Fuckin e a realidade

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 29/07/2022)

Mandar umas bojardas num concerto é um tónico para contas e egos. Nada de mal. Haja liberdade de expressão.

A bojarda é apenas um adereço de palco. O público bate palmas, alivia-se de gases e ri-se. O artista sai em ombros escoltado pelos seguranças privados das claques das SAD da bola. Malta fina.

O número é de excelente e seguro efeito. O Putin que vá para a mãe dele.

O chato é que há uma guerra de resultados conhecidos. A realidade é a son of a bitch. (existe tradução automática para quem quiser).

Qual é a realidade: O Putin ganha! E quem se meteu com ele sabia isso desde o início. As maiores empresas mundiais como sabiam disso nunca tiveram lucros tão assombrosos como os do primeiro semestre deste ano, devido à guerra. Até as empresas portuguesas foram ao pote.

Porque sabiam e sabem o resultado da guerra as grandes empresas do mundo, os conferencistas do Forum de Davos, os sócios do Clube de Bildberg, o G-7, o G-20, o Vaticano, a NATO, a Casa Branca, Wall Street, o Bank of America, tiveram enormes lucros. A esses ninguém os manda àquela parte! São o sistema.

É fácil chegar à conclusão sobre o vencedor e não é necessário ouvir oráculos. Basta consultar uma publicação de acesso livre: Forbes Global 2000.

Nesta revista (basta ir ao Google) estão listadas as 15 maiores empresas do mundo. As 5 primeiras são:

1. ICBC — China. O Banco Industrial e Comercial da China (conhecido apenas como ICBC) pertence ao Estado chinês e tem investimentos e sucursais em várias partes do mundo. Vendas: US$ 190,5 bilhões; Bens: US$ 4 trilhões; Lucro (2021): US$ 45,8 bilhões; Valor de mercado: US$ 249,5 bilhões

2. JPMorgan Chase — EUA. Setor: banca; Vendas: US$ 136,2 bilhões; Bens: US$ 3 trilhões; Lucro: US$ 40,4 bilhões; Valor de mercado: 464,8 bilhões

3. BerkshireHathayay — EUA; Setor: finanças diversificadas; Vendas: US$ 245,5 bilhões; Bens: US$ 873,7 bilhões; Lucro: US$ 42,5 bilhões;Valor de mercado: US$ 624,4 bilhões

4. China Construction Bank — China; Setor: banco; Vendas: US$ 173,5 bilhões; Bens: US$ 4 trilhões;Lucro: US$ 39,3 bilhões;Valor de mercado: US$ 210,4 bilhões

5. Saudi Arabian Oil Company País: Arábia Saudita; Setor: operações de petróleo e gás; Vendas: US$ 229,7 bilhões; Bens: US$ 510,3; bilhões;Lucro: US$ 49,3 bilhões; Valor de mercado: US$ 1 trilhão.

´A realidade é que quem manda no mundo é a banca, e neste campo a China está a par dos EUA. O outro setor importante é o da energia. Neste campo a Rússia, através da Gazprom tem um poder decisivo, como se tem visto, sobre a maior economia europeia, a alemã.

Perante esta realidade, tendo os Estados Unidos erigido a China como o seu inimigo principal e tendo a China o mesmo interesse em ter como aliado uma Rússia forte do que os EUA em ter uma Rússia fraca, parece silogisticamente lógico que a China vai usar o seu poder financeiro para apoiar a Rússia. A Banca chinesa e o petróleo e gaz russos são mais fortes que a banca dos EUA e o petróleo da Arábia Saudita.

Como os EUA não têm poder, nem interesse em envolver-se num conflito quente simultâneo na Europa Oriental e no Pacífico, a Rússia comanda para já o jogo a Ocidente, na Europa, e a China a Oriente, no Pacífico.

No limite, a Rússia pode até utilizar armas nucleares táticas na Ucrânia, que nem os Estados Unidos nem, muito menos, os europeus, intervirão.

Em resumo, o casal presidencial Zelenski ficará com uma bela recordação na Vogue dos seus tempos de famosos em Kiev, os cantores e ativistas de proveniências várias podem mandar Putin à mãe dele, que a realidade é o que é e não a que desejamos que fosse. A realidade, na realidade não é putinista ou zelenskista, não é clubista, embora haja quem assim a tome para si, o que não a altera.

Os bancos e as grandes companhias vão aumentar os lucros (incluindo as 4 multinacionais que dominam o mercado de cereais), os povos, em particular os europeus, vão empobrecer (os de outros continentes já são pobres), os jovens ucranianos e russos vão morrer, os habitantes anónimos da Ucrânia continuarão a alimentar os abutres da comunicação social, perguntando para as câmaras o que lhes está a acontecer, porque lhes destroem a casa e matam os filhos.

O habitual nas guerras. O repugnante é que quem está a apelar à guerra e aos sagrados valores sabe que é assim — um jogo de poder por interpostos atores — e sabe o que está em jogo, sabe como isto vai acabar e mantem a guerra porque ela dá lucro aos seus apoiantes!

Mas a esses ninguém os manda à mãe deles!


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A bomba financeira que ameaça ser atómica

(In AbrilAbril, 19/04/2022)

Imagem do filme de Stanley Kubrick, Dr. Strangelove (1964)

Nem tudo é o que parece, e nem tudo tem o resultado que diz ter. A petição assinada, entre muitos, pelos economistas Thomas Piketty e Joshep Stiegliz, apelando para que seja criado um registo mundial dos bens, a propósito da opacidade existente nas fortunas dos oligarcas russos, vai muito além do que é dito.

«O caso dos oligarcas russos fala por si» na ocultação de fortunas dentro de estruturas opacas, dizem os economistas, numa carta publicada hoje no diário britânico The Guardian e dirigida aos líderes do G20.

Os oligarcas russos detêm «pelo menos mil milhões de dólares de riqueza no estrangeiro», segundo estimativas incluídas na carta, assinada pelos franceses Thomas Piketty e Gabriel Zucman, bem como pelo prémio Nobel norte-americano Joseph Stiglitz, todos membros do grupo de reflexão Comissão Independente para a Reforma Fiscal das Empresas Internacionais.

Estas fortunas estão frequentemente escondidas «em empresas offshore cujos verdadeiros proprietários são difíceis de determinar», afirmam, acrescentando que «é precisamente este muro de opacidade que os esforços dos países que os pretendem castigar estão agora a enfrentar».

Um registo mundial de bens permitiria não só saber para onde fugiu o dinheiro dos oligarcas, mas também impedir a evasão fiscal de grande parte dos capitalistas e especuladores financeiros que desviam dinheiro dos seus respectivos países.

As sanções servem para alguma coisa?

Muitos comentadores garantem que as sanções à Rússia estão a ter um forte efeito na economia desse país e que o seu objectivo é forçar o governo de Moscovo a parar a sua acção militar na Ucrânia. Mas serão esses os principais efeitos que vão ter?

«Para ser viável, o embargo total ao comércio com a Rússia teria de resultar numa enorme contracção da economia russa, sem que os custos para a economia da União Europeia (UE) fossem significativos. Ora, não é esse o caso. Para reduzir um euro de PIB da Rússia a UE tem de estar disposta a sacrificar vários euros de actividade económica “doméstica”, porque a economia da UE (de cerca de 14,4 mil milhões de euros em 2021) tem mais a perder porque é muito mais rica e de muito maior dimensão do que a economia da Rússia (de cerca de 1,5 mil milhões de euros, à cotação do rublo no final de 2021). Por exemplo, se, em resultado das sanções económicas, em 2022, o PIB real da UE e da Rússia caísse 3% e 20%, respectivamente, a queda do PIB da UE (em euros de 2021) seria cerca 44% superior à queda do PIB da Rússia (em rublos e à taxa de câmbio de 2021). Ou seja, mesmo com um impacto das sanções proporcionalmente muito superior para a Rússia, as perdas globais na actividade económica para a UE seriam significativamente superiores às que seriam registadas pela Rússia. Além disso, as reacções populares ao aumento da inflação e do desemprego serão provavelmente mais difíceis de gerir politicamente nas democracias ocidentais», escreve o economista Ricardo Cabral, no jornal Público.

Para além disso, é quase impossível que a queda do PIB da Rússia seja tão drástica como ambicionado pelo Ocidente, porque «a China e a maior parte dos países do mundo não irão aplicar sanções económicas à Rússia. A Rússia registou um excedente externo de 190 mil milhões de dólares em 2021, muito superior, por conseguinte, ao valor das exportações de petróleo e gás natural da Rússia para a UE, que foram de cerca de 99 mil milhões de euros em 2020. Mesmo que a UE deixasse de importar petróleo e gás natural da Rússia, a Rússia continuaria com excedente externo, o que lhe permitiria estabilizar a cotação do rublo e continuar a financiar as importações que a sua economia necessita, adquirindo-as a fornecedores de outros países», acrescenta esse economista.

Finalmente, as sanções podem ter efeitos não previstos na economia mundial tal como a conhecemos, que podem rebentar nas mãos daqueles que as decretaram. Comecemos por analisar o que está em causa neste conflito, para além daquilo que é óbvio.

Os pais da invasão e das sanções

A invasão da Ucrânia pela Rússia foi desejada, por muitos, para além do presidente russo, Vladimir Putin. Nos relatórios da RAND Corporation, uma instituição que trabalha para o governo dos Estados Unidos da América (EUA) defendia-se a vantagem de empurrar os dois países de Leste para uma guerra que desgastasse a Rússia, e que tivesse como consequência o corte das importações de gás russo pelos países da UE, que seria substituído por gás de xisto norte-americano, três vezes mais caro e mais poluente.

Até agora, os ganhos dessa estratégia da Casa Branca são notáveis: unificação dos países da NAT, sobre a batuta da administração de Joe Biden, suspensão do gasoduto Nord Stream 2, e o enfraquecimento internacional da Rússia.

O plano da administração de Biden que apostou numa guerra convencional limitada entre a Rússia e a Ucrânia era há muito conhecido.

No relatório «Extending Russia», da RAND Corporation, encomendado pelo governo e o exército dos EUA, traça-se, nas suas páginas, uma estratégia de confronto crescente:

«As medidas mais promissoras para desgastar a Rússia são as de abordar directamente as vulnerabilidades, ansiedades, e pontos fortes, explorando áreas de fraqueza.»

«Continuar a expandir a produção de energia dos EUA sob todas as formas, incluindo as energias renováveis, e encorajar outros países a fazer o mesmo, irá maximizar a pressão sobre as receitas de exportação russas e, por conseguinte, sobre as receitas nacionais e orçamentos de defesa».

«O aumento das armas dos EUA e o aconselhamento ao exército ucraniano é a mais viável das alternativas geopolíticas consideradas, mas qualquer esforço deste tipo teria de ser cuidadosamente calibrado para evitar um conflito generalizado.»

«Como já foi mencionado, todas as medidas para confrontar a Rússia incorrem em cerca de grau de risco. Por isso, a melhoria da postura de dissuasão dos EUA na Europa e o aumento das capacidades militares dos EUA têm de ir de mãos dadas com qualquer movimento para pressionar a Rússia, como uma forma de cobertura contra a possibilidade de as tensões com a Rússia se agravarem em conflito.»

Em causa o privilégio exorbitante dos EUA

Depois de a guerra começar, o problema de tal estratégia é que ela se pode voltar contra quem desejou e preparou este conflito. As sanções podem implodir a ordem monetária existente, baseada no dólar, e em menor peso no euro, como reservas mundiais de valor. Se isso acontecer, os EUA perderão o «privilégio exorbitante» de poder ter uma espécie de poder de Midas de criar valor. Os riscos da perda desse privilégio, que se calcula que dá uma substancial vantagem económica e permite os EUA endividarem-se quase sem risco, pode levar o mundo a um conflito nuclear.

O antigo funcionário da Reserva Federal e do Departamento do Tesouro dos EUA, agora estratega do banco Credit Suisse (CS), Zoltan Pozsar, escreveu que os EUA se encontram numa crise de mercadorias que está a dar origem a uma nova ordem monetária mundial que acabará por enfraquecer o actual sistema baseado no dólar e conduzir a uma inflação mais elevada no Ocidente.

«Esta crise não tem paralelo com nada que tenhamos visto desde que o Presidente [Richard] Nixon tirou o dólar americano do ouro em 1971», escreveu Pozsar.

Negociado por 44 países, quando a Segunda Guerra Mundial estava a terminar, o acordo de Bretton Woods (nomeado pelo local da conferência em Bretton Woods, New Hampshire) fixou o ouro como base para o dólar americano, com outras moedas então fixadas no dólar americano. Esta estrutura começou a desgastar-se nos anos 60 à medida que os défices comerciais dos EUA se tornaram demasiado grandes para serem ignorados, e desmoronou-se completamente em 1971, quando os EUA abandonaram a ligação entre o dólar e o ouro.

Como a era inicial de Bretton Woods (1944-1971) foi apoiada por ouro, e Bretton Woods II (1971-presente) apoiada por «dinheiro interno» (essencialmente papel do governo dos EUA), disse Pozsar, Bretton Woods III será apoiada por «dinheiro externo» (ouro e outras mercadorias).   

Pozsar marca o fim do actual regime monetário no dia em que as nações do G7 apreenderam as reservas cambiais da Rússia após a invasão da Ucrânia por este país. O que antes se pensava ser sem risco tornou-se com risco, uma vez que ficou claro que essas reservas não são seguras e podem ser confiscadas sempre que os ocidentais assim o quiserem.

É visível que esta guerra é vista como um balão de ensaio no seu conflito mais importante dos EUA com a China. O problema é que a acção da UE e dos EUA acaba por reforçar a parte da identidade asiática da Rússia e fazer com que ela se alinhe, de uma forma económica e política, com a China. Num tempo em que o desenvolvimento mundial tende a ter como pólo fundamental a Ásia, esse alinhamento do maior país do mundo com as maiores reservas de matérias-primas do planeta fragiliza ainda mais o domínio global do imperialismo norte-americano.

Durante mais de uma geração, os diplomatas americanos mais proeminentes alertaram para o que pensavam representar a derradeira ameaça externa: uma aliança da Rússia e da China dominando a Eurásia. As sanções económicas e o confronto militar da América estão a conduzir outros países para a sua órbita eurasiática emergente.

Esperava-se que o poder económico e financeiro americano evitasse esse destino. Durante o meio século desde que os Estados Unidos saíram do ouro em 1971, os bancos centrais mundiais operaram segundo o Padrão do Dólar, mantendo as suas reservas monetárias internacionais sob a forma de títulos do Tesouro dos EUA, depósitos bancários dos EUA e acções e obrigações americanas. O padrão que permitiu à América financiar as suas despesas militares estrangeiras e a aquisição de investimentos de outros países simplesmente através da «impressão» de dólares. Os défices da balança de pagamentos dos EUA acabam nos bancos centrais dos países com excedentes comerciais, como suas reservas, enquanto os devedores do Sul Global precisam de dólares para pagar a sua dívida externa e comprar produtos tecnológicos aos países desenvolvidos.

«Este privilégio monetário permitiu à diplomacia dos EUA impor políticas neoliberais ao resto do mundo, sem ter de usar muita força militar própria, excepto para garantir o petróleo do Médio Oriente», defende o economista Michael Hudson.

A recente escalada de sanções dos EUA que bloqueiam a Europa, Ásia e outros países do comércio e investimento com a Rússia, Irão e China impôs enormes custos de oportunidade – o custo das oportunidades perdidas – aos aliados dos EUA. E a recente confiscação do ouro e das reservas estrangeiras da Venezuela, Afeganistão e agora da Rússia pôs fim à ideia de que a detenção de reservas em dólares, libras esterlinas ou euros são um porto de investimento seguro quando as condições económicas mundiais se tornam instáveis.

Os diplomatas americanos escolheram acabar, eles próprios, com a dolarização internacional, enquanto ajudam a Rússia a construir os seus próprios meios de produção agrícola e industrial auto-suficientes. Este processo de fractura global já se arrasta há alguns anos, começando com as sanções que bloqueiam os aliados americanos da NATO e outros satélites económicos do comércio com a Rússia. Para a Rússia, estas sanções tiveram o mesmo efeito que as tarifas de protecção teriam tido.

As elites políticas e económicas da Rússia estavam demasiado encantadas com a ideologia do «mercado livre» para tomar medidas para proteger a sua própria agricultura ou indústria. Os Estados Unidos forneceram a ajuda necessária, impondo à Rússia a auto-suficiência interna (através de sanções).

A Rússia está a descobrir (ou está à beira de descobrir) que não precisa de dólares americanos como suporte para a taxa de câmbio do rublo. O seu banco central pode criar os rublos necessários para pagar os salários internos e financiar a formação de capital. As confiscações americanas podem assim levar finalmente a Rússia a acabar com a filosofia monetária neoliberal, como Sergei Glaziev tem vindo a defender há muito tempo a favor das MMT (Teoria Monetária Moderna).

Rumo a uma nova ordem monetária internacional?

A Rússia poderá ter deliberadamente sacrificado uma parte muito significativa das suas reservas internacionais para, com esse sacrifício, atingir o dólar.

«O congelamento de cerca de 300 mil milhões de dólares de reservas da Rússia em diversas divisas, entre as quais o dólar, parece demonstrar que os activos denominados em dólares apresentam elevado risco financeiro. Em particular, de ora em diante, os bancos centrais da generalidade dos países do mundo, nomeadamente dos países com grandes excedentes externos, estarão obrigados a considerar explicitamente o risco da aplicação de sanções às suas reservas em dólares e em euros e a diversificar essas reservas. Esse processo de diversificação de reservas levará a prazo à depreciação do dólar face a outras divisas internacionais, processo esse que se auto-alimenta com especuladores financeiros a anteciparem esse processo e a apostar contra o dólar», considera o economista Ricardo Cabral.

«Há muitas décadas que a Reserva Federal e o Tesouro lutam contra o regresso ao padrão de ouro, mantendo o papel do dólar nas reservas internacionais. Mas como irão a Índia e a Arábia Saudita encarar as suas reservas em dólares tentando forçá-los a seguir a “ordem baseada em regras” dos EUA, em vez do seu próprio interesse nacional? Os recentes ditames americanos deixaram poucas alternativas, a não ser começar a proteger a sua própria autonomia política através da conversão das suas participações em dólares e euros em ouro, como um activo livre de responsabilidade política de ser mantido refém das exigências cada vez mais dispendiosas e perturbadoras dos EUA», defende, por seu turno, o economista Michael Hudson.

É provável que a China veja uma oportunidade, literalmente, de ouro em se afastar do dólar americano.

A China está à procura de alternativas ao dólar americano como moeda de reserva, após as nações ocidentais terem congelado os activos estrangeiros do banco central da Rússia, disse à comunicação social Kenneth Rogoff, antigo economista chefe do FMI, a 1 de Março passado.

«É uma medida absolutamente radical tentar congelar os bens num grande banco central. É um momento de ruptura», afirmou Rogoff, professor na Universidade de Harvard.

«É uma coisa importante», acrescentou Rogoff. «Quer dizer, se quiserem olhar para o quadro a longo prazo do domínio do dólar na economia global, acreditem em mim, a China está a olhar para isto. Eles têm, não sei, três mil milhões de dólares em reservas.»

Segundo defende o economista Francisco Louçã no jornal Expresso, as sanções estão a atingir o processo de globalização financeira, tal como o conhecemos e arriscam-se a dividir a Terra em dois planetas financeiros separados.

«As sanções determinam mudanças estruturais no mapa dos poderes mundiais, ainda mais do que soluções emergenciais. O que elas atingem é a financeirização, o coração da globalização. É o caso de duas das principais medidas que foram adoptadas desde os primeiros dias do conflito: a aceitação pela UE da partilha da tutela legal do sistema Swift com as autoridades norte-americanas (o Swift é a “arma nuclear na finança”, dizia Le Maire, o ministro francês das Finanças) e a retenção das reservas da Rússia depositadas no ocidente (segundo o historiador Adam Tooze, “se reservas de um banco central de um país do G20, confiadas a outro banco central do G20, deixam de ser sacrossantas, nada o é no mundo financeiro”). Em ambos os casos, as medidas criam desconfiança acerca da circulação de capitais e da função do dólar e do euro. Doravante, nenhuma dessas moedas será um meio de circulação universal, posto que a estratégia das sanções é criar dois planetas financeiros separados».

Do nacionalismo como criador dos confrontos

A guerra serve também como multiplicador dos nacionalismos, o triunfo desta dinâmica ideológica em termos mundiais, torna o mundo mais perigoso e os conflitos inter-imperialistas mais prováveis. O nacionalismo e a guerra são receitas conhecidas para os poderosos deste mundo ultrapassarem crises políticas e económicas, manipulando as populações de forma a que sejam incapazes de verem quem as oprime e explora de facto.

Finalmente, o Ocidente, habituado ao seu domínio imperialista solitário, não percebeu uma questão evidente, o mundo não é constituído apenas pelos EUA, Europa e Japão. Mesmo na condenação, dita generalizada, na ONU da acção dos russos na Ucrânia, verifica-se que os países que representam mais de metade da população mundial se abstiveram ou votaram contra.

Como publica a revista The Economist, normalmente países como a China, Índia, Paquistão, África do Sul não têm votado favoravelmente as sanções à Rússia. No continente africano, cerca de metade dos países não tem sido favorável às sanções do Ocidente.

«Na África Austral, muitos países vêem a Rússia como o sucessor da União Soviética, que armou e treinou os exércitos guerrilheiros que combateram as potências coloniais e os regimes segregacionistas. Tal nostalgia explica em parte a guinada da África do Sul em direcção à Rússia durante a presidência de Jacob Zuma, de 2009 a 2018. Mas a relação da África do Sul com o Ocidente também foi tensa devido ao bombardeamento da Líbia. Em 2015, figuras proeminentes do Congresso Nacional Africano (ANC) publicaram um documento de política externa lamentando o colapso da União Soviética, porque tinha “alterado completamente o equilíbrio de forças a favor do imperialismo”, ou seja, a América e o Ocidente», escreve o The Economist.

Este posicionamento não se fica pela Ásia e África. Em finais de Março, Sergei Lavrov, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, afirmou que certos países «nunca aceitariam a aldeia global sob o comando do xerife americano». Referindo a Argentina, Brasil e México, entre outros, acrescentou: «Estes países não querem estar numa posição em que o Tio Sam lhes ordene que façam alguma coisa e eles dizem “Sim, senhor”».

Na contagem decrescente para uma guerra nuclear

Esta rápida transformação política e económica faz com que esta guerra na Ucrânia possa descarrilar num conflito global e atómico, dado os interesses em presença.

É pelo menos o que consideram Ted Postol, físico e especialista em armas nucleares, bem como professor emérito do MIT e comentador Robert Scheer na edição da Scheer Intelligence. Tendo leccionado na Universidade de Stanford e Princeton antes do seu tempo no MIT, Postol foi também conselheiro científico e político do chefe das operações navais e analista do Gabinete de Avaliação Tecnológica.

Postol toca todos os sinais de alarme imagináveis em relação à retórica crescente, tanto nos Estados Unidos como na Rússia, sobre armas nucleares. O professor do MIT afirma, em termos inequívocos, que embora não fosse de modo algum justificáveis os ataques da Rússia à Ucrânia, que tanto ele como Scheer descreveram como crimes de guerra, é imperativo considerar o papel da NATO na actual crise, a fim de compreender a ameaça nuclear. Explicando que os EUA devem aprender urgentemente com o passado e o presente, se quisermos evitar uma guerra nuclear no futuro a curto ou longo prazo, Postol lamenta a relutância dos líderes políticos e dos meios de comunicação social dos EUA em reflectirem sobre as acções do país.

«”Diga-nos, do que estamos a falar aqui?”, pergunta Scheer ao seu convidado: “Estamos a falar de Hiroshima e Nagasaki para todas as cidades da América?”»

«Estamos a falar de um muro de fogo que envolve tudo à nossa volta à temperatura do centro do sol», adverte solenemente Postol.


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O novo sistema monetário e financeiro mundial

(Entrevista a Sergey Glazyev, por Pepe Escobar, in Resistir, 16/04/2022)

Sergey Glazyev é um homem que vive bem no olho do nosso vulcão geopolítico e geoeconómico atual. Um dos economistas mais influentes do mundo, membro da Academia Russa de Ciências, ex-assessor do Kremlin de 2012 a 2019, desde outubro de 2019 ele está estrategicamente posicionado como o  ministro responsável pela Integração e Macroeconomia da União Econômica da Eurásia (EAEU).

A recente produção intelectual de Glazyev tem sido impressionante, sintetizada em seu ensaio Sanções e Soberania [versão traduzida ao português disponível aqui ] e uma extensa discussão o novo paradigma geoeconômico emergente, em uma  entrevista a uma revista de negócios russa.

Em outro de seus ensaios recentes, Glazyev comenta que 

“Cresci em Zaporozhye, perto de onde lutas pesadas acontecem agora para destruir os nazistas ucranianos, que não existiam em minha pequena pátria. Estudei em uma escola ucraniana e conheço bem a literatura e a língua ucraniana, que do ponto de vista científico é um dialeto do russo. Não notei nada russofóbico na cultura ucraniana. Nos 17 anos da minha vida em Zaporozhye, nunca conheci um único banderista”.

Glazyev foi extremamente gentil em reservar algum tempo na sua agenda frenética para fornecer respostas detalhadas a uma primeira série de perguntas, que esperamos que se torne uma conversa contínua e especialmente focada no Sul Global. Esta é sua primeira entrevista com um analista estrangeiro desde o início da Operação Z. Muito obrigado a Alexey Subottin pela tradução do russo ao inglês.


Você está na vanguarda de um desenvolvimento geoeconômico revolucionário: o projeto de um novo sistema monetário e financeiro por meio de uma associação entre a EAEU [União Econômica EuroAsiática] e a China, contornando o dólar americano, o rascunho do projeto a ser concluído em breve. Você poderia antecipar algumas das características deste sistema – que certamente não é um Bretton Woods III – mas parece ser, finalmente, uma alternativa clara ao consenso de Washington, muito próxima das necessidades do Sul Global?

Em um ataque de histeria russofóbica, a elite dominante dos Estados Unidos jogou seu último “trunfo” na guerra híbrida contra a Rússia. Ao “congelar” as reservas cambiais russas em contas de custódia de bancos centrais ocidentais, os reguladores financeiros dos EUA, UE e Reino Unido minaram o status do dólar, do euro e da libra como moedas de reserva global. Esse passo acelerou drasticamente o desmantelamento em curso da ordem econômica mundial baseada no dólar. Há mais de uma década, meus colegas do Fórum Econômico de Astana e eu propusemos a transição para um novo sistema econômico global baseado em uma nova moeda de negociação sintética baseada em um índice de moedas dos países participantes [1]. Mais tarde, propusemos expandir a cesta de moedas subjacentes adicionando cerca de vinte commodities negociadas na bolsa. Uma unidade monetária baseada em tal cesta expandida foi modelada matematicamente [2] e demonstrou um alto grau de resiliência e estabilidade.

Por volta da mesma época, propusemos a criação de uma ampla coalizão internacional de resistência na guerra híbrida pelo domínio global que a elite financeira e política dos EUA desencadearam sobre os países que permaneceram fora de seu controle. Meu livro “The Last World War: the USA to Move and Lose” [3], publicado em 2016, explicou cientificamente a natureza dessa guerra vindoura e defendeu sua inevitabilidade – uma conclusão baseada nas leis objetivas de desenvolvimento econômico de longo prazo. Com base nas mesmas leis objetivas, o livro defendia a inevitabilidade da derrota do antigo poder dominante.

Atualmente, os EUA lutam para manter seu domínio, mas assim como a Grã-Bretanha anteriormente, que provocou duas guerras mundiais, mas não conseguiu manter seu Império e sua posição central no mundo devido à obsolescência de seu sistema econômico colonial, estão destinados a falhar. O sistema econômico colonial britânico baseado no trabalho escravo foi ultrapassado pelos sistemas econômicos estruturalmente mais eficientes dos EUA e da URSS.

Tanto os EUA quanto a URSS foram mais eficientes na gestão do capital humano em sistemas verticalmente integrados, que dividem o mundo em suas zonas de influência. A transição para uma nova ordem econômica mundial começou após a desintegração da URSS. Essa transição está agora chegando ao fim com a desintegração iminente do sistema econômico global baseado no dólar, que forneceu a base do domínio global dos Estados Unidos.

O novo sistema econômico convergente que surgiu na RPC [República Popular da China] e na Índia é o próximo estágio inevitável de desenvolvimento, combinando os benefícios do planejamento estratégico centralizado, da economia de mercado, do controle estatal da infraestrutura monetária e física e do empreendedorismo. O novo sistema econômico uniu vários estratos de suas sociedades em torno do objetivo de aumentar o bem-estar comum de uma forma substancialmente mais forte do que as alternativas anglo-saxônicas e europeias. Esta é a principal razão pela qual Washington não será capaz de vencer a guerra híbrida global que começou. Esta é também a principal razão pela qual o sistema financeiro global atual, centrado no dólar, será substituído por um novo, baseado no consenso dos países que aderirem à nova ordem econômica mundial.

Na primeira fase da transição, esses países voltam a usar suas moedas nacionais e mecanismos de compensação, apoiados por trocas de moedas bilaterais. Neste ponto, a formação de preços ainda é impulsionada principalmente pelos preços de várias transações, denominados em dólares. Essa fase está quase no fim: depois que as reservas russas em dólares, euros, libras e ienes foram “congeladas”, é improvável que algum país soberano continue acumulando reservas nessas moedas. Sua substituição imediata são moedas nacionais e ouro.

A segunda etapa da transição envolverá novos mecanismos de precificação que não referenciam o dólar. A formação de preços em moedas nacionais envolve despesas gerais substanciais, no entanto, ainda será mais atraente do que precificar em moedas “não ancoradas” e traiçoeiras como dólares, libras, euros e ienes. O único candidato a moeda global restante – o yuan – não tomará seu lugar devido à sua inconversibilidade e ao acesso externo restrito aos mercados de capitais chineses. O uso do ouro como referência de preço é limitado pela inconveniência de seu uso para pagamentos.

A terceira e última etapa da transição da nova ordem econômica envolverá a criação de uma nova moeda de pagamento digital fundada por meio de um acordo internacional baseado em princípios de transparência, justiça, boa vontade e eficiência. Espero que o modelo dessa unidade monetária que desenvolvemos desempenhe seu papel nesta fase. Uma moeda como essa pode ser emitida por um pool de reservas monetárias dos países do BRICS, do qual todos os países interessados poderão participar. O peso de cada moeda na cesta poderia ser proporcional ao PIB de cada país (com base na paridade do poder de compra, por exemplo), sua participação no comércio internacional, bem como a população e o tamanho do território dos países participantes.

Além disso, a cesta poderia conter um índice de preços das principais commodities negociadas em bolsa: ouro e outros metais preciosos, metais industriais importantes, hidrocarbonetos, grãos, açúcar, bem como água e outros recursos naturais. Para fornecer suporte e tornar a moeda mais resiliente, reservas internacionais de recursos relevantes podem ser criadas oportunamente. Esta nova moeda seria utilizada exclusivamente para pagamentos transfronteiriços e emitida para os países participantes com base numa fórmula pré-definida. Os países participantes usariam suas moedas nacionais para a criação de crédito, a fim de financiar investimentos e indústrias nacionais, bem como para reservas de riqueza soberana. Os fluxos transfronteiriços da conta de capital continuariam a ser regidos pelos regulamentos da moeda nacional.

Michael Hudson pergunta especificamente, tendo em vista que esse novo sistema permite que as nações do Sul Global suspendam a dívida dolarizada e é baseado na capacidade de pagamento (em moeda estrangeira), se esses empréstimos podem ser vinculados a matérias-primas ou, no caso da China, à propriedade de capital tangível na infraestrutura de capital financiada por crédito estrangeiro não-dólar?

A transição para a nova ordem econômica mundial provavelmente será acompanhada pela recusa sistemática de honrar obrigações em dólares, euros, libras e ienes. Nesse sentido, não será diferente do exemplo dado pelos países emissores dessas moedas que julgaram apropriado roubar reservas cambiais do Iraque, Irã, Venezuela, Afeganistão e Rússia, na ordem de milhões de milhões (trillions) de dólares. Uma vez que os EUA, a Grã-Bretanha, a UE e o Japão se recusaram a honrar suas obrigações e confiscaram riquezas de outras nações que eram mantidas em suas moedas, por que outros países deveriam ser obrigados a pagá-los de volta e a pagar seus empréstimos?

Em qualquer caso, a participação no novo sistema econômico não será restringida pelas obrigações do antigo. Os países do Sul Global podem ser participantes plenos do novo sistema, independentemente de suas dívidas acumuladas em dólares, euros, libras e ienes. Mesmo que eles não cumprissem suas obrigações nessas moedas, isso não afetaria sua classificação de crédito no novo sistema financeiro. A nacionalização da indústria extrativa, da mesma forma, não causaria disrupção. Além disso, caso esses países reservassem uma parte de seus recursos naturais para o suporte do novo sistema econômico, seu respectivo peso na cesta de moedas da nova unidade monetária aumentaria na mesma proporção, proporcionando a essa nação maiores reservas de moeda e capacidade de crédito. Além disso, linhas de troca bilaterais com países parceiros comerciais forneceriam financiamento adequado para investimentos conjuntos e financiamento comercial.

Em um de seus últimos ensaios, The Economics of the Russian Victory, você sugere “a formação acelerada de um novo paradigma tecnológico e a formação de instituições de uma nova ordem econômica mundial”. Entre as recomendações, você propõe especificamente a criação de “um sistema de pagamentos e liquidação nas moedas nacionais dos estados-membros da EAEU”, e o desenvolvimento e implementação de “um sistema independente de liquidações internacionais na EAEU, SCO [Organização para a Cooperação de Xangai] e BRICS, que poderia eliminar a dependência crítica do Sistema SWIFT controlado pelos EUA”. É possível prever um esforço coordenado da EAEU e da China para “vender” o novo sistema para membros da SCO, outros membros do BRICS, membros da ASEAN [Associação de Nações do Sudeste Asiático] e nações da Ásia Ocidental, África e América Latina? E isso resultará em uma geoeconomia bipolar — o Ocidente versus O Resto?

Na verdade, esta é a direção para onde estamos indo. Lamentavelmente, as autoridades monetárias da Rússia ainda fazem parte do paradigma de Washington e seguem as regras do sistema baseado no dólar, mesmo depois que as reservas cambiais russas foram capturadas pelo Ocidente. Por outro lado, as recentes sanções levaram a uma extensa busca de consciência entre o resto dos países que não são do bloco do dólar. Os “agentes de influência” ocidentais ainda controlam os bancos centrais da maioria dos países, forçando-os a aplicar as políticas suicidas prescritas pelo FMI. No entanto, tais políticas neste momento são tão obviamente contrárias aos interesses nacionais desses países não-ocidentais que suas autoridades estão ficando justificadamente preocupadas com a segurança financeira.

Você destaca corretamente os papéis potencialmente centrais da China e da Rússia na gênese da nova ordem econômica mundial. Infelizmente, a atual liderança do CBR [Banco Central da Rússia] permanece presa no beco sem saída intelectual do paradigma de Washington e é incapaz de se tornar um parceiro fundador na criação de uma nova estrutura econômica e financeira global. Ao mesmo tempo, o CBR já teve que encarar a realidade e criar um sistema nacional de mensagens interbancárias que não dependa do SWIFT, e abriu-o também para bancos estrangeiros. Linhas de troca de moeda cruzada já foram estabelecidas com as principais nações participantes. A maioria das transações entre os estados-membros da EAEU já são denominadas em moedas nacionais e a participação de suas moedas no comércio interno está crescendo em ritmo acelerado.

Uma transição semelhante está ocorrendo no comércio com a China, Irã e Turquia. A Índia indicou que está pronta para mudar para pagamentos em moedas nacionais também. Muito esforço é feito no desenvolvimento de mecanismos de compensação para pagamentos em moeda nacional. Paralelamente, há um esforço contínuo para desenvolver um sistema de pagamento digital não bancário, que seria vinculado ao ouro e a outras commodities negociadas em bolsa – stablecoins.

As recentes sanções americanas e europeias impostas aos canais bancários causaram um rápido aumento desses esforços. O grupo de países que trabalham no novo sistema financeiro só precisa anunciar a conclusão da estrutura e a disposição da nova moeda comercial, e o processo de formação da nova ordem financeira mundial acelerar-se-á ainda mais a partir daí. A melhor maneira de realizá-lo seria anunciá-lo nas reuniões regulares da SCO ou do BRICS. Estamos trabalhando nisso.

Esta tem sido uma questão absolutamente fundamental nas discussões de analistas independentes em todo o Ocidente. O Banco Central russo estava aconselhando os produtores de ouro russos a vender seu ouro no mercado de Londres para obter um preço mais alto do que o governo russo ou o Banco Central pagariam? Não houve qualquer antecipação de que a próxima alternativa ao dólar dos EUA terá que ser baseada em grande parte no ouro? Como você caracterizaria o que aconteceu? Quanto dano prático isso infligiu à economia russa a curto e médio prazo?

A política monetária do CBR, implementada de acordo com as recomendações do FMI, tem sido devastadora para a economia russa. Desastres combinados do “congelamento” de cerca de US$ 400 mil milhões em reservas cambiais e mais de um milhão de milhões de dólares desviados da economia por oligarcas para destinos offshore ocidentais, vieram com o pano de fundo de políticas igualmente desastrosas do CBR, que incluíam taxas reais excessivamente altas combinadas com uma flutuação controlada da taxa de câmbio. Estimamos que isso causou um subinvestimento de cerca de 20 milhões de milhões de rublos e uma subprodução de cerca de 50 milhões de milhões de rublos em mercadorias.

Seguindo as recomendações de Washington, o CBR parou de comprar ouro nos últimos dois anos, efetivamente forçando os mineradores domésticos a exportar volumes totais de produção, que somaram 500 toneladas de ouro. Agora, o erro e o dano que isto causou são muito óbvios. Atualmente, o CBR retomou as compras de ouro e, espera-se, continuará com políticas sólidas de interesse da economia nacional, em vez de “metas de inflação” em benefício dos especuladores internacionais, como havia sido o caso na última década.

O Fed e o BCE não foram consultados sobre o congelamento das reservas estrangeiras russas. A palavra em Nova York e Frankfurt é que eles se teriam oposto se tivessem sido consultados. Você pessoalmente esperava o congelamento? E a liderança russa esperava isso?

Meu livro “The Last World War” que já mencionei e que foi publicado em 2016, argumentava que a probabilidade de isso acontecer eventualmente é muito alta. Nesta guerra híbrida, a guerra econômica e a guerra informacional e/ou cognitiva são os principais teatros de conflito. Em ambas as frentes, os Estados Unidos e os países da OTAN têm uma superioridade avassaladora e eu não tinha dúvidas de que eles tirariam o máximo proveito disso no devido tempo.

Há muito venho defendendo a substituição de dólares, euros, libras e ienes em nossas reservas cambiais por ouro, que é produzido em abundância na Rússia. Infelizmente, agentes de influência ocidentais que ocupam papéis-chave nos bancos centrais da maioria dos países, bem como agências de classificação e publicações importantes, conseguiram silenciar minhas ideias. Para dar um exemplo, não tenho dúvidas de que altos funcionários do Fed e do BCE estiveram envolvidos no desenvolvimento de sanções financeiras anti-russas. Essas sanções têm aumentado consistentemente e estão sendo implementadas quase instantaneamente, apesar das conhecidas dificuldades com a tomada de decisões burocráticas na UE.

Elvira Nabiullina foi reconfirmada como chefe do Banco Central da Rússia. O que você faria diferente, em comparação com suas ações anteriores? Qual é o principal princípio orientador envolvido em suas diferentes abordagens?

A diferença entre nossas abordagens é muito simples. Suas políticas são uma implementação ortodoxa das recomendações do FMI e dogmas do paradigma de Washington, enquanto minhas recomendações são baseadas no método científico e nas evidências empíricas acumuladas nos últimos cem anos nos principais países.

A parceria estratégica Rússia-China parece estar cada vez mais firme – como os próprios presidentes Putin e Xi reafirmam constantemente. Mas há rumores contra ela não apenas no Ocidente, mas também em alguns círculos políticos russos. Nesta conjuntura histórica extremamente delicada, quão confiável é a China como um aliado da Rússia em todas as estações?

A base da parceria estratégica russo-chinesa é o bom senso, os interesses comuns e a experiência de cooperação ao longo de centenas de anos. A elite dominante dos EUA iniciou uma guerra híbrida global com o objetivo de defender sua posição hegemônica no mundo, mirando na China como o principal concorrente econômico e na Rússia como a principal força de contrapeso. Inicialmente, os esforços geopolíticos dos EUA visavam criar um conflito entre a Rússia e a China. Agentes de influência ocidental estavam amplificando ideias xenófobas em nossa mídia e bloqueando qualquer tentativa de transição para pagamentos em moedas nacionais. Do lado chinês, agentes de influência ocidental pressionavam o governo a se adequar às demandas dos interesses norte-americanos.

No entanto, os interesses soberanos da Rússia e da China levaram logicamente à sua crescente parceria e cooperação estratégica, a fim de enfrentar ameaças comuns que emanam de Washington. A guerra tarifária americana com a China e a guerra de sanções financeiras com a Rússia validaram essas preocupações e demonstraram o perigo claro e presente que nossos dois países estão enfrentando. Interesses comuns de sobrevivência e resistência estão unindo China e Rússia, e nossos dois países são em grande parte economicamente simbióticos. Eles complementam e aumentam as vantagens competitivas um do outro. Esses interesses comuns persistirão a longo prazo.

O governo chinês e o povo chinês lembram-se muito bem do papel da União Soviética na libertação do seu país da ocupação japonesa e na industrialização da China no pós-guerra. Nossos dois países têm uma base histórica sólida para a parceria estratégica e estamos destinados a cooperar estreitamente em nossos interesses comuns. Espero que a parceria estratégica entre a Rússia e a RPC, que é reforçada pelo acoplamento do One Belt One Road com a União Econômica da Eurásia, se torne a base do projeto do Presidente Putin da Grande Parceria Eurasiática e o núcleo da nova ordem econômica do mundo.


Referências:
1- TO SUSTAINABLE GROWTH THROUGH A FAIR WORLD ECONOMIC ORDER // Report edited by S. Yu. Glazyev to the Astana Economic Forum, 2012.
2- Minchenkov M., Vodyanova V., Zapletin M. Methodology for constructing the sustainability cost center index on dual group goods. GUM Bulletin. 2016, N 11, p.141-147.
3- Glazyev S. THE LAST WORLD WAR: The US to Move and Lose. Defend Democracy Press (site da iniciativa Delphi) – 18 de março de 2018.

Ver também:
O artigo Sanções e Soberania, de Sergey Glazyev

O original encontra-se em thecradle.co/Article/interviews/9135 e a tradução de Quantum Bird em sakerlatam.es/economia/exclusivo-sergei-glazyev-apresenta-o-novo-sistema-monetario-e-financeiro-mundial/


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