CAVACO, SEMPRE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 12/10/2019)

Nada une mais as esquerdas em Portugal do que a voz de Aníbal Cavaco Silva. Assim sendo, enquanto as esquerdas bem-comportadas e sorridentes se sentavam com o Presidente para saber como ajudar a governar Portugal, o ex-presidente, ex-primeiro-ministro e ex-líder do PSD resolveu entregar um comunicado à Lusa, a troco de uma pergunta, onde, revelando a sua tristeza com o partido, veladamente pede a destituição do atual chefe e chega ao cúmulo de apontar a “sua” lista de deputados, onde avultaria a patriótica figura de Maria Luís. Cavaco Silva não aprendeu nada e não esqueceu nada, como os Bourbons restaurados após a abdicação de Napoleão, na tal frase de Talleyrand.

Se Cavaco Silva tivesse a lucidez de olhar para o país que por aí prolifera, dominado pelo Estado e um funcionalismo público determinante dos resultados eleitorais, dominado por uma corrupção partidária de base e um clientelismo sem limites, angariador de caciques e de sedes, de subsídios e de promessas, de famílias políticas e de parentes de sangue, repararia que este monstro nasceu da chamada estabilidade do poder durante os longos anos do cavaquismo. Nasceu e ganhou raízes com a maioria absoluta e um total domínio do aparelho de Estado e das autarquias pelo PSD e quando os fundos europeus nos inundaram em nome do desenvolvimento e da convergência. A mistura do clientelismo e da burocracia do Estado com o dinheiro europeu desenhou um capitalismo indigente, encostado à influência política e dependente do acesso aos chefes e seus próceres.

É claro que o PS também afinou o diapasão por aqui, claríssimo, mas a maioria absoluta foi o projeto fundador e majestático do modelo político português a partir do final dos anos 80. Tudo com o Estado, nada sem o Estado. Depois de ter descoberto a política tarde, depois da revolução de 1974 e depois de ter sido ministro das Finanças de Sá Carneiro, Cavaco Silva tornou-se chefe do PSD de um modo único que é o espelho das idiossincrasias. Foi rodar o carro à Figueira da Foz — a desculpa reflete o desdém pela ortodoxia política e os políticos, os partidos — e saiu de lá líder porque, sinceramente, não havia ninguém com talento a disputar o lugar vago. Este desdém manteve-o e cultivou-o como uma flor preciosa e, tendo sido o primeiro economista da futura era dos economistas, vantagem num país dominado pela gente das faculdades de Direito e alguns engenheiros para a tecnocracia, salvaguardou a autoridade política e moral a coberto do jargão economicista, da desregulação e privatização e de uma presumível incorruptibilidade. O problema é que, em volta do incorrupto, grassava o tráfico de influências em benefício próprio e a mais feroz das corrupções morais e criminais num clube dos próximos e dos íntimos conselheiros.

O dinheiro afluía, o Governo privatizava como queria e para quem queria. O principal conselheiro político era Manuel Dias Loureiro, que saltou de ministro para empresário e que inaugurou com pompa a era das portas giratórias da política. Saltar de um lugar no Conselho de Ministros para um lugar numa empresa com a qual se negociou, ou numa empresa paralela, camuflada ou, melhor ainda, internacional. O clube fundou um banco, o BPN, que custou aos contribuintes portugueses com memória milhões e milhões de euros. E muitos destes aventureiros acabaram sentados no banco dos réus e atrás das grades. A era da alta corrupção não foi iniciada com Sócrates. Lembremo-nos de Duarte Lima e de Oliveira e Costa, para citar apenas dois. O conselheiro de Estado Loureiro foi absolvido em tribunal, mas a reputação pública estava desfeita, e o seu avatar é Miguel Relvas, que é o exemplo da decadência intelectual do regime. Que Relvas, um epígono que se julga guardião do PSD, seja uma personagem importante em Portugal em 2019 demonstra a queda coletiva. Dias Loureiro era muito mais inteligente e estratégico. Mais perigoso, também. Relvas precisa de poder e de acesso ao poder para a vida de homem de negócios, e Rui Rio não é nem seria o seu homem no estreito poleiro.

Dos anos do cavaquismo pouca gente nova se lembra. A par do crescimento da economia, imparável numa fase de esplendor da Europa e antes dos revezes do alargamento, o país vivia num clima de (falso) puritanismo, intriga, rancor e vingança permanentes. O famoso cavaquistão só funcionava para os obedientes habitantes e os amigos e discípulos. Todos os outros foram postos de lado ou ameaçados. O PS estava mais bem protegido como grande partido, e quando Soares foi para Belém não hesitou em declarar guerra. À impunidade dos dez anos de poder governamental, que só Salazar pôde igualar e ultrapassar, mais dez anos de poder presidencial juntavam-se o autoritarismo e a mania persecutória. Até o BPN desabar e até ao escândalo das escutas e das batalhas com Sócrates e até os fundos europeus começarem a escassear, Cavaco Silva continuava a imperar. Quando saiu de Belém, substituído por um Marcelo Rebelo de Sousa que nunca foi cavaquista, Cavaco estava destituído de autoridade. E deveria ter remetido a amargura pelas perdas para livros de memórias que traçassem a história do país e não resvalassem num ajuste de contas com tudo e todos. Que continua.

A esquerda maioritária em Portugal nasce muito da sua presença dominadora e dominante e da emulação ensaiada por Passos Coelho, que não acertou o discurso. Da incapacidade de Cavaco Silva para perceber a passagem do tempo e a mudança do mundo, da dificuldade em aceitar o lugar menor que a memória coletiva lhe reservou. Percebo que António Costa o enerve. O que não percebo é que Cavaco não perceba que depois da crispação que ele fez o favor de instalar em Portugal, tingida por vezes de uma maldade política inexplicável, as figuras de Marcelo e de Costa sejam acolhidas com simpatia e confiança. Com afeto. Costa é um discípulo de Jorge Sampaio, aprendeu com ele a ter maneiras e a negociar sem intimidar. Cavaco não aprendeu nada com ninguém, porque a si mesmo se vê como o centro de um parque jurássico e disciplinador moral de um partido em vias de extinção. Um dinossauro político que secou o PSD, com o desdém da Figueira, por querer reduzi-lo à sua imagem.

Nunca, na democracia portuguesa, um ex-presidente, ex-primeiro-ministro e ex-líder, a seguir às eleições, enviou para a Lusa um comunicado a interferir nas maquinações e manobras do próprio partido, desautorizando um sucessor eleito e interferindo na conspiração. Sugerindo nomes. Esta deselegância passaria dantes por sabedoria e franqueza. Hoje não passa de má educação e ressentimento.

A esquerda agradece.

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As vicissitudes do professor Aníbal

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/10/2019)

Ainda os votos não estavam todos contados e já Aníbal Cavaco Silva escrevia à Lusa para fazer saber que o resultado do PSD “ficou muito aquém daquele que as vicissitudes que o país conheceu durante os quatro anos do governo da ‘geringonça’ justificavam para o maior partido da oposição”. Para quem não se recorda, Cavaco Silva previu, num lamentável discurso/comício que fez a partir do Palácio de Belém, uma hecatombe para o país. Afirmou que esta solução política iria perigar “a trajetória de crescimento e criação de emprego”. Que estávamos perante “uma alteração radical dos fundamentos do nosso regime democrático”. E definiu como seu dever “impedir que sejam transmitidos sinais errados às instituições financeiras, aos investidores e aos mercados”, adivinhando “uma quebra de confiança das instituições internacionais nossas credoras, dos investidores e dos mercados financeiros externos”.

Não sei se as vicissitudes a que se refere agora têm alguma coisa a ver com todas estas apocalípticas previsões que fez, no dia 22 de outubro de 2015, sobre o destino da nossa economia, do nosso emprego, da confiança externa ou dos “fundamentos do regime democrático”. Ao que parece, o balanço que os portugueses fizeram não foi mau. O conjunto dos partidos da “geringonça” reforçou o seu peso no Parlamento. Mas é evidente que Cavaco Silva tem uma explicação para isto. Não são é o desempenho do Governo. Esse, ao que parece, justificava um muitíssimo melhor resultado do PSD. Também não é a campanha ou o programa do PSD. Os resultados aconteceram “apesar da dinâmica revelada durante a campanha eleitoral e da indiscutível qualidade do programa económico proposto aos portugueses”. Resta Rui Rio. É ele o culpado.

Para quem tenha dúvidas que esse é o problema, Cavaco destaca uma militante entre os vários que “se afastaram ou foram afastados” e deviam ser recuperados. Não é, como corre nas redes sociais, nenhum dos valorosos quadros políticos que ele ofereceu à política, como Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Duarte Lima ou Isaltino de Morais. Todos eles afastados, por vontade própria ou da Justiça. Referia-se a Maria Luís Albuquerque. A mesma que, ainda como deputada, aceitou ir trabalhar para uma empresa financeira que se dedicou à recuperação de crédito malparado comprado a bancos que tinham sido intervencionados quando ela era ministra. Se há característica que podemos reconhecer em Cavaco é ser um excelente avaliador do perfil ético dos políticos que acarinha.

Todos percebemos, até porque mesmo quando é sonso Cavaco é transparente, o objetivo canhestro desta carta: juntar-se ao coro passista para apear Rui Rio da liderança do partido de que o ex-Presidente se continua a achar tutor. Não lhe passa pela cabeça que esta derrota também se explique pelas profundas marcas que o passismo deixou, de que Maria Luís Albuquerque é um dos símbolos. E Miguel Relvas, que também já saiu da toca, é outro. E não o pode compreender porque Cavaco Silva foi sempre chefe de fação. Até dentro do seu partido é isso que ele é.

Claro que Cavaco Silva tem o direito de intervir na vida do partido de que foi um dos mais destacados dirigentes. O que incomoda é nunca o fazer de forma direta, com a clareza e humildade de um militante. É sempre por meias-frases e recados. Ainda por cima sem a arte da dissimulação, apenas com a pequenez da intriga. E esse é, será eternamente, o problema de Cavaco Silva: por mais alto que tenha subido será sempre um homem pequeno.


A ingratidão da direita portuguesa

(Carlos Esperança, 15/07/2019)

Depois de uma década a ocupar o Palácio de S. Bento e mais outra o Palácio de Belém, o homem que hoje comemora oito décadas de vida é ignorado pela comunicação social.

A criança que veio ao mundo no Poço de Boliqueime, há 80 anos, passa incógnito, sem fotos dos netos nas marquises da Travessa do Possolo ou na missa de ação de graças que o devoto casal, com 56 anos de ininterrupto matrimónio, não deixaria de mandar celebrar pelo que recebeu, sem precisar de dar vivas à democracia.

Os devotos do homem que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, do salazarista de maior destaque da democracia, enviam-lhe flores na clandestinidade e desejam-lhe felicidades em privado, enquanto em público dizem o que ele disse de Ricardo Salgado, «nunca fui amigo dele».

Nem Passos Coelho e Paulo Portas cuja permanência no governo, sem apoio da AR, se esforçou por impor, nem essa dupla sombria publicitou a sua gratidão a quem tinha pela Constituição e pelos adversários o mesmo acendrado respeito que nutria por Saramago.

Há pessoas assim, capazes de serem tão dedicadas à família e aos negócios como aos correligionários e, uma vez desacreditados, são abandonados pelos que mais lhe devem.

Dos Açores não vieram sorrisos de vaquinhas que o enlevavam, ou das Ilhas Selvagens o ruído festivo das cagarras a cantarem os “Parabéns a Você”. Talvez, algures, na praia da Coelha, o genro agradecido lhe faça um discurso e os netos dirigidos pela D. Maria se esforcem a cantar-lhe os parabéns, depois de lida a mensagem vinda de Londres, do banco Goldman Sachs, onde um seu discípulo da ética, imensamente mais culto, não se esquece de quem o lançou na carreira internacional.

Hoje, talvez na Vivenda Gaivota Azul, numa pausa dos Roteiros, combata a azia com uma fatia de bolo-rei, mas há de sentir o silêncio dos cúmplices que o consideram um ativo tóxico, como uma flecha que o dilacera.

Esta direita é ingrata. Nem os dois mais importantes comentadores televisivos deram a cara numa manifestação de júbilo pelo 80.º aniversário do conselheiro de Estado mais absentista do órgão a que pertence e a que deve a imunidade vitalícia.

Por tamanha ingratidão, desejo-lhe longa vida e saúde, certo de que as suas poupanças estão resguardadas. Feliz aniversário, Professor Cavaco!