadores e oligarcas. Recorde-se a proteção de Tony Blair ao general Augusto Pinochet, cujo regime foi responsável por milhares de mortes e desaparecidos, numa deslocação a um hospital londrino para tratamento.

A recusa do Governo britânico cumprir o mandado de captura internacional contra Pinochet, emitido pelo juiz espanhol Baltazar Garzón, foi sustentada pela decisão da Câmara dos Lordes (à época o supremo tribunal) que entendeu que o princípio da imunidade de um ex-chefe de estado prevalecia sobre as normas de direito internacional relativas ao crime de tortura. Pinochet regressou ao acolhedor regaço de Santiago do Chile, em 2000, onde morreu pacificamente com uma provecta idade. Como prova da sua mentalidade pirata, o Governo inglês recusou-se a cumprir as normas do direito internacional, apesar de hipocritamente ter assinado em 1998 o Estatuto de Roma (que cria o Tribunal Penal Internacional) e o ter ratificado em 2001.

Embora este texto não adiante nada que não se saiba e não seja público, convém relembrar alguns acontecimentos procurando contrariar o revisionismo histórico em curso, ciente de que será sempre exíguo o que se escrever sobre a matéria.

A revisão histórica passa pela família real quando mudou de nome para esquecer a sua origem germânica. Antes de Windsor, a casa real britânica chamava-se Saxe-Coburg e Gotha, mas em 1917, durante a I Grande Guerra, devido ao forte sentimento antigermânico existente no Reino Unido, o rei Jorge V achou por bem metamorfosear as suas origens e passar a chamar-se Windsor.

Segundo o historiador Stuart Laycock, os britânicos invadiram ou participaram em conflitos em 171 países, dos 193 que integram atualmente a ONU, tendo tido uma presença militar em cerca de 90% deles. Numa estimativa conservadora, o número de mortes causadas pelo império britânico nestas guerras ao longo dos séculos rondarão os 100 milhões. Não admira que os britânicos sejam responsáveis por grande parte da conflitualidade e dos problemas que presentemente defrontamos.

Basta lembrar-nos das quezílias entre a India e o Paquistão, o Afeganistão, o Médio Oriente, Chipre. Foi este o legado que nos deixaram cabendo às gerações atuais resolvê-los. Os britânicos conseguiram um feito de longe superior ao milagre das rosas da Rainha Santa Isabel, quando prometeram um território que não lhes pertencia a três compradores distintos: aos árabes para os ajudarem na luta contra o Império otomano, aos franceses com o tratado Sykes-Picot e aos judeus através da declaração Balfour, sendo assim os grandes responsáveis por décadas de morte e sofrimento. No novelo das confusões podíamos acrescentar o Afeganistão e a Nigéria, entre muitos outros casos.

A Grã-Bretanha é igualmente responsável pelo processo da partição da Índia em dois países, uma das maiores tragédias humanitárias do século XX, marcada por violência comunal em massa, deslocamento forçado e sofrimento extremo. Causou cerca de 1 milhão de mortos, 12 a 20 milhões de deslocados e cerca de 75 mil mulheres estupradas, sequestradas ou forçadas a casamentos/conversões. Para não falar da repressão sangrenta do movimento anticolonial pacífico liderado por Mahatma Ghandi. A Grã-Bretanha não pode alijar responsabilidades por estes acontecimentos.

Nos dias que correm sente-se a nostalgia britânica do Império onde o sol não se punha. O Brexit foi uma tentativa fracassada de fazer voltar o tempo para trás e matar esperanças vãs. O sempre excelso e honesto ex-primeiro-ministro Boris Johnson afirmou que o colonialismo em África nunca devia ter acabado e desvalorizou o papel da Grã-Bretanha na escravatura.

Para satisfazer esse sonho das glórias passadas, Johnson veio falar de uma “Global Britain” como a opção estratégica nacional a adotar no pós-Brexit, alimentando um sonho irrealizável. Talvez efeito de alucinações, o documento que dava voz a essa ambição identificava a clara intenção de alargar a influência britânica à região do Indo-Pacífico, mesmo quando o fundo dos cofres já estava à vista e a enorme dificuldade em operar a sua frota de guerra era por demais evidente. Ben Barry dá no seu livro The Rise and Fall of the British Army, 1975-2025, uma explicação sobre o estado atual das forças armadas britânicas, expondo o irrealismo de tais propostas.

Manobrando cinicamente pela porta do cavalo, minando a sua «special relationship» com os EUA, e reconhecendo implicitamente a farsa da «Global Britain», Londres escreveu o guião que o primeiro-ministro canadiano Mark Carney, Governador do Banco de Inglaterra de 2013 a 2020, leu no Fórum Económico Mundial, em Davos (2026), em que alertava para a necessidade de as médias potências se unirem e trabalharem em conjunto — formando coligações ou uma espécie de “aliança das médias potências” — para se protegerem e terem voz num mundo marcado pela rivalidade entre grandes potências e pelo fim da ordem internacional baseada em regras. Washington não dorme, está ciente de quem foram os autores da ideia.

E lá foi o rei Carlos III a Washington, em 2026, tentar salvar o que ainda resta da «relação especial» entre os EUA e o Reino Unido, procurando evitar a repetição de humilhações semelhantes à sofrida na crise do Suez (1956), quando o presidente Eisenhower mandou as forças britânicas, francesas e israelitas calar as armas e retirarem-se do Egito. Mais recentemente, na sequência do Global Britain, quando Londres anunciou o desejo de manter dois vasos de guerra permanentemente no Indo-Pacífico, o Pentágono educadamente “desencorajou” a proatividade britânica dizendo a Londres que era um aliado mais útil se dedicasse a sua atenção à Europa.

A narrativa política e a hipocrisia confundem-se permanentemente na política externa britânica. Como afirmou o antigo presidente do Conselho de segurança da ONU Kishore Mahbubani “quando a China estava fraca e indefesa, o Ocidente [a Grã-Bretanha] forneceu ópio à China, quando a China está forte e bem-sucedida, o Ocidente [a Grã-Bretanha] exporta a sua democracia.” Quando os britânicos falam em direitos humanos, talvez irlandeses e indianos, entre muitos outros povos, tenham alguma palavra a dizer sobre o sofrimento e as humilhações que os britânicos lhes causaram. Os povos autóctones da Austrália têm bem presente o que foi o respeito pelos seus direitos quando começaram a chegar ao território os galeões de sua Majestade carregados com a fina flor da escória prisional britânica, que para aliviar o seu sistema prisional os despachou para o degredo no Novo Mundo.

E voltando ao insuspeito Huntington, o “Ocidente ganhou o mundo não pela superioridade das suas ideias, ou valores ou religião… mas pela sua superioridade na aplicação da violência organizada. Os ocidentais esquecem frequentemente esse facto; mas os não ocidentais nunca esquecerão”. Isso aplica-se à peugada deixada pelos britânicos no mundo.

Na sequência do que disse Kishore, são muitos os povos que não esquecem. As populações autóctones daquilo que é hoje a Austrália e os EUA têm presente as “vicissitudes” a que foram sujeitas. Falamos da limpeza étnica feita de uma forma sistemática.

Os chineses serão o povo com maiores razões de queixa das humilhações a que foram sujeitos pelos britânicos. Dificilmente esquecerão os acontecimentos do século XIX quando lhes foi imposta pelos britânicos a obrigatoriedade de lhes comprar ópio para colmatar o desequilíbrio das trocas comerciais. Talvez motivados por um imenso espírito civilizacional, acrescentaram uma nova dimensão à pirataria: o tráfico e a venda de droga.

Quem visita o Palácio de Verão em Pequim vê à entrada dos diferentes pavilhões uma placa que lembra ter sido aquele local totalmente destruído pelas forças franco-britânicas em dezembro de 1860, não sem antes o terem saqueado e incendiado. Os artefactos do Palácio de Verão (Yuanmingyuan) resultantes do furto foram dispersos por várias coleções públicas e privadas inglesas, em vários museus, pertencendo alguns deles à Coleção Real. É mesmo difícil esquecer.

O “cosmopolitismo” britânico está patente nos muitos bens culturais que adornam as coleções dos seus museus, não por doação, mas pelo saque ilegal dos países “visitados” em África, Ásia, América Latina e até mesmo na Europa rivalizando nesta matéria com os franceses. Esses objetos são património cultural e histórico não da Grã-Bretanha, mas dos Estados a que foram “subtraídos”.

O British Museum (Londres) concentra grande parte desse espólio, tendo no Louvre um grande rival. Aí encontra-se a maior coleção individual de “Bronze do Benin” (Nigéria), com mais de 900 objetos. Alberga ainda a Estupa de Amaravati da Índia; esculturas do Partenon (também conhecidas como Mármores de Elgin ou Parthenon Marbles); a Pedra de Roseta do Egipto; estátuas da Ilha de Páscoa. E tantos outros dispersos por outros museus. O Diamante Koh-i-Noor encontra-se na Torre de Londres exposto na Jewel House, juntamente com as outras Joias da Coroa Britânica.

Mas o dilacerante amor britânico pela cultura dos outros povos é rapidamente posto de lado quando o vil metal entra em jogo. Quando acordos para a devolução dos objetos são alcançados, não lhes subjaz um motivo humanitário, têm como pano de fundo razões políticas e económicas. Em 2024, uma escultura de bronze do século XVI de Tirumangai Alvar foi devolvida à Índia porque Londres queria concluir um acordo de livre comércio com Nova Deli.

Em 1953, quando o primeiro-ministro Mossadehg iraniano teve a ousadia de nacionalizar a indústria petrolífera, numa operação que está devidamente documentada, o MI6 e a CIA organizaram conjuntamente um golpe de estado para derrubar um primeiro-ministro democraticamente eleito, e no seu lugar colocarem um déspota servil e vassalo, uma prática anglo-saxónica replicada ao longo da história.

A invasão do Iraque, em 2003, não difere essencialmente do que aconteceu no Irão, em 1953. É uma repetição da história. Efetuou-se uma operação de mudança de regime com base numa grotesca violação do Direito Internacional para colocar no poder dirigentes “moldáveis”. O que estava em causa não eram armas de destruição em massa, mas sim a partilha do espólio das matérias-primas.

Os dirigentes iranianos ainda se lembrarão da dívida britânica de £650 milhões ao Irão, na década de 1970, resultante de uma encomenda 1.500 carros de combate Chieftain e 250 veículos de recuperação de blindados não entregues. Com a revolução em 1979, o Reino Unido cancelou o contrato e como fez com os oligarcas russos, ficou com o dinheiro. Apesar da arbitragem internacional ter confirmado uns anos mais tarde a dívida, o Reino Unido ainda não a pagou e nunca devolveu o dinheiro.

As parcerias com o Reino Unido requerem cautela e atenção de quem as celebra. Os britânicos não são exatamente os pares mais fiáveis. Londres nunca abdica de correr no seu próprio carril independente dos objetivos comuns celebrados. Foi assim na «special relationship» que mantém com os EUA (por exemplo, no Afeganistão e agora na Ucrânia) e que manteve com a UE, quando foi Estado-membro.

O Reino Unido participou na Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD) da União Europeia alinhada com os objetivos geopolíticos dos EUA, atuando como o seu «braço direito» no seio do aparelho institucional da UE para que esta não se consolidasse. Fez tudo o que estava ao seu alcance para impedir que a PCSD se desenvolvesse e aprofundasse, obstruindo e minando qualquer tentativa da UE para construir uma capacidade militar autónoma e credível. Para isso muito contribui a britânica baronesa Catherine Ashton quando foi nomeada para o cargo de Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança e, por acumulação, chefe da Agência Europeia de Defesa, que de uma forma sustentada a tentou matar à nascença.

Apesar do Império Britânico já não existir, o Reino Unido ainda possui 14 territórios ultramarinos por todo o mundo. Estes territórios estão sob soberania britânica, mas não fazem parte do Reino Unido, e cada um tem o seu próprio governo, sendo o Reino Unido responsável pela sua defesa e relações externas. Falamos de Gibraltar, das Ilhas Malvinas, Ilhas Caimão e o Território Antártico Britânico, garantindo-lhe uma presença em locais geoestrategicamente relevantes. A ocupação de Chipre e o legado colonial não foi abandonado. Ao que se pode juntar as ilhas Chago e Madagáscar.

Uma rápida incursão no tema não podia deixar de referir o comportamento do Reino Unido (e da França) nos tempos que antecederam a II Guerra Mundial e que levaram ao sacrifício da Checoslováquia, em 1938, e oferta formal de uma «cooperação» abrangente com a Alemanha nazi. Os Dirksen Papers trazem à luz do dia as conversações de Londres com Berlim, através de canais secretos, sobre o alcance dessa tentada parceria, a qual incluía um realinhamento das «esferas de interesse das Grandes Potências», abrindo a porta a uma maior expansão territorial nazi.

Portugal

O relacionamento da Grã-Bretanha com Portugal não foi diferente daquele que teve com outros países, apesar da tão propalada mais antiga aliança do mundo. Salvaguardando as escassas exceções, é notória a sobranceria com que as elites britânicas olham para Portugal e para os portugueses. O “Ultimato inglês” de 1890 constituiu o maior vexame imposto pela Grã-Bretanha a Portugal. Exigia que Portugal retirasse as suas forças militares dos territórios compreendidos entre Angola e Moçambique, aquilo que ficou para a história como o “mapa cor-de-rosa”, sob a ameaça do corte de relações e do uso da força militar caso Portugal não recuasse de imediato, uma forma pouco amistosa de tratar um aliado, quando existe um conflito de interesses.

Há, no entanto, quem em Portugal olhe ingenuamente para a Grã-Bretanha como o salvador do país em momentos críticos da sua história. É verdade que nos ajudaram quando lhes era conveniente, nunca de uma forma altruísta, funcionando Portugal como um proxy nas querelas que mantinha com os seus oponentes. O território português não passava uma peça no tabuleiro de xadrez das grandes potências da época e da Grã-Bretanha, em particular.

As humilhações foram demasiado frequentes para quem se arroga de aliado histórico. Aquando da fuga da corte, do Governo português e de toda a elite portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1807, os britânicos escoltaram os navios portugueses, mas em troca de privilégios comerciais e de um estatuto de preferência no Brasil, materializado mais tarde nos Tratados de 1810 (de Aliança e Amizade, e de Comércio e Navegação), assinados no Rio de Janeiro, que deram amplas vantagens comerciais aos ingleses na colónia. Consumou-se assim a progressiva subserviência dos interesses portugueses aos dos britânicos (tinham representação judicial própria, de que já gozavam em Portugal, os litígios que envolvessem súbditos britânicos só podiam ser julgados por juízes britânicos, as tarifas alfandegárias pagas pelos comerciantes ingleses eram inferiores às dos brasileiros, etc.). As humilhações não se limitaram a este período histórico, como é sabido.

A geografia determina que Portugal mantenha sempre uma relação privilegiada com a potência marítima. Isso foi válido no passado e continua a ser válido no presente. Compreendiam-se algumas “cedências” nos tempos em que a Grã-Bretanha tinha esse estatuto, que já não tem e não voltará a ter. Hoje, os EUA são a potência marítima. Por isso, não se entende a contínua bajulação nacional, que os ingleses regurgitam, e a subserviência a quem nos tramou sempre que lhe era conveniente.

Talvez a anglofilia acéfala tenha atingido o seu o zénite, em 2023. Não se entendem as razões profundas que levaram o então presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa a deslocar-se a Londres em junho de 2023, para comemorar os 650 anos da Aliança Luso-Britânica e condecorar o monarca britânico com o Grande Colar da Ordem da Torre e Espada. Não havia necessidade de tremenda adulação a quem, ainda por cima, se encontra em profunda decadência e a caminho da quase irrelevância estratégica.

Fica muito por dizer, mas o que foi dito parece mais do que suficiente para mostrar que quem teve os comportamentos apontados, quem apoia sem pudor as ações genocidas de Telavive, devia ter alguma contenção antes de dar lições morais sobre direitos humanos e terrorismo aos outros. Não será por acaso que a expressão “pérfida Albion”, da autoria do Marquês de Ximenes, passados dois séculos continua atual. Haja vergonha, decência e brio.

90º Aniversário do assassinato de Lorca – 18 de agosto de 1936

(Carlos Esperança, in Facebook, 18/08/2026, Revisão da Estátua)


(A Estátua associa-se ao sublinhar da efeméride. Há crimes sem perdão que não podem ser esquecidos. O fascismo também é isto.

Estátua de Sal, 18/08/2026)


Frederico Garcia Lorca foi um dos maiores poetas e dramaturgos espanhóis, fuzilado e enterrado em segredo por quem odiava a cultura, o amor, a vida e a liberdade.

Aos 38 anos assassinaram-no os fascistas. Os restos mortais nunca foram localizados e a sua poesia resistiu ao tempo, a recordar que lhe ocultaram o corpo com os versos de fora:

Romance sonâmbulo

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar

y el caballo en la montaña.

Con la sombra en la cintura

ella sueña en su baranda,

verde carne, pelo verde,

con ojos de fría plata.

Verde que te quiero verde.

(…)

(Federico Garcia Lorca – 1928).

Nota da Estátua: O poema completo, traduzido para português por Afonso Felix de Sousa, pode ser lido aqui.

Quando a fome se junta à vontade de comer

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 14/08/2026)


A “invasão” de Ceuta de 30 de julho foi uma punição por Sanchez ter tido a coragem de se opor a Trump.


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No dia 30 de julho, em poucas horas, entraram de rompante em Ceuta cerca de 70 mil pessoas. Passada mais de uma semana sobre esse sinistro acontecimento encontramo-nos em condições de efetuar uma análise mais qualificada do mesmo. São várias as perspetivas de análise possíveis, que se complementam: migratória, redes sociais, histórica. Este texto aborda apenas a perspetiva geopolítica. Curiosamente, nesse mesmo dia, a cerca de 40 km de Ceuta, o Rei Mohammed VI de Marrocos celebrava o 27.º aniversário da sua entronização.

Por ter sido tão óbvia, é inegável a colaboração dos serviços fronteiriços – que franquearam a fronteira aos «migrantes» -, assim como das autoridades policiais de Marrocos. A Guardia Civil espanhola identificou a presença de agentes dos serviços de informações marroquinos entre os «migrantes». É indesmentível a inação e a cumplicidade descarada da polícia marroquina, só possível por ter recebido ordens superiores.

Esta possibilidade foi corroborada pelo “The Telegraph” e por outros órgãos da comunicação social europeia. Não se tratou de um movimento organizado pelas máfias de tráfico humano, como argumentou o primeiro-ministro Pedro Sanchez que, por curiosidade, em nenhuma ocasião acusou Marrocos de instigar a iniciativa. A esmagadora maioria dos migrantes eram marroquinos oriundos de zonas próximas de Ceuta (Tétouan, Castillejos), embora alguns tivessem vindo de zonas mais afastadas como Rabat. Havia também alguns subsarianos, em número reduzido, esses sim migrantes vítimas das máfias. Inesperadamente, já depois do efeito político produzido, a esmagadora maioria dos “migrantes” regressou voluntariamente a Marrocos.

Convém lembrar que Marrocos reivindica Ceuta e Melilla como partes do seu território, não reconhecendo a soberania espanhola sobre os dois exclaves. O Rei e o Governo marroquino referem-se periodicamente a estas duas cidades como território a recuperar. Esta entrada de “migrantes” em território espanhol foi claramente e acima de tudo um ato com motivações políticas. Mas será que Marrocos atuou sozinho, por sua própria conta e risco, sem apoio político de ninguém? A resposta a esta interrogação deve levar em conta uma série de acontecimentos, que não podem, nem devem ser descartados.

A 15 de julho de 2026, a Câmara dos Representantes do Congresso norte-americano aprovou o H.R. 8595 (National Security, Department of State, and Related Programs Appropriations Act, 2027). No relatório do Comité de Apropriações da Câmara que acompanha o projeto de lei é dito que o comité «nota que as cidades de Ceuta e Melilla administradas por Espanha estão localizadas em território marroquino e continuam a ser objeto da reivindicação de longa data de Marrocos», acrescentando que apoia os esforços do Secretário de Estado para incentivar o diálogo diplomático entre Marrocos e Espanha sobre o «futuro estatuto» de Ceuta e Melilla. Embora não autorize nem dê luz verde a qualquer transferência de território, o texto sugere clara e inequivocamente o alinhamento de Washington com a posição de Rabat sobre Ceuta e Melilla.

Já em plena crise, o Secretário de Estado Marco Rubio reiterou publicamente ser Marrocos o mais antigo aliado dos EUA, e poucos minutos após as primeiras imagens do acontecimento na internet, Ted Cruz postava no “X” sobre o tema chamando-lhe “loucura total” e “suicídio civilizacional”. “A Esquerda odeia o Ocidente e está a trabalhar ativamente para o destruir para sempre” e outras niceties.

Também no “X”, o conhecido neocon Michael Rubin e fervoroso adepto da invasão do Iraque veio dizer, que os “EUA e Israel deviam impor sanções a Espanha se utilizar qualquer equipamento de defesa policial americano ou israelita contra os marroquinos inocentes na Ceuta ocupada”. Rubin instigou Marrocos a marchar sobre Ceuta e Melilla e replicar a Marcha Verde de 1975, quando o Rei Hassan II mobilizou civis desarmados para o Saara Ocidental. Segundo ele, Espanha tem de ser pressionada para descolonizar e entregar as cidades de Ceuta e Melilla a Marrocos.

As declarações de Rubin estão prenhes de atrevimento, sobretudo para quem se arvora de especialista em assuntos do Médio Oriente. Não encontrei nenhuma tomada de posição de Rubin sobre a brutalidade com que o ICE tratou os migrantes que assolaram a fronteira norte-americana; ou sobre a devolução de terras ocupadas/roubadas aos povos autóctones. Rubin podia começar pelo seu país e terminar em Israel. E claro está, Ceuta não é um território ocupado.

Por sua vez, Trump tem sido tremendamente hostil a Sanchez devido à recusa deste em aumentar os gastos com a defesa. Trump chamou à Espanha, repetidas vezes, «sócio terrível» e «causa perdida». Na Cimeira da NATO, em Ancara (julho de 2026), Trump vociferou chamando à Espanha «um péssimo parceiro na NATO. Não participam. Não pagam. Não quero ter nada a ver com Espanha.» e ordenou ao Secretário do Tesouro que cortasse todo o comércio com Espanha, incluindo visitas.

As acrimónias eram e são frequentes. Quando o Governo espanhol proibiu o uso das bases de Rota e de Morón e o sobrevoo do espaço aéreo espanhol por aeronaves norte-americanas que participassem nos ataques ao Irão, Trump respondeu: «A Espanha tem-se portado de uma forma terrível… Vamos cortar todas as relações comerciais com Espanha», afirmando ainda que «Podemos [EUA] utilizar a base se quisermos… Ninguém nos vai dizer para não o fazermos».

Em sinal contrário, as relações de Marrocos com os EUA e Israel têm-se aprofundado. Marrocos é um país parceiro da NATO através do Diálogo para o Mediterrâneo e participou em várias missões lideradas pela NATO, nos Balcãs e na Líbia, para além de ser um dos principais aliados dos EUA, desde 2004. Marrocos disponibilizou-se para um enviar um contingente militar e policial para Gaza, de modo a que Trump pudesse cumprir a promessa de manter Gaza sob tutela árabe, o que na prática se traduz em ajudar Israel a manter e a reforçar o controlo sobre Gaza.

Marrocos é o aliado árabe mais próximo de Israel. No dia 10 de dezembro 2020, foi anunciada a normalização das relações entre Rabat e Telavive, no âmbito dos Acordos de Abraão, como contrapartida pelo reconhecimento norte-americano do Saara Ocidental como parte integrante de Marrocos. Uns meses mais tarde, em 24 de novembro de 2021, Marrocos e Israel assinaram um Memorando de Entendimento de cooperação no âmbito da defesa, o qual incluía a partilha de informações, tendo sido o primeiro acordo formal desse tipo entre Israel e um país árabe.

Em linha com estes comentários, o jornal israelita Ynet veio dizer que Israel se devia colocar ao lado de Marrocos. Telavive só teria a beneficiar se Ceuta e Melilla estiverem sob a soberania de Marrocos, sugerindo que Israel devia usar a sua influência sobre Trump para apoiar as pretensões territoriais marroquinas. No mesmo jornal, o analista marroquino Amine Ayoub afirmou que o agravamento das relações entre a Espanha e os EUA tinha aberto «uma verdadeira brecha na armadura estratégica da Espanha no que diz respeito a Ceuta e Melilla». Como tal, «o parceiro mais importante de Marrocos» encontrava-se «numa posição única para avançar… por essa brecha». Também o embaixador de Israel na ONU Danny Danon criticou Espanha pela forma como geriu a crise e apoiou a posição de Marrocos relativamente aos dois enclaves.

O “assalto” a Ceuta não foi um movimento inorgânico, existem provas mais do que suficientes que indicam ter-se tratado de um movimento organizado. Seria ingénuo atribuir a culpa às redes sociais, que não atuam sozinhas. Apesar de existir um catalisador específico da crise – o acordo assinado pela Espanha e a Argélia sobre o novo contrato de gás natural que conecta a Argélia diretamente a Espanha, dispensando a passagem pelo território marroquino e o pagamento da respetiva tarifa de transporte – será difícil não ver neste movimento uma jogada política do Governo marroquino para “entalar” o Governo espanhol, sancionada por Trump e com o apoio de Israel.

Parece evidente que os interesses de Marrocos se cruzaram com os dos EUA e de Israel disponibilizando-se Rabat para funcionar como um proxy. Washington não perdoa a quem se cruza no seu caminho. A história está cheia de casos, que acabam sempre da mesma maneira: com o afastamento dos dirigentes incómodos através do recurso a golpes de Estado (em desuso), operações de mudança de regime (revoluções coloridas), ou mais recentemente ao higiénico lawfare.

A “invasão” de Ceuta de 30 de julho foi uma punição por Sanchez ter tido a coragem de se opor a Trump: na condenação do genocídio dos palestinianos em Gaza, em não se mostrar disponível para gastar 5% do PIB em defesa, e em condenar a intervenção israelo-americana no Irão. Os dirigentes que se “atravessam” na política externa norte-americana e que não estejam alinhados com os seus propósitos estratégicos têm sido, mais tarde ou mais cedo, alvo de tentativas para os depor.

A história está cheia de casos. José Sócrates está a pagar amargamente a aleivosia de ter acreditado que podia ter uma política externa autónoma quando decidiu estreitar relações com Chávez, um inimigo visceral dos EUA, que Washington queria desalojar do poder, indo contra as tentativas de isolamento internacional da Venezuela e de a tornar num Estado pária. Isto, apesar de em matéria de corrupção, haver nessa altura e ainda existir, em Portugal, muito por onde começar. Situações intocáveis imensamente mais graves daquelas de que o antigo primeiro-ministro é acusado. O objetivo de comprometer irremediavelmente o seu futuro político foi conseguido.

Embora Marrocos tenha um interesse particular em causar embaraço a Sanchez tudo indica que Rabat foi devidamente industriada. Se não o podemos afirmar por falta de provas concludentes, também não podemos excluir a possibilidade de se tratar de uma ação com o conhecimento prévio e apoio de Israel e dos EUA, com dois objetivos distintos: (1) no curto prazo, causar embaraço e desgastar o Governo de Sanchez, criando condições para a sua queda, fazendo-o pagar pelas críticas feitas a Israel e aos EUA; (2) no longo prazo, criar condições para que Ceuta passe para a soberania de Marrocos.

Com Ceuta sob controlo do bem-comportado e obediente Marrocos, Washington podia garantir o controlo do acesso ao Mar Mediterrâneo evitando a repetição de sobressaltos como aconteceu nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb, controlados por atores (percebidos como) hostis aos seus interesses. É necessário para Washington e Telavive inviabilizarem qualquer possibilidade de uma das margens do estreito de Gibraltar ser controlada por alguém que já negou o sobrevoo do seu espaço aéreo a aeronaves militares norte-americanas que se dirigiam para ações de combate.

Falamos da razão pela qual Israel e Estados Unidos ambicionam o controlo de ambas as margens do estreito de Gibraltar, privando a Espanha da soberania de Ceuta. Com os problemas nos estreitos de Ormuz e de Bab El Mandeb aumenta a importância do estreito de Gibraltar, tornando-se crucial ter a garantia de que nunca se perderá o seu controlo e que não venha a colocar-se a possibilidade do pagamento de uma portagem a quem o cruzar.

Há um terceiro objetivo atingido, talvez não intencional e provavelmente não incluído no cálculo estratégico dos promotores da iniciativa: evidenciar a fragilidade da UE causada pela ausência de solidariedade entre os seus Estados-membros, chegando mesmo 22 deles a assinar uma carta (iniciativa promovida pela Itália e Dinamarca) culpando a Espanha pela invasão dos “migrantes” e não Marrocos, mostrando a sua prontidão para introduzirem o controlo das suas fronteira com Espanha.

A situação assume contornos sórdidos, uma vez que Ceuta, apesar de fazer parte do espaço Schengen, está sujeita a um regime especial. Viajar de Ceuta para a Espanha continental requer um apertado controlo documental da identidade. Consequentemente, quem entrar irregularmente em Ceuta tem vedado o acesso ilimitado ao território da União Europeia e à liberdade de circulação no espaço Schengen. Falamos da mesma União que paga a Ancara para conter no seu território milhões de pessoas deslocadas.

Alguns países como a Itália e Dinamarca, aproveitaram a oportunidade para mostrar serviço e serem readmitidos no “regaço acolhedor” de Trump. O presidente norte-americano não perdeu tempo e fez um post no seu Truth Social com uma imagem sua sorridente a olhar a Gronelândia de cima para baixo e a dizer “Olá Gronelândia”. Trump estará radiante com a reação de Copenhaga e da sua diligente e oportunista primeira-ministra aos acontecimentos em Ceuta. Perante um ataque oriundo do exterior dirigido a um país da União, várias chancelarias optaram por se alinharem com o atacante. Palavras para quê?