Los Angeles lembra Hiroshima e Gaza; a diferença é que os moradores tiveram tempo para fugir

(Jorge Rendón Vásquez, in Diálogos do Sul, 17/01/2025)

Imagem de Los Angeles após incêndios no início de janeiro

Fotografias dos bairros de Los Angeles varridos pelo fogo mostram paisagens devastadas e sombrias, como as deixadas após as bombas lançadas pelos EUA em 1945 no Japão.


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Um feroz incêndio assolou vários bairros da cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos. Queimaram-se as casas, os veículos e tudo o que havia ali em cerca de 150 km² (aproximadamente 10 km de largura por 15 de comprimento), algo semelhante à extensão de Santiago de Surco e San Borja em Lima.

E o fogo superou amplamente os esforços de cerca de 15 mil bombeiros vindos de várias partes dos Estados Unidos, além de aviões e helicópteros que derramam substâncias anti-inflamáveis, como minúsculos pontos em movimento diante das proporções dantescas das chamas.

Nunca estive em Los Angeles, mas a cidade me é familiar pelos personagens e cenários dos romances de Raymond ChandlerRoss MacDonaldMichael Connelly e James Ellroy, que, além de me entreterem, me ensinaram certas técnicas e alguns truques da narrativa. O tão popular Sunset Boulevard, por onde frequentemente transitam os personagens desses romances, foi duramente afetado.

E, claro, já começa a busca por bodes expiatórios para distrair a opinião pública.

Por que isso aconteceu em Los Angeles?

Pelo jeito, trata-se de um efeito do aquecimento global. Com o enorme consumo de combustíveis fósseis por veículos, empresas e residências dos 334 milhões de habitantes dos Estados Unidos, o ar na atmosfera se aqueceu e, ao se elevar por ser mais leve, o espaço deixado foi preenchido pelo ar frio do oceano Pacífico, criando uma corrente de ar que encontrou algumas faíscas acesas e as avivou, como se sopra o ar nas brasas ao fazer um churrasco. Uma vez iniciadas as fogueiras, estas, ao aquecerem o ar, o elevam, gerando novas correntes que alimentam intensamente as chamas. E assim por diante. A combustão foi facilitada pela madeira e pelo plástico usados como materiais de construção.

As fotografias dos bairros afetados mostram paisagens devastadas e sombrias, semelhantes às de Hiroshima e Nagasaki [e Gaza, nota do editor] após a explosão das bombas atômicas que o governo dos Estados Unidos ordenou lançar sobre elas, em agosto de 1945, quando suas populações civis formigavam em ruas, mercados, empresas, escolas e hospitais ou estavam em suas casas. Naquela ocasião, foi apenas uma bomba para cada uma dessas cidades. Desta vez, a natureza foi magnânima: deu tempo para que as populações dos bairros que iriam arder fossem evacuadas.

Da esquerda para a direita: Los Angeles, Gaza, Hiroshima


A reconstrução dos bairros e casas destruídos pelos incêndios em Los Angeles custará muito dinheiro ao estado da Califórnia e ao governo estadunidense. Mas será que gastarão? E, além disso, será que dispõem dos recursos necessários? E, se não os tiverem, pedirão a cooperação da população não afetada ou tomarão empréstimos, aumentando ainda mais sua gigantesca dívida pública? Ademais, em que nível de prioridade colocarão esses gastos? Continuarão priorizando as despesas militares?

De fato, as empresas de seguros já enfrentam uma perspectiva difícil para pagar as indenizações contratadas contra risco de incêndio, e pode ser que não as paguem, a menos que o governo e o Federal Reserve lhes concedam empréstimos.

Seja como for, esta tragédia de Los Angeles despertou nas demais populações do mundo sincera comoção.

Fonte aqui

A tragédia de Valência e zonas limítrofes

(CNC, in Resistir, 01/11/2024)


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A tragédia que assolou a região de Valência e zonas limítrofes de Castilla – La Mancha, que provocou mais de 100 mortos, milhares de famílias desalojadas e um grande número de pequenas empresas destruídas, mostra que nem a robótica nem a inteligência artificial podem evitar a catástrofe quando o capitalismo impõe as suas leis e as capacidades humanas e os meios técnicos não são postos ao serviço do ser humano.

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Dois inimigos do futuro

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 24/08/2024)

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Continuamos a perder terreno para a viabilidade de um futuro habitável pela Humanidade inteira. A dúvida persistente é a de saber qual dos dois maiores inimigos do futuro o irá golpear primeiro e com mais contundência. Eles são, respetivamente, o colapso ambiental e climático, e a guerra termonuclear generalizada. A raiz de ambos é a mesma: o declínio universal de uma racionalidade crítica e prudencial nas elites.

Comecemos pelo primeiro inimigo. No passado mês de junho, a temperatura média à superfície do planeta aqueceu +1, 5.ºC, relativamente à média homóloga do período de referência pré-industrial (1880-1920). Isso significa que as conferências anuais do clima se transformaram numa paródia trágica, mascarando o cinismo e a hipocrisia da maioria dos seus participantes decisivos, vindos da política e dos negócios, escoltados por alguns crédulos de vistas curtas.

No que respeita à ameaça existencial da crise ambiental e climática, estamos em roda livre. Até o verniz da UE se desfez, quando rasgou o Pacto Ecológico e degradou o projeto europeu, para se humilhar na condição de aguerrido escudeiro dos EUA no Velho continente.

Apesar de estarmos apenas no princípio (o atual aumento da temperatura média mundial de +1,2.ºC, pouco é comparado com os +3.º- 4.ºC a que poderemos chegar nas próximas décadas), as calamidades meteorológicas extremas causam centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados anualmente (não poupando até os aristocratas do capital, como se viu no naufrágio de um iate de luxo na Sicília, afundado em dois minutos por uma tromba de água).

O segundo inimigo do futuro, o belicismo, parece-me ser o mais imediatamente perigoso. Desde logo por impedir as políticas de cooperação económica e ambiental entre grandes potências e blocos – as únicas que poderiam contribuir para minimizar a entropia ecológica e climática.

Tem crescido, também, a trivialização das armas nucleares e a redução do cuidado quanto às suas consequências, como se está a verificar na temerária invasão ucraniana da Rússia, com o uso generalizado de armas ocidentais.

O mais inquietante é saber que os EUA aprovaram em março um novo manual de uso das armas nucleares (Nuclear Employment Guidance) – que apenas um punhado muito seleto de dirigentes conhece – desenhado para cenários de guerra contra múltiplos potenciais inimigos, nomeadamente, China, Rússia e Coreia do Norte.

Seria desejável que os EUA ocupassem o seu indispensável lugar na mesa de um novo diretório, para a governação pacífica deste planeta atribulado. Washington parece, contudo, preferir afiar a espada, na vã tentativa de ressuscitar a sua breve e já desaparecida hegemonia unipolar.