O PS suspira por Montenegro

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 15/01/2019)

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É intriga, é autofagia, será o que se quiser, mas é também rotina no PSD. Ora, se o enredo se repete ao longo dos tempos, conceda-se que a importância é escassa, pouco vale como telenovela, trama previsível, afinal só se contavam os dias para saber quando Montenegro “avançaria”, e pouco vale como drama, afinal tudo se encaminha para o resultado que se sabe. Tudo isto é sempre uma encenação sem adereços e sem narrativa, com uma “vaga de fundo” que são duas deputadas a ajustar contas, outros aliados a calcularem as forças para não se queimarem demasiado e só sobra Maria Luís Albuquerque, a anunciar, afoita, que sai do seu mutismo para arrasar Rio mas a ficar-se por um modesto “preferia diretas” e assunto arrumado. É tudo poucochinho, como agora se diz nestes casos de labirintos partidários. Também a coisa não merece mais: Montenegro colecionou trivialidades e apresentou-as como programa político, algum jornalista enfunou o drama pedindo respostas “já hoje” de Rio, até houve o frisson de saber o que teriam conversado Rio e Marcelo, que puseram de imediato a constar que terá sido só descentralização e um vago assunto internacional, tudo uma maçada, e o dia acabou pacato, sem efusões exageradas nem chuvas de telegramas. Qual era a pressa?

Resta o poder silencioso do primeiro-ministro. O que quer Costa de todo este espetáculo? Pois quer a vitória de Montenegro, já, implacável, suculenta. Por duas razões, cada uma mais importante do que a outra. A primeira é que um PSD mais histriónico é o único que pode voltar a colocar nos carris a ideia da maioria absoluta. A recuperar votos, o PSD não vai longe, mesmo que os passistas se entusiasmassem a deitar abaixo Rio (e ainda seria preciso que conseguissem o golpe palaciano). Há muito que o PSD está em baixo. Nas últimas eleições, em que PSD e CDS somaram os votos, por pior que estivesse o CDS o PSD não passaria de 28%, a marca que já tem desde Santana Lopes, com a exceção do momento de fulgor contra o demitido Sócrates (quando chegou a 38% e, logo depois, perdeu quase um milhão de votos). Nas autárquicas, Passos Coelho (e Montenegro, então seu ajudante) conduziu o partido a uma das suas piores derrotas, incluindo uma humilhação em Lisboa com 11%. Em resumo, os salvadores de hoje já gastaram a sua oportunidade para criar a primeira boa impressão e afundaram o partido. Por isso, o que um Montenegro mais declarativo e passadista pode fazer é simplesmente ajudar Costa a fingir uma bipolarização, de que este precisa como de pão para a boca para se dirigir ao eleitorado de esquerda e pedir a sua condescendência. Perdendo pouco à direita e tendo o patronato a pedir uma maioria absoluta do PS, um apelo ao voto de esquerda contra o “regresso da direita” seria um truque maravilhoso. Montenegro quer oferecer a Costa esse subterfúgio e o PS já o percebeu e reza por ele.

A segunda razão é que a substituição de líder do PSD nas vésperas das eleições, se Montenegro ganhasse, evidenciaria um sentimento de desespero que vulnerabiliza antes de mais o salvador, que depois vai perder todas as eleições nacionais (até a da Madeira pode perder). Então o PSD deitou o homem abaixo, ofereceu o maior que tinha e foi arrasado logo à primeira e à segunda? E vai Montenegro embora, vem outro.

Para um Governo que, se voltar a enveredar pelo caminho tradicional do PS, será mais frágil em período mais difícil, este alívio dado por um ano de descalabro do PSD e, depois, pela sua derrota e mais algum tempo de confusão, é o mais saboroso dos presentes. Se o primeiro-ministro pensa a prazo, e pensa mesmo, este cenário Montenegro é a melhor oferta que lhe podiam fazer em 2019.

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O PSD e a democracia

(Carlos Esperança, 15/01/2019)

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Quando, há 1 ano, Rui Rio ganhou as eleições no PSD, havia no partido um desejo de regresso à matriz fundadora de que Cavaco e Passos Coelho se tinham afastado, um por ser salazarista e outro por ser coisa nenhuma.

A chegada à liderança de um militante civilizado, com preparação cívica e experiência política, com provas dadas na gestão autárquica, nos órgãos do partido e nas atividades privadas, sem relações com o grupo de autarcas que construíram uma rede de corrupção, ainda não investigada, apesar da gravidade dos factos referidos na Visão, deixara o país mais tranquilo e alguns sectores do PSD assustados, incluindo os referidos autarcas.

Rui Rio, de quem decerto não serei eleitor, é um adversário sem cadastro, sem negócios suspeitos ou participação nos jogos de poder de Relvas, Marco António, Passos Coelho e outros militantes que fizeram PM o último. Rui Rio merece respeito, e o PSD, cada vez menos recomendável, teme um líder que não possa controlar nem chantagear.

Não admira, pois, que 1 ano depois, com a rede de conivências partidárias a romper-se, tenha aparecido Luís Montenegro, em desespero, a fingir-se importante, e a desafiá-lo para um duelo que apenas pretende destruir o adversário e manter na liderança do PSD os que venderam empresas públicas, para serem gestores privados, e debilitaram o Estado e a sua capacidade para intervir nas comunicações, energia, transportes, saúde e ensino.

A única surpresa é o papel dúbio do PR, apesar do gosto de estar em todos os funerais e catástrofes e de se pronunciar sobre tudo e ser fotografado em todo o lado, ao dar a Luís Montenegro uma importância que não tem.

Marques Mendes, comentador político da SIC e alter-ego de Marcelo ajuda a adensar a confusão, ao desvalorizar a crise no PSD e ao afirmar que tanto Rui Rio como Luís Montenegro saem a ganhar, como se este duelo a poucos meses das eleições não fosse um suicídio. Mas ao considerar que para o partido “era melhor haver diretas”, a bem da clarificação interna, ficamos a saber para que lado cai o PR.

Esta ementa não é uma questão de vichyssoise nem de toque às campainhas das portas, para arreliar os amigos de um amigo.

Marcelo não tinha ainda uma fotografia com o ora mediático Luís Montenegro. Passa a tê-la. E exuma do aterro sanitário os que há 1 ano foram deitados para o caixote do lixo.

Luís Montenegro: “Rui Rio teve medo”

(Miguel Santos Carrapatoso, In Expresso, 14/01/2019)

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Imagem in BLOG 77 Colinas

(Isto, de facto, mais parece um combate de boxe. Marcelo arbitra e tenta evitar golpes baixos. Costa, na plateia, ri de fininho. Montenegro é mais para o peso pesado e Rio peso médio. O problema é se nenhum ganha por KO e vai ter que ser Marcelo a atribuir a vitória aos pontos a um dos contendores. 

Marcelo não resiste e não consegue parar quieto. Nunca se devia ter metido nesta disputa. Ele é o Presidente da República de Portugal, não é o Presidente do PSD, nem lhe compete ser ele a nomear o chefe da oposição. Depois queixa-se que a sua popularidade está a cair. Pudera, nos últimos tempos só tem feito asneiras e os portugueses não são tão papalvos como ele julga.

Comentário da Estátua, 14/01/2019)


O ex-líder parlamentar do PSD acusou Rui Rio de ter tido “medo” e “falta de coragem” ao não aceitar o desafio de convocar eleições para a liderança do partido. Conselho Nacional do partido agendado para quinta-feira, no Porto.


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