A resignação de um povo

(Tiago Franco, in Facebook, 06/06/2026, Revisão da Estátua)


O Expresso noticiava, em Abril deste ano, que Portugal tem um salário médio 38% inferior à média europeia. Faço estas contas repetidas vezes porque, apesar de este país ser cada vez menos recomendável, ainda é o mais parecido que tenho com o conceito de casa e gostava de um dia aqui trabalhar.

Saio genuinamente irritado de sítios, onde quem me atende não tem qualquer culpa, por causa do custo de vida galopante. Como é que se vive? É sempre esta a minha interrogação. Como é que se vive nestas condições?

A esmagadora maioria dos portugueses leva para casa 1000 euros, um pouco mais ou um pouco menos. Ouvimos esta semana uma nova subida da Euribor que afetará as prestações dos créditos à habitação. Um depósito de gasolina já custa, sem grande esforço, cerca de 100 euros. A eletricidade e o gás custam mais do que nos países mais ricos.

Os preços das casas continuam a subir, o cabaz da alimentação também e já é certo que, no máximo, lá para Setembro, o BCE aumentará as taxas de referência. Uma notícia de ontem anunciava que o endividamento na banca sobe pelo oitavo mês consecutivo. Entretanto nós continuamos com os 1000 euros na mão, a escolher no que cortar. Alguém me faz essa conta? Como é que se suporta uma família com 1000 euros, em 2026 em Portugal?

As bombas das imagens acima distam pouco mais de 30 km. Na espanhola o governo resolveu absorver os custos. Na portuguesa, o governo de Montenegro aproveita o conflito do Irão para mais um jackpot de impostos.

Como é que nós aguentamos isto? Como é que um povo, que invade academias de futebol ou faz esperas a jogadores, não se junta e começa, por exemplo, a partir coisas? Sei lá…bombas de gasolina, supermercados, escadarias da AR. Como é que no desespero e na aflição de vermos a vida de miséria a que nos estão a condenar, não reagimos? Como é que aquele instinto animal, de sobrevivência e pouco maturado, reconheço, não aparece nestas ocasiões?

É que reparem, o governo pode fazer qualquer coisa para ajudar. Pode desde logo reduzir os impostos sobre os combustíveis. Pode incentivar políticas de trabalho remoto para que se poupe em deslocações. Pode parar com a idiotice de dar benefícios a senhorios ou construtores. Pode impor regras fiscais que obriguem a uma distribuição mais justa da riqueza. Podem, enfim, tentar fazer algo pela melhoria de vida em vez de, repetidamente, nos tentarem convencer que todos os infortúnios resultam de factores externos e que nada, do nosso destino, é internamente controlado.

Acho piada quando os grandes temas, em vez do passarem pelo nosso crónico empobrecimento, são o regozijo pelos imigrantes que resolvem abandonar Portugal ou as lutas de galinheiro sobre bandeiras, nacionalidade e opções sexuais.

Quando um português, mesmo daqueles um bocadinho mais fachos, percebe que nem um paquistanês cá quer ficar, não entende o que isso diz do nosso país?

Tudo isto me irrita. Um governo que nos rouba sem pudor e um povo que aceita, empobrecer, sem luta, sem combate, sem a rua. Porque é a vida. Temos que aguentar e esperar por dias melhores. Que pena termos apenas uma vida.

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Os disparates que omitem o país real

(Tiago Franco, in Facebook, 05/04/2026, Revisão da Estátua)


Tomei o pequeno-almoço, ontem, em Bragança e resolvi ir dar uma volta. Julgo que me enganei numa rotunda, ou duas, e quando dei por ela estava na Holanda. Acontece-me com alguma frequência.

Pelo caminho fui ouvindo as notícias e, sempre que possível, aqueles podcasts que habitualmente me fazem companhia. Ontem percebi que o grande debate do momento, na AR, é sobre a revisão da Constituição. E bem, muito bem. Também não me consigo lembrar de mais nada que esteja a arder.

Hoje, durante umas boas horas, as televisões passavam o “guião Trump”. Não sei se já repararam mas metade do nosso espaço informativo é a debater os posts do Trump e a tentar adivinhar o que ele dirá no dia seguinte.

De manhã, encheu-se muito e bom chouriço com o piloto encontrado, e de tarde discutiu-se o ultimato dado aos iranianos (para abrirem o estreito de Ormuz), depois de Trump ter afirmado que não queria abrir o canal, que eles estavam obliterados e que não havia ninguém para negociar. É difícil seguir a lógica de um mentiroso compulsivo que coincide, no mesmo espaço físico, com um ignorante.

Enquanto ouvia isto tudo fui metendo combustível para ir ganhando horas no alcatrão. Em Portugal levei aquele dedo maroto com 2.1 eur/L mas em Espanha, do camarada Sanchez, ninguém deu pelo Irão e a coisa fez-se por 1.5 eur/L.

Quando cheguei a França comecei a empurrar o carro, tipo Flinstones, para evitar bombas onde o combustível estava entre 2.3 e 2.7 Eur/L. Já, na Bélgica, voltei a entrar no carro e a “aproveitar” a gasolina a 1.9 eur/L.

Pela minha pequena sondagem parece-me que o governo belga e, em especial, o espanhol, estão a absorver os custos energéticos da guerra no Irão e, para já, a proteger as populações. Portugal, como sempre nestas alturas de crise, antes do primeiro míssil aterrar, já está a anunciar os aumentos. E isto enquanto o Montenegro se vai babando com o superavit (que vem não de qualquer gestão prodigiosa mas simplesmente de mais cobranças de impostos).

Isto são problemas da vida real. Era isto que eu gostava que os deputados do meu país discutissem. Depois das burcas, da cidadania, dos trans e da revisão da Constituição, acham que seria possível reservarem, vá, uns 20 ou 30 minutos, para falarem sobre o facto de andarmos de crise em crise, a esmifrar o que já está esmifrado?

Como é que o combustível na Bélgica é mais barato do que em Portugal? Como é que em Espanha o litro custa menos 50 cêntimos? Como é que pessoas, com os salários dos mais baixos da Europa, podem viver com um custo de vida energético/habitacional superior ao dos países mais ricos?

Era isto que eu gostava de ver nas sessões da AR TV (que sigo) e era sobre isto que eu apreciava que a CNN, o NOW, a SIC e RTP, convidassem especialistas para opinar, sugerir e antecipar.

Sobre as diarreias do Trump e a cobertura mediática que aquele imbecil gera, já todos percebemos que é uma perda de tempo. Facto algum se aguenta mais de 24h e qualquer análise deixa de fazer sentido no dia seguinte. Para o Trump merecer tempo de antena de mais do que 20 minutos, todos sabemos que notícia deverá estar na origem e não poderá ser apenas a orelha.

Problemas reais. Pobres esmifrados. Gente que não consegue pagar contas. Salários que não chegam ao fim do mês. Um governo de propaganda que vive noutro país. Era isso. Se puderem ajudar, agradeço.

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Vamos discutindo o preço insuportável dos combustíveis enquanto podemos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/07/2021)

Daniel Oliveira

O debate estrutural não é como manter preços dos combustíveis baixos. Não acontecerá. As pessoas têm de ser capazes de pagar as suas deslocações, mas as soluções de longo prazo terão de vir de transportes públicos gratuitos e de qualidade; políticas públicas de habitação agressivas; um investimento sem precedentes na ferrovia; e uma revolução económica inevitável que distribua riqueza em vez de a concentrar. Se estes debates forem perdidos, os negacionistas das alterações climáticas terão outros para oferecer.


Um estudo da “Nature” da semana passada concluiu que a região sudeste da Amazónia está, pela primeira vez, a emitir mais dióxido de carbono do que aquele que é capaz de absorver. Esta alteração dramática para o planeta deve-se a uma maior variabilidade do clima e à morte precoce árvores. A deflorestação só abreviou o processo. Entrámos naquela fase em que as alterações climáticas aceleram os próprios fatores de alterações climáticas, numa espiral infernal que rapidamente se tornará imparável.

Já não é preciso fazer um esboço dos efeitos desta espiral. Podemos vê-las na televisão, com temperaturas recorde nos EUA e no Canadá ou enchentes assustadoras na Alemanha. Podemos senti-las nas nossas vidas, ano após ano, cada vez mais assustadoras. A catástrofe climática anunciada já é de tal forma evidente nas nossas vidas que muitos deveriam ir apagar muitas piadinhas que escreveram sempre que fazia mais frio.

Também na semana passada, Bruxelas aprovou a meta de reduzir em 55% as emissões de CO2 até 2030. A meta, que parece quase impossível de atingir, está longe de ser ambiciosa. As associações ambientalistas afirmam que esta meta é ineficaz e não se baseia na ciência. Que seria necessária uma redução de pelo menos 65%. Seja como for, a Comissão também propõe banir a construção de novos carros a gasolina e gasóleo até 2035. Dito assim, muitos acreditarão que basta trocar de carro e tudo pode seguir como antes. Não pode, como percebemos sempre que discutimos as alternativas energéticas para mantermos a vida que temos. Descobrimos sempre que é insustentável se não mudarmos algumas coisas essenciais no nosso modo de vida. E traram-se de escolhas coletivas e não, como gostam os que preferem abandonar a política para falar de ambiente, opções privadas com efeitos quase irrelevantes e acessíveis a muito poucos.

Enquanto estes debates se fazem, há dia a dia das pessoas. Os preços dos combustíveis atingem níveis insuportáveis. Não apenas em Portugal, mas em Portugal tem outro impacto nas despesas dos cidadãos. É absurdo dar lições ambientalistas a quem não sabe como pagar as suas deslocações diárias. Mas, mesmo que o cartel dos retalhistas seja vencido e que se baixem os impostos sobre os combustíveis, não é provável, com o caminho que o mundo leva, que os preços venham a baixar nos próximos anos. Nem podem. O debate politicamente sério não é esse. Nem seguramente como reduzir as ciclovias para não atrapalhar o trânsito. Dizer isto não é dizer que nos estamos nas tintas para os problemas quotidianos das pessoas. É que as soluções a longo prazo para esse quotidiano terão de vir de outro lado e não podem ser exclusivamente fiscais.

Os ecoliberais, grupo ideológico que crescerá à medida que a catástrofe se torne mais óbvia e o mercado se tenha de adaptar a ela, virão defender a seleção natural nesta nova era. Como em tudo, o mercado resolverá e as vítimas do costume serão danos colaterais. Os que “não se sabem adaptar”. Este discurso apenas levará o povo para as fileiras dos que lhe ofereçam a resposta fácil: não é preciso fazer nada porque o problema não existe. E é por isso que o debate ambiental, que tem sido enganadoramente técnico e por isso enganadoramente consensual, terá de ser apropriado pela política. Terá, horror dos horrores, de se ideologizar. As alterações climáticas não são ideológicas. Reagir a elas é apenas uma questão de sobrevivência. Mas a forma como isso será feito, quem fica pelo caminho e em que sociedade viremos é política.

O debate estrutural não é como manter preços de combustíveis baixos. Não acontecerá. É como ter transportes públicos urbanos e suburbanos gratuitos e de qualidade. Tão essencial para cada um e para todos, se queremos tirar quase todos os carros da rua, como a saúde e a educação. É como ter políticas públicas de habitação agressivas – também viradas para a classe média, mesmo que isso leve a ondas virais populistas de indignação dos que acham que o Estado Social deve ser voltar a ser um Estado assistencialista – que travem o êxodo para as periferias. É sobre um investimento sem precedentes na ferrovia e na alta velocidade, de que estamos deligados e por isso dependentes do avião. É, por fim, como conseguir que a revolução económica que inevitavelmente acontecerá crie mais emprego do que aqueles que destruirá e distribua riqueza em vez de a concentrar.

Se todos estes debates forem perdidos, os negacionistas – os teóricos, que recusam a realidade, e os práticos, que a aceitam, mas comportam-se como se ela não existisse – terão outro discurso para oferecer. Serão eles que levarão a melhor. Os nossos netos, os seus filhos e os netos deles não deixarão de nos tratar como a mais criminosa de todas as gerações. Com toda a razão.


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