O Estado da nação 2

(Patrícia Reis, in Diário de Notícias, 16/09/2025)


O partido teve mais de um milhão de votos. Se todas as pessoas que votaram lerem este livro, dificilmente cometem o mesmo erro. O drama, com o qual este partido conta, é que a malta lê pouco, não é? E se provássemos o contrário? Não era incrível?


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A malta lê, lê até muito, garantem-me, e eu aposto que estamos a falar de ler o feed das redes sociais e pouco mais do que isso. Os livros parecem assustar os mais novos e os mais velhos, e mesmo fenómenos literários no Tik Tok de book influencers (só a designação me provoca desconforto) aparentam ser uma boa-prática mas, muitas vezes, são isentas de critério. Fui à livraria e preciso de vos dizer isto: existem livros maravilhosos.

A Literatura é um alimento para o cérebro e ajuda-nos a perceber temas e realidades, a mudar de ideias, a pensar. A Literatura serve para pensar. Agustina Bessa-Luís costumava dizer que escrevia para incomodar, o princípio é o mesmo. O entretenimento é, como a palavra indica, outra coisa: eu diria até que serve precisamente o fim oposto – enquanto estamos entretidos, não estamos a pensar..

Hoje temos livros publicados com a aparência da grande Literatura e que, espremidos, são apenas para isso, entreter. Temos livros com fonte de letra em tamanho grande, entrelinhas generosas, capítulos pequenos, tudo para facilitar o cérebro do leitor, mas temos também temáticas que são ondas, obedecem a tendências.

Neste momento há no mercado uma santa trindade: violência – saúde mental – autoficção. Ora, ninguém consegue viver só com desgosto e um leitor treinado sabe que, por pior que seja a história narrada, preferencialmente, deve existir sempre qualquer coisa que salve, qualquer coisa que permita uma certa redenção. É assim nos grandes clássicos, do Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez a Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago; de Luzes de Leonor de Maria Teresa Horta à Ronda da Noite de Agustina Bessa-Luís.

A imaginação é o território fundador de qualquer escritor que pode, e deve, ser um observador da natureza humana – do seu tempo, caso opte por escrever sobre o que lhe é contemporâneo –; mas a imaginação, “a louca da casa”, conforme a designou Santa Teresa de Ávila (e cuja expressão Rosa Montero, a escritora espanhola, aproveitou como título de um dos seus livros, corram a ler, caso não o tenham feito já!), precisa de ser estimulada. Um escritor não faz decalques da realidade, vai muito mais longe. E sente o que as personagens sentem, vive o que elas vivem. Não é o contrário, as personagens não servem para imitar a vida real. A Literatura é mais do que isso.

O jornalismo, que tanto namora com a Literatura, é outra arte que importa cuidar. Miguel Carvalho, jornalista freelancer, publicou o livro Por Dentro do Chega (edições Objetiva) e o momento em que abri o volume foi de imensa satisfação. Por várias razões: o Miguel Carvalho é o melhor jornalista de investigação da sua geração, tem do jornalismo o mesmo entendimento que eu e que tem por base uma coisa muito simples, mas cada vez mais difícil de encontrar: a capacidade de ouvir os outros, estar com eles, tentar compreender as suas razões, mesmo que discordando. Este livro, em vésperas de eleições autárquicas e presidenciais, é um ato de correção social, chamar-lhe-ia a grande escritora e jornalista Maria Teresa Horta. Miguel Carvalho trabalhou neste volume de 752 páginas durante cinco anos, e fê-lo com a intensidade das coisas que apaixonam, porque é a única forma de fazer jornalismo. Aí concordamos novamente. O retrato do partido que hoje ocupa um lugar que era inimaginável em 2020 é, também, o retrato de um país, de uma desilusão, de um sistema. É igualmente um trabalho de uma seriedade a toda a prova, com os dados bem claros, as fontes confirmadas e reconfirmadas, os documentos lidos uma e outra vez. Como o jornalista nos leva pela mão é uma arte. E, não sendo esta uma obra de Literatura, representa outra maneira de promover pensamento, de agitar ideias e de corrigir factos. É um livro sobre a verdade de um partido, dos seus militantes, financiadores, apoiantes isolados ou até escondidos. Miguel Carvalho é um fervoroso defensor da democracia, a Liberdade talvez seja a sua palavra mais estimada. Este livro, depois de todos os que já assinou, comprova: o bom jornalismo está vivo e recomenda-se; e mostra que o medo não tem qualquer hipótese de vergar aquilo que se sabe ser certo. Conta-se a história de um partido de extrema-direita com a lisura com que se contaria outra qualquer história, porque é indiferente se este partido é hoje distinto do que era há cinco anos, quando se pensava que Marrocos poderia ser um destino para o seu líder; quando se advogava a hipótese de ser considerado um partido ilegítimo. Hoje estamos longe deste cenário, não há planos de fuga nem gente incrédula com o que acabou de ouvir, há uma dimensão de boçalidade que arrepia e que vive da grande ilusão de um discurso construído em cima da figura do líder, do seu putativo carisma, e pouco mais.

O partido teve mais de um milhão de votos. Se todas as pessoas que votaram lerem este livro, dificilmente cometem o mesmo erro. O drama, com o qual este partido conta, é que a malta lê pouco, não é? E se provássemos o contrário? Não era incrível?

Escritora e jornalista

Montenegro e a cordilheira – ou a ascensão do lúmpen

(Fernando Campos, in blog O Sítio dos Desenhos, 08/10/2024)

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Todo o homem tem uma porção de inépcia que há de sair em prosa ou verso, em palavras ou obras, como o carnejão de um furúnculo. Quer queira quer não, um dia a válvula salta e o pus repuxa.

Camilo Castelo Branco


Cavaco Silva é o caso exemplar de que em Portugal é perfeitamente possível desempenhar os mais altos cargos remunerados – na academia, na política e na finança – enfim, ter sucesso, sendo-se estruturalmente analfabeto – isto é, desconhecendo, de todo ou em partes grandes, a mais elementar forma de se exprimir publicamente dentro das normas convencionadas da sua própria língua materna. 

Cavaco diz “não façarei”. Na caváquia (a pátria do Cavaco) todos fazem como ele.Marques Mendes, seu ex-ministro e candidato auto-proclamado a presidente da república, um hominídeo católico com mais de sessenta anos, manifestou-se esfuziantemente orgulhoso de si mesmo por ter descoberto recentemente uma palavra portuguesa de que ele nunca tinha ouvido falar: “genuflexório”. Nuno Melo, o ministro da defesa, fala como quem sabe do “tratado do atlético-norte”. Bugalho, o jovem serafim candidato da AD ao Parlamento Europeu, foi para Bruxelas cantando e rindo, muito ufano das “sete quinas da nossa bandeira”. A ministra do Interior confunde “urologia” com “orografia”. Estas coisas não se inventam.

Luis Montenegro, por exemplo, fez a instrução primária, a preparatória, o secundário inteirinho, licenciou-se em Direito na Universidade Católica (e pós-graduou-se em Direito da Proteção – assim mesmo, em acordês – de dados pessoais, na mesma universidade), exerceu advocacia, casou com uma senhora, foi pai de dois meninos, entrou para a maçonaria, ou talvez não, presidiu à assembleia geral de duas das maiores empresas portuguesas, entrou na política, foi deputado municipal, vereador, deputado à assembleia da República, líder da sua bancada e agora é primeiro-ministro – sempre a dizer “será-lhe”. 

Em 2012 debrucei-me pela primeira vez sobre este vulto da Caváquia. Foi quando ele era o líder parlamentar do PSD e referiu, a propósito de qualquer coisa, que a redução dessa coisa no orçamento não seria uma “Min-nun-dência”(!!!) no que concerne à redução do défice. 

O que então me pôs a pensar não foi a substância de tão pertinente convicção mas sim a ênfase substantiva, o à-vontade sorridente e orgulhoso-de-si-mesmo, o ar inflamado e descomplexado, do tribuno. Na época concluí que a literacia, ou melhor, a falta dela em Portugal não era apenas uma min-nun-dência, mas um verdadeiro Monte Negro. E deduzi que, com os outros deputados do seu grupo parlamentar, ele conformaria uma autêntica, incontornável, cordilheira.

Mas receio que agora seja bem maior – e pior – pois se, além destes, somarmos o remanescente dos cristãos-velhos do CDS; uma terça parte da bancada cor-de-rosa, a do sucialismo empresarial; mais o Branca-de-Neve e os quarenta e nove rolões pretos do integralismo chegano e aindaos quéques azul-bébé do liberalismo luzitano – será fácil de verificar que todos juntos, todos muito ardentemente sionistas-novos, conformam um acidente sociológico de uma densidade tão impenetrável a qualquer conceito de justiça elementar como inacessível a qualquer ideia generosa ou noção de bom-senso e de decência.

Não creio, como sugere a imprensa dominante, que isto configure qualquer emergência súbita de um certo povo-baixo, mas sim a ascensão lenta do lúmpen; de um lúmpen velhaco e vingativo, dotado daquele género de sensibilidadesinha medíocre que exulta, alarve, com a assunção da sua própria desfaçatez e se compraz, condescendente e cúmplice, com a expressão pública da ignorância rasa e da grosseria refinada na mais espessa estupidez.

Tudo isto no ano em que, paralelamente, o país oficial comemora impávido e mui solene os cinquenta anos do Vinte e Cinco d’Abril. Um fenómeno bizarro, de padrão talvez esquizotípico, bastante complexo. Fiz um desenho, como sempre sucinto e simplificado, para o tentar entender. O futuro decerto explicará-lho.

Fonte aqui