O Luís vingou o Aníbal

(Carlos Esperança, in Facebook, 30/03/2026, Revisão da Estátua)


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Retirar Saramago, o Nobel da Literatura Portuguesa, do currículo académico, não é um ato gratuito, é o ajuste de contas com a democracia e a memória coletiva do 25 de Abril.

Vinte anos depois da saída de Cavaco Silva de Belém, salazarista que abominava a obra de Saramago, sem nunca ter lido uma única página, coube ao governo de Montenegro a tentativa de agradecer ao «génio da banalidade» o apoio indefetível prodigalizado.

A substituição de José Saramago por Mário de Carvalho, é uma manobra bem ao gosto do dissimulado Montenegro, propor um grande escritor da mesma área ideológica para ocultar o saneamento político que se pretende para, depois, sem ruído, afastar o último.

Saramago continuará a ser lido por quem ama a língua portuguesa e aprecia a literatura, mas a tentativa de vingança está em curso perpetrada por quem se apropriou da agenda ideológica do Chega e quer vingar Cavaco.

Eis algumas razões da tentativa de lesa-literatura:

L’Osservatore Romano, diário do Vaticano, escreveu quando Bento XVI era Papa: “Saramago é, ideologicamente, um comunista inveterado” e, depois da morte, ainda lhe chamou “populista extremista” e “ideólogo antirreligioso”, epítetos azedos de um reacionário.

O eurodeputado do PSD, Mário David, nascido em Angola, que viveu quase sempre fora de Portugal, declarou, após a atribuição do Nobel, que tinha vergonha de ser compatriota do escritor e que este devia renunciar à nacionalidade portuguesa.

O Sr. Manuel Clemente, ex patriarca de Lisboa, então bispo do Porto, afirmou que José Saramago “revela uma ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas” e, como “exigência intelectual, deveria informar-se antes de escrever”, como se alguém o coagisse a ele, bispo, a pensar antes de falar ou a calar-se quando o silêncio é crime, como aconteceu nos casos de pedofilia do clero da sua diocese.

Doze livros de José Saramago estão entre os classificados com os mais altos níveis de interdição do Opus Dei a nível internacional, num Índex de 79 obras de autores portugueses, incluindo Eça de Queirós, Fialho de Almeida, Vergílio Ferreira, Miguel Torga, Lídia Jorge e David Mourão-Ferreira.

Sousa Lara, subajudante de ministro de Cavaco, censurou “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e opôs-se a que fosse incluído no concurso a um prémio literário europeu. Foi o rosto do cavaquismo, intolerante, vesgo e analfabeto.

Montenegro comporta-se como Cavaco na cultura, Durão Barroso no apoio à invasão do Irão e Santana Lopes na governação. É a síntese do pior da direita da pior maneira.

«Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o reino dos céus». (Mateus 5:3)

Mais uma golpada do Montenegro

(Por WHISTLEBLOWER.Pt, in Facebook, 23/03/2026)


Portugal assiste a uma confluência de factos que, lidos em conjunto, desenham o retrato mais preocupante da governação democrática dos últimos anos.

O Primeiro‑Ministro, Luís Montenegro, declarou guerra ao Tribunal de Contas, acusando‑o de ser uma “barreira burocrática” que impede a execução rápida dos investimentos.

No mesmo mês, ficou a saber‑se que o novo Hospital de Todos os Santos, em Lisboa, perdera 100 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) por atrasos que o Governo atribuiu à mesma “burocracia”, mas que os técnicos apontam como incompetência de planeamento.

E, enquanto isso, o Governo concluiu uma “limpeza silenciosa” nas administrações hospitalares, nomeando para as Unidades Locais de Saúde (ULS) dezenas de militantes do PSD e do CDS, muitos sem qualquer currículo de gestão clínica, substituindo gestores técnicos que apresentavam resultados positivos.

Não se trata de uma coincidência de agenda.

É um sistema: a falha de gestão é usada para justificar o ataque ao fiscalizador; o ataque ao fiscalizador abre caminho para a nomeação de “boys” fiéis; e, para os proteger das consequências dos seus erros ou dos favores que venham a praticar, o Governo avança com alterações legislativas que retiram ao Tribunal de Contas o poder de condenar financeiramente os gestores públicos.

O círculo fecha‑se com o povo a pagar duas vezes: a primeira, quando os fundos europeus “grátis” se perdem; a segunda, quando o Estado recorre a linhas de crédito com juros para tapar o buraco, ou quando os contratos, agora sem visto prévio, são entregues a empresas amigas sem concurso.

A ofensiva contra o Tribunal de Contas

No centro do furacão está o juiz‑conselheiro António Martins, vice‑presidente do Tribunal de Contas (TdC). Em declarações reproduzidas por todos os órgãos de comunicação social, Martins foi arrasador: o Governo de Montenegro pretende acabar com a fiscalização prévia – o chamado “visto” que o TdC dá antes de qualquer contrato público de grande vulto – sob o pretexto de acelerar a economia. Na prática, segundo o magistrado, o que está em causa é “beneficiar interesses privados ilegítimos” e esconder a incompetência governativa.

A reação do Primeiro‑Ministro não foi de desmentido, mas de confirmação. Montenegro anunciou oficialmente que vai avançar com a extinção do visto prévio, argumentando que o medo da fiscalização paralisa os gestores públicos.

A mensagem é simples: quem gere dinheiros públicos deve ter “mãos livres”. O que fica por dizer é que, sem o crivo do TdC, contratos lesivos podem ser assinados, o dinheiro pode sair, e só meses ou anos depois – quando o Tribunal já não puder travar nada – se descobrirá o estrago.

O alerta de António Martins não é um desabafo corporativo. É a constatação de que o Governo está a desmontar a última barreira que impede que o erário seja tratado como um balcão de negócios para amigos e financiadores.

O desastre do Hospital de Todos os Santos

A perder‑se 100 milhões de euros do PRR, o novo Hospital de Todos os Santos, em Marvila, tornou‑se o símbolo do que a incompetência política custa ao país.

O projeto, que deveria ser concluído até agosto de 2026 para cumprir os prazos da União Europeia, atrasou‑se por “revisões de projeto” e “exigências de segurança sísmica” que o Governo imputa ao Tribunal de Contas. Mas a Comissão Nacional de Acompanhamento, os técnicos e até o próprio Tribunal de Contas, nas entrelinhas, apontam o dedo a uma falha de planeamento que começou muito antes de qualquer visto judicial.

Os números são frios: Portugal já devolveu 23 milhões de euros que Bruxelas adiantara; os restantes 77 milhões simplesmente evaporaram‑se das contas da saúde. O Estado, que não conseguiu gerir um cronograma europeu, terá agora de encontrar dinheiro no Orçamento – isto é, nos impostos dos cidadãos – para não deixar a obra a meio. O custo inicial do hospital, à volta de 330 milhões, já disparou para quase 800 milhões. Sem os fundos europeus, o esforço financeiro recairá inteiramente sobre os contribuintes.

A ironia é cruel: o Governo queixa‑se da “burocracia” que o impede de gastar, mas foi a sua incapacidade de executar dentro do prazo que fez o dinheiro fugir. E, em vez de assumir a responsabilidade, decidiu atacar o regulador – como se, ao destruir o espelho, a fealdade desaparecesse.

O assalto político às administrações hospitalares

Enquanto o debate fervia, o Governo concluía em silêncio uma das maiores operações de ocupação partidária do Serviço Nacional de Saúde. Das 19 substituições efetuadas nas Unidades Locais de Saúde (ULS), 14 recaíram sobre figuras com ligações diretas ao PSD e ao CDS. O caso mais gritante é o de José Luís Gaspar, ex‑presidente da Câmara de Amarante pelo PSD, nomeado para liderar a ULS do Tâmega e Sousa, com um orçamento superior a 400 milhões de euros. Gaspar é autarca de carreira, não gestor hospitalar. A sua experiência em construção pública – que, durante os seus mandatos, se traduziu em contratos com grandes empreiteiras da região – tornou‑o agora o homem que, na saúde, vai gerir a “urgência” das obras.

Na ULS da Guarda, a escolha recaiu sobre Rita Figueiredo, jurista e militante do PSD, sem qualquer formação médica ou de gestão clínica. Na ULS da Lezíria, Pedro Marques, ex‑vereador do PSD em Abrantes. Em quase todos os casos, foram substituídos gestores técnicos que, segundo as associações profissionais, vinham mantendo resultados aceitáveis com os parcos recursos disponíveis.

A Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) e a Ordem dos Médicos não se calaram. Xavier Barreto, presidente da APAH, falou em “grande assimetria” entre a complexidade dos cargos e a inexperiência dos nomeados. E a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, veio admitir que vários convites a técnicos de carreira foram recusados – porque, explicou, os profissionais de gestão hospitalar não querem assumir a responsabilidade sem as garantias de autonomia e sem o amparo político necessário. A solução do Governo foi, então, recorrer aos “boys” do partido.

O ciclo da impunidade: fim do visto prévio, fim da responsabilidade financeira

Para que esta operação de ocupação do SNS não produza consequências pessoais para os nomeados, o Governo prepara duas alterações legislativas que, em conjunto, formam um escudo de impunidade.

A primeira é o fim do visto prévio do Tribunal de Contas. Sem ele, os novos administradores podem assinar contratos de centenas de milhões – por ajuste direto, alegando “urgência” – sem que ninguém, antes do dinheiro sair, avalie se as cláusulas são razoáveis, se o preço é justo ou se o concorrente escolhido tem as competências exigidas.

A segunda é a eliminação da responsabilidade financeira dos gestores públicos. Atualmente, o Tribunal de Contas pode condenar um gestor que cause prejuízo ao Estado a pagar do seu próprio bolso as quantias desviadas ou mal aplicadas. O Governo quer acabar com isso.

Se um dos 14 administradores partidários entregar uma obra a uma empresa amiga por um preço inflacionado, se perder fundos europeus por incompetência, ou se assinar um contrato ruinoso sem concurso, não terá de responder com o seu património.

O contribuinte, sozinho, suportará o prejuízo.

O ciclo está completo: nomeiam‑se os fiéis, retira‑se o controlo prévio e, por fim, blindam‑se os gestores contra qualquer consequência. É o “triângulo da incompetência ética” em pleno funcionamento.

O custo para o povo: a dupla fatura

O que tudo isto significa para quem espera por uma cirurgia, para quem paga impostos e para quem confiava que o SNS é património público e não quintal partidário?

Primeiro, a perda dos 100 milhões do PRR é dinheiro que não será investido em equipamentos, médicos ou camas. O hospital de Marvila, essencial para uma zona em crescimento, ficará por concluir ou será concluído com dinheiro do Orçamento – que podia ter sido aplicado em reduzir listas de espera.

Segundo, os ajustes diretos que agora se multiplicarão sem visto prévio tendem a ser mais caros e menos fiscalizados. Empresas com ligações políticas – Mota‑Engil, Teixeira Duarte, Casais e outras – são as que tradicionalmente beneficiam destas “urgências”.

O dinheiro que sai dos cofres do Estado sem concurso público é dinheiro que podia pagar salários dignos aos enfermeiros ou reduzir a taxa de esforço das famílias.

Terceiro, a degradação da gestão pública. Quando se coloca um autarca a gerir um hospital, o foco deixa de ser a qualidade clínica para passar a ser a gestão de obras, a criação de “factos políticos” e a proteção do Governo. As listas de espera crescem, os profissionais desmotivam, e o cidadão é remetido para um sistema que progressivamente se torna um apêndice da máquina partidária.

Conclusão: zelar pelo povo ou zelar pelo partido?

A pergunta que percorre estas manchetes de março de 2026 é simples: para que serve um Primeiro‑Ministro?

Luís Montenegro foi eleito, entre outras promessas, para defender o interesse nacional, garantir transparência e fazer funcionar o Estado.

O que os factos mostram é o oposto: um Governo que, perante o seu próprio falhanço na gestão de fundos europeus, prefere destruir os mecanismos que o poderiam fiscalizar; que ocupa os cargos do SNS com militantes em vez de técnicos; que se prepara para deixar os gestores públicos sem responsabilidade pessoal.

O “benefício de interesses privados ilegítimos” denunciado pelo vice‑presidente do Tribunal de Contas não é uma suspeita vaga. É a descrição do que este modelo permite: sem visto prévio, sem responsabilidade financeira, e com “boys” do partido a gerirem orçamentos de centenas de milhões, a porta está escancarada para que o dinheiro público sirva quem financia campanhas, quem recebe favores e quem se mantém no poder.

O povo português, entretanto, paga a conta – com impostos, com listas de espera, com hospitais que não se acabam e com a certeza de que a “bazuca” europeia, em vez de reconstruir o país, serviu para alimentar um ciclo de impunidade.

Zelar pelos interesses do povo seria, no mínimo, proteger os fundos europeus, escolher gestores pela competência e defender os órgãos de fiscalização.

O que estamos a ver é o contrário. É a incompetência ética elevada a método de governação.

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Montenegro luta pelo poder e receia a crise

(João Gomes, in Facebook, 06/03/2026)


Há apenas poucas semanas, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, garantia aos portugueses que governaria durante quatro anos. A promessa parecia simples, direta e quase tranquila, como quem acredita que o caminho está limpo de obstáculos. A política, porém, raramente respeita calendários anunciados com tanta confiança. De repente, o cenário mudou.

Uma devastadora sequência de tempestades no centro-sul do país destruiu uma parte significativa da produção nacional, afetando cadeias industriais e agrícolas e abrindo um rombo financeiro que poderá ultrapassar os quatro mil milhões de euros. Um impacto próximo de um ponto percentual do PIB – o suficiente para transformar previsões orçamentais otimistas numa realidade muito mais incerta.

Quando um governo ainda procura resolver velhos problemas estruturais – saúde pública em tensão permanente, dificuldades na política de imigração, mercado de trabalho pouco dinâmico e uma execução lenta dos fundos europeus – a chegada de uma crise inesperada tem o efeito de revelar aquilo que já existia: fragilidade na capacidade de resposta do Estado.

É neste contexto que a política portuguesa entra num momento curioso. Passos Coelho decidiu reaparecer no debate público com críticas claras à direção política atual. Não é um gesto banal. Na tradição dos grandes partidos portugueses, antigos líderes raramente intervêm de forma tão direta quando o partido está no poder. Quando isso acontece, normalmente significa que algo mais profundo está a mover-se nos bastidores.

Ao mesmo tempo, surge outra sombra política: o caso da empresa Spinumviva, ligada ao próprio primeiro-ministro. Embora não exista acusação criminal, a decisão do Tribunal Constitucional de permitir a divulgação de informação relevante mantém o tema no centro do escrutínio público. Em política, muitas vezes o problema não é a ilegalidade comprovada, mas a suspeita persistente.

Como se não bastasse, o ambiente internacional também começa a mudar. A tensão no Médio Oriente e a guerra envolvendo o Irão já provocaram oscilações significativas no preço dos combustíveis. A história económica europeia mostra que estas crises energéticas raramente ficam confinadas ao mercado petrolífero: rapidamente se transformam em inflação, aumento do custo de vida e pressão social.

Perante este cenário acumulado – crise natural, pressão económica, escrutínio político e críticas internas – Montenegro tomou uma decisão que revela tanto confiança como prudência: convocar eleições internas no seu partido. Foi uma mensagem clara. Quem quiser contestar a sua liderança terá oportunidade de o fazer nas urnas do partido. É um gesto político clássico. Ao antecipar o confronto interno, o líder procura transformar a contestação difusa num desafio claro e imediato. Se vencer, reforça a sua legitimidade; se perder, o problema deixa de ser apenas político e passa a ser institucional. Porque, nesse caso, Portugal entraria numa zona politicamente delicada.

Se o líder do partido do governo deixar de ser primeiro-ministro – ou se o partido escolher outro líder – abre-se inevitavelmente uma questão constitucional e política: quem governa e com que legitimidade parlamentar? Em teoria, o chefe do governo pode continuar em funções. Na prática, o sistema político português dificilmente toleraria tal dissociação durante muito tempo. É por isso que as eleições internas do partido podem acabar por ser mais relevantes do que parecem. Não se trata apenas de uma disputa de liderança. Trata-se de um teste ao equilíbrio de poder dentro do próprio governo.

Entretanto, enquanto a política se reorganiza, os problemas estruturais do país continuam praticamente no mesmo lugar onde estavam antes das tempestades. O sistema de saúde permanece pressionado, a política de imigração continua a gerar divisões, o mercado de trabalho não mostra sinais claros de transformação e os grandes projetos financiados pela União Europeia avançam mais devagar do que o discurso oficial sugere. Portugal parece viver um curioso paradoxo: a política move-se rapidamente, mas os problemas movem-se muito pouco.

Se Montenegro vencer as eleições internas, poderá apresentar o resultado como uma renovação de confiança. Mas isso não eliminará os desafios que se acumulam à porta do governo. Se, pelo contrário, perder – hipótese ainda teórica – Portugal poderá entrar num novo ciclo político marcado por reorganização partidária, eventual mudança de liderança governativa e até eleições antecipadas.

Assim, o país aproxima-se de maio com uma pergunta no ar: saber se estamos perante um simples episódio de turbulência política ou perante o início de uma nova fase na vida política portuguesa. Entretanto, como tantas vezes acontece em Portugal, a política discute o poder enquanto o país espera pelas soluções.


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