Alberto João Jardim (AJJ) e o Presidente da República

(Carlos Esperança, 24/07/2021)

O velho sátrapa madeirense, um salazarista que nunca se converteu à democracia, e que procurou limitá-la no espaço onde ficou à solta na excessiva autonomia, continua, após a saída de cena, a ser um boçal sem freio.

Querendo o PR honrá-lo, a pretexto de um prémio atribuído ao ex-autarca, manifestou a intenção de ser ele próprio a entregar-lho na deslocação para assinalar o 45.º aniversário da Assembleia Regional.

Surpreendentemente, já com o PR na Madeira, AJJ alegou estar de férias, e a cerimónia teve de ser adiada. Nunca um PR foi humilhado no espaço nacional de forma tão soez, nem uma afronta de tal dimensão mereceu tanto silêncio.

As televisões não convocaram os comentadores do costume, os psicólogos não foram chamados a diagnosticar os sintomas do primata, e os média, habituados a condenar o ofendido e a ignorar a ofensa, pouparam o PR e optaram por desvalorizar o incidente.

Ao dar um coice a Marcelo, o execrável cidadão não o ofendeu, quem se avilta é o agressor e não a vítima, mas injuriou o órgão de soberania e todos os portugueses.

Em campanha eleitoral autárquica numa das freguesias do Funchal, em desafio ao poder nacional, ainda ampliou a afronta: “Nunca tivemos, na história da autonomia, uma dupla tão ferreamente anti autonomia como este primeiro-ministro e este presidente da República.” [sic]

Depois de Cavaco ter abandonado a cerimónia de posse do segundo mandato deste PR, sem o cumprimentar, pensava-se que a rudeza de maneiras não teria sucessor. Tínhamos esquecido do que era capaz o abrutalhado cacique insular.

Os portugueses invejam-lhe o fígado que destilou hectolitros de poncha, mas deploram o chantagista que incita a Região contra os órgãos de soberania nacionais.


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Aventuras e desventuras do dos afectos

(Amadeu Homem, 17/06/2021)

Leio no Sapo-Informação que o governo, considerando a progressão da pandemia, “decidiu e proibiu a circulação de e para a Área Metropolitana de Lisboa ao fim de semana”.

Isto deve ser uma “fake new” . O dos afectos não quer! O dos afectos, como gosta muito de nós todos, declarou por extenso que “com ele nunca haveria marcha atrás no processo do desconfinamento”. Eu ouvi. O País todo ouviu. E quando o Costa, sensatamente, observou que tudo dependia da expansão dos contágios e que nem um PR os poderia prever, o dos afectos abespinhou-se todo, empertigou o papo, encheu-se de brios e declarou, enfaticamente, que um Primeiro-ministro não poderia desautorizar em nenhuma situação um Presidente da República!

O dos afectos ama-nos tão intensa e desmedidamente que nos quererá ver doentes, internados em meio hospitalar, eventualmente, entubados.

Ora, acontece que eu moro no Bairro da Bica, aqui mesmo pertinho do coração do Bairro Alto, onde os sensatos jovens – umas vezes de sexos diferentes outras vezes de sexos iguais – circulam sem máscara e prestam a sua vassalagem ao dos afectos, beijocando-se como calha.

Garanto desde já ao dos afectos que eu nada tenho contra as beijoquices. O gajo que beije as velhinhas cariadas, que abrace os jovens, que faça festas aos meninos de colo, que faça o que bem lhe apetecer para que o desconfinamento lisbonense nunca volte para trás, uma vez que ele assim o decidiu.

O que a mim me chateia é a possibilidade de ficar doente, de ter de hipoteticamente ser internado no Hospital de Santa Maria (preferiria esse) ou entubado nos cuidados intensivos desse mesmo hospital.

Eu confesso que nada me daria mais prazer do que continuar a ouvir o dos afectos a cacarejar as coisas descerebradas que ele serve aos basbaques. Mas já me chateia quando tenho de lhe pagar os preços das baboseiras expelidas pela boca beijoqueira com o meu rico corpinho e com a minha preciosa saúde.

Por isso, decido escrever este texto, com a esperança improvável de que tal gajo não se lembre de vir ao Bairro da Bica e me infecte a Travessa do Sequeiro.


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Desconfinar a democracia

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/06/2021)

Daniel Oliveira

O pingue-pongue entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa segue o guião de muitas polémicas mediáticas: jornalistas vão pressionando para respostas e contrarrespostas para alimentar uma novela, queixando-se, no fim, do triste espetáculo. Terá a única vantagem de ficarmos a saber que estão em desacordo, o que não tem nada de lamentável. Mas é insistir na política chiclet: mastiga durante uns dias e deita fora.

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Dar relevo ao facto de Marcelo ter dito que, “por definição, o Presidente nunca é desautorizado pelo primeiro-ministro, porque quem nomeia o primeiro-ministro é o Presidente, não é o primeiro-ministro que nomeia o Presidente” é alimentar a novela. Se o Presidente respondia a uma pergunta assim formulada pela jornalista (se tinha sido “desautorizado pelo primeiro-ministro”), faz uma correção factual de um erro da jornalista, não do primeiro-ministro. Mesmo que tenha segundas intenções, e com Marcelo tem quase sempre, não me parece que tenham grande profundidade política.

Aquilo a que dou mais relevância no que foi dito pelo Presidente são duas coisas que precisavam de ser ditas.

A primeira é a garantia de que, do que dele depender, as coisas não voltam atrás. O primeiro-ministro quis corrigir-lhe a pontaria, dizendo que ninguém pode garantir que o desconfinamento não recua. Só que, do Presidente da República só depende a declaração do Estado de Emergência. É uma bomba atómica que, perante as sucessivas renovações com debates burocráticos no Parlamento, se banalizou. É um favor que Marcelo faz à democracia tentar recuperar a sua excecionalidade. E isso passa por cumprir o que, no fundo, nos foi prometido: a vacinação serve para regressamos à normalidade. Mesmo continuando a exigir cautelas até chegarmos à imunidade de grupo – com a preocupante subida dos números em Lisboa e Vale do Tejo, por exemplo. A não ser, claro, que a vacina completa se revele ineficaz perante uma nova variante. Por agora, não está em cima da mesa.

É evidente que, para o Governo e para todas as autoridades, não contar com bomba atómica obriga a voltar a usar armamento convencional. Isso exige mais organização e é bom que o Governo e restantes serviços do Estado o saibam. Haverá sempre quem não se incomode com a eternização da excecionalidade constitucional. Só que ela também tem riscos, de outra natureza, que o olhar mais geral de um político não deve ignorar.

Este olhar geral leva-me à segunda afirmação do Presidente: que compreende a posição dos especialistas, que eles têm de ter um papel fundamental de alerta à população e às autoridades para o risco, mas que não governam o país. E seria melhor que os seus avisos fossem menos cacofónicos e que não se voltasse a instalar a ideia que a melhor forma de aconselhar um governo é fazer pressão na comunicação social, criando altos e baixos de ansiedade coletiva e banalizado o discurso do medo que, deviam saber, pode ter efeitos nas populações exatamente opostos aos pretendidos.

Os “especialistas”, diz um jornal, ficaram incomodados, porque, sendo isto verdade, também não é o Presidente que acompanha os doentes nos cuidados intensivos. Primeiro, os “especialistas” não são uma entidade uniforme, como costumam ser tratados pela comunicação social. Há-os para todos os gostos. Depois, sendo verdade que Presidente e Governo não têm contacto direto com o combate à doença, os especialistas nesta pandemia também não têm contacto direto com os problemas de saúde mental que se agravam, com os efeitos sociais do confinamento, com as falências e o drama do desemprego e com milhares de outras componentes desta crise. Nem direto nem, em muitos casos, aproximado. É natural, são especialistas. É por isso que devem ser ouvidos pelo poder político: dão-lhes parte da informação necessária para se tomarem decisões.

É por isto que não governam: não têm informação com a abrangência necessária para fazerem sínteses e tomarem decisões olhando para o problema no seu conjunto. Nem a autoridade, já agora. No fim, não serão avaliados pelos cidadãos por todas as consequências de decisões tomadas. Serão os políticos, como se vê na polémica dos e-mails na CML.

O Presidente fez bem em preparar o regresso à normalidade institucional. As bombas atómicas acabaram e quem tem a legitimidade, os instrumentos e olhar geral sobre a crise é que decide. A melhor síntese do desconfinamento da democracia.


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