Carta Aberta a Marcelo Rebelo de Sousa e a Luís Montenegro

(Mário Gonçalves, in Facebook, 14/08/2025, Revisão da Estátua)


Sobre a vergonha nacional que é virar as costas ao país em chamas.


Senhor Presidente da República, Senhor Primeiro-Ministro

Enquanto Portugal arde de norte a sul, enquanto as chamas devoram casas, florestas e vidas, enquanto bombeiros exaustos lutam dia e noite, arriscando tudo para proteger o que é de todos, os senhores… apanham banhos de sol. Como se nada fosse. Como se o drama de um país inteiro fosse apenas um ruído de fundo nas vossas férias.

É uma afronta. Uma falta de respeito gritante. Um retrato perfeito da distância que separa os corredores do poder da realidade que o povo vive na pele. Famílias inteiras perderam o teto que as abrigava. Crianças e idosos viram-se obrigados a fugir à pressa, com o fumo a queimar-lhes os pulmões e o medo a consumir-lhes o coração. Bombeiros morreram. E, mesmo assim, os senhores não interrompem o descanso dourado.

Não basta discursar sobre solidariedade quando as câmaras estão ligadas. Não basta vestir a máscara de “defensor do povo” quando, na verdade, se dá prioridade ao bronzeado em vez da presença no terreno. O país precisava ver os seus líderes no epicentro desta tragédia, não por vaidade ou pose, mas para liderar, para apoiar, para coordenar, para mostrar que a vida das pessoas vale mais do que a vossa comodidade.

E não venham com a desculpa das “agendas oficiais” ou do “trabalho remoto”. O que o povo vê é simples: quando mais precisávamos, os senhores escolheram estar longe. Escolheram não sentir o cheiro do fumo, não ver de perto a angústia de quem perdeu tudo, não apertar as mãos calejadas dos bombeiros que combatem com meios insuficientes e salários indignos.

Esta indiferença não se apaga. É mais um capítulo vergonhoso de uma classe política que se habitou a viver imune ao sofrimento real das pessoas. O vosso dever não é apenas governar quando dá jeito, é estar presente quando tudo se desmorona. E agora, senhores políticos, vocês falharam. Falharam redondamente.

Portugal não precisa de líderes que virem as costas ao fogo. Precisa de líderes que enfrentem as chamas ao lado do seu povo. E, hoje, vocês deixaram claro que não são esses líderes.

Com indignação, Um cidadão que recusa ser tratado como figurante no seu próprio país,

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Los Angeles lembra Hiroshima e Gaza; a diferença é que os moradores tiveram tempo para fugir

(Jorge Rendón Vásquez, in Diálogos do Sul, 17/01/2025)

Imagem de Los Angeles após incêndios no início de janeiro

Fotografias dos bairros de Los Angeles varridos pelo fogo mostram paisagens devastadas e sombrias, como as deixadas após as bombas lançadas pelos EUA em 1945 no Japão.


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Um feroz incêndio assolou vários bairros da cidade de Los Angeles, nos Estados Unidos. Queimaram-se as casas, os veículos e tudo o que havia ali em cerca de 150 km² (aproximadamente 10 km de largura por 15 de comprimento), algo semelhante à extensão de Santiago de Surco e San Borja em Lima.

E o fogo superou amplamente os esforços de cerca de 15 mil bombeiros vindos de várias partes dos Estados Unidos, além de aviões e helicópteros que derramam substâncias anti-inflamáveis, como minúsculos pontos em movimento diante das proporções dantescas das chamas.

Nunca estive em Los Angeles, mas a cidade me é familiar pelos personagens e cenários dos romances de Raymond ChandlerRoss MacDonaldMichael Connelly e James Ellroy, que, além de me entreterem, me ensinaram certas técnicas e alguns truques da narrativa. O tão popular Sunset Boulevard, por onde frequentemente transitam os personagens desses romances, foi duramente afetado.

E, claro, já começa a busca por bodes expiatórios para distrair a opinião pública.

Por que isso aconteceu em Los Angeles?

Pelo jeito, trata-se de um efeito do aquecimento global. Com o enorme consumo de combustíveis fósseis por veículos, empresas e residências dos 334 milhões de habitantes dos Estados Unidos, o ar na atmosfera se aqueceu e, ao se elevar por ser mais leve, o espaço deixado foi preenchido pelo ar frio do oceano Pacífico, criando uma corrente de ar que encontrou algumas faíscas acesas e as avivou, como se sopra o ar nas brasas ao fazer um churrasco. Uma vez iniciadas as fogueiras, estas, ao aquecerem o ar, o elevam, gerando novas correntes que alimentam intensamente as chamas. E assim por diante. A combustão foi facilitada pela madeira e pelo plástico usados como materiais de construção.

As fotografias dos bairros afetados mostram paisagens devastadas e sombrias, semelhantes às de Hiroshima e Nagasaki [e Gaza, nota do editor] após a explosão das bombas atômicas que o governo dos Estados Unidos ordenou lançar sobre elas, em agosto de 1945, quando suas populações civis formigavam em ruas, mercados, empresas, escolas e hospitais ou estavam em suas casas. Naquela ocasião, foi apenas uma bomba para cada uma dessas cidades. Desta vez, a natureza foi magnânima: deu tempo para que as populações dos bairros que iriam arder fossem evacuadas.

Da esquerda para a direita: Los Angeles, Gaza, Hiroshima


A reconstrução dos bairros e casas destruídos pelos incêndios em Los Angeles custará muito dinheiro ao estado da Califórnia e ao governo estadunidense. Mas será que gastarão? E, além disso, será que dispõem dos recursos necessários? E, se não os tiverem, pedirão a cooperação da população não afetada ou tomarão empréstimos, aumentando ainda mais sua gigantesca dívida pública? Ademais, em que nível de prioridade colocarão esses gastos? Continuarão priorizando as despesas militares?

De fato, as empresas de seguros já enfrentam uma perspectiva difícil para pagar as indenizações contratadas contra risco de incêndio, e pode ser que não as paguem, a menos que o governo e o Federal Reserve lhes concedam empréstimos.

Seja como for, esta tragédia de Los Angeles despertou nas demais populações do mundo sincera comoção.

Fonte aqui

Fogos, eucaliptos, comentadores e políticos

(Raquel Varela, in Facebook, 17/09/2024)


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Já cá faltavam comentadores a explicar que as “propriedades das celuloses não ardem”. Como? Ardem, e ardem sem parar. O país todo é das celuloses. Que têm meia dúzia de propriedades suas, em zonas muito produtivas, e planas, com muita água e onde compensa ter, por exemplo, guardas florestais próprios. As outras propriedades das celuloses – onde há mais riscos – são o país restante, quase todo, da serra do Algarve onde o eucalipto seca tudo, ao pinhal interior, onde nenhum bombeiro chega. Em que as celuloses não estão para arriscar, compram a famílias pequenas a madeira, que são juridicamente proprietárias mas de facto quem controla o mercado e a quem vendem é as celuloses.

As famílias arriscam porque quando não arde dá para, ao fim de 9 anos, pagar os estudos de um filho. Se trabalharem a vida toda muitos não conseguem pagar os mesmos estudos. As celuloses é que fixam o preço, escoam o produto, determinam a taxa de lucro, são um monopólio que controla governos. Nenhuma casa – repito – nenhuma casa de proprietários das celuloses está rodeada de eucaliptos. Da mesma forma que a EDP subcontrata a milhares de pequenas empresas inviáveis os serviços que antes eram da EDP, e nela se acumulam lucros e nas pequenas só custos, as celuloses subcontratam a milhares de pequenos proprietários o risco de colocar uma piscina de gasolina – é isso o eucalipto – às portas de casa.

A falta de limpeza, o clima, os poucos meios, são cerejas numa refeição fatal que se chama eucalipto. Sou filha de engenheiros florestais. O meu pai fez-nos uma lista de praias fluviais, zonas a nunca visitar entre Maio e Outubro, estradas onde não devemos passar, e já me obrigou – e bem – a sair de um turismo rural com os meus filhos porque não há bombeiros, aviões, máquinas que parem um fogo de eucalipto. Paguei e saí, sem dormir, e não havia incêndios ativos. Havia calor, baixa humidade e vento, como há em todo o Mediterrâneo desde sempre. Há pessoas na minha família que compraram o terreno do lado para tirar de lá os eucaliptos, e não ter a casa em risco.

Fiz este verão 7 mil km na Europa de comboio. Vi florestas lindas, que só dão riqueza ao fim de 30 ou 40 anos. Madeiras nobres, magníficas. Portugal é um eucaliptal, e os mortos e casas destruídas são o “normal funcionamento do mercado”. As lágrimas de Ursula Von der Leyen são de uma UE que alimenta a monocultura ao mesmo tempo que finge chorar as tragédias. Ah! Quase ia esquecendo – na minha viagem, passei pelo castelo, na Alemanha, de um onde vem a família Von der Leyen – um lugar magnífico, rodeado de carvalhos e vinha.


(Raquel Varela, in Facebook, 18/09/2024)

O Governo do PSD, namorado pela extrema-direita, veio explicar que vai ter mão firme contra os pirómanos e resolver os incêndios com mais polícia. Depois de o governo PS ter explicado em Pedrógão que a culpa era do mato e que ia resolver tudo com uma máquina de cortar mato. Só há uma palavra proibida – eucalipto. Digam comigo: não se pode dizer a palavra eucalipto.

Terá passado despercebido ao governo, já que a nós cidadãos não passou, que só ardeu eucalipto, porque não há mais nada para arder. Que o eucalipto é o pirómano, o criminoso, que joga novos fogos a km de distância. E que a polícia não estava lá para cumprir os mínimos de segurança, encerrando estradas. São centenas as imagens de estradas e autoestradas a arder e que se não fosse o Google Maps e o Waze, e a desobediência das pessoas, teríamos provavelmente um drama ainda pior do que o de Pedrogão. As imagens são dos carros a ser abandonados, a arder, são das pessoas a vir em sentido contrário em plena autoestrada a fugir, e nem um polícia se vê. Um!

Mas o Governo anuncia mais uma taskforce para mais polícias. Vou dizer-vos, com sinceridade, depois de um mês fora daqui, em silêncio, só a ver, fazer e falar de coisas bonitas, no meio de florestas lindas, que o que mais me incomoda é que a lógica do capitalismo – palavra proibida, como o eucalipto -, nos empurra todos os dias para falar de propostas absurdos, em debate com medíocres. De cada vez que procuramos dar um salto e pensar, somos empurrados pela ignorância alheia para baixo.

Queremos falar de um país com cidades pequenas, ligadas por comboio, redes de bicicleta ao longo de rios, agricultura biológica, parques naturais, floresta diversificada, e temos que responder a nada. Esse é um dos grandes truques deste sequestro intelectual que vivemos.

Estamos sempre a responder a nada. Não há um diagnóstico correto, uma ideia consistente, planeamento por anos de nada, já que o mercado, os acionistas, querem retorno a meses, sobra um caos e um terramoto de propaganda.

TEDx em vez de política. Um dia isto dá a volta, há muita gente farta, indignada, e que sabe planear e pensar o país, na educação, na saúde, no território, nos transportes. Parte do problema dos média, sem contraditório, é fazer-nos pensar que não há, perdemos assim a esperança. Mas há. São urgentes formas de jornais, que venham dos sindicatos e das comissões de trabalhadores, das associações, que abram uma nova esfera pública, que dê espaço, com contraditório, a quem pensa a sério o país e acredita nele.