Falência política da escumalha

(Joseph Praetorius, in Facebook, 12/09/2026, Revisão da Estátua)

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Aumento dos combustíveis, aumento dos géneros alimentares, aumento das rendas, pressão da especulação imobiliária, aumento das matérias-primas na indústria, agricultura em estrangulamento, encarecimento da produção, contenção salarial, redução da procura interna.

Falências em cascata e números mascarados por outros números que só negativamente influem na vida quotidiana da população (os vistos Gold e a especulação, por exemplo). Os números estão ótimos. E a população pior do que mal. A primeira vez que vi tal fenómeno assumido, foi numa intervenção pública do general Geisel da ditadura militar brasileira. (Cito de memória) – “A economia vai bem, mas o povo, mal”.

Não haveria melhor contexto para um governo de idiotas lançar a sua ofensiva:

  • Desorganizando o sistema nacional de ensino e o sistema nacional de saúde;
  • atacando os direitos laborais;
  • atacando os direitos fundamentais em Processo Penal;
  • gizando o ataque à Segurança Social;
  • comprometendo o Estado no favorecimento de guerra alheia e de indústria alheia de armamento;
  • esbanjando fundos públicos na sustentação dos nazis da Ucrânia;
  • comprometendo – com danos provavelmente irrecuperáveis a ecologia, por exemplo; destruindo as terras agrícolas do Barroso;
  • ou comprometendo os aquíferos de Setúbal, criticamente importantes.

Quanto às empresas de capitais públicos, o descalabro está à vista, da TAP à CP.

Nem sequer se escondendo o desígnio de acabar com a linha de Cascais, para libertar os respectivos terrenos para a especulação imobiliária.

A população não só está a ser – e continuará a ser – varrida do litoral, como se lhe inviabilizará o acesso ao litoral, na esperança de se poderem substituir, nas zonas mais atraentes, os “pés rapados” e a “meia-tigela” local (origem dos lumpen-ministriáveis, aliás) por gente de “outra extirpe” (como dizia há tempos uma idiota que envelheceu sem crescer). Um turismo de milionários enriquecerá o país, pensa esta escumalha (de rasquice sem fim).

Os milionários têm porém mais lugares onde gastar o dinheiro. E a praia de um milionário é, a um primeiro olhar, diria, o Mar Vermelho. (Bem sei que agora é arriscado, mas tais riscos não são eternos). Que singularidades oferecem as águas destas costas, diante daquele deslumbrante aquário de águas quentes (aparentemente, o lugar mais belo da Terra)?

E o turismo está em queda aqui na terrinha. Os camionistas alemães tendem para o desemprego, fazem contas à vida, aliás como outros, e já não podem encher os hotéis “de luxo”  do Algarve.

Os idiotas continuarão a bramar a excelência dos seus números, sem se darem conta dos riscos que, para a sua própria existência, comporta tal estupidez.

E a vida das pessoas continuará a piorar. Os números das insolvências estão já a estragar as versões oficiais, longe ainda de um balanço de aceitável rigor técnico, capaz de nos dar a proporção exata dos danos da política de devastação em curso.

Deixemos trabalhar o Luís… embora nos arrependamos

(Carlos Esperança, in Facebook, 23/08/2026)

Informou o luminoso Sol, que o Luís veio em socorro de Nuno Melo, manifestando-lhe solidariedade no processo instaurado a “jornal online, André Ventura e Pedro Frazão”.

Interroguei-me sobre o que teriam dito o 4.º Pastorinho e o robusto líder parlamentar do Chega para enxofrarem o irascível Nuno Melo, líder do defunto CDS que o Luís levou a eleições para manter a marca AD. Afinal, lançaram suspeitas sobre o ministro da Defesa e o próprio CDS, sobre “negociatas” e “eventuais desvios de dinheiro” na compra das fragatas a Itália, com o insignificante custo de 3,9 mil milhões de euros!

Depois da compra dos submarinos por um ministro da Defesa, do CDS, com comissões de 1 milhão de euros, provadas na Alemanha, e cujo processo foi arquivado em 24 horas pela PGR Joana Marques Vidal, a dúvida percorreu todo o espetro político português, e Nuno Melo exigiu um pedido de desculpas ao partido com quem comunga ideias.

Para o atual CDS, o Chega é a sua referência ideológica. Por isso Nuno Melo se irritou, mas ao ver o Luís vir em sua defesa, com esta frase: «A lei e a decência pública deve-se [sic] aplicar a todos» não contive uma gargalhada, pelo autor, pela rudimentar gramática e pelo conteúdo. Nem o sorriso sonso e escarninho me irritou. O Luís tem um conflito tão insanável com a gramática, como com a ética.

Se algum leitor conhecer o Luís peço que lhe ensine a frase correta: «A lei e a decência pública devem-se aplicar a todos» ou mais elegante, seria exigir demais, «A lei e a decência pública devem aplicar-se a todos». Mas dito por ele, quem resistiria a uma boa gargalhada?

Quanto às fragatas, não é motivo para rir, é a herança que o Luís e o Nuno Melo deixam às gerações que começarem a pagar os juros e a amortizar o capital.

Se não fosse a gramática, se não me distraísse com a concordância gramatical, a pensar que a lei e a decência «devem» aplicar-se a todos, que a lei e a decência exigiriam que o verbo fosse conjugado na terceira pessoa do plural, se o autor da frase não fosse um singular calino, teria pensado que era uma confissão de arrependimento por um católico que foi a Fátima empunhar uma velinha na Procissão das Velas.

Se fosse uma confissão de arrependimento pelas violações da lei e da decência, não lhe faltaria um padre para o absolver depois da promessa de não mais pecar e de cumprida a penitência com a reza de um ato de contrição e uma novena.

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Um regime

(Henrique Raposo, in Expresso, 31/07/2016)

Quem gere a PJ como se fosse uma taberna só pode ter um destino: rua

(Como o tempo passa! Pela terceira vez desde a origem deste blog – a última já foi há quase dez anos, ver aqui -, publico um texto do Henrique Raposo, que é normalmente um escriba que defende os pontos de vista da direita com os quais não me identifico. Mas, esta análise que ele faz da nossa governação atual – uma espécie de panfleto radical de direita -, pela sua assertividade e contundência levou-me a reincidir.

Estátua de Sal, 04/08/2026)


A origem do problema: a amoralidade deste tempo montenegrista, uma época da nova vida coletiva marcada por chico-espertos que acham que passam entre os intervalos da chuva, que acham que as crises passam porque se vão meter as férias.


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Eu odiava Sócrates e os seus Governos, porque representavam a bancarrota moral e económica do país. As minhas filhas vão entrar na vida adulta num país ainda marcado pelos erros do socratismo. Eu agora não odeio Montenegro, mas desprezo-o. Sinto por este tempo malsão um desprezo que talvez seja mais grave do que o ódio. É que este desdém já tem um certo cansaço, uma semente de rendição: o país político é porventura irreformável. O ódio do passado continha uma esperança de mudança, reforma, europeização. Estou a ser demasiado pessimista? Não sei, talvez. Talvez seja o efeito destas semanas absolutamente inacreditáveis e anedóticas que envolvem um atrelado do negócio da droga num país sem liderança e oposição. Perante a falta de vergonha ou de noção do Governo, devíamos ter em campo duas forças a zelar pela salubridade do regime. Mas o Palácio de Belém está calado, tal como o Largo do Rato. Porquê?

O Presidente da República já devia ter falado com dureza em relação ao caso Luís Neves/atrelado. Porque não há aqui saídas limpas. De duas, uma: ou a história do atrelado resulta de uma incúria amadora ou resulta de uma história que vai dar cadeia. Seja qual for a verdade, Luís Neves não tem condições para permanecer no cargo. Ou está envolvido num negócio criminoso ou fez um ato de gestão revelador de total irresponsabilidade, desmazelo, amadorismo. Não há terceira via. O Presidente da República tem de sair da sua bonomia, porque o que está aqui em causa é o tal funcionamento das instituições.

Mas avancemos para a origem do problema: a amoralidade deste tempo montenegrista, uma época da nova vida coletiva marcada por chico-espertos que acham que passam entre os intervalos da chuva, que acham que as crises passam porque se vão meter as férias.

Só que nem um agosto limpa as dúvidas, sobretudo esta: porque é que o primeiro-ministro protege Luís Neves desta maneira? Porquê? Ou seja, o que é que Luís Neves, ex-PJ, sabe sobre Luís Montenegro e Hugo Soares que nós não sabemos? Repare-se nesta cronologia que tresanda.

(1) Havia (há?) investigações em curso sobre Montenegro e Hugo Soares.

(2) Montenegro e Hugo Soares, que estão debaixo de diversos escrutínios, resolvem escolher para MAI o diretor da principal polícia de investigação. Porque é que alguém rasga assim uma regra não escrita e fundamental da democracia? Um polícia não deve ser ministro, e vice-versa.

(3) Descobre-se que o percurso de Luís Neves está cheio de buracos, muitos deles inaceitáveis e que já deviam ter levado à sua demissão. No passado, pessoas foram demitidas por um décimo desta trapalhada. Uma democracia que se leva a sério tem de demitir a pessoa que está no centro da história rocambolesca do atrelado. Uma democracia que se leva a sério não pode passar semanas a fio debaixo deste ridículo.

(4) Contra qualquer lógica, o primeiro-ministro mantém a personagem. O que me leva de novo à pergunta: Luís Neves está no Governo para proteger o primeiro-ministro, escaldado com a história interminável da casa? E, já agora, tendo em conta o silêncio inacreditável do PS, há que perguntar: Luís Neves sabe alguma coisa sobre o PS que nós não sabemos? Esta pergunta seria ilegítima com qualquer outro cenário. Mas sucede que Luís Neves é ex-diretor da PJ. Porque é que o PS, que devia ser o principal partido da oposição preocupado com estes assuntos institucionais, está tão calado? Porque é que o PS parece mais incomodado com o caso Luís Neves do que, por exemplo, com as buscas às Juntas de Freguesia socialistas?

Lamento, mas o que se está a passar é demasiado grave. Os silên­cios são demasiado graves. Quando jornalistas ou intelectuais, como este que aqui vos escreve, têm de preencher um vazio político criado pela incompreensível inércia das instituições, então é porque estamos mesmo muito mal.

Saiba mais aqui

 

Mas, se me permitem, e para contrariar o pessimismo, há que meter mãos à obra. Não podemos continuar nas mãos de medíocres como Luís Montenegro. Como é que isto se muda? Há que voltar às regras antigas dentro dos partidos. Enquanto as regras de eleição dos líderes partidários continuarem nesta linha das primárias e da democracia direta, então é certo e sabido que vamos continuar nas mãos de gente medíocre que jamais conseguiria um lugar de destaque fora dos partidos. Em qualquer outra atividade humana o sucesso não depende do facto de almoçarmos com 300 concelhias. Montenegro é uma figura medíocre que está no poder porque almoça com 300 caciques locais, é só isto; almoça e promete-lhes cargos e tachos num Estado que existe para satisfazer os membros do PSD e do PS. Quantos tachos não deu já Montenegro dentro da Segurança Social e dos hospitais? Um candidato a primeiro-ministro em Portugal é hoje em dia um sinal de mediocridade, é um refugo. Como é que saímos deste poço? Deixem-me voltar a uma certa esperança da juventude. Quando tinha 27 anos, precisamente, eu escrevi aqui que não podíamos cair na lengalenga do “défice democrático” porque isso iria abrir a caixa de Pandora da democracia pura, isto é, da demagogia e da mediocridade. Os partidos têm de ser instituições afastadas da democracia direta. Havia uma lógica na velha escolha do líder partidário, havia vários filtros até ao congresso decisivo. Agora não há filtros e o resultado está à vista. O triunfo das primárias é o triunfo do que há de mais primário no ser humano. É o triunfo dos fanáticos, como Ventura, e dos chico-espertos, como Montenegro.