Coisas que dão vontade de rir ou talvez não 

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/04/2018)

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Miguel Sousa Tavares

1 Durante toda a semana, assistimos a um coro indignado de vozes autorizadas protestando contra o “isolamento” internacional em que Portugal se tinha colocado ao não alinhar a toque de caixa nas sanções convocadas por Theresa May contra a Rússia: em lugar de expulsarmos não sei quantos diplomatas russos de Lisboa, expondo-nos correspondentemente a deixar a nossa embaixada de Moscovo reduzida ao embaixador e ao porteiro, tínhamos apenas, para grande escândalo dos indignados “atlantistas”, respondido ao “crime” cometido por Putin em pleno solo inglês com a simples chamada para consultas do nosso embaixador em Moscovo. Porque, quanto aos factos, dúvidas não restavam que crime havia e que Putin era o seu mandante. E, perante os factos, nós abandonávamos o nosso mais velho aliado e bem sabido amigo, a nossa querida NATO a quem tanto devemos e os nossos amigos americanos, a cuja nossa/deles Base das Lajes devemos o apoio às guerras de Israel e à guerra do Iraque, antes de, infelizmente, se tornar obsoleta para eles e “bye, bye, portuguese friends, limpem o lixo que deixámos e arranjem lá outra ocupação para essa gente que nos serviu”.

Vontade de rir deu-me, por exemplo, ver como, por caminhos semelhantes e igualmente obstinados na cegueira, uma certa direita e uma certa esquerda chegaram a juízos opostos, porque nem uma nem outra se convenceram ainda de que o comunismo acabou mesmo na Rússia há quase 30 anos. E assim, enquanto víamos o PSD, mais cautelosamente, o CDS e, em tom categórico, toda a nomenclatura dos analistas de política externa (os mesmos que apoiaram a guerra do Iraque, de George W. Bush) exaltarem-se com a “falta de firmeza” e “solidariedade” do MNE para com os nossos “aliados”, víamos o PCP apoiá-lo, ainda nostálgico dos bons velhos tempos da URSS. Uns e outros em pleno espírito da Guerra Fria, que é o tipo de raciocínio que dispensa um pequeno esforço para tentar compreender o mundo tal como ele é hoje e que justifica as tais ridículas votações na Assembleia da República ao meio-dia de sexta-feira, de que bem fala o deputado Sérgio Sousa Pinto — onde, ao sabor dos dogmas partidários dos anos 70, o mundo inteiro é condenando em duas penadas antes de os deputados partirem de fim-de-semana.

Vontade de rir deu-me a leitura da entrevista dada ao “Diário de Notícias” pelo embaixador Martins da Cruz, criticando também a brandura do MNE e insurgindo-se contra os “treinadores de bancada” da política externa — ele, que é um expert na matéria, como tal ciclicamente consultado por certos jornalistas. Recordemos: o embaixador Martins da Cruz serviu dez anos como valet parking dos ilustres visitantes do primeiro-ministro Cavaco Silva, sendo compensado com as correspondentes condecorações dos países de origem de cada um dos ilustres visitantes e depois com o lugar de embaixador em Madrid. Daí saltou para MNE no Governo de Durão Barroso, durante um escasso ano e meio. Foi dos mais breves, ineptos e mal lembrados no cargo, visto que a ele e ao seu chefe se deve o maior embuste, a maior mentira e o maior acto de servilismo em que a política externa portuguesa alguma vez se viu envolvida: a Cimeira das Lajes, em que Portugal serviu como empregado de mesa do jantar preparatório da guerra do Iraque. Com tal condecoração na lapela, o melhor que Martins da Cruz teria a fazer agora era não cair duas vezes no mesmo embuste de acreditar nos queridos aliados antes de ver provas concludentes. Mas talvez tenha sido mais forte o terror de ver alguém de fora da carreira, como Santos Silva, acertar onde ele tinha falhado e mostrar que a política externa é um pouco mais do que a diplomacia do croquete.

Pois, a verdade é que tudo indica que Santos Silva — que tem gerido o MNE de forma absolutamente inatacável, sem ponta de arrogância, pesporrência ou precipitação, como tantos dos seus antecessores — mais uma vez acertou. Os ingleses, afinal, não conseguem provar que foram os russos que tentaram matar Skripal, e Theresa May já teve de reconhecer que ou foram eles ou outros em cujas mãos foi parar o gás venenoso. Mas também não conseguem apresentar uma razão plausível para, sendo verdade que os russos o quisessem matar, escolhessem um meio tão complicado e que deixava impressões digitais tão evidentes apontando para eles, em vez de outro meio bem mais simples e eficaz. E, sobretudo, não conseguem explicar qual o interesse de Putin no assassínio de um agente que tinha trocado por outros, nas vésperas das eleições russas e a meses do Mundial de Futebol da Rússia. Já, se quisermos ser desconfiados por igual, o contrário é bem mais evidente: o interesse de May em abafar o escândalo do Facebook/Cambridge Analytica, que pode ter falseado o resultado do referendo do ‘Brexit’ e colocado no poder o gabinete dela, e desviar as atenções internas do mau resultado obtido até aqui nas negociações com Bruxelas sobre as condições para o ‘Brexit’.

Provavelmente, nunca saberemos a verdade toda. Mas aquela que foi rapidamente vendida como a verdade oficial e inquestionável e que gerou tanta histeria solidária, desde o Báltico até à sede do PSD, essa já sabemos que foi uma verdade mal contada. Até Boris Johnson já anda a apagar o que escreveu no Twitter.

2 Se for tão cínico para não estar preocupado com tudo isto, Vladimir Putin deve estar a rir-se à grande. Enquanto se reunia com os Presidentes do Irão e da Turquia para juntos partilharem os despojos da Síria e o destino dos curdos, outrora aliados dos americanos na guerra contra o Daesh, a Europa ocupava-se da expulsão dos diplomatas, e Trump mobilizava as Forças Armadas para a fronteira sul dos Estados Unidos. Para quê? Para deter uma invasão iminente, escreveu ele. De quem? De uma coluna de mil hondurenhos, dos quais 800 mulheres e crianças, numa marcha simbólica a pé até à fronteira do México, repetida há vários anos e chamada Povos Sem Terra. O novo inimigo.

3 Andamos a discutir se subiu a carga fiscal ou apenas a receita fiscal, se subiu a receita ou se subiram os impostos. Se pode descer o IRC ou o IRS. Se o chamado “imposto Mortágua” era uma emergência ou se é eterno (adivinhem a resposta…), se há mais €1 milhão ou €1,5 milhões para a Cultura, menos duas décimas no défice ou mais €1000 milhões para a Saúde, e por aí fora. E, depois de tudo espremido, tudo discutido, tudo reivindicado e tudo sacado aos contribuintes, quando julgamos poder enfim respirar fundo, eis que no mês de Março de cada ano uns senhores vestidos elegantemente sentam-se numa mesa com um ar de quem vai marcar um golo à Cristiano Ronaldo e anunciam que, afinal, há mais umas coisinhas para pagar. Umas centenas ou milhares de milhões de “imparidades” na banca que, ou é nossa ou é de estrangeiros, mas as responsabilidades negativas são nossas.

Chega, basta! Quando é que isto acaba? Com os nossos filhos, com os nossos netos? €17 mil milhões depois, qual é a perspectiva de isto um dia ter fim? É só isso que eu peço: dêem-nos uma perspectiva. Arranjem um grupo de trabalho, uma entidade de missão, uma dessas coisas com nome prometedor, que nos diga quando e por quanto é que isto tem fim. E que o Governo, este e os seguintes, se comprometam solenemente a acabar nessa data e por esse preço com esta hemorragia insustentável.

4 A verba de €12.500 resultante da multa administrativa que foi aplicada à Celtejo/Altri/Cofina por aquele espectáculo vergonhoso e terceiro-mundista da poluição do Tejo, na zona de Abrantes, deve ter sido cerca de um centésimo daquilo que custou ao Ministério do Ambiente limpar a porcaria que aqueles senhores fizeram. Sem falar nos prejuízos causados a pescadores, restaurantes e a todos os que vivem da economia do rio. Mas para a empresa, habituada à impunidade, a multa foi exagerada: a culpa, ao que parece, não foi deles mas do Tejo, que tinha água a menos. E o tribunal, a quem recorreram, deu-lhes razão: €12.500 para uma empresa que apresentou, se não estou em erro, cerca de €100 milhões de lucro em 2017, é um exagero. Toma lá só uma repreensãozinha por escrito. Estão a gozar connosco? Estão — quer a lei quer o juiz? Pena é que o Ministério do Ambiente em lugar de mudar as lamas da Celtejo para um terreno em área protegida (mais uma ironia!), não as mude para o quintal do juiz.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia 

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O COMPLÔ

(In Blog O Jumento, 02/04/2018)
Marques_Mendes
Marques Mendes, o homem mais bem informado de Portugal e arredores, precisou de chegar ao dia das mentiras e em pleno domingo pascal do ano santo de 2018 para descobrir que há um complô em torno dos bancos falidos. Dir-se-ia que Marques Mendes esteve enterrado desde a falência do BPN e ressuscitou ontem à noite, no seu tempo de antena da SIC Notícias.
O homem não viu nenhum complô quando os seus camaradas de partido e dos governos de Cavaco Silva fazerem grandes negócios ruinosos e arruinados com o dinheiro fácil do BPN. Também não viu nenhum complô quando o seu agora patrão na SIC Notícias usou a revista do Expresso para apresentar o mesmo BPN como um caso de sucesso na banca. E quando se soube que no meio da desgraça Cavaco Silva ganhou muitos milhares de euros num negócio de ações mais do que manhoso também não reparou em nenhum complô.
Quando Passos Coelho foi fotografado de havaianas na mão ao mesmo tempo que o BES era enterrado, tudo isso depois de o governo ter assinado um diploma sem se reunir, situação bem explicada por Assunção Cristas a quem a Maria Albuquerque telefonou para abrir o e-mail e assinar de cruz, Marques Mendes não deu por qualquer complô. Também não viu qualquer complô quando Passos e a Maria Luís asseguraram que a resolução do BES não traria custos para os contribuintes. E muito menos quando Sérgio Monteiro foi contratado pelo BdP para ser o caixeiro-viajante encarregado de vender o Novo Banco.
Poderia ter visto um complô na guerra de Ricciardi apoiado por Passos Coelho contra Ricardo Salgado e ter desconfiado de um complô para mudar a liderança do banco, eventualmente a troco da sua lavação, mas não viu. Da mesma forma que não viu nem ouviu o que se falou entre o governo de Passos e a troika a propósito do BES. Provavelmente não acredita em complô porque estará convencido que isso nem foi falado, aconteceu depois e muito de repente.
Agora e como não pode ilibar o seu PSD da situação tenta embrulhar todos num complô, pela forma manhosa como mete tudo e todos no complô até podemos imaginar o Jerónimo de Sousa a ir clandestinamente à Manta Rota, à tal vivenda alugada por Passos de quem ninguém ainda viu a fatura, para arranjar o complô com o finado dirigente do PSD.
O PSD já massacrou o PS tentando esconder as responsabilidades dos seus no caso do BPN, agora que não pode assacar as responsabilidades a Vítor Constâncio, também não as quer atribuir a Carlos Costa, porque sabe que o governador atuou como se fosse um pau mandado de Passos Coelho e da troika. Por isso o conhecido empresário e advogado arma-se em espertalhão e inventa um complô.

MONTEPIO

(In Blog O Jumento, 08/01/2018)

montepio

A regra de gestão dos fundos soberanos é a de investir em instituições financeiras com um triplo A, isto é, instituições que as agências de rating consideram seguras, garantindo o retorno do investimento. A regra faz sentido. Não é aceitável que um país invista menos na saúde ou noutro sector para dispor de fundos que permitam acorrer a situações graves, para depois investir esse dinheiro na roleta russa de instituições privadas mal geridas.

Acontece que o Montepio não passa disso mesmo, de uma instituição privada mal gerida, lá por ser um banco mutualista isso não significa que seja um banco dos pobres que ficou em situação difícil por ter acorrido às situações de pobreza, digamos que o Montepio não é uma instituição de caridade e qualquer cliente do banco sabe disso.

Todas as agências de rating (*), incluindo a DBRS, consideram o investimento a longo prazo no Montepio como altamente especulativo, isto é, consideram que há uma elevada probabilidade de perdas. Como é que nessas condições pode ser aceite um investimento de uma instituição tutelada pelo Estado no Montepio?

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(*) Notações financeiras do Montepio

Parece que quem defende este investimento pressupõe que, tal como a Santa Casa, também o Montepio prossegue fins sociais, sugerindo-se que o dinheiro que se destina a ajudar os pobres é bem, investido num banco que serve os pobres. Sejamos claros, mesmo que no passado recente um frade franciscano, que parece mandar mais neste país do que o famoso DDT, se tenha alcandorado em eminência parda do Montepio, este não está como está porque o padre franciscano usou os dinheiros do banco para acorrer à pobreza.

Consulte-se o crédito do banco aos particulares e fica-se a saber que a sua TAEG  não é propriamente o preço de uma sopa dos pobres. O Montepio é um banco como qualquer outro, rege-se pelas regras dos bancos comerciais e se está em situação difícil é porque foi mal gerido. Ora, um banco mal gerido, mesmo que entre os seus gestores tenha tido um famoso franciscano, que é o pai espiritual de muito boa gente do poder, é um mau banco e os maus bancos fazem tanta falta como o BANIF ou o BPN.

Não há bancos bonzinhos e bancos mauzinhos, donos disto tudo e pais deles todos, há bancos maus e perigosos porque são mal geridos e bancos bons porque são bem geridos. O Montepio é um mau banco e o sistema financeiro português, a economia portuguesa e a segurança económica dos portugueses só ganha com um sistema financeiro onde não existam maçãs como o Montepio.

Não é escandaloso que haja um banco vindo da “economia social”, ou uma instituição da “economia social” que invista num banco com essas características. O que é escandaloso e criminoso é que uma instituição como a Santa Casa invista num banco considerado lixo por todas as agências de notação contratadas pelo próprio banco.

O Montepio é um banco, que se rege pelas regras da banca, que concorre com os outros brancos e por isso deve ser tratado como todos os outros bancos, sendo politica, ética, jurídica e moralmente inaceitável que uma instituição tutelada pelo Estado seja obrigada investir os seus recursos neste ou em qualquer outro banco. Veremos se o banco do homem que é uma espécie de pai espiritual de algumas personalidades políticas de maior peso do país vai ficar sujeito às regras que se aplicaram ao BES, ao BPP, ao BANIF ao BPN e a todos os outros bancos, ou se vai ser protegido, assumindo-se que mesmo entre os pequenos investidores na banca há os que se lixam e os que são protegidos por Deus.

Só uma pequena dúvida, porque razão o Montepio não se financiou junto do Estado como todos os outros bancos, tendo preferido levar a sua situação tão longe, para agora tentar resolver os seus problemas com os fundos da Santa Casa?

Fonte aqui