O senhor “Ai, aguenta, aguenta!” não aguentou

(Nicolau Santos, in Expresso Curto, 09/02/2017)

 

nicolau

Bom dia.
Este é seu Expresso Curto, no dia em que Fernando Ulrich, o homem que um dia disse a frase “ai, aguenta, aguenta!”, referindo-se à possibilidade do país aguentar ainda mais austeridade, não aguentou ele próprio os sucessivos golpes no BPI
, deixando a presidência executiva do banco para um espanhol e passando a presidente não executivo.

Convenhamos que os últimos anos não foram fáceis para Ulrich.
Devido à crise e às novas e mais duras regras europeias para o setor bancário, que sempre criticou, teve de pedir 1500 milhões de euros de ajuda estatal em meados de 2012, que pagou dois anos depois. Assistiu à saída de um dos principais acionistas de referência do banco, o brasileiro Itaú e os equilíbrios a esse nível, que sempre tinham assente num tripé de grandes investidores, começaram a esboroar-se. Depois, o grande sucesso do Banco de Fomento de Angola sofreu um primeiro golpe, quando o governo angolano exigiu que 49% do capital passasse para investidores locais. Ulrich tentou adiar o mais possível esse momento, remetendo-o para quando o mercado de capitais abrisse em Angola (continua por abrir…), mas não conseguiu resistir à pressão de Luanda e teve de aceitar como sócia a filha do presidente angolano, Isabel dos Santos, que entretanto também já se tornara uma das principais acionistas do BPI em Portugal.

Mesmo assim, o desempenho continuou a ser tão bom, com o BFA a representar mais de dois terços dos resultados do BPI, que quando o Banco Central Europeu, por considerar que o mercado angolano não cumpria as regras de supervisão europeias, impôs a Ulrich a venda da maioria do capital, o presidente executivo tentou por todos os meios encontrar uma solução que lhe permitisse não perder o controlo de um ativo tão precioso. Em vão. O maior acionista do BPI, os catalães do CaixaBank e Isabel dos Santos encetam então um atribulado processo de negociações para encontrar uma solução, que acaba agora num divórcio: Isabel vende a sua participação no BPI mas torna-se a acionista maioritária do BFA.

Por seu turno, o CaixaBank passa a controlar 84,5% do capital do BPI pelos catalães do CaixaBank na sequência da OPA que lançou, acabando de vez com o equilíbrio acionista tripartido que era uma das imagens de marca da instituição e que permitia que esta tivesse uma gestão inequivocamente em mãos nacionais, primeiro por Artur Santos Silva, depois por Fernando Ulrich. Agora há um único acionista que passa a mandar na instituição e um presidente executivo de nacionalidade espanhola, Pablo Forero.

O projeto BPI, tal como o conhecemos desde a sua fundação, morreu ontem.

Leiam-se as declarações de Ulrich: “O BPI, a partir de hoje, faz parte do grupo CaixaBank. Isso é claro. Até agora, o CaixaBank era o maior accionista. A partir de hoje, o CaixaBank controla o BPI. Não há nenhuma dúvida sobre isto e eu entendo que isto é uma boa notícia para o BPI e para os clientes”. Está bem, Fernando: então o modelo anterior era mau para o BPI e para os clientes?

Dos cinco maiores bancos que operam no mercado português, só a Caixa Geral de Depósitos se mantém nacional, com o seu capital controlado a 100% pelo Estado. O BCP é controlado pelos chineses da Fosun, o BPI pelos catalães do La Caixa, o Santander Totta pelos espanhóis do Santander e o Novo Banco aguarda quem o compre – mas não será capital nacional a mandar no futuro da instituição. Foi a isto que chegámos, 37 anos depois da abertura do setor à iniciativa privada por decisão de um governo liderado por Mário Soares.

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Uma FITCH nada “FIXE”!

(Joaquim Vassalo Abreu, 06/02/2017)

 

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Eu sei que o Galamba já escreveu acerca da FITCH, mas como o Galamba é o Galamba e eu sou apenas um simples Vassalo, enquanto ele lhe pegou à forcado (digo assim porque temos que ter cuidado com as palavras…), eu decidi pegar-lhe de cernelha!

E então a Fitch não foi nada “fixe” porque, mesmo indo de encontro ao optimismo do Presidente Marcelo que, embora considerasse ser Portugal merecedor de melhor “lixo”, já se contentava com o que tem, manteve o nosso “rating” nesse tal “lixo”, o que fez exasperar e decepcionar a nossa Marilu, que considerou essa atribuição “uma má notícia”.

De modo que me assaltou a inevitável pergunta: O que seria para esta nossa notável produtora do mais variado “garbage” uma boa notícia? Um melhor lixo, assim um de qualidade superior, exportável mesmo, ou um sublixo, inclassificável e de reputação duvidosa e de pouco valor?

Um lixo exportável, sim, pois me lembro de ter ouvido há uns tempos uma notícia que dava conta de um montão de lixo, ali para os lados do sul, meio que abandonado e com origem de Nápoles! De Nápoles? Eu nem queria acreditar e logo pensei com os meus botões: querem ver que…mas fiquei logo por aí, não fosse a minha mente levar-me para tortuosos e perigosos pensamentos e até pensei que deve por aí haver um adágio qualquer que diga que: “quem se mete com lixo, lixa-se”, de modo que encerrei assim a coisa.

Mas, pelos vistos, há quem não se lixe, antes pelo contrário, e não sei se não será o caso da Marilu.

Pois vejamos: Se a Marilu achou a manutenção da classificação uma má notícia, quererá ela dizer que Portugal era merecedor de uma categoria superior de lixo? Um lixo catado e escolhido, separado de excrementos, de plásticos e objectos cortantes, um lixo utilizável e reutilizável, resultado de um aturado trabalho de tratamento e coisas assim? Não o creio, pois uma conclusão assim sofreria de uma insanável contradição e seria, para ela, uma capitulação. Não seria a aceitação do sucesso das políticas deste governo, políticas que tanto ela como o seu aluno tanto abjuram? Nem pensar! Eles ainda nem acreditam sequer que o défice ficou abaixo dos 3%, quanto mais nos 2,2 ou 2,3! Impossível, dizia ela, como impossível será eu lhe conceder essa leitura.

Donde concluo o óbvio: Ela ficou para lá de “fula” com a manutenção da qualidade do nosso lixo. Ela queria é que fosse considerado um lixo mais lixo ainda, um lixo inclassificável e apropriado à imagem desde também inqualificável, para ela, governo. Mas a Fitch não foi “fixe” a manteve inalterável o nosso lixo.

De modo que assim num repente (estas coisas surgem assim e não há nada a fazer), eu atingi a luz do lixo e um clarão, um trovão mesmo que me ia pondo os neurónios em curto circuito, iluminou a minha mente e a inevitável pergunta: Mas a Marilu não compra e vende “lixo”?  Na ARROW, sim na ARROW, na Flecha, essa mesma? A ARROW compra lixos vários (a que alguns chamam de “créditos malparados” e coisas assim, mas que não passam de lixos…) e vende esses mesmos lixos, mas já devidamente separados e reclassificados, não é?

Ora sigam lá o meu raciocínio: A FITCH, portanto, ao manter imutável a qualidade (ou preço) do nosso lixo, não o desvalorizando, não aportará mais valias para a Marilu e para a sua “Flecha”, um acréscimo de margem, em suma, que era o que ela sonhava, matando assim dois coelhos (salvo seja) com um tiro só. Saiu-lhe o tiro pela culatra, está visto!

Eu já sei que, à semelhança de outras vezes, uns vão dizer que eu devo andar a tomar coisas pois venho para aqui com teorias delirantes, outros que tenho uma fixação na dama, mas também dizem que também tenho no “damo”, mas eu digo-vos: nada disso! O único vício que tenho é fumar e cigarros de marca conhecida! Ah, e também bebo maduro tinto, e só!

Para a Marilu, está então mais que óbvio, quanto pior for o lixo melhor ele será e, também para ela, quem se mete com o lixo, sai sempre rico. Como os sucateiros com as sucatas: é igual!

E tanto é verdade que o DN ou o JN, dá no mesmo, trazia ontem uma notícia que dizia: Catorze (14) banqueiros portugueses, em Portugal, ganharam o ano passado mais de um milhão cada um. Eu sei que há todas as semanas um sorteio de um milhão, mas não, eles ganharam-no a produzir “lixo”. Esse mesmo que a Marilu e a Arrow compram…

E eu é que deliro, não é?


Fonte aqui

A Fitch e o rating

(João Galamba, in Expresso Diário, 06/02/2017)

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Vale a pena consultar o que a Fitch foi dizendo ao longo dos últimos dois anos sobre Portugal e os bancos portugueses para perceber a razão pela qual o rating da dívida pública portuguesa não seguiu a trajectória que, durante o ano de 2015, se esperava que viesse a ocorrer em 2016 e 2017. Não é porque este Governo existe, como Maria Luís Albuquerque afirmou num evento da JSD, é porque a verdadeira dimensão dos problemas e desafios no sector financeiro só se tornou conhecida após as eleições. A 25 de Setembro de 2015, a poucos dias das eleições, a Fitch dava um rating BB+ com outlook positivo à dívida pública portuguesa. Portugal, dizia a Fitch em comunicado, tinha a economia a crescer em linha com a média da zona euro, ia ter um défice abaixo dos 3%, o que permitiria sair do procedimento por défices excessivos, e apresentava um sector financeiro estável. O único risco era o adiamento da operação de venda do Novo Banco que criava “um risco elevado do Novo Banco ser vendido por menos do que o valor da sua capitalização (4,9 mil milhões de euros)”. Até na Caixa Geral de Depósitos o discurso do então Primeiro-Ministro era sobre o reembolso do dinheiro injectado pelo Estado, e não de qualquer necessidade adicional de capital. Ou seja, até às eleições, o que se discutia era quanto é que o Estado ia reaver do dinheiro injectado no sector financeiro, não quão mais é que teria de injectar no futuro. Desde então, tudo mudou.

O Banif, que a Fitch considerava estável, foi resolvido a 20 de Dezembro, menos de um mês após a tomada de posse do actual Governo.
Também em Dezembro, no dia 29, por determinação do Fundo de Resolução, o Novo Banco foi recapitalizado em mais 2 mil milhões de euros. Em menos de uma semana um banco tido como estável desapareceu e um banco tido como sólido e uma resolução tida como irrepreensível resultaram em algo que a Fitch classifica de “restricted default”. 6900 milhões de euros de capital depois, a melhor oferta pelo Novo Banco implica que o Estado tenha de pagar para vender. A estabilidade de Setembro de 2015 revelava-se, assim, uma ilusão. Isto teve impacto na credibilidade do país, levou a um ajustamento (em alta) da trajectória da dívida pública e, em março, a uma degradação do outlook do rating, que passou de positivo a estável. Desde então, e até ao presente, a Fitch diz que a situação melhorou. Sim, melhorou. É certo que a realidade é pior do que se esperava, mas, depois de desfeita a ilusão da saída limpa alimentada até às eleicões, os problemas têm sido enfrentados e estão resolvidos ou em via de resolução: o problema da recapitalização da Caixa foi resolvido, o BCP foi recapitalizado e as dúvidas em torno da estrutura accionista do BPI desapareceram. O maior problema, que vem de trás, e que a oposição não parece considerar ser um problema, muito menos uma prioridade, é a questão do crédito mal-parado, que a Fitch reconhece ser uma prioridade política do actual Governo. Uma solução sistémica para este problema parece ser, para a Fitch, um evento que melhoraria as perspectivas para a evolução do rating Português. Se tal vier a acontecer, será seguramente por causa de medidas do actual Governo, medidas que deviam ter sido tomadas no passado e cujo adiamento prejudicou o financiamento da economia portuguesa.

Ao contrário do que afirmou Maria Luís Albuquerque, a situação não se deteriorou face a 2015, deteriorou-se face previsto (e anunciado) até às eleições, mas está agora melhor face ao que a Fitch previa quando, em Março, já sem a ilusão da saída limpa, baixou o outlook da dívida portuguesa de positivo para estável. O sector financeiro está estabilizado ou em vias de estabilização. O défice, com ou sem medidas extraordinárias, vai ficar bastante abaixo do que a Fitch previa em Março, permitindo – finalmente – a saída do procedimento por défices excessivos.

O emprego e as contribuições sociais crescem acima do que cresceram em 2015 e bastante acima do que a Fitch achava possível. A economia está melhor do que estava quando o actual Governo assumiu funções: estava a desacelerar, baixando para 1.4% no segundo semestre de 2015, e agora está (em termos homólogos) a crescer acima do que cresceu em 2015 e a acelerar, terminando o ano a crescer mais do que os 1,6% do terceiro trimestre. A Fitch prevê que a economia cresça 1,5% em 2017, exactamente o mesmo que previa para este ano, em 2015, quando o outlook era positivo.