Marcelo, que tal pedires desculpa ao Governo?

(Valupi, in Blog Aspirina B, 16/04/2018)

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De acordo com o que a Judiciária tinha divulgado logo no rescaldo do incêndio, a TVI fez uma investigação jornalística onde registou e exibiu indícios, se é que não são provas, de se ter destruído o Pinhal de Leiria por acção criminosa de madeireiros, responsáveis por grandes empresas e também de fábricas que compram e vendem madeira: O Pinhal de Leiria estava armadilhado para arder. Foi para o ar na sexta-feira, dia 13.

Passado o fim-de-semana, eis o que se constata:

– Nove mil hectares do Pinhal de Leiria, correspondendo a 85% da área total, poderem ter desaparecido por causa do negócio da madeira parece que é um assunto que não aquece nem arrefece a opinião pública.

– O dano patrimonial, económico, social, ecológico, paisagístico e turístico que está aqui em causa não chega para inflamar a opinião publicada. Se ainda estivéssemos a falar sobre a propriedade de um apartamento em Paris e o custo de refeições e toaletes de um certo fulano, isso, pois sim, seria causa para a comoção nacional e a fúria punitiva da comunicação social. Pinheiros chamuscados ao serviço do lindo ideal do mercado libérrimo e sua mão invisível, não. Caguemos nisso.

– O aproveitamento político dos incêndios por parte da direita portuguesa, grupo onde se destaca o Presidente da República pelo cinismo e violência com que explorou a situação, não irá queimar ninguém. O espectáculo de miséria moral de vermos os mortos a serem usados como carne para canhão ficará como sedimento no espaço público e na comunidade.

A imagem acima tornou-se no ícone mundial dos últimos incêndios em Portugal. Serviu para ilustrar incontáveis catilinárias sobre a fragilidade e falência do Estado, sobre a incompetência e irresponsabilidade dos governantes, sobre tudo e mais alguma coisa passível de ser usada como bode expiatório e alvo para o ódio e soberba dos publicistas.

Agora, caso se confirmem os indícios em investigação na Judiciária, de que a TVI faz um resumo e quiçá complementa, ficamos com uma pergunta para fazer a Marcelo: “Já percebeste o que aconteceu em Portugal a 17 de Outubro de 2017?”


Fonte aqui

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Voltemos então às coisas ditas sérias!

(Jorge Rocha, in Ventos Semeados, 16/04/2018)

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Agora que já se fechou mais um parêntesis holandês na minha quotidianidade, eis-me disponível para acompanhar com mais atenção as frivolidades de que vão sendo feitas as cenas políticas nacionais e internacionais. Começando pela capa do «Público» de hoje, a escolher ´como notícia principal a produção horária de 29 «T-Roc» na fábrica da Autoeuropa, dando gás às exportações e enervando um pouco mais as impotentes direitas, que veem o governo surfar agilmente as ondas, sem que nada o venha propriamente perturbar. Não tivessem sido os incêndios do verão passado – e o aproveitamento oportunista de Marcelo para com eles entalar António Costa – e a popularidade deste último pediria claras meças ao demagogo das selfies e dos abraços. Razão acrescida para tomar medidas cautelares muito eficientes contra os incendiários, que uma reportagem mostrada na TVI nos últimos dias, comprova serem como as bruxas espanholas: «que los hay, hay…»

Passemos oportunamente para Espanha e para a mais recente «pérola» presidencial, pois correspondendo ao convite do símbolo maior da opressão por que passam hoje em dia os catalães, Marcelo pôs o patriotismo de férias e disse-se muito apegado aos «nuestros hermanos» desde que tinha seis anos. Vale então a pena lembrar Almada Negreiros (saudação especial daqui ao Gustavo Morais da Marinha Grande!) que dizia se o Dantas era português, antes quereria ser espanhol. Podemos atualizar a máxima e invertê-la adequadamente: se o Marcelo gosta tanto de se sentir espanhol, mais uma razão bem forte para nos sentirmos arreigadamente portugueses!

Continuando nas notícias da primeira página do matutino da Sonae, dá para sentir algum prazer com os aborrecimentos do pato bravo dos ferries do Douro, que quereria construir um hotel em leito de cheia. Se Passos Coelho e Aguiar Branco lhe proporcionaram a escandalosa negociata, que dele fez o intermediário do «Atlântida» entre os ainda públicos Estaleiros de Viana e o seu comprador final, talvez os seus esquemas encontrem bem menos acolhimento neste governo do seu descontentamento.

Concluindo, enfim, com o propósito de Centeno em ser o campeão europeu da redução da dívida – e o que isso poderá implicar para que a qualidade de vida dos portugueses não melhore tão substantivamente quanto as condições atuais justificariam – sobretudo na saúde – mantenho a dúvida quanto ao verdadeiro objetivo do ministro das Finanças: provar que a dívida é resolúvel sem qualquer revisão nas suas periodicidades ou juros? Ou tudo fazer para objetivos pessoais, que já se conjeturam, mesmo justificando-se a máxima prudência para com as tergiversações do semanário de Balsemão?


Fonte aqui

Os incêndios e os vampiros

(Por Carlos Esperança, 23/03/2018)

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O êxodo dos meios rurais, o desordenamento florestal, o excesso de eucaliptos, a incúria dos municípios e proprietários, o negócio dos fogos, a vertigem dos incendiários, a rede elétrica e fenómenos climatéricos anómalos, reuniram-se, no ano 2017, para acrescentar ao desastre habitual, a morte e o sofrimento de numerosas vítimas.

O que se torna obsceno é a mórbida evocação, a impedir o luto do país e, sobretudo das famílias, com fins partidários, e necessidade de esquecer responsabilidades passadas e presentes de uma direita sem pudor, remorsos ou soluções.

Após numerosas missas, exibições de labaredas, reincidentes visitas do PR e evocações diárias da tragédia, repetem-se relatórios, acusações furiosas da direita, com provedores de Misericórdias, vítimas que fazem o luto na televisão, ex-autarcas do PSD nomeados generais de bombeiros e a rede de comentadores que vive da exumação de cadáveres.

Porque é preciso que o fogo das acusações continue atiçado, aparece mais um “relatório independente” onde «o maior fenómeno piro-convectivo registado na Europa até ao momento e o maior do mundo em 2017, com uma média de 10 mil hectares ardidos por hora entre as 16:00 do dia 15 de outubro e as 05:00 do dia 16» tem por base declarações de um ex-responsável para imputações ao governo cuja audição foi julgada supérflua.

Já voltaram à comunicação social os avençados do costume, os acusadores de turno, os líderes dos partidos com bitolas distintas para mortos de incêndios e de procissões, que distinguem a tragédia dos fogos em matas privadas e a da queda de um carvalho sobre a procissão, no adro de uma igreja da Madeira.

Até o PR, devorado pela devoção e afetos seletivos, reza mais por uns do que por outros, e atrela um bispo para missas de sufrágio dos que foram queimados, e dispensa-o para os que a árvore esmagou, sem que a Igreja seja tão pródiga a ressarcir as vítimas como o Estado.

Já é tempo de aproveitar a chuva para apagar os fogos e incentivar a sua prevenção.