Da língua geral ao ridículo total

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 24/11/2018)

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Miguel Sousa Tavares

“Sei bem que o novo politicamente correcto é o politicamente incorrecto”
ANTÓNIO COSTA


Há mais de vinte anos, estava em filmagens no Brasil para uma grande reportagem da RTP sobre a história da colonização portuguesa da Amazónia, desde o marquês de Pombal até ao apogeu da época da borracha — que nos deu um dos melhores romances de sempre da literatura portuguesa: “A Selva”, de Ferreira de Castro. Nos tempos que correm, em que falar das Descobertas ou da colonização portuguesa já é quase motivo para se ser apontado como repulsivo colonialista-esclavagista, duvido que o tema da reportagem e os custos que a sua longa e complexa empreitada envolveram fossem autorizados sem controvérsia na televisão pública. Mas, adiante, que isso é outro assunto, ainda que dentro do mesmo amplo contexto em que tudo isto se move. Andava então por uma terrinha chamada Santarém — uma das várias terras com nomes de outras terras do Ribatejo existentes no Amazonas, reflectindo decerto a origem dos seus colonizadores — quando me deparei com um comício político para uma eleição local. Numa noite quente e abafada, num palanque ao ar livre, um caboclo já de meia idade, candidato a prefeito local, subia ao palco para discursar para umas dezenas largas de pessoas. Aproximei-me para ouvir o seu discurso, que começou rigorosamente assim:

— Meus povos… — e, olhando à roda, enquanto segurava desajeitadamente no microfone, fazendo uma pausa, acrescentou:

— E minhas povas.

Sorri, extasiado: ali, numa pequena povoação do faroeste amazónico, a milhares de quilómetros do que poderíamos imaginar ser aquilo a que chamamos civilização, eu tinha acabado de assistir, pela boca de um caboclo, ao nascimento da linguagem politicamente correcta, do ponto de vista sexista. Anos depois, tendo tido o privilégio de realizar a primeira entrevista com Dilma Rousseff após ela ter sido eleita para o seu primeiro mandato, à entrada para a dita entrevista, no Palácio do Planalto, em Brasília, uma das suas assessoras fez-me notar que a Presidente gostava — ou melhor, fazia questão — de ser tratada por “Presidenta”. Ao que eu sorri outra vez e segui em frente: isto é, durante os 45 minutos que durou a entrevista, tratei-a sempre por senhora Presidente — conforme se diz na língua em que eu falo e escrevo, que é a língua que recebi de Ferreira de Castro e de tantos outros de que sou tributário, a língua que levámos ao Brasil e que misturámos com a dos tupi-guarani da Amazónia, chamando-lhe a “Língua Geral”. Essa mesma língua que os brasileiros trataram depois de adaptar e enriquecer à sua maneira e que a nós, portugueses, nos cabia simultaneamente defender — no menos, que é, por exemplo, não tratar a Presidente do Brasil por Presidenta só porque ela acha que assim deve ser, ou no mais, que era não ter assinado com o Brasil esse acto colonial invertido que foi o Acordo Ortográfico, uma indigna traição à língua de Camões, aprovada na Assembleia da República, entre outros, pelo Bloco de Esquerda.

Então, durante anos contei como anedota a história dos “meus povos e minhas povas” e nunca alguém dos que a escutaram deixou de se rir com ela, não vendo ali outra coisa que não isso mesmo: uma anedota. Mas eis que mais de vinte anos volvidos, a mesma frase, dita por outras palavras, regressa à actualidade pela boca de um dirigente do Bloco de Esquerda e, como dizia o outro, já não como comédia, mas como ridícula tragédia. Não como anedota, mas para ser levada a sério, no âmbito do que o seu autor chama “a linguagem inclusiva”.

A coisa passou-se durante a recente Convenção do BE, quando o presidente do seu grupo parlamentar, Pedro Filipe Soares, subiu ao palco e se dirigiu aos militantes tratando-os por “camaradas e camarados”. Segundo o próprio nos informa, esta pérola de cultura gramatical “inclusiva” despertou “uma inesperada atenção nacional”, pois que “mexeu no vespeiro do politicamente correcto”. Ora, vamos por partes, do menos para o mais. Primeiro, o homem e as suas circunstâncias; depois, o conceito e o seu vespeiro; enfim, o pormenor da língua como instrumento de desestruturação social à conta do combate politicamente correcto.

Confesso que practicamente não dei pela Convenção do BE: tinha outras coisas bem mais interessantes para fazer no fim-de-semana e limitei-me e olhar para os títulos dos jornais. Por junto, fiquei a saber que Mariana Mortágua está pronta para ir para o Governo, para o reservado lugar de ministra das Finanças que lhe destinou Francisco Louçã — o que, por si só, é razão para que metade dos contribuintes comece a fazer as malas para se pirar daqui para fora. Não fosse o próprio Pedro Filipe Soares, num assomo de ousada eloquência, ter ocupado uma página do “Público” a contar o episódio dos “camaradas e camarados”, justificando-o como “mais um passo numa luta em várias frentes, mas com um mesmo objectivo: vencer a agenda patriarcal e machista” (além da sempre aplaudida “evolução da língua”), e eu nem teria dado pela tal “atenção nacional” que ele garante ter despertado. Fico, pois, a aguardar os passos seguintes do prometido combate à agenda machista gramatical, que não devem tardar: “colegas e colegos”, “polícias e polícios”, “coronéis e coronelas”, “generais e generalas”, “bombeiros e bombeiras”, “torneiros-mecânicos e torneiras-mecânicas”, “alfarrabistas e alfarrabistos”, “árbitros e árbitras”, “anestesistas e anestesistos”, “dentistas e dentistos”, etc., e etc., que o cardápio é infinito.

O senhor deputado do BE e todos os outros deveriam estar, não apenas preocupados, mas angustiados com uma geração que não lê — nem livros, nem jornais, nem revistas. Mas, em vez disso, quer agora ensinar-lhes a corrigir conceitos sexistas de gramática! Por amor de Deus, senhor deputado! Porque não vai arejar ideias até Santarém, na Amazónia?

Quanto ao fatal conceito do politicamente correcto, depois da nova definição fornecida por António Costa, já ninguém se entende. Reconheço que a sua frase, acima citada, é profunda e resulta, certamente, de profunda reflexão, obviamente testada com os seus spin-doctors. O problema é que, às vezes, estas soberbas proclamações, de tão densas, acabam por querer dizer tudo e coisa alguma. “O novo politicamente correcto é o politicamente incorrecto”? Pois que seja. E o que muda tão cintilante constatação? A meu ver, nada: eu continuo a perceber, nem que seja só por instinto, que o lado dos “camarados”, do Acordo Ortográfico e da “evolução da língua”, da agenda do PAN e de tantas causas fracturantes que já nem sabemos quantos géneros cabem num simples cartão de cidadão, não é o meu lado. Se com isso sou politicamente correcto ou incorrecto, é-me absolutamente indiferente. Dentro do vespeiro, espero continuar a dar com a saída.

Porém, no meio do folclore, o pormenor da língua permanece essencial. Mas, tal como na querela das touradas, há quem insista em não perceber (ou não consiga perceber genuinamente) que a questão de fundo não é discutir se se gosta ou não de touradas, mas se uma ministra da Cultura pode ou não discriminar um espectáculo em função do seu gosto pessoal, também aqui o essencial é o deputado do BE achar que pode, sem danos colaterais, introduzir na gramática invenções em benefício da “linguagem inclusiva” e do “combate ao machismo patriarcal”. Isto, para uma geração de miúdos (e miúdas, senhor deputado!) para quem o simples e mais elementar domínio da língua portuguesa se está a tornar um gravíssimo problema de identidade e soberania nacional. Já dramaticamente baralhados por essa brilhante contribuição dos governos e dos deputados para a compreensão do português lido e escrito que é o Acordo Ortográfico, viciados e adulterados pela linguagem das redes sociais e dos SMS, as novas gerações de alunos são incapazes de ler e de entender, e menos ainda de escrever, o mais vulgar texto, na língua dos seus pais e avós. Uma simples consulta aos testes dos examinados que entram nas universidades é de deixar os cabelos em pé. Era com isso que o senhor deputado do BE e todos os outros deveriam estar, não apenas preocupados, mas angustiados: com uma geração que não lê — nem livros, nem jornais, nem revistas. Mas, em vez disso, o senhor deputado quer agora ensinar-lhes a corrigir conceitos sexistas de gramática! Sinceramente, senhor deputado, porque não vai arejar ideias até Santarém, na Amazónia?


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia