Marcelo e o dom carismático

(António Guerreiro, in Público, 05/04/2019)

Marcelo, o ungido

Se houvesse em Portugal estudos de iconologia e cenografia políticas, uma reportagem sobre Marcelo Rebelo de Sousa, intitulada O Solitário no Meio da Gente publicada no Expresso, na semana passada (texto de Ângela Silva, fotos de Tiago Miranda) forneceria matéria abundante e eloquente para análise. O Presidente, como sabemos, tornou-se objecto de uma mitologia, de um sentido que se torna uma forma e um processo de significação que passaram a ser vistos como “naturais” (foi assim que Roland Barthes definiu a sua noção de mitologia).

E isso deu-se por efeito dos media, como todas as mitologias, a partir do momento em que uma parte importante do seu discurso e dos seus gestos públicos, em ocasiões que suscitam gestos mais enfáticos, se tornou apta a ser apropriada e difundida como um modo de significação despolitizada. A distribuição de afectos situa-se nessa esfera da despolitização. Esta mitologia presidencial tem um carácter muito profano, suscita o sentimento de familiaridade e proximidade. Não se confunde, por isso, com a aura nem com o carisma.

Ora, a reportagem que referi consiste precisamente em conferir uma aura ao Presidente de que ele se encontra destituído. Devemos perceber que esta ausência, em si mesma, não pode ser entendida como uma falta e uma negatividade. Uma questão que hoje se coloca é se é possível um chefe com aura e carisma numa democracia. Como é que nessa reportagem se atribui ao Presidente um dom aurático? Antes de mais, através de uma iconografia que o subtrai à mundanidade: fotografias a preto e branco (uma maneira de o transportar para fora do nosso tempo), onde ele está sempre sozinho.

A cenografia da solidão é muito importante, é nesse aspecto que incide toda a reportagem, como indica o título. À mitologia do Presidente mundano, popular, a cuja imagem e presença todos têm acesso, opõe-se aqui o Presidente carregado de aura e carisma, colocado a uma enigmática distância. Este sim, o verdadeiro, diz-nos implicitamente a reportagem. Na iconologia política, uma representação muito comum da aura é a fotografia do chefe a caminhar isolado, num caminho que é só dele. Às vezes de costas, afastando-se.

Há uma célebre fotografia de Mitterrand que corresponde na perfeição a este modelo. E Macron, que reivindica de maneira patética a aura presidencial da República, na noite da sua eleição escolheu esta cenografia para a sua entronização: caminhou lentamente e só, como uma silhueta, em direcção à pirâmide do Louvre, evocando assim um momento determinante da História, ao som do Hino da Alegria, antes de subir à tribuna.

Um Presidente resgatado à usura de uma constante presença mediática é a imagem que dele se constrói nesta reportagem. Não se deve entender essa imagem segundo os critérios do verdadeiro e do falso porque eles não são pertinentes para o exercício de cenarização de um chefe político, já que estamos no domínio das representações.

Mas é importante percebermos que esta reportagem ilustra na perfeição um aspecto da teoria do carisma (e carisma não é o mesmo que aura, embora haja entre ambos pontos de intersecção), tal como ela foi formulada por Max Weber: para percebermos como o carisma é produzido devemos olhar não para quem o detém, mas para aqueles que lhe concedem a autoridade carismática. Para Weber, o carisma é uma qualidade que exige ser vista e percebida, é como uma revelação que só se manifesta aos crentes, só por eles pode ser reconhecida.

Em última análise, o texto e as fotografias, no Expresso, sobre o Presidente “solitário, no meio da gente” não tem a nada de reportagem jornalística: é uma manifestação de culto por parte de crentes que se dirigem a outros crentes. Para os não-crentes, como eu estou a ser (mais não seja por uma questão metodológica: a minha análise só pode vir de um lugar que não é o da fé, embora ela não contenha nenhum juízo político ou moral sobre o Presidente), a dita reportagem é apenas uma ilustração do modo como se outorga carisma ao chefe político e da eloquência patética, na expressão iconográfica e na retórica verbal, requerida por esse fenómeno a que Max Weber chamou “dominação carismática”.


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Marcelo aliado da Cofina

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 28/03/2019)

Marcelo e Octávio Ribeiro

Marcelo Rebelo de Sousa enaltece festa dos bebés e recorda nascimento dos filhos durante gala ‘Viva a Vida’

“Parabéns CMTV, parabéns Correio da Manhã. Um abraço para mães e pais. Esta festa tem muito mérito porque aposta no futuro de Portugal. É preciso que haja sete vezes sete festas destas”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, lembrando “a verdadeira aventura” de quando foi pai.

Octávio Ribeiro, diretor-geral editorial CM/CMTV, agradeceu a presença das famílias, garantindo que os portugueses que “politicamente decidem em Lisboa vão saber que se exige que olhem para o Interior com o cuidado que merece, porque sem que as pessoas estejam felizes e sem condições nas suas terras, Portugal não será Portugal”.

“E nós [CM e CMTV] estamos cá para dar todas as notícias. Esse é o nosso compromisso porque o nosso verdadeiro patrão é o povo português”, reforçou Octávio Ribeiro. Duas mil pessoas aplaudiram e viveram momentos de grande emoção com a festa da natalidade.

Marcelo Rebelo de Sousa aliou-se e elogiou bandeira da luta contra a baixa natalidade no Interior do País

Marcelo Rebelo de Sousa garante: Está ansioso pela estreia da novela ‘Alguém Perdeu’ – O Presidente da República já tem uma “alteração” na sua agenda esta segunda-feira, 18, porque não quer perder a primeira produção da CMTV. “Vou ver. Depois digo a minha opinão”, afirmou.

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O populismo bom no antro do populismo mau? Não, porque não há populismo bom. O que vemos é o populista popular ao serviço do populista popularucho. O espectáculo mostra quem manda em quem. É uma radiografia dos poderes fácticos no regime. Um regime onde um Presidente da República pode ser obrigado a comparecer na acção de um grupo de comunicação social cujo sucesso comercial e influência social estão associados à transgressão sistemática do código deontológico dos jornalistas e à pratica de crimes de violação do segredo de justiça em conluio com agentes da Justiça criminosos. Um regime onde se põe e dispõe de um Presidente da República para vender uma telenovela.

Marcelo Rebelo de Sousa, bufão-mor da oligarquia desde os anos 70, sabe que na política vale tudo desde que não se seja apanhado. Carl Schmitt explica, o jogo do poder resume-se à escolha dos amigos e dos inimigos. No caso, estamos perante uma amizade que anula o decoro e a dignidade do representante máximo da República. Vergonha indelével.

Disparates populistas de Marcelo

(Por Penélope, in Blog Aspirina B, 12/03/2019)

Marcelo e o dedo que ameaça…

Dá que pensar, embora a violência da conclusão intrigue: caso se repetissem os incêndios de 2017, o Presidente dissolveria o Parlamento. Ou seja, deitaria abaixo o Governo e convocaria novas eleições. Marcelo declarou esta intenção em entrevista à TVI, ontem, num momento em que diz estar a ponderar a sua recandidatura. Nunca saberemos se o fazia ou não. Mas o facto de o afirmar é confrontacional. Segundo ele, os protestos do povo por entre cujo choro andou na altura dirigiam-se de tal maneira ao Governo e ao seu “descolamento da realidade” que não lhe restaria outra solução que não fosse mandá-lo abaixo nos próximos fogos, a acontecerem. Parece que assim vingaria o povo e, a partir daí, não mais haveria tragédias? Que “boutade“. Daquela vez passou, da próxima o Governo não passa? Ó paizinho. Com calma, sim?

Isto é ridículo, surpreendente e muito agressivo. Andando também pelo meio do povo naquela época seca e escaldante, ouvi acusações bem diferentes das invocadas. As coincidências dos fogos postos não escaparam a quase ninguém. Não levei, porém, uma câmara nem sou governante. É que não há nada melhor para ouvir dizer mal de quem governa do que andar um presidente, às vezes uma simples câmara de televisão, pelo meio do povo destroçado. De pessoas que não têm culpa nenhuma, de facto, do que aconteceu e nem terras possuem. Mas Marcelo não ignora certamente que quase ninguém nas terras ardidas limpava as matas, que animais como as cabras há muito desapareceram, que ninguém se preocupava com as portas de saída em certos edifícios, ninguém avaliava os locais de construção de habitações em termos de segurança, ninguém respeitava muito a proibição de queimadas, que todos queriam ganhar dinheiro com os eucaliptos, enfim, que já não chovia há sete meses; e muitos dos que protestavam se esqueceram dos cortes nos organismos públicos e em pessoal (incluindo vigilantes florestais e bombeiros) no tempo do governo anterior; no entanto, já que havia palco e presidente, este diz que o povo malhava era no Costa. E muita gente acredita. Marcelo tinha obrigação e a decência de interpretar correctamente situações de aflição e desespero e de ver mais longe, devendo ele próprio, já agora, contribuir para uma maior tomada de consciência das populações e autarquias para as suas próprias responsabilidades. Mas assim não foi e só pode haver uma razão pouco louvável.

Alguns dados:

Segundo o relatório da Comissão Técnica Independente, que Marcelo seguramente leu, 40% dos incêndios de 2017 deveram-se a actos incendiários intencionais, 20% a negligências várias e os restantes 40% a reacendimentos. Escusado será lembrar aqui também, a propósito das dificuldades no combate, o número inusitado de incêndios que se verificaram praticamente em simultâneo, consumindo meios e recursos não multiplicáveis por todo o país, ou os fenómenos atmosféricos até essa data raros que foram responsáveis, pelo menos, por uma das principais tragédias desse fatídico ano, numa determinada estrada. Esses dados deveriam estar sempre presentes antes de alguém decidir mandar para o ar acusações disparatadas e venenosas. Marcelo acusa agora directamente o Governo (na pessoa da ministra da Administração Interna de então) de responsabilidade pelas tragédias ocorridas. Não se percebe onde quer chegar com tal incriminação, numa altura em que até se leram notícias, não sei se falsas, de um possível apoio do PS à sua recandidatura.

E já que falo nisso, aproveito para dizer que discordo em absoluto desse apoio. O partido socialista deveria manter-se distante. Se não tem candidato, cale-se. Já bastou o que aconteceu com Cavaco Silva que, no primeiro mandato, pareceu cordial e colaborante, conseguindo seduzir para o voto muitos dos que não apreciavam Manuel Alegre e, mal se apanhou reeleito, desatou a fazer discursos vingativos contra os socialistas e política partidária desenfreada em prol dos seus camaradas de sempre, muito contribuindo para a catástrofe que se seguiu.

Marcelo não governa nem governava em 2017 e só isso já o devia fazer conter. Pelo que disse na entrevista, até parece que o Costa não faria nada para evitar novas tragédias decorrentes de incêndios nos anos seguintes se não sentisse a espada de Dâmocles por ele supostamente colocada sobre a sua cabeça. É obviamente mentira. Além de ser uma afirmação antipática de autoridade.

Por questões relacionadas com a sua própria reeleição, Marcelo está a optar pela esperteza saloia (pode não ser verdade que fizesse o que diz que faria), pelo distanciamento de vedeta e pelo vale tudo, incluindo o aproveitamento de tragédias que nenhum governo poderia ter evitado.


Fonte aqui