O humor de Marcelo e a saudação a Cavaco Silva

(Por Carlos Esperança, in Facebook, 20/07/2017)

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Marcelo tem um humor refinado e desconcertante. Nem sempre a sua pontaria é tão certeira como a que dispara ósculos para anelões episcopais, com particular acuidade para o do papa, onde, à precisão, acrescenta abundante secreção de saliva pia, em pleno alvo.

A atribuição do mais alto grau da Ordem da Liberdade a Cavaco Silva foi o mais alto e refinado momento de humor. Parecia o Pedro dos Leitões a condecorar um vegetariano, e houve quem não lhe apreciasse o humor… negro!

Não se pode negar a quem tem manifestado notável sentido de Estado, e a quem o País deve parte do ambiente descontraído que o ressentido antecessor perturbou até ao último dia, que continue a brindar-nos com inofensivos rasgos de sofisticado humor.

Ao saudar Cavaco Silva “de forma muito especial e calorosa”, pelo 30.º aniversário da primeira maioria absoluta monopartidária da democracia portuguesa, conquistada pelo PSD a 19 e julho de 1987, humilha Passos Coelho e sabe que o País não corre o risco de voltar a ver Cavaco nem como vogal de uma Junta de Freguesia.

Com este ato de humor, Marcelo há de ter-se divertido, por ter sido ele próprio o criador de Cavaco, na Figueira da Foz, e sabe que a sua popularidade se deve também à comparação com o inculto e rancoroso antecessor.

E foi o único a lembrar-se do defunto político!

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A comparação desleal entre Marcelo e governo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/07/2017)

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Como diria Herman José, as dinâmicas mediáticas são como os interruptores: umas vezes para cima outras vezes para baixo. E se há um mês e meio o Super Mário fazia as maravilhas dos jornalistas, que se ririam de quem não vaticinasse todos os sucessos para este governo, agora não há nada que não confirme a dinâmica do desastre. Até outra coisa voltar fazer mudar o tom. Sendo certo, isso nem António Costa ignora, que Pedrógão deixará marca permanente, mesmo que ela não seja eleitoral, é sempre bom relativizar este mundo muito próprio em que vivem jornalistas, comentadores e políticos. As sondagens conhecidas recordam isso mesmo.

A última novidade é o facto do Presidente da República ter respondido a uma carta de uma sobrevivente de Pedrógão, que justamente se queixava de várias falhas do Estado, e o governo não o ter feito. Na SIC, Clara de Sousa até perguntou a Pedro Marques se o executivo não se sentia “humilhado”. A partir disto construiu-se uma nova narrativa, diferente daquela que punha o Presidente a reboque do governo, sempre pronto para aparar os seus golpes: num mar de incompetência que assola, como nunca antes aconteceu, o Estado, há um Presidente absolutamente excecional. Uma ilha de competência e sensibilidade.

Tirando nos momentos de crise, como foi a queda do primeiro governo minoritário de Cavaco Silva (Soares), a substituição de Barroso por Santana com a posterior dissolução do Parlamento (Sampaio) e o curto segundo governo de Passos substituído por Costa (Cavaco), os presidentes fazem, desde meados dos anos 80, pouco mais do que gerir imagem, influenciar a vida política e lidar com o simbólico das coisas. É uma tarefa importante mas, com o mínimo de talento, pouco desgastante. E é por isso que é preciso ser especialmente inepto para conseguir o milagre de atingir os níveis de impopularidade que Cavaco Silva atingiu. Pelo contrário, esta é área em que Marcelo é rei. E é quase só nisso que se tem de concentrar.

Se os jornalistas comparam um telefonema a uma das vítimas à resposta prática a todas as tragédias pessoais e coletivas que Pedrógão criou não se podem espantar que os políticos aprendam, para serem reeleitos, a valorizar a boa história para os jornais em vez da resposta aos reais problemas das populações

Perante uma tragédia como a de Pedrógão, o governo tem de pôr, num mês, toda a pesada máquina do Estado a funcionar depressa. A segurança social, a investigação, a nova legislação a aprovar, a coordenação com as autarquias, os pedidos de apoio comunitário com respetivo levantamento de necessidades e negociação com Bruxelas, a reconstrução e apoio a pequenas obras… Apesar de ser um trabalho tremendo perante a legitima ansiedade de quem perdeu tudo ou quase tudo e a pressão da comunicação social, os ministros não têm de se queixar. Foi para dirigir o Estado que se candidataram.

O Presidente tem apenas de estar informado e transmitir as mensagens certas. Isto não o diminui. É a sua tarefa e ela é muitíssimo importante. O próprio governo deveria, provavelmente, ser mais competente neste pelouro. O que é totalmente absurdo é alimentar uma comparação entre a coordenação de imensos serviços e instituições, onde tudo pode falhar perante a burocracia, a indecisão ou até a impossibilidade, e a mera transmissão de mensagens que pode viver exclusivamente de uma atitude voluntarista individual. É comparar responsabilidades e tarefas incomparáveis.

A comparação é, pela lógica mediática, compreensível. A comunicação social tende a privilegiar o simbólico em relação à substância, a mensagem em relação à ação, o imediato em relação ao gradual. A comunicação social é mais sensível a um telefonema do que ao emaranhado de ações e instituições. É da sua natureza. Mas se não compreender que essa é uma limitação sua, e não corresponde à real importância das coisas, criará nos cidadãos uma perceção errada da ação política. Que inevitavelmente se vai refletir no comportamento dos políticos. Já se reflete, na verdade. Os políticos tendem a valorizar tudo o que os jornalistas valorizam, agindo sobre o imediato e o simbólico, o aparente e o fácil, e negligenciando o que é mais importante. E isso ajuda a explicar porque acontecem coisas como Pedrógão.

 

Se os jornalistas comparam um telefonema a uma das vítimas à resposta prática a todas as tragédias pessoais e coletivas que Pedrógão criou não se podem espantar que os políticos aprendam, para serem reeleitos, a valorizar a boa história para os jornais à resposta aos reais problemas das populações.


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Semanada

(In Blog O Jumento, 09/07/2017)
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Há muito tempo em silêncio a direita militar esteve há beira de vir para a rua, isto é, aqueles que no passado sanearam a esquerda militar com o argumento das manifestações esperaram pela aposentação e pela consolidação da democracia para se armarem em MRPP. Entretanto, alguns generais decidiram aproveitar-se do roubo de Tancos para extravasarem sentimentos antigos. Maus dias para a tropa, primeiro ficámos a saber que os arsenais de material militar são mais fáceis de roubar do que uma caixa de Multibanco, agora assistimos a um míni PREC da direita militar, a tal que era a defensora dos bons valores.
Marcelo parece estar à beira de mudar o Palácio de Belém para Pedrógão, se não vai à missa das oito vai ao concerto da noite, tudo o que por lá se passa conta com a presença do Presidente, está prometida a passagem do Natal e até lá é de esperar que seja o padrinho de todas as crianças que sejam batizadas. Talvez Marcelo não se aperceba, mas Pedrógão não é o único problema do país, vale pela dimensão, o somatório de todas as pequenas desgraças do país resulta num incêndio bem maior do que o que ocorreu naquela localidade.
Passos Coelho chamou cata-vento a Marcelo e este chegou a Presidente, talvez isso explique as cambalhotas que tem dado. Parece que Passos aderiu ao efeito cata-vento convencido de que da mesma forma que Marcelo ganhou as presidenciais ele poderá ganhar as legislativas. Um bom exemplo desta política do cata-vento é a relação com os sucessos na economia, num dia o governo destruiu o Estado com as suas políticas, no outro todos os sucessos se devem ao que fez o seu governo.
Outra espécie de cata-vento é a Catarina Martins, ora parece uma grande defensora da Geringonça, ora aparece como a líder da oposição. Foi divertido ver a deputada Mortágua protestar contra as cativações como se tivesse sido ela a descobrir o grande crime económico de Mário Centeno. O problema é que a Assunção cristas anda há meses a desvalorizar os sucessos do governo na política orçamental, pelo que a Dra. Mortágua escusa de colocar aquele ar de grande economista que acabou de descobrir uma grande coisa.

Os juízes não quiseram ficar atrás da direita militar e também querem fazer política, parece que querem mudar o estatuto. Certamente não querem deixar de receber os 500 euros limpos de impostos a título de subsídio de residência, um subsídio único na sociedade portuguesa, é pago até á morte, é pago aos dois membros do casal se forem ambos juízes e é pago mesmo que tenham casa própria em frente ao tribunal onde trabalhem. Mas já começa a ser um hábito que este órgão de soberania não eleito faça espetáculo quando a direita não está no poder.