Claro que caminhamos todos alegremente para o abismo

(José Neto, 28/07/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Jorge Figueiredo ver aqui. Entretanto, resolvi dar-lhe a divulgação que, penso, merece.

Estátua de Sal, 28/07/2022)


Desde sempre, em todas as civilizações humanas, existiram movimentos de cariz mais ou menos esotérico, religiosos ou profanos, seitas diabólicas, adoradores de OVNIS e extraterrestres, etc. Na sua esmagadora maioria são apenas pessoas com interesses comuns, que se juntam para discutir os temas que lhes tocam numa base essencialmente intelectual.

Apenas como exemplo, poderei citar a Escola Pitagórica, que na antiga Grécia, pensa-se que por meados de 400 a.C., muito terá contribuído para o desenvolvimento da Matemática e da Astronomia, era ao mesmo tempo uma seita esotérica de cariz profundamente espiritual. Poderia lembrar também a conhecida Ordem religiosa e militar dos Templários, ou as contemporâneas Opus Dei e Maçonaria, etc.

Algumas dessas organizações poderão parecer-nos mais ou menos tenebrosas ou perfeitamente ridículas, dependendo do ângulo de análise, mas de maneira geral elas produzem apenas “conversa fiada” e não têm nenhuma capacidade de influenciar o mundo real, ainda que muitas vezes os seus membros se convençam que sim.

E se quisermos construir uma boa “teoria da conspiração”, também podemos apanhar uma frase aqui e outra ali, um movimento acolá, encontrar algumas conexões reais ou aparentes, enquadrar tudo num “gestalt” idealizado por nós de acordo com o que pretendemos mostrar, especular mais um bocado e pronto, temos a nossa bela teoria pronta a servir.

E quero ressalvar que tudo isto se pode fazer de forma absolutamente honesta, como me parece ser o caso do Jorge Figueiredo, e deve ser considerado um exercício intelectual perfeitamente válido por representar um contributo para a compreensão da problemática em apreço.

Eu não tenho como saber se os filósofos do Capitalismo de Davos acreditam mesmo que poderão levar a cabo os seus conceitos económicos associados ao “Great Restart” ou se aquilo foi apenas uma discussão académica. Do que eu não tenho dúvidas é que esse projeto nunca poderá ser concretizado porque eles apenas têm capacidade de influenciar menos de 20% das economias mundial. E ainda por cima a parte que eles mais ou menos controlam em breve será colocada numa espécie de “quarentena económica” pelo restante da Humanidade.

Se de alguma forma eles tentassem baixar os níveis de vida dos cidadãos dos seus próprios países e eles começassem a ver os países asiáticos, latino-americanos e africanos passar-lhes à frente, poderiam contar de certeza com uma reação infernal das massas. Isto ainda vai muito no princípio e já se começa a ver alguma coisa. Muitos mais governos europeus vão cair dentro em breve.

Vejamos agora as citadas declarações da Secretária do Tesouro dos EUA Janet Yellen.

O problema é que as economias ocidentais estão a chegar naturalmente ao seu ponto de rotura, como é natural no sistema capitalista com as suas crises cíclicas. De vez em quando vem uma realmente grande. 1900, 1930, etc. E sabemos ao que essas deram origem.

A produção de bens de consumo das empresas está a exceder a capacidade de escoamento desses bens pela população, e isso é agravado pela quebra nas exportações para o chamado “Terceiro Mundo”, que tem vindo a criar os seus próprios mercados e é já capaz de produzir as mesmas coisas que os países “ricos” produzem, e muito mais barato.

A redução da produção poderá então parecer uma boa medida, pelo menos para quem é Secretária do Tesouro mas não percebe nada de Economia. É que os custos fixos das empresas (instalações, empréstimos, amortizações, etc.) mantêm-se constantes, eles não dependem do volume da produção, e se as receitas baixarem isso vai arruinar a maioria dessas empresas. Elas apenas podem atuar sobre os custos variáveis, reduzindo matérias-primas e despedindo pessoal. E o aumento do desemprego daí resultante irá por sua vez afetar ainda mais o poder de compra da população. E a partir daí o caminho é sempre para baixo…

Podemos pegar nas teorias apocalípticas que preconizam a redução da população mundial. Mais uma vez, conversa fiada. O Capitalismo não tem interesse nenhum em reduzir a massa de consumidores que lhe garantem a própria sobrevivência. Nem vou perder tempo com isso.

Mas crescem cada vez mais as evidências de que algumas pandemias modernas poderão ter a mão criminosa dos Estados Unidos por detrás, e começa também a tornar-se muito suspeito que sejam justamente os países de que os americanos não gostam, como a China e o Irão, que mais sofrem com os novos surtos virais, apesar de não serem nem de perto os que têm menos condições sanitárias.

O Covid-19 poderá muito bem ser um projeto de guerra biológica que se terá descontrolado, (Ver aqui), e acabou por ditar a queda de Trump, que obviamente nunca percebeu nada do que estava a acontecer. Existem forças poderosas na América Profunda que têm os seus próprios tentáculos e a sua própria agenda. E sabemos hoje também que farmacêuticas como a Pfizer estavam comprometidas com os laboratórios militares americanos na Ucrânia.

Mas o problema central tem a ver com a sobreimpressão de dinheiro e mais dinheiro feita de forma alegre e descuidada durante muitos anos nos Estados Unidos e na União Europeia, que gerou uma dívida monstruosa e está literalmente a fazer explodir todo o sistema.

Haverei de falar disto mais em pormenor em outra ocasião, mas é preciso ter presente que uma nota de dólar ou euro não é na verdade dinheiro, porque não está associada a nada que tenha valor desde que os países abandonaram o padrão-ouro. Em rigor, são notas de dívida e a sua aceitação depende exclusivamente da confiança dos agentes envolvidos nos mercados de capitais. O Professor Jorge Vilches explica isto muito bem num dos seus últimos artigos no “Blog do Saker”. Foi por isso que, quando Putin assinou um memorando que podia ser interpretado como pondo em causa o fornecimento de gás à Europa no imediato, o Euro deu imediatamente um trambolhão de 20%.Tudo na economia capitalista é volátil porque ela está estabelecida em cima de nada.

Finalmente, a questão ecológica. Eu por acaso também já tinha reparado que aquela garotinha irritante, a Greta Thunberg, se tem destacado pelo silêncio, justamente agora que a Alemanha se apressa a arrasar as suas queridas florestas para produzir carvão vegetal e se aquecer no Inverno, e convenhamos que a Guerra na Ucrânia não parece ser uma coisa lá muito ecológica também. Mas presumi que ela deverá andar atarefadíssima a pôr a sua matéria escolar finalmente em dia.

Meu caro Jorge Figueiredo, o CO2 não é tão inofensivo assim. Aliás, qualquer alteração verificada na composição do ar que nós respiramos terá de certeza influência na saúde das pessoas e dos animais. Não fomos feitos para respirar escapes de automóveis.

Mas a característica mais nefasta do dióxido de carbono no tempo em que vivemos, é que ele tem a propriedade de absorver a energia do Sol, ou o calor, se quisermos. E portanto, quanto mais CO2 houver na atmosfera maior é o aquecimento da mesma. Isto está demonstrado cientificamente, é consensual na comunidade científica e o degelo polar acelerado está aí para o provar. Ainda este ano, em pleno Inverno, foram medidas temperaturas de 20 graus positivos no Alasca. E todas as previsões cientificamente fundamentadas apontam para resultados catastróficos num breve futuro, que de resto já se estão a fazer sentir em Portugal no presente.

Os russos e os chineses não contestam o aquecimento global, só põem em causa que ele aconteça devido ao seu petróleo – os russos -, e às suas centrais a carvão – os chineses -, e percebe-se porquê. Além disso, o aquecimento global irá libertar vastas terras, agora geladas, para cultivo e exploração mineira nos seus respetivos países, que eles gostarão de explorar.

A preocupação dos movimentos ecologistas e dos defensores da vida animal pelo mundo é perfeitamente justificada. Como dizem os garotos, não há planeta B. O problema é que o Capitalismo não perdeu tempo em se apoderar da Ecologia para com ela fazer dinheiro, “chutando para canto” as medidas preconizadas pela Ciência que realmente poderiam salvar o ecossistema para que os nossos filhos e netos nele possam viver. Hei de voltar a falar nisto quando tiver oportunidade.

Claro que caminhamos todos alegremente para o abismo. Toda a gente que sabe alguma coisa, sabe isto. Realmente, é um azar dos diabos não haver o tal planeta B. Mas nada dura para sempre, e isto inclui a espécie humana. As baratas portarão o nosso legado. Duvido que mais alguma coisa consiga viver por aqui quando tivermos acabado o trabalho.


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A grande avalanche

(António Guerreiro, in Público, 08/07/2022)

António Guerreiro

O pressuposto da actual colaposolgia é a de que já se ultrapassou o limiar em que a situação depende da acção humana e tudo o que está a acontecer se tornou irreversível. Isto chama-se niilismo e é o ambiente em que estamos mergulhados.


Um colapso estrondoso ocorrido no passado domingo, com uma dimensão de “terror” que é inerente ao conceito moderno de sublime, elevou aos picos a nova vaga colapsológica, fortalecendo as suas manifestações que têm a forma de uma nova mística. O colapso foi bem real, não se tratou de uma deriva profética: uma parte do glaciar da Marmolada, no nordeste da Itália, o ponto mais alto do maciço alpino, situado a 3309 metros de altitude, desmoronou-se e provocou uma avalanche de gelo e rochas.

Sete pessoas morreram e treze estão desaparecidas. As causas: as altas temperaturas (nesse dia e nos anteriores, tinham atingido 10º C no pico) provocaram o derretimento do permafrost, que é o cimento da montanha. À distância, turistas e caminhantes radicais filmaram a derrocada. Poderosa é a pulsão escópica; irresistível é o “disaster porno

Toda a Itália tem sofrido desde Maio ondas de calor sucessivas que atingem nalgumas cidades 43º C. A última, que durou mais de duas semanas, chama-se Caronte, o barqueiro da mitologia grega que transportava as almas para o mundo inferior dos mortos. O maior rio de Itália, o Pó, secou numa grande parte do seu percurso e a água do mar subiu mais de 30 quilómetros a partir da foz. Estes acontecimentos, que dantes eram classificados como “catástrofes naturais”, entraram numa outra categoria: são vistos como antecipações de um colapso ambiental provocado pelo homem.

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O discurso colapsológico — que vai subindo de tom à medida que é confirmado pela ciência — anuncia-o como iminente. Na sua versão mediática, a colapsologia folcloriza-se e psicologiza-se: o novo mal du siècle (em crescimento, segundo as notícias que vamos recebendo), chama-se “eco-ansiedade” ou, numa designação mais erudita, solastalgia, uma forma de angústia emocional perante os problemas ambientais e as alterações climáticas. “A ecologia torna-nos loucos”, escreveu Bruno Latour em Face à Gaïa.

Começa aliás a desenhar-se uma guerra inédita: a geração dos filhos acusa a geração dos pais e dos avós de terem devastado o planeta e de lhes roubarem o futuro. É claro que há aqui um equívoco: os processos que levam ao colapso estão em curso há muito tempo (muito embora se tenham acelerado enormemente nas últimas três ou quatro décadas) e desenrolam-se segundo ritmos múltiplos. Além disso, o imaginário colapsologista, na sua versão bíblica, tende a projectar uma queda (um “lapsus”) simultânea e comum, em que tudo e todos sofrerão o colapso ao mesmo tempo (“co-lapsus”), enquanto o que se verifica de facto é que enormes desigualdades determinam o desenrolar das catástrofes.

Ao mesmo tempo que se dava a derrocada da Marmolada, os principais aeroportos europeus e alguns nos Estados Unidos entraram também em colapso. A queda, o lapso, assume neste caso uma outra forma, que é a de uma catástrofe serena. Não houve quedas de aviões, apenas aconteceu que muitos não subiram e as multidões do êxodo estival e as respectivas bagagens acumularam-se, exasperadas, frenéticas, vulneráveis, confrontadas com maus presságios.

Umas férias felizes e verdadeiramente tranquilas é hoje uma prerrogativa de poucos. A ilusão de uma felicidade de massas, de que todos podem voar para o seu paraíso de lazer, conduz a um cenário apocalíptico, de multidões reféns das companhias de aviação, da logística dos aeroportos, da falta de trabalhadores, do controlo sobre aqueles que querem vir para cá trabalhar.

A canícula de Caronte, a avalanche da Marmolada, o êxodo estival com partida e chegada adiadas, em aeroportos que parecem campos de refugiados — tudo isto faz parte de uma “crise total” que põe muita gente a desejar de facto o colapso, a sentir o amor fati, o amor pelo próprio destino. O imaginário do colapso total provocado pela acção humana teve a sua primeira manifestação com o medo da bomba atómica. Mas aí tudo dependia da racionalidade ou irracionalidade humanas e da possibilidade de controlá-las.

O pressuposto da actual colaposolgia é a de que já se ultrapassou o limiar em que a situação depende da acção humana e tudo o que está a acontecer se tornou irreversível. Isto chama-se niilismo e é o ambiente em que estamos mergulhados.



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A grande denegação

(António Guerreiro, in Público, 11/02/2022)

António Guerreiro

O estado de denegação é gritante e até obsceno, mas até agora, na esfera pública, ninguém tinha erguido a voz a denunciá-lo. Fê-lo Viriato Soromenho-Marques, professor universitário, ligado há muitos anos, civicamente e em termos de conhecimento científico e reflexão filosófica, às questões do ambiente e da ecologia: “Chegou a ser escandaloso, o conceito de crescimento ocupou o palco como se estivéssemos no século XIX”. Estas palavras, proferiu-as ele numa conferência na Academia das Ciências (segundo uma notícia da Lusa que o PÚBLICO online reproduziu na passada segunda-feira), referindo-se à campanha eleitoral.

Assim foi, de facto. E, no entanto, o país (e não apenas este: a Espanha está na mesma, o sul de França também, a Itália idem, para não irmos mais longe) estava — e continua — a viver do Minho ao Algarve uma seca extrema. Só o calendário nos diz que é Inverno. Desta vez, nem os radicais urbanos que olham a meteorologia a partir do guarda-fato e das banais contingências quotidianas podem ignorar o desastre em expansão. Enquanto a Terra aquece e se acelera a um ritmo vertiginoso a sexta extinção em massa (poderá a humanidade sobreviver sem os “serviços” biológicos prestados pelo mundo dos seres vivos que a sustenta?), o discurso político da campanha, como já era antes e continuará a ser depois, não se desviou um milímetro das consabidas discussões sobre economia, recuperação, crescimento, etc. Escandalosa é esta denegação: todo o edifício económico, seja ele visto mais à esquerda ou mais à direita, mais virado para a produção da riqueza ou para a sua distribuição, anuncia-se hoje como um desastre programado. Esta evidência já nem precisa de ser apreendida por aturadas investigações científicas, está bem patente e só fechando os olhos é que é possível não vê-la.

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Fechar os olhos é precisamente o que fazem os responsáveis políticos de todo o mundo, que vivem no estado de denegação (leia-se, sobre isto, Living in Denial: Climate Change, Emotions and Everiday Life, de Kari-Mari Norgaard). O tempo em que a denegação era motivada pela ideia de que a própria ciência estava a criar um embuste, de que não havia provas científicas de que estava a acontecer um ecocídio ou, pelo menos, de que ele não era engendrado pelas actividades humanas — esse tempo já passou. Agora, parece que já toda a gente se convenceu de que a ameaça de colapso não é uma invenção, de que as alterações climáticas se estão a ampliar a uma enorme velocidade e de que o território inabitável não pára de crescer (Inverno após Inverno, Verão após Verão, chegam as confirmações). Mas a universalização desta evidência originou uma outra categoria de denegação, aquela que em inglês se chama implicatory denial: existe a consciência de que as alterações climáticas são uma realidade, com efeitos que podem levar à extinção da espécie humana, mas tudo prossegue como se nada fosse. E o “tudo” compreende os programas políticos, as actividades económicas, a organização da vida quotidiana e profissional.

Como se explica que tenhamos já a experiência vivida dos impactos das mudanças climáticas e, no entanto, isso tenha um efeito quase nulo nos comportamentos e decisões dos poderes políticos, que se mantêm em denegação? É fácil de explicar: são tão fortes as palas ideológicas que o olhar não muda de direcção. Era precisamente para obrigá-los a seguir sempre em frente que se punham palas nos cabrestos dos burros.

Outro efeito das palas ideológicas: elas põem-nos à espera de que a tecnologia nos salve.

Uma dos temas mais discutidos nesta campanha eleitoral, trazido ao palco por mediação de um novo partido político, a Iniciativa Liberal, foi o liberalismo. A discussão foi exclusivamente ideológica e demonstrativa do regime de denegação em que vivem uns e outros. Nas circunstâncias actuais o liberalismo económico já não precisa de ser combatido no campo ideológico: o colapso ecológico-climático está prestes a encarregar-se de enterrar os seus laboriosos empreendimentos, a tolher os seus impulsos, a escarnecer dos bons ofícios do mérito. Sejamos aliás correctos: tais impulsos e empreendimentos, mesmo quando ideologicamente criticados, nunca deixaram de ser seguidos na sua lógica, em todas as latitudes político-ideológicas. A denegação é de largo espectro e afecta também o regime de temporalidade: não há nada excepto o presente.



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