O combustível da hipocrisia

(João Ferreira, in Facebook, 26/07/2026, Revisão da Estátua)


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Há um curioso fenómeno em tempos de guerra: nem sempre os factos são tão importantes como a narrativa. Senão vejamos.

A Federação Russa era um grande exportador de combustíveis refinados. Após sofrer ataques às suas refinarias, viu naturalmente a sua capacidade de refinação diminuir. Continua, no entanto, a exportar petróleo e gás, embora tenha reduzido significativamente o fornecimento aos países da UE que independentemente das sanções e ao contrário das narrativas continuaram a comprar gás e combustível pesado.

As refinarias danificadas vão sendo recuperadas, mas ninguém espera que um sistema industrial desta dimensão funcione sem perturbações.

Perante esta realidade, o governo da Federação Russa tomou uma decisão discutível, mas clara: manteve os preços internos dos combustíveis praticamente inalterados para proteger a sua economia e a sua população. Em contrapartida, introduziu medidas de racionamento. Em muitas zonas, cada abastecimento fica limitado a 30 litros por dia e, em algumas cidades com forte indústria militar, até existe um sistema alternado por matrícula, pares num dia, ímpares no outro.

Mas, quem pretender ultrapassar esse limite pode fazê-lo, no entanto paga um preço cerca de 50% superior. Como em qualquer sistema, há quem tente contornar as regras, regressando à fila para efetuar um novo abastecimento, para evitar o custo adicional.

Até aqui, tudo isto serve de motivo para manchetes triunfalistas nos meios de comunicação dos países da UE. “A Rússia já importa combustíveis”!, anunciam eles, como se isso, por si só, fosse a prova definitiva do seu colapso. Sim, importa para cumprir contratos de exportação, mas isto talvez seja complicado explicar a alguém que pertence sem saber ao exército zombie. Mas há um pequeno detalhe que parece escapar a esse entusiasmo.

Os EUA, que criaram, incentivam e apoiam o esforço militar contra a Federação Russa, encontram-se simultaneamente envolvidos noutros conflitos e, como consequência, viram os combustíveis aumentar cerca de 60% para toda a população. Não existe qualquer racionamento; simplesmente, todos pagam muito mais.

Já os países da UE, tão rápidos a celebrar as dificuldades alheias, aumentaram também o preço dos combustíveis em mais de 35%, igualmente para toda a população.

É aqui que a ironia começa.

Os comentadores dos países da UE riem-se porque a Federação Russa teve de recorrer a importações temporárias de combustível refinado. Mas esquecem-se de referir que, apesar dessa necessidade, o governo da Federação Russa optou por absorver grande parte do impacto económico, mantendo o preço interno relativamente estável e transferindo o sacrifício para um sistema de limitação de consumo.

Enquanto isso, nos países da UE e nos EUA, a solução foi muito mais simples: deixar que seja cada cidadão a pagar a fatura, sempre que encosta a mangueira ao depósito.

A pergunta torna-se, portanto, inevitável. Quem está realmente a sacrificar mais a sua população? O país onde se pode abastecer menos litros, mas pagando praticamente o mesmo preço? Ou os países onde se pode abastecer à vontade… desde que a carteira aguente aumentos de 35% ou de 70%?

A propaganda tem destas coisas. Consegue transformar um problema logístico num espetáculo mediático, enquanto trata como irrelevante um aumento generalizado do custo de vida dos seus povos e da sua economia.

No fim, talvez a questão não seja quem importa combustível. Talvez seja quem exporta mais hipocrisia. Porque importar combustível pode ser uma consequência temporária da guerra. Importar coerência parece ser muito mais difícil.

Peço desculpa ao exército zombie, por dizer verdades duras e que podem acordar, pois tenho acesso a muitas pessoas na Federação Russa e na Ucrânia e ando atento aos hipnotizadores da Igreja Universal do Reino dos Merdia com o seu método costumeiro, inspirado em Joseph Goebbels.

Da série: “o país está melhor, os portugueses estão pior”

(Estátua de Sal, 25/07/2025)

Portuguese sign stating the necessity of people for governance and democracy

O video que podem ver abaixo já tem um ano, perfeito na última quinta-feira. Porque, então, o publico? Porque já na altura ele desmistificava as patranhas do Montenegro, ufanando-se do estado de um país que só ele conseguia vislumbrar. E hoje, um ano transcorrido, todas as nuvens negras que pairavam sobre a economia portuguesa, têm tintas ainda mais carregadas.

A alimentação, as casas, os combustíveis e tudo o mais que é essencial a uma vida digna, afasta-se cada vez mais da bolsa do cidadão comum. Enquanto isso, Montenegro vai dizendo que o país “está na maior”. Sim, Luís, na maior estás tu, refastelado no estádio nos EUA a ver o Mundial à pala do Orçamento. Mas tu não és “o país”, a não ser que a megalomania e a alucinação te tenham “desaparafusado” de vez.

E parabéns à Davim pela sua intervenção neste vídeo. No meio de tanto lixo que desagua na esterqueira da CNN, a prestação desta rapariga destoa pela positiva nos seus comentários sobre a política nacional. Mas ela que não abuse. Senão ainda vai ter o mesmo destino que outros, como o Carlos Branco, ou talvez o Agostnho Costa que já não aparece há quase 15 dias. O que lhe terá acontecido? Saneado também?! A ver vamos.

Margarida Davim, in CNN, 23/07/2025

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Os disparates que omitem o país real

(Tiago Franco, in Facebook, 05/04/2026, Revisão da Estátua)


Tomei o pequeno-almoço, ontem, em Bragança e resolvi ir dar uma volta. Julgo que me enganei numa rotunda, ou duas, e quando dei por ela estava na Holanda. Acontece-me com alguma frequência.

Pelo caminho fui ouvindo as notícias e, sempre que possível, aqueles podcasts que habitualmente me fazem companhia. Ontem percebi que o grande debate do momento, na AR, é sobre a revisão da Constituição. E bem, muito bem. Também não me consigo lembrar de mais nada que esteja a arder.

Hoje, durante umas boas horas, as televisões passavam o “guião Trump”. Não sei se já repararam mas metade do nosso espaço informativo é a debater os posts do Trump e a tentar adivinhar o que ele dirá no dia seguinte.

De manhã, encheu-se muito e bom chouriço com o piloto encontrado, e de tarde discutiu-se o ultimato dado aos iranianos (para abrirem o estreito de Ormuz), depois de Trump ter afirmado que não queria abrir o canal, que eles estavam obliterados e que não havia ninguém para negociar. É difícil seguir a lógica de um mentiroso compulsivo que coincide, no mesmo espaço físico, com um ignorante.

Enquanto ouvia isto tudo fui metendo combustível para ir ganhando horas no alcatrão. Em Portugal levei aquele dedo maroto com 2.1 eur/L mas em Espanha, do camarada Sanchez, ninguém deu pelo Irão e a coisa fez-se por 1.5 eur/L.

Quando cheguei a França comecei a empurrar o carro, tipo Flinstones, para evitar bombas onde o combustível estava entre 2.3 e 2.7 Eur/L. Já, na Bélgica, voltei a entrar no carro e a “aproveitar” a gasolina a 1.9 eur/L.

Pela minha pequena sondagem parece-me que o governo belga e, em especial, o espanhol, estão a absorver os custos energéticos da guerra no Irão e, para já, a proteger as populações. Portugal, como sempre nestas alturas de crise, antes do primeiro míssil aterrar, já está a anunciar os aumentos. E isto enquanto o Montenegro se vai babando com o superavit (que vem não de qualquer gestão prodigiosa mas simplesmente de mais cobranças de impostos).

Isto são problemas da vida real. Era isto que eu gostava que os deputados do meu país discutissem. Depois das burcas, da cidadania, dos trans e da revisão da Constituição, acham que seria possível reservarem, vá, uns 20 ou 30 minutos, para falarem sobre o facto de andarmos de crise em crise, a esmifrar o que já está esmifrado?

Como é que o combustível na Bélgica é mais barato do que em Portugal? Como é que em Espanha o litro custa menos 50 cêntimos? Como é que pessoas, com os salários dos mais baixos da Europa, podem viver com um custo de vida energético/habitacional superior ao dos países mais ricos?

Era isto que eu gostava de ver nas sessões da AR TV (que sigo) e era sobre isto que eu apreciava que a CNN, o NOW, a SIC e RTP, convidassem especialistas para opinar, sugerir e antecipar.

Sobre as diarreias do Trump e a cobertura mediática que aquele imbecil gera, já todos percebemos que é uma perda de tempo. Facto algum se aguenta mais de 24h e qualquer análise deixa de fazer sentido no dia seguinte. Para o Trump merecer tempo de antena de mais do que 20 minutos, todos sabemos que notícia deverá estar na origem e não poderá ser apenas a orelha.

Problemas reais. Pobres esmifrados. Gente que não consegue pagar contas. Salários que não chegam ao fim do mês. Um governo de propaganda que vive noutro país. Era isso. Se puderem ajudar, agradeço.

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