Na despedida de Marcelo Rebelo de Sousa – um comentário

(Viriato Soromenho Marques, in Jornal de Notícias, 25/12/2025)

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Uma década de Marcelo Rebelo de Sousa (doravante MRS) como presidente da República Portuguesa deixa um sabor doce a tender para o amargo. Depois de uma primeira vitória conseguida praticamente sem aparelho partidário, com uma imagem de simpatia conquistada perante os eleitores através de uma presença televisiva ininterrupta, MRS conseguiu afirmar-se através de um estilo genuíno, de proximidade e interesse pelos cidadãos. Mesmo aqueles que lhe eram próximos, e lhe conheciam a tendência para jogos e lúdicas conspirações palacianas, começaram a convencer-se de que o professor tinha, finalmente, amadurecido e mergulhado no ethos de autocontenção inerente à difícil tarefa de ser estadista, sobretudo neste tempo e neste lugar que Portugal habita no século XXI. Sem nunca perder a tendência para a popularidade excessiva (uma espécie de populismo de classe alta?). MRS teve momentos fortes no seu primeiro mandato: uma relação de cooperação efetiva com o Governo da “geringonça”; uma intervenção de autoridade estabilizadora na mortífera crise dos incêndios florestais de 2017; um propósito nobre e reiterado de acabar com o flagelo dos sem-abrigo, entre outras iniciativas.

O segundo mandato, que começou em plena pandemia de covid 19, inicia um percurso cada vez mais entrópico de MRS, marcado por decisões precipitadas, desmesuras de gestos e linguagem, e um excessivo à-vontade na dissolução do Parlamento, conduzindo a eleições antecipadas.

Na segunda dissolução, MRS não se importou de caucionar a causa indicada pelo ex-PM, António Costa, para sair (o parágrafo da procuradora-geral da República), que, na verdade, não passou de um pretexto para se precipitar para a cadeira de presidente do Conselho Europeu.

Mas, o pior de tudo tem sido a posição de MRS perante a guerra na Ucrânia. De alguém com o conhecimento académico e a experiência de mundo de MRS, esperava-se que não trocasse o interesse nacional e o princípio ciceriano do salus populi suprema lex esto (que a salvação do povo seja a lei suprema) pela maniqueísta narrativa, forjada em Washington e apurada em Bruxelas, que atira para debaixo do tapete as responsabilidades do “Ocidente alargado”, ao longo de trinta anos, que ajudam a explicar grande parte das causas desta guerra.

Pior ainda: MRS mantém-se cúmplice da atual investida da União Europeia contra uma solução diplomática. Além de cercear as liberdades individuais de opinião com pesadas sanções (que a grande imprensa não publica), a UE tem-se multiplicado em declarações – de militares e políticos – sobre a inevitabilidade de uma guerra contra a Rússia.

O mesmo é dizer uma guerra que reduziria a Europa a ruínas e faria “os sobreviventes terem inveja dos mortos” … Em 1915, o presidente Manuel de Arriaga demitiu-se por não aceitar o envolvimento de Portugal na I Guerra Mundial. Em 2003, o presidente Jorge Sampaio recusou-se a aceitar a mentira usada pelos EUA para invadir o Iraque.

Em 2026, o país deixou-se mergulhar numa corrente caudalosa de russofobia que nos poderá conduzir à aniquilação. Desta vez, o presidente da República é apenas mais uma voz a juntar-se no coro de imprudência e imaturidade formado pelo Governo e pela Assembleia da República.

Marcelo e a reforma

(Carlos Esperança, in Facebook, 19/12/2025)


Não sei o que move o narcisista ou pretende o exibicionista ao proclamar que abdica da reforma de Presidente da República.

Não é certamente o pudor do presidente vitalício da Casa de Bragança, funções em vias de retomar, que o inibem de receber o que é justo por ter exercido as mais altas funções do Estado, nem a vergonha da forma como as exerceu.

A mesquinhez dos eleitores, para a qual contribuiu, a inveja coletiva e a raiva contra os medíocres vencimentos dos políticos permitem-lhe granjear simpatias por prescindir de uma verba irrisória para o OE que nem em 40 anos de reforma atingiria o preço dos medicamentos das duas gémeas por quem intercedeu no Hospital de Santa Maria.

Talvez sejam o ódio e o desprezo por Cavaco Silva, que reúne todas as reformas que a vida privada e pública lhe permitiram e de cuja acumulação foi obrigado a prescindir enquanto PR. O País lembra-se do ressentimento público que expressou, com a baba a sair-lhe da comissura dos lábios, ao prescindir do vencimento de PR por ter de optar entre o vencimento e as reformas. Optou por estas, mais pingues, acrescentado os 40% do vencimento de PR (despesas de representação).

Marcelo julga ter assegurado um lugar no Panteão: por se ter oposto à Regionalização, à IVG e Eutanásia; por transferir o Estado para o seu partido; por ter intercedido junto da RTP para censurar um programa de Herman José; por se ter remetido ao silêncio quando Passos Coelho e Cavaco extinguiram os feriados do 1.º de Dezembro e 5 de Outubro e comemorá-los depois como PR; por ter votado Soares Carneiro contra Ramalho Eanes quando os democratas o apoiaram no segundo mandato presidencial e ter conseguido usá-lo agora quando a idade, a Esposa e o Opus Dei o debilitaram.

Marcelo sabe que o País lhe perdoa tudo. Bastou-lhe uma hérnia encarcerada e três dias de silêncio para que a sua popularidade disparasse.

Não se sabe o que a História dirá dele, mas foi eficaz em fazer de Portugal um país à medida de Marques Mendes. Lá isso foi!

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A Procuradoria Geral da Justiça (PGR), o Procurador Geral (PGR) e o PSD

(Carlos Esperança, in Facebook, 05/12/2025)


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Atribuir aos Procuradores do Ministério Público a perturbação política é uma injustiça feita aos magistrados que dirigem o combate ao crime, mas é ingenuidade mortal para a democracia absolver a PGR, a anterior líder e o atual, o Sindicato (SMMP) e o ativismo partidário de alguns Procuradores.

Com o PSD em maioria na AR, municípios e freguesias; com o Governo da República, dos Governos Regionais e dos principais municípios; com o PR que provocou tudo isto e um PGR que quer blindar os negócios obscuros da Spinumviva e impediu o acesso de António Costa às escutas ilegais que o levaram à demissão de PM, as escutas divulgadas na Sábado instalaram o terror. Talvez só termine com um PR, PAR, PM e PGR do PSD!

Falou-se obsessivamente da hérnia encarcerada de Marcelo, que o próprio atribuiu à sua genética, e desviaram-se as atenções da sua genética política originária do Estado Novo. Foi ele que provocou uma hérnia na democracia portuguesa e a deixou encarcerada pelo PSD, com ele PR ao leme, com o PM e o PAR do PSD, e um PGR escolhido e imposto pelo CEO da Spimumviva, exclusivamente por este, já na qualidade de PM.

Para somar ao pânico o desespero, ignora-se o que se passa com o grupo terrorista que a PJ desmantelou. Possuía armas de guerra e era treinado e dirigido por um chefe da PSP convidado a dirigir a Polícia Municipal de Lisboa. Que terrífico silêncio é este?

É neste ambiente perturbador, dois anos após o Golpe de 7 de novembro, em Belém, do parágrafo assassino enviado aos média pela PGR Lucília Gago e da inevitável demissão do PM legítimo, que assistimos impávidos à dissolução do Estado de Direito.

Da insólita praxe sodomita dos bombeiros do Fundão, violenta e degradante, à acusação de apropriação de fundos dos Bombeiros Voluntários do Beato e Penha de França pelo Comandante, com suspeitas generalizadas de negócios no combate aos incêndios em diversas corporações do país, nem a honra das corporações dos soldados da paz resiste.

Na máfia de exploração de imigrantes dirigida por dez militares da GNR e um agente da PSP o Ministério Público esqueceu-se (!?) de transcrever escutas que serviam de prova, levando à libertação dos detidos pelo juiz, como exige um Estado de Direito.

Com tais membros das forças de segurança regressados à função e sem ninguém exigir saber quem são os beneficiários das empresas exploradoras do trabalho, o silêncio sobre este assunto é um ruído abafado enquanto a democracia fenece e o Estado se decompõe

Com um juiz escutado, difamado e a vida pessoal devassada pelo Ministério Público por não gostar da sua jurisprudência, depois de um governo vigiado com escutas ilegais ao seu PM guardadas para divulgação no decurso da campanha eleitoral à Presidência da República, quem acredita que o Estado de Direito se mantém e que o medo é perceção?

Se este PGR se mantiver e o próximo PR for o que o PM decidiu, apenas a perceção irá melhorar. Permanecerá o País que Marcelo alterou e o Luís deixado a trabalhar. À solta!