Arraia-miúda

(Raquel Varela, in raquelcardeiravarela.wordpress.com, 14/06/2022)

Em pleno dia 10 de Junho a sequência das notícias fala por si. Marcelo vai a Inglaterra, elogiar a “arraia miúda” , fala da aliança Portugal-Inglaterra (uma dependência, nunca foi “aliança”), a seguir condecora um enfermeiro imigrado, que obviamente fugiu dos baixos salários e más condições de carreira, e logo a seguir – na mesma sequência de noticiário – temos as urgências de obstetrícia fechadas, numa semana em que se suspeita da morte de um bebé, por eventual ausência de cuidados de saúde.

Um país a saque. Em que a burguesia sente orgulho do desastre, vendem o país, expulsam trabalhadores, condecoram-nos e ainda, da casa-mãe Inglesa, se chama ao povo “querida petinga”, com um ar de complacência com o povo. Só perderam de facto esse ar em 74-75, esta burguesia dependente e súbdita, quando tiveram medo e o povo deixou de ser um emblema na lapela e ganhou direitos.

No ano em que as misericórdias foram expropriadas, e os médicos ocuparam (literalmente) hospitais, os colocaram sob gestão democrática, e ergueram as carreiras médicas, que permitiram construir um SNS. Esse passado assustador para as elites que têm médicos privados 24 horas por dia, passado que convém embrulhar na noção de “caos”, e oferecer um eterno presente de discursos extravagantes e elogios ao 25 de Novembro. Nem um pingo de noção histórica, e nem um pingo de decoro sobra.


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A sorte que temos

(José Gabriel, in Facebook, 08/06/2022)

(Publico este texto como uma espécie de aparente interregno da campanha da guerra. E digo aparente porque com o mundo a desabar diariamente à nossa volta, a grande preocupação de D. Marcelo I é a bola e a sua vocação para treinador de bancada. E lembrei-me do Titanic e do filme: o barco a afundar e a orquestra impávida e serena a tocar na proa do navio. E fica tudo dito sobre a qualidade dos nossos líderes e sobre a sua margem de manobra no conflito: não podem ir além da discussão sobre a marca das chuteiras. Ou talvez nem isso.

Estátua de Sal, 08/06/2022)


Vi, como muitos portugueses, o jogo de futebol entre as selecções de Portugal e Suíça. Pese, porém, a clareza do resultado – mais que satisfatório, há que dizê-lo – e um jogo sem incidentes de maior, senti que me faltava algo. Qualquer coisa que desse sentido a tudo o que se passou, que clarificasse no espectro mais largo da nossa existência individual e colectiva as implicações futurantes do acontecido.

Porque, admitamo-lo, todos suspeitámos que por detrás dos acontecimentos mais felizes que vivemos se esconde a sombra inspiradora de quem ordena e orienta a realidade. Este vazio existencial que me atormentava não tardou a preencher-se, iluminando toda a obscuridade da dúvida.

No seu palácio, Marcelo falava. (Ver aqui).

Não de banalidades que preocupam os cidadãos de pouca imaginação e ainda menos fé – como comprar comida suficiente, pagar as contas básicas, pôr um dedal de combustível no depósito…-, mas do que realmente importava. Marcelo reflectia sobre o jogo, sobre a forma dos jogadores, sobre a estratégia desenvolvida, enfim, filosofava e iluminava-nos as nossas ansiosas sombras.

Teceu, até, para benefício de todos nós, considerações sobre a possibilidade de a próxima Liga das Nações se realizar em Portugal, ideia que encheu os corações de alegria, pois todos temos saudades do calor humano que essas realizações trazem, bem como as oportunidades de refazer áreas das cidades contempladas após a festivas actividades dos fanáticos das equipas vencedoras e os compreensíveis desabafos dos das equipas vencidas – agressividade transferida, chamam-lhe os especialistas.

E pronto, era isto que queria sublinhar. Somos felizes. Quantos países têm a ventura – salvo seja – de ter um presidente que ajude o seu povo, trôpego como um a galinha, a voar como uma águia? Obrigado, senhor Presidente, por mais este momento de pura felicidade nacional.


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Marcelo Rebelo de Sousa perdeu as eleições?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 31/01/2022)

O medo de um governo de direita, que as inúmeras sondagens anteriores às eleições tornaram, erradamente, uma possibilidade viável na cabeça de muitos eleitores, levaram a uma concentração de votos da população de esquerda no Partido Socialista, com sacrifício do Bloco e da CDU, e originaram uma grande vitória pessoal de António Costa.

O PS está livre para formar o governo que quiser.

É uma vitória ao PSD, é uma vitória aos partidos da geringonça, é uma vitória à direita liberal, é uma vitória à direita nacionalista, e é, finalmente, uma vitória ao Presidente da República.

Na verdade, a vitória eleitoral de António Costa é politicamente tão forte e tão surpreendente que qualquer intenção do Presidente da República em influenciar a formação do próximo governo, o seu programa, as suas opções estratégicas, os parceiros a incluir ou a excluir de acordos de governação, toda a matemática no espaço que o estratega Marcelo Rebelo de Sousa certamente esteve a construir nos últimos meses, se esfumou na decisão emanada ontem dos boletins de voto.

O Presidente da República, ao contrário do que seria de esperar, parece condenado a ter um resto de segundo mandato em que tem de se confrontar com duas opções, face a um António Costa praticamente com as mãos livres para fazer quase tudo o que quiser.

A primeira é o Presidente da República começar a comportar-se com António Costa, em contraste com a convivência simpática anterior, como Mário Soares, no seu segundo mandato, fez com Cavaco Silva, que criticava frequentemente as opções do governo, solidarizava-se com os que se queixavam do primeiro-ministro, parecendo quase um líder da oposição.

A segunda é Marcelo Rebelo de Sousa conformar-se, pelo menos nos próximos tempos, a uma palidez política, a uma secundarização do seu papel, ofuscado pelo aumento de poder de António Costa, à espera de uma qualquer crise que volte a equilibrar para o seu lado a balança da capacidade de decidir os destinos do país, correndo o risco de que isso não aconteça até ao fim do seu mandato.

Qualquer das opções implica, de qualquer forma, que nos próximos tempos o homem que decidiu, glosando o seu discurso de sábado sobre estas legislativas, pela primeira vez na nossa história, que o chumbo de um Orçamento do Estado implicava a convocação de novas eleições, é também um dos castigados por essa antecipação do ato eleitoral.

Esta vitória do primeiro-ministro derrota também uma parte do próprio PS, que parecia estar a deixar de acreditar nele: uns criticavam-no pela sua opção de fazer acordos à esquerda, outros denunciaram a sua responsabilidade pelo fim da geringonça. Agora clamam, todos juntos, vitória.

Isto significa que, a partir de agora, o poder acrescido que António Costa conquistou o tornou igualmente um político mais isolado: todas as decisões que daqui em diante tomar vão-lhe ser imputadas, ninguém mais as atribuirá, para o bem ou para o mal, à necessidade de compromisso, a resultados de duras negociações, a cedências necessárias para manter a estabilidade governativa, que serão, obviamente, marginais. Esse tempo acabou.

Este é, portanto, o tempo para finalmente avaliar o carácter ideológico de António Costa: praticamente sem outros freios que não sejam os das limitações impostas pela União Europeia, livre de oposição interna, livre da influência de Marcelo, iremos ver no poder um homem de esquerda ou um homem de centro?


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