A mais despudorada falta de pudor

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 01/02/2017)

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Desde o inicio da crise financeira, e considerando apenas os dados até final de 2015 a Banca portuguesa precisou dos contribuintes para injectarem directamente qualquer coisa como 14,5 mil milhões de euros no sector (com impacto no défice e, consequentemente, na dívida pública) e, no pico das necessidades, ainda garantirem mais de 16,5 mil milhões de euros de dívida dos Bancos.

Os dados, disponíveis nas bases de dados do Banco de Portugal (séries cronológicas) são claros. O esforço pedido foi enorme.


Face a este cenário um observador incauto concluiria três coisas: a Banca sentiria uma dívida de gratidão a quem lhe deu a mão num momento difícil, e uma certa sobriedade e humildade que é usual sobrevirem à consciência – assim a tenha – de quem erra; o regulador tinha retirado importantes lições para o futuro, alterando profundamente a sua forma de actuação; e, por fim, o sector se apresentava capaz de passar a devolver à sociedade algum do apoio que esta lhe deu, estimulando a Economia e respeitando clientes e depositantes.

O observador incauto teria errado todas as três. Nem a Banca aprendeu, nem o Banco de Portugal se reformou (aliás, o Banco de Portugal continua a recusar ao Parlamento sequer o conhecimento da auditoria a como lidou com o caso BES, auditoria essa encomendada e paga com dinheiros públicos) nem a situação do sector está resolvida.

Para além do affair NovoBanco, já aqui abordado, temos agora uma nova ideia fantástica, com o elevado patrocínio da Goldman Sachs: o contribuinte deve (outra vez) garantir os maus investimentos da Banca, ao assumir o colateral de um Bad Bank (tem este nome mas é sempre bom para quem o quer criar) onde se possam despejar os créditos malparados da Banca.

E de onde vem esse crédito malparado? Na sua maioria já o detalhámos (Expresso, 29.10.2016), mas vale a pena sumariar: os dados do Banco de Portugal mostram que as famílias portuguesas aguentaram estoicamente a crise, com a taxa de crédito malparado a passar de 2,82% para 4,26% entre 2010 e 2016; e foram as empresas que arrastaram a Banca para uma situação difícil, passando de 4,11% para uns incomportáveis 15,53% no mesmo período. Destes 15% de crédito malparado, cerca de metade vem de empresas ligadas ao sector da construção e imobiliário.

Erros da Banca. Custos para o contribuinte.

Como então concluímos, e não é demais repetir, o que ameaça as contas públicas não é a reposição de rendimentos. Nem sequer é só o fraco crescimento económico. O maior risco é outro. É a Banca. E sabem que mais, se não aprendermos a lição, vamos andar nisto mais 20 anos.

Pelo caminho, continuaremos a ouvir reverentemente os CEO da Banca, o Governador do Banco de Portugal e mais umas quantas figuras gradas do sistema financeiro. Como se eles tivessem andado a mostrar outra coisa que não a mais despudorada falta de pudor. Se calhar já chega, não?

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Algumas das minhas dúvidas ou certezas?) sobre o BES

(In Blog O Jumento, 11/01/2017)
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Talvez um dia o país saiba tudo sobre o BES. O que se passou na família Espírito Santo, as relações entre alguns membros da família e o primeiro-ministro, o papel do então primeiro-ministro na luta pelo poder entre Ricardo e Ricciardi, a resposta da Troika quando a situação do BES lhe foi colocada, o papel de Carlos Costa, um amigo da banca nomeado para um BdP, que vigiava a banca, por um amigo seu e da banca, o ministro das Finanças de Sócrates.
Talvez um dia saibamos o que perdeu o país para que o BES fosse destruído, o que se perdeu com a perda das empresas do GES, o que perdeu com a intervenção no BES, o que perdeu com os prejuízos que foram infligidos a muitos clientes do BES e parceiros das empresas do GES, o que perdeu com o desaparecimento de um banco que financiava muitas das PME.
Talvez um dia fiquemos a saber de quantos políticos chegaram ao poder com a ajuda financeira do BES, de quantos governantes e altos cargos do Estado empregaram os seus familiares e afilhados no universo empresarial do GES.
Sem sabermos de tudo isto nunca saberemos porque caiu um grande grupo empresarial português, nunca conseguiremos saber quanto custou ao país a forma descontraída com que Passos Coelho andou de chanatas na Praia da Manta Rota. Saberemos porque em vez de se equacionar uma solução para a sua sobrevivência, se optou por se perder muito mais para o destruir. Saberemos porque motivo Ricardo Salgado foi o mau, e Ricciardi não só foi o bom como foi premiado.
Tenho muitas dúvidas de que o governo não podia ter resolvido o problema do BES muito antes de deixar de haver solução. Tenho muitas dúvidas se o grupo teria sido destruído se José Maria Ricciardi, amigo do então primeiro-ministro, tivesse conquistado o poder no grupo. Tenho muitas dúvidas de que o governador do Banco de Portugal ou os banqueiros que o apoiam alguma vez tiveram como preocupação a continuação e sobrevivência do BES, por mais bom que seja ou tenha ficado depois da “desintoxicação”.salgado_rici
Quem ganhou ou vai ganhar com esta solução?
Vão ganhar os banqueiros que se livram daquele que era o mais dinâmico banco do nosso sistema financeiro, aqueles que por ocasião da resolução tudo fizeram para desnatar o banco, ficando-lhe com os melhores depositantes e os melhores clientes, aqueles bancos que estavam tão mal ou pior do que o BES e se salvaram escondendo-se atrás dele. Daqui a algum tempo os banqueiros do costume vão fazer eleger um primeiro-ministro amigo que em boa hora vai transferir os custos da banca com o processo para os contribuintes.
A banca tem muito a ganhar com uma solução em que o comprador fica com os negócios imobiliários e os bancos desastrados de Portugal dividem entre si os restos do cadáver, como se fossem hienas em torno de uma vítima. Os compradores ficam com o imobiliário, vendem as carteiras de encomendas à banca portuguesa e transferem o prejuízo para o Estado através das garantias. Mais tarde o Estado junta a este prejuízo o do Fundo de Resolução.
Foi para isto que o ex-membro do governo recebeu um balúrdio como caixeiro-viajante do Banco de Portugal, para vender o BES a qualquer preço, sem quaisquer garantias de futuro e, ainda por cima, com a garantia financeira do Estado?

Tudo isto foi triste

(In Blog O Jumento, 03/12/2016)
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Este processo da CGD devia envergonhar-nos enquanto país, enquanto esquerda ou direita, enquanto ateus ou devotos, enquanto maçons ou gente sem obediências, enquanto direita ou esquerda, o país assistiu a um espectáculo degradante, cujas consequências conheceremos um dia destes.
Discutiu-se um vencimento que agora já não é exagerado, explicou-se que era a remuneração justa para quem sabia gerir bancos, tinha qualificações e habilitações. Agora que foram ao “carro-vassoura” da gestão buscar alguém sem habilitações, qualificações ou experiência já ninguém questiona o vencimento, nem o BE e muito menos os extremistas do PSD
No governo de Passos questionava-se a legitimidade das ligações às organizações secretas por parte de quem dirigia instituições pública, Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça do regime de então, até defendia a adopção de uma lei para regular essa mistura entre negócios públicos e negócios sagrados. Mas tudo isso foi rapidamente esquecido e agora que a Opus Dei lançou uma opa a custo zero sobre o maior banco nacional todos se esqueceram das longas horas de debate.
Dizia a então ministra que “as sociedades democráticas não são compatíveis com sociedades secretas, sobretudo quando existem ritos de obediência”. Mas agora faz-se-silêncio e até ficamos com a sensação de que na próxima missa de acção de graças pela preciosa ajuda divida ao devoto Macedo veremos o Louçã entrar na Sé de Lisboa de braço dado com as Cristas, atrás de um casal de devotos formado por Costa e Maria Luís, com sorte talvez possamos ver Passos entrar com a Manuela Ferreira Leite.
A escolha  era segundo critérios de competência, escolheram o “Mourinho da banca”, agora elogiam as qualidade de gestão de Paulo Macedo a converter as receitas fiscais em notícias laudatórias da sua pessoa e perdoa-se a inexperiência na gestão de um banco, nem sequer se dão ao trabalho de nos dizer como foi o seu trabalho como administrador do BCP ou porque esteve tão pouco tempo na administração desse banco.
Valeu de tudo para que se chegasse ao nome de Macedo, e a confusão noticiosa só merece gargalhadas. Que foi a primeira escolha de António Costa mas o PS não deixou, que o Macedo resistiu ao convite durante três semanas. O rapazola de quem alguém disse sofrer de disfuncionalidade cognitiva temporária teve mais um dos seus brilhantes momentos intelectuais e deu cambalhotas para festejar a escolha do devoto Macedo sem ninguém reparar.
O BE, que se juntou à direita para forçar o presidente da CGD à demissão, agora já aceita o Macedo sem pestanejar, com medo de um colapso da Banca até vão à missa no Campo Grande se for necessário. Os corajosos combatentes republicanos que ficaram com o cu na cadeira durante a última batalha da guerra civil de Espanha, engolem agora e sem pestanejar um sapo devoto de Josemaria Escrivá de Balaguer!
Foi preciso a CGD andar a penar um ano, colocar o país à beira de uma grave crise financeira, destruir moralmente duas administrações da CGD, para lá meterem o Macedo e promoverem Rui Vilar a Chairman, para que o senhor termine em grande a sua longa carreira em altos cargos. Se era para tudo isto não tinha sido necessário tanto tempo e tanto espectáculo triste.
Daqui a uns anos quando a CGD estiver novamente à beira do abismo e um qualquer Passos Coelho dessa ocasião se aproveite da situação para vender o banco ao preço da uva mijona a um qualquer chinês amigo ninguém se lembrará dos muitos intervenientes neste processo sujo, ridículo e pouco dignificante. Ninguém vai recordar o papel triste que desempenhou neste processo.