Sofrerei de daltonismo político?

(Carlos Esperança, 17/10/2018)

independente

Não garanto que alguma vez, por grave distração, não tenha passado por um sinal vermelho sem o ver, mas não o confundo com o verde, mesmo com acuidade visual atenuada.

Já em política não estou tão certo de que algum fenómeno catatímico interfira na minha visão, apesar de ser exigente com a conduta de quem nos governa, quer dos partidos da minha simpatia, quer dos adversários.

Quando o atual governo iniciou funções, foram constituídos arguidos os secretários de Estado que aceitaram a viagem a uma Empresa, à vista de todo o país, para um jogo da seleção nacional de futebol, o que levou à demissão das funções para que lhes sobejava competência. O próprio ministro das Finanças esteve em risco, por ter solicitado dois lugares no camarote da direção a um clube para ver um desafio de futebol, uma paixão a que não é imune um doutorado por Harvard. Na minha opinião, os primeiros não deviam ter aceitado. No caso do ministro pareceu-me pura perseguição partidária.

No anterior governo, uma secretária de Estado que negociara Swaps com o Estado numa empresa privada, viu sair colegas por esse motivo, mas permaneceu e, à falta de melhor, chegou a ministra das Finanças. Saiu para um fundo abutre, em Londres, acumulando o lugar de deputada. Passos Coelho chegou a PM após a fraude com fundos europeus na Tecnoforma, o pedido de salário como deputado em exclusividade (não concedido), a falta de pagamento às Finanças e à Segurança Social. Saiu como catedrático.

Autarcas acusados de corrupção pela revista Visão, em que se destacam Marco António e Luís Filipe Meneses, continuam tranquilos à espera da prescrição dos crimes que a revista lhes imputou. O País só queria saber se foi calúnia ou se a PGR não soube.

Durão Barroso era PM e foi em jato privado ao Brasil, com a família, para uma estadia numa ilha paradisíaca, a convite de um amigo com negócios com o Estado. Foi de férias no iate de um magnata, quando estava indigitado para presidente da Comissão Europeia, e acabou, depois de suspeitas e furtivas reuniões, como CEO de Goldman Sachs, em Londres.

Paulo Portas, desde as trapalhadas da Universidade Moderna, da falência fraudulenta da empresa de sondagens Amostra, da falta de recibos de pagamento aos sondadores e do atraso de pagamentos às Finanças, comprou submarinos sem que fosse averiguado o destino das comissões que levaram a condenações dos corruptores alemães.

Com exceção de Cavaco Silva, uma referência ética, incorruptível, incapaz de intrigas e de rancores, com um passado imaculado como investigador da Gulbenkian, assiduidade inexcedível na docência de uma Universidade pública, que alia uma invulgar cultura ao inexcedível sentido de Estado, com exceção de Cavaco – dizia –, sobre as referências da direita pairam suspeitas que nunca foram investigadas.

Provavelmente sofro de facciosismo político. Aliás, nunca disfarcei o posicionamento político.

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Ajustes de contas

(In Blog O Jumento, 18/02/2017)

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Mas não foi isso que Cavaco veio fazer e muito menos dizer; se graças à esquerda perigosa as suas parcas pensões já dão para as despesas, as suas contas vão continuar por saldar, não esclareceu muitas dúvidas que existem em torno de alguns dos seus negócios ou dos seus golpes políticos. O que Cavaco fez foi vir a público para espumar. A raiva acumulada contra Sócrates não foi acalmada pelo Caso Marquês, os ciúmes e relação a Marcelo são insuportáveis ao ponto de não terem aguentado um ano.

Cavaco nunca se seguiu por ideologias, de social-democrata pouco ou nada tem, o PSD serviu-o. Quanto a valores, os seus negócios, os queixumes e outras intervenções descuidadas dizem mais sobre a personagem do que as encenações cuidadosamente preparadas por assessores. Cavaco odeia Sócrates, invejava a dimensão cultural de Soares, sente ciúmes pela popularidade de Marcelo.

O homem que depois de tantas vitórias saiu da Presidência da República sem prestígio não suporta que Marcelo tenha mais popularidade do que alguma vez ele teve. Reedita com Marcelo a ciumeira que tinha da família Soares; o homem que saiu de Boliqueime mas cuja dimensão permanece junto à bomba da gasolina não suporta a classe do citadino Marcelo. A razão aconselhava-o a sofrer em silêncio, em esperar por melhor oportunidade, mas os ciúmes que lhe corroem a alma são mais fortes.

Odeia Sócrates, o ex-primeiro-ministro sempre teve o condão de o irritar e, ainda por cima, nunca perdia a oportunidade de o provocar. Tinha de se vingar de Sócrates, tinha de o apanhar ainda na mó de baixo, nunca lhe perdoou a destruição da sua imagem de austeridade durante a campanha presidencial, sempre pensou que Sócrates esteve por detrás das notícias que o demonstraram. Não poderia esperar mais tempo, tinha que usar o Caso marquês como se fosse o leitor mais inculto do CM.

Não, Cavaco não tem ideologia, nada tem de social-democrata, é ele o seu espelho, é ele e os seus ódios, raivas, ciúmes e vinganças. Cavaco não saldou contas, veio dizer-nos que nunca estaremos enganados a seu respeito, foi o pior Presidente da República, vai ser o pior ex-presidente da República. Cada vez que aparece apenas mostra que as eleições que venceu foram os maiores erros dos eleitores; sim porque como se viu com Trump os eleitores também escolhem o que não desvia ser escolhido.

Cavaco não veio ajustar contas com terceiros, veio ajustar contas com os seus fantasmas.

O LIVRO

(José Gabriel, in Facebook, 16/02/2017)

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O livro de Cavaco Silva, além de não ter qualquer garantia de verdade dos seus conteúdos – dado o autor, muito pelo contrário – é um golpe na fiabilidade da própria instituição presidência da República. A própria proclamação de Cavaco segundo a qual este livro é “uma prestação de contas aos portugueses” é – pela incapacidade do autor admitir o risco de subjectividade, considerando o texto completamente “objectivo” – a primeira e mais óbvia prova do pechisbeque político-literário que nos é oferecido. Mas os efeitos situam-se a outro nível. Quem estará disposto, agora, a ser completamente franco nas conversas reservadas com o presidente? Não que uma tal incomunicação – chamemos-lhe assim – impeça mistificações futuras, já que quem escreve este tipo de memórias mente quando e no que quer – sem ter, sequer, no caso presente, o mérito da qualidade literária. Mas, pelo menos, não será fornecido combustível para putativos incendiários políticos. Dir-se-á que Cavaco não tem credibilidade para provocar grandes prejuízos com as suas inconfidências e a parcialidade da sua narrativa. Mas o mal está feito e haverá sempre quem vá espojar-se neste material.


O sistema semi-presidencialista português tem os seus inegáveis méritos. Mas nem ele resistirá a muitos mais Cavacos e respectivas cavacadas.

E se Cavaco Silva quer mesmo prestar contas ao país, todos temos imensas perguntas a fazer-lhe que nada têm a ver com este desleal e sujo exercício de quadrilhice institucional.