As Eleições que não vão mudar o mundo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 03/11/2024)


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Ver os anúncios das TV sobre as reportagens das eleições nos Estados Unidos, ou os títulos dos jornais transporta-nos ao mundo da fantasia do Circo, o maior Espetáculo do Mundo, com os melhores palhaços do mundo, os melhores trapezistas do mundo. Ou ao mundo do boxe, o Combate do Século, Cassius Clay contra Joe Frazier (Madison Square, 8 Março de 1971). Agora temos Trump contra Kamala (Washington, 5 Novembro 2024)!

Algumas citações ajudam a situar o espetáculo das eleições presidenciais norte-americanas na sua circunstância, como o resultado de um processo civilizacional. Em A Sociedade do Espetáculo, publicado em 1967, Guy Debord, o autor, escrevia: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção é uma imensa acumulação de espetáculos.”

O espetáculo, incluindo o político, substituiu as religiões como meio de conduzir povos — de os unificar como um rebanho. Esta substituição já tinha sido detectada por Ludwig Feurbach, um filósofo alemão do século XIX, em Essência do Cristianismo, onde escreveu: “O nosso tempo prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à sociedade, a aparência ao ser. À medida que decresce a verdade a ilusão aumenta.”

Os elementos mais relevantes destas eleições para presidente dos Estados Unidos não dizem respeito a qualquer alteração radical nem na vida dos norte-americanos, que continuarão sem um sistema de saúde e um sistema de proteção social públicos, a viver com más infraestruturas básicas, transportes, eletricidade, habitação, sem ordenamento do território (o que nem os resultados das tempestades tem alterado), a não ter qualquer intervenção na definição das guerras e dos negócios que elas proporcionam, a estarem sujeitos a lóbis poderosos como o do American-Israel Public Affair Commitee (AIPAC), que determina a política dos Estados Unidos e que impôs que desde 1946 até hoje, ano fiscal de 2024, estes tivessem apoiado Israel com 310 biliões de dólares (bilião=mil milhões, preços correntes de 2022), enquanto no mesmo período o Egito, o segundo país mais beneficiado recebeu 165 biliões, o Afeganistão 160 biliões, o Vietname do Sul 148 biliões e a Ucrânia, o quinto país mais beneficiado, 120 biliões[1].

Estas eleições não alterarão as parcelas do orçamento destinadas ao complexo militar-industrial, nem a imposição de verdades únicas através das indústrias do infoentretainment , das igrejas evangélicas e dos gigantes das redes e bases de dados, a Google, a Microsoft, a Meta.

Para o Ocidente Global, a importância das eleições norte-americanas diz respeito ao modo como os Estados Unidos vão agir num mundo onde estão a perder a supremacia e a confrontar-se com novos polos de poder, caso dos BRICS e com a desdolarização. O que é um assunto para ser dirimido pelo lóbi financeiro, do qual os presidentes são meros instrumentos. Para o resto do mundo os Estados Unidos vão manter os seus conhecidos e assumidos objetivos estratégicos permanentes e apenas serão detidos ou pela força ou pela criação de alternativas que permitam dispensar a sua “proteção” ou paralisar a sua ação.

Os animadores do espetáculo anunciam golpes espetaculares na guerra na Ucrânia e no Médio Oriente. Não se vislumbram quais. Na Ucrânia, a Rússia já definiu o futuro: uma Ucrânia neutral. No Médio Oriente os Estados Unidos não podem fazer mais do que fizeram, fornecerem a Israel os meios para eliminar os palestinianos. O trabalho do novo presidente vai ser o restabelecimento de laços proveitosos com as monarquias do petróleo, agora renitentes em surgirem ao lado dos americanos cúmplices e patrocinadores de um genocídio cometido sob os seus turbantes e barbas. Dispõem agora dos BRICS, uma alternativa que lhes alivia o laço de dependência dos Estados Unidos.

No próximo fim de semana o mundo não vai estar diferente. Nem em Janeiro de 2025. O único elemento excitante seria proporcionado por uma derrota de Trump, que este não aceitaria. Mas assaltar edifícios do governo e provocar tumultos são números já vistos e que até tiveram uma versão tropical em Brasília.

O elemento degradante será o da eleição de um ser grotesco para presidente. Mas a eleição de um ser como Trump é um revelador da sociedade do espetáculo em que se transformou a sociedade americana. E essa transformação é fruto de uma ideologia em que o ser foi substituído pelo ter e pelo parecer, onde o indivíduo vale o que valer o seu poder de transmitir uma imagem. No caso, uma imagem de sucesso, não importa com que meios. Uma ideologia transmitida através de um discurso ininterrupto, reduzido, como é patente no caso de Trump a um monólogo autoelogioso, recitado como uma lengalenga de um vendedor de bugigangas.

As eleições presidenciais americanas fazem parte dos grandes espetáculos produzidos nos Estados Unidos com audiências planetárias, a par da cerimónia dos Óscares, ou da Superbowl, o jogo da final do futebol americano. Estes grandes espetáculos transformam em mercadoria a “solidão das multidões”, o isolamento dos indivíduos. Veiculam a ideologia da alienação que destrói o sentido crítico e promove a quebra dos laços sociais, que reduz o papel social dos indivíduos à escolha para salvador da figura mais aberrante do mercado. Nada de novo. Um comportamento idêntico ao dos povos que desde a antiguidade e em todo o planeta criaram e adoraram deuses-polvo, ou jacaré, ou elefante, ou uma hidra de sete cabeças, ou uma serpente, como Tiamat, da Mesopotâmia. Deuses bêbados, violadores, assassinos. Há para todos os gostos. A novidade é que na civilização do mercado e dos videojogos os monstros podem aparecer como heróis a fazer campanha para serem adorados e os fiéis votam neles dispostos a receber uma recompensa virtual.

Quer ganhe Trump, ou Kamala, os satélites da Starlink de Elon Musk continuarão a debitar dados aos serviços de informações da Ucrânia e de Israel para estes referenciarem alvos, as 865 bases militares americanas continuarão nos 130 países onde se encontram cerca de 350 mil soldados e os mais sofisticados armamentos. O ouro continuará a valorizar-se. A bolsa de Wall Street continuará a determinar o que cada um de nós pode comprar com o dinheiro que recebe. A Europa, com UE e NATO, continuará desaparecida.

Aos cidadãos em geral resta o extraordinário exemplo da força dos movimentos populares dos espanhóis da martirizada região de Valência. Abandonados à sua sorte pelas autoridades que os devia ter avisado a tempo da aproximação da tormenta e por quem os devia ajudar a sobreviver, uniram as suas forças, organizaram-se por si próprios e viraram as costas, por vezes com insultos de raiva, àqueles que lhes haviam pedido o seu voto e não o souberam merecer.

[1] Dados recolhidos de https://www.cfr.org/article/us-aid-israel-four-charts

O julgamento de Ricardo Salgado — Big Show BES

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/10/2024)


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O julgamento de Ricardo (Espirito Santo) Salgado é um espetáculo de farsa politica com a cobertura de legalidade proporcionada pelo sistema judicial e encenado pela comunicação social.

A justiça do Estado sacode as pulgas do tapete para assegurar o regime de capitalismo de papel e especulação. Os políticos do regime fazem de macacos cegos surdos e mudos. A indústria do espetáculo aproveita o espetáculo grátis e aumenta as audiências. O povo aplaude e compra os produtos anunciados nos intervalos. No entanto está em causa o julgamento do sistema financeiro que é o fundamento do capitalismo, seja ele gerido por democracias liberais ou ditaduras. Um sistema implantado no final do século XVII pela família Rothschild.

Deixem-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importarei com quem redige as leis. – Mayer Amschel (Bauer) Rothschild, o fundador da família.

Todo aquele que controla o volume de dinheiro de qualquer país é o senhor absoluto de toda a indústria e comércio, e quando percebemos que a totalidade do sistema é facilmente controlada, de uma forma ou de outra, por um punhado de gente poderosa no topo, não precisaremos que nos expliquem como se originam os períodos de inflação e depressão. – James Garfield, presidente dos Estados Unidos, 1881(assassinado)

Por detrás deste espetáculo do julgamento de Ricardo Salgado encontra-se a relação de dupla dependência entre a política e a finança anunciada no final do século XVII por Mayer Amschel (Bauer) Rothschild, o fundador da família que criou o sistema bancário que da Europa, através do Banco de Inglaterra, expandiu para os Estados Unidos, onde se associou à família Rockefeller e que está na base do FED, a Reserva Federal Americana. O sistema que os Espirito Santo e os outros banqueiros utilizaram e utilizam para obter lucros assenta no que pomposamente se designa por fractional reserve lending, (FRL) ou “empréstimo baseado numa reserva fracionada”, ou “empréstimo sem cobertura ou base real”. Embora de enunciado complexo, a prática é muito simples; significa emprestar mais dinheiro do que está em caixa e transformou-se na maior fraude legal de todos os tempos.

O sistema bancário de reserva fracionada é o que vigora em todos os países do mundo, no qual os bancos que recebem depósitos do público mantêm apenas parte de seus passivos de depósito em ativos líquidos como reserva, geralmente emprestando o restante aos tomadores. As reservas bancárias são mantidas como dinheiro no banco, ou como saldos na conta do banco no banco central.

A família Espirito Santo foi a que primeiro e mais intensamente interpretou estes princípios em Portugal e os impôs ao poder político, desde o fundador da família ter evoluído de dono de uma casa de câmbios até os seus filhos surgirem como os banqueiros do regime de Salazar e desempenharem um papel político de primeira grandeza no Portugal do Estado Novo durante o período crucial da Segunda Guerra Mundial, colaborando na manutenção do difícil equilíbrio entre os aliados ingleses e a Alemanha nazi.

Os Espirito Santo, a quem a imprensa da época chamava “os Rockefeller de Portugal”, ofereceram refúgio às realezas fugidas da guerra, entre eles os condes de Paris, com os seus dez filhos, os condes de Barcelona, o rei Humberto de Itália, e o mais significativo de todos, o Duque de Windsor que acabara de abdicar do trono em Inglaterra, apesar de essa presença ser delicada para o regime de Salazar por prejudicar a sua pretensa neutralidade e de também não ser do agrado de Churchill dadas as simpatias pro germânicas do duque ex-rei.

Ricardo Espirito Santo, o herdeiro do fundador, culto e muito amigo de artistas, tinha as costas quentes, era casado com Maria Pinto de Morais Sarmento y Cohen, filha de un banqueiro de Gibraltar, Abraham Cohen, britânico de origem judaica, e sobrinha do barão de Sendal e através deste casamento os Espirito Santo conheceram e fizeram amizade com toda a realeza exiliada em Cascais e com as suas redes de influência.

O Banco Espirito Santo era, de todos os bancos portugueses, o mais internacionalizado e o que tinha mais fortes ligações ao Estado. A sua nacionalização em 1975 não quebrou a influência da família na política portuguesa, nem quebrou a ligação da família ao mundo da grande banca internacional. Pertenci à Assembleia do MFA do dia 11 de março de 1975 que aprovou a nacionalização da banca. Consciente da importância da banca na definição do poder político. Sofri as consequências dessa opção no 25 de Novembro de 25 de 1975, assumindo-as como naturais da parte dos que optaram pelo regime de “mercado” e pelos seus financiadores.

O 25 de Novembro de 1975 e o seu programa de integração de Portugal na ordem política e económica vigente na Europa Ocidental, implicava as privatizações indispensáveis à recuperação do poder das velhas oligarquias e da ascensão das novas, exigia a criação de novos bancos, caso do BCP e do BPI e aconselhava o regresso da marca mais prestigiada internacionalmente, a que garantia a credibilidade do novo regime. Mário Soares percebeu a importância do regresso de um nome tão prestigiado e com tão boas relações no mundo da finança internacional e promoveu o regresso da família Espirito Santo a Portugal, o que foi conseguido através dos bons ofícios de Francois Miterrand com a associação ao Crédit Agricole.

Há razões nunca explicadas por detrás da “resolução do BES” e as principais não são aquelas que se encontram no julgamento-espetáculo. Com todo o respeito pelos lesados do BES, que viram sumir as suas economias e exprimem o seu protesto contra a figura de Ricardo Salgado, há que explicar se foi o Estado Português que propôs a resolução do BES à Comissão Europeia, ou se foi dela a imposição dessa medida jamais utilizada. Não havia alternativa? Não havia o exemplo do Lehman Brothers, da seguradora AIG, não foi encontrada recentemente uma outra solução para a União dos Bancos Suíços?

O BES era o único banco privado com “nacionalidade portuguesa”, embora associado ao Crédit Agricole francês. Todos os outros bancos que resultaram da reprivatização tinham passado para o controlo da banca espanhola, de capitais ingleses, americanos, alemães. Todo o sistema bancário português tem a sede em Espanha, em Madrid ou Barcelona. O sistema bancário português está hoje integrado no sistema mundial através de Espanha, o chamado “mercado ibérico”.

O BES tinha, por tradição, o papel de banco do regime, fora o banco que assegurou a transferência do ouro alemão que pagou o tungsténio e o volfrâmio, durante a Segunda Guerra, por exemplo. Nos anos anteriores à resolução era o BES que estava a financiar a implantação de grandes companhias portuguesas no Brasil e em Angola, dois mercados emergentes e muito cobiçados pela finança internacional, em particular a inglesa e a francesa. Era o BES que financiava a implantação da TELECOM no Brasil, uma ação importante de presença num grande mercado em expansão no continente sul-americano, e era o BES que estava a financiar através de uma filial, o BESA, o apoio a empresas portuguesas no mercado de Angola, outro espaço cobiçado pela banca internacional.

O BES intervinha na diversificação dos mercados de grandes empresas portuguesas em mercados importantes em concorrência com os grandes bancos europeus que têm, como é evidente, um peso de lobbying incomparavelmente superior junto de Bruxelas e dos seus financeiros. Era um concorrente a eliminar e assim foi.

Todo o negócio bancário se baseia na usura, toda a utilização do capital para obter lucro é abusiva, isto porque o lucro é obtido com a venda de um produto que não tem base material, que existe apenas porque as autoridades de um dado estado garantem que o banqueiro, o moneychanger, é de confiança e honrará o compromisso de pagar os juros aos depositantes.

O BES sob a administração de Ricardo Salgado vendeu mais dinheiro do que aquele que podia remunerar aos juros acordados. E fê-lo coberto pela reputação de confiança que lhe era e foi publicamente demonstrada pelas mais altas figuras do Estado, o presidente da República, Cavaco Silva, tido por eminente professor de Finanças, pelo primeiro-ministro Passos Coelho, pela ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, recentemente nomeada pelo atual governo comissária europeia, pelo governador do Banco de Portugal, a entidade reguladora, Carlos Costa, pelos mais conceituados comentadores políticos com acesso aos mais poderosos meios de comunicação, caso de Marcelo Rebelo de Sousa.

Todos serviram de fiadores de Ricardo Salgado! Todos e todos os ministros que assinaram a ata do Conselho de Ministros que decretou a “resolução” do BES deviam responder em tribunal e serem corresponsabilizados pelos prejuízos.

O BES foi também a instituição escolhida pelo ministério da Defesa dirigido por Paulo Portas para conduzir as operações financeira de leasing que esteve e está na base do fornecimento dos helicópteros EH 101 e dos submarinos da classe Tridente, que pertencem formalmente a uma empresa e não ao Estado Português. Um banco da maior confiança do Estado e dos seus governos, de que nenhum agente político desconfiou, antes pelo contrário afiançou.

O que aconteceu ao BES, ou no BES, foi, em termos simples um excesso do abuso de confiança dentro de um sistema, o bancário, que assenta num contínuo abuso da confiança instituído pelos Estados que obrigam os cidadãos a confiar nos usurários (os banksters) para terem acesso aos bens essenciais, desde a habitação ao transporte, à alimentação, à educação, ao lazer.

Quem estabelece o valor dos bens são, em última instância, os banqueiros que em Washington e na Wall Street de Nova Iorque impõem o valor do dólar como moeda de troca universal. São eles que estabelecem a inflação que gera lucros aos banqueiros e prejuízos aos clientes. São eles que desencadeiam crises e guerras para manipular o valor do dinheiro.

Agora, no Big Show BES, tudo se vai resumir a artigos dos vários códigos diante de um tribunal que interpretará factos contabilísticos, considerando-os crime ou não à luz dos seus preceitos, quando a questão era e é de política e os políticos estão todos eles a fazerem-se de mortos. Ou praticaram o rito judaico do Kaparot, realizado nas vésperas do Yom Kippur, uma expiação simbólica dos pecados, em que milhares de galos e galinhas são degolados em Israel e o sangue derramado pelas cabeças. Um ritual de arrependimento e perdão.

Numa entrevista ao Público, Vitor Bento, o administrador do BES na data da sua resolução e é hoje o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, garante que o que aconteceu ao BES não aconteceria hoje e que o sistema bancário português está mais controlado e merece confiança. É uma afirmação paliativa, como garantir que não vai ocorrer um terramoto.

O sistema financeiro mundial baseado no dólar está em equilíbrio periclitante. As guerras na Ucrânia e no Médio Oriente têm como causa a manutenção do dólar enquanto moeda de troca universal, o que implica força para o impor e é essa força que está a ser desafiada nessas guerras e é do resultado delas que depende a solidez do sistema bancário da área do dólar, que está a sofrer a concorrência das moedas dos BRICS.

O julgamento de Ricardo Salgado conduz à triste conclusão de que no capitalismo os cofres dos bancos contêm papel que tem o valor que a Reserva Federal dos Estados Unidos lhe atribuir e que os Estados nacionais atestam com a assinatura do governador do banco nacional. Nenhum cidadão sabe o que significam os algarismos do seu extrato bancário.

Alguém decidiu que as “obrigações” emitidas pelo BES eram papel sem valor e eram, mas resta a pergunta, porque elas, porque aquelas? Porque ninguém do BCE em Franckfurt ao Banco de Portugal em Lisboa viu o que se estava a passar no BES? Essas perguntas jamais serão colocadas em tribunal.

O espetáculo no Campo da Justiça, centrado na figura de um vencido que gera sentimentos de vingança a vários níveis, a do poderoso arrastado para o cadafalso, também esconde a vileza das ratazanas políticas que continuam a representar o seu número de macacos cegos, surdos e mudos.

Já agora, não há lesados no caso BPN, dos amigos de Cavaco Silva, nem do BANIF da Madeira.

Hiperinflação, inadimplência e guerra

(Dmitry Orlov, in SakerLatam.com, 09/08/2023)


Muitas pessoas parecem felizes em viver de acordo com a lógica rígida de que, se algo ruim previsto para acontecer ainda não aconteceu, segue-se automaticamente que os previsores estavam errados e que a coisa ruim nunca acontecerá. É absolutamente inútil tentar explicar a elas que é muito mais fácil prever com precisão QUE algo acontecerá do que prever com precisão QUANDO isso acontecerá.

Parece haver uma predisposição genética que todos os humanos compartilham para agrupar todos os desenvolvimentos indesejados e talvez inevitáveis, mas ainda não incipientes, em uma única categoria de “coisas com as quais não se preocupar ainda”. Esta é uma vasta categoria que inclui o início da próxima era do gelo em qualquer milênio a partir agora, o mundo ficando sem petróleo (o mundo não ficará – mas você pode ficar) e, é claro, o castelo de cartas financeiro dos EUA fazendo aquilo que todos os castelos de cartas fazem eventualmente, se você continuar adicionando cartas a eles, exceto que (e é isso que torna os castelos de cartas tão emocionantes) você nunca sabe qual carta será demais.

A perda da classificação de crédito AAA nos EUA fez com que algumas pessoas acordassem momentaneamente com um ronco alto antes de se recostar para dormir em sua poltrona. A notícia de que os pagamentos anuais de juros sobre a dívida federal dos EUA estão prestes a ultrapassar US$ 1 trilião a caminho de devorar toda a parte discricionária do orçamento federal fez com que algumas sobrancelhas franzissem por um ou dois segundos antes de suavizar novamente com a ajuda de um dos mantras de bem-estar, como “eles vão pensar em alguma coisa!” ou “Eu teria sorte se fosse viver tanto tempo!” ou (este pronunciado com um sorriso perverso) “Bem, comece outra guerra!”

De fato, as guerras foram extremamente úteis para os Estados Unidos mais de uma vez. As Guerras Indígenas permitiram que os EUA limpassem território para colonização, causando incidentalmente o maior genocídio da História mundial, estimado em cerca de 100 milhões de almas. A Guerra Mexicano-Americana, também conhecida como Intervención estado-unidense no México, permitiu que os EUA ganhassem o controlo do Arizona, Novo México e partes de Utah, Nevada e Colorado. A Guerra Civil (para a qual o fim da escravidão era apenas a justificativa propagandística) afastou o Império Britânico do Sul, permitindo que o Norte aumentasse a produção industrial usando o algodão do sul. A Segunda Guerra Mundial deu aos EUA a maior recompensa: a estratégia de apoiar tanto os fascistas quanto os comunistas na sua luta uns contra os outros (com certeza, o apoio aos comunistas só começou a chegar depois da Batalha de Estalinegrado, na qual ficou claro que os fascistas seriam derrotados) permitiu que os EUA empurrassem a Grã-Bretanha para o lado e se tornassem a potência mundial preeminente por quase meio século. O colapso inesperadamente útil da URSS estendeu esse período por mais três décadas.

Mas, desde então, as colheitas ficaram cada vez mais escassas. Certamente, as várias operações militares na ex-Jugoslávia, no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, na Somália e no Iêmen e em várias outras regiões pobres e relativamente indefesas, foram uma bênção para a indústria de defesa dos EUA, mas nem um pouco útil na medida em que ajuda o projeto geral de dar aos EUA um novo sopro de vida.

A atual guerra por procuração na ex-Ucrânia não está ajudando em nada: está demonstrando, ao mesmo tempo, que os sistemas de armas dos Estados Unidos são obsoletos, que têm medo de enfrentar a Rússia diretamente e que estão muito desindustrializados para manterem-se acompanhando o ritmo vertiginoso da produção de armas e munições da Rússia.

O que é ainda pior, agora estão sem dinheiro e se preparando para roubar Peter para pagar Paul: gastar dinheiro já destinado à ajuda à Ucrânia para armar Taiwan. Falando em Taiwan, falta uma eleição para o Guomindang (o partido nacionalista que inicialmente se separou dos comunistas do continente) ganhar o poder e optar por se unir ao continente. De qualquer forma, toda a farsa dos EUA opondo-se à China são uvas verdes: os EUA durariam no máximo alguns meses sem suprimentos e peças de reposição chinesas.

Tudo isso torna improvável que os EUA mais uma vez tentem adiar seu colapso econômico e dissolução política iniciando mais uma guerra de improviso? Sim, de fato, acredito que significa exatamente isso. Mas é muito mais provável que outro tipo de guerra desenvolva-se espontaneamente: uma guerra entre vários grupos armados dentro dos próprios Estados Unidos. O gatilho para isso provavelmente será financeiro; como foi observado por alguns observadores astutos, nos EUA tudo é uma piada, menos dinheiro. O dinheiro é o sine qua non, o faz ou quebra, o recurso é o elemento fundamental dos Estados Unidos. Sua marcha em direção à independência nacional começou com uma revolta fiscal contra a coroa britânica conhecida como Boston Tea Party (embora, como é comum na história dos Estados Unidos, a substância em questão não fosse o chá, mas o ópio, e o partido não fosse um partido). Para os americanos, o dólar americano é “o sal da terra. Mas se o sal perder o sabor, como pode ser salgado novamente? Não serve mais para nada, exceto para ser jogado fora e pisoteado”. (Mateus 5:13).

O que será “jogado fora e pisoteado”, neste caso particular, são os Estados Unidos da América. Os estados individuais permanecerão como pequenos remansos pobres, dominados por criminosos e inconsequentes. Alguns deles podem eventualmente se reintegrar em novas linhas étnicas, raciais e/ou religiosas, enquanto outros (Nevada, por exemplo) podem ser completamente abandonados. As pessoas já estão se movendo e se autossegregando ao longo das linhas indicadas pelas divisões políticas: os vermelhos estão se mudando para os estados vermelhos, os azuis para os estados azuis. À medida que a lei e a ordem desaparecem (como já aconteceu em Washington e na Casa Branca em particular, e quando o peixe apodrece da cabeça), episódios de limpeza étnica, racial e religiosa seguirão seu curso sem oposição. Dado que os EUA são muito ricos em armas e munições, alguns desses episódios de auto-organização pós-União provavelmente assumirão a forma de guerra e, dada a histórica propensão americana ao genocídio, pelo menos alguns desses episódios provavelmente se transformarão em massacre total.

O mesmo para a guerra. É um assunto muito deprimente e aqueles que ousam pronunciar as palavras “Vamos começar outra guerra!” com um sorriso perverso deveriam se espancar com muita força. É provável que tenham muita guerra, quer queiram ou não, e não vão gostar.

Então, que tal hiperinflação e inadimplência? Embora algumas pessoas pensem nesses dois fenômenos completamente separados e desconexos, eles são apenas os dois lados da moeda do colapso financeiro, que está chegando cada vez mais perto. A inadimplência acontece quando o governo federal dos Estados Unidos deixa de cumprir suas obrigações financeiras. Possui US$ 80 triliões em obrigações não financiadas de longo prazo, 95% das quais são impulsionadas por apenas dois programas do governo federal: Medicare e Seguridade Social. Destes dois, o Medicare é um pouco menor e não é indexado à inflação e, portanto, pode ser inflado, deixando os aposentados doentes morrerem, simplesmente não votando para aumentar os pagamentos do Medicare. Fazer isso é politicamente muito mais possível em Washington do que votar para cortar a Seguridade Social.

Se Washington quiser continuar financiando seus gastos obrigatórios, terá que continuar tomando empréstimos cada vez mais rápido, mas isso aumenta a taxa de juros, que por sua vez aumenta os custos dos juros, mas isso aumenta a taxa de empréstimo, resultando em um círculo vicioso. Se não consegue tomar empréstimos rápido o suficiente, tem que imprimir o dinheiro, aumentando a inflação, o que aumenta os gastos indexados à inflação, aumentando todos os itens acima… Em algum momento, o termo “inadimplência hiperinflacionária” começará a aparecer ao redor: é quando você não consegue imprimir dinheiro rápido o suficiente para fazer os pagamentos.

Aproximadamente metade das famílias americanas recebe parte de sua renda do governo federal. Uma vez que a “inadimplência hiperinflacionária” faça com que esses pagamentos parem, milhões de pessoas acharão necessário se sustentar por outros meios, e a escolha óbvia é dividir a propriedade, seja pública ou privada, em linhas mais equitativas, com cada grupo tendo diferenças de opinião sobre o que são essas linhas. Essas diferenças de opinião, por sua vez, provavelmente serão resolvidas com o uso das sempre abundantes armas de fogo, dando-nos… a guerra.

E aí está: todos os três amarrados num único pacote organizado.

Fonte aqui.


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