O homem e a sua circunstância

(Carlos Esperança, in Facebook, 11/10/2017)

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Um homem sem passado conhecido, exatamente por não ser conhecido, pôde chegar a primeiro-ministro de um país.

Bastou-lhe parecer sério, manifestar enfado com a política, colocar a família acima de si próprio e Deus acima de tudo. A Revolução de Abril não conseguiu mudar radicalmente o paradigma salazarista. Deus, Pátria e Família colaram-se no subconsciente coletivo e permitiram que o regime democrático, à falta do defunto, elegesse um avatar.

Ao fim de uma década o país fartou-se dele e o homem tratou da vida, mas a amnésia do povo, que esquece o passado, deu-lhe o benefício da dúvida por mais uma década.

Resistiu à intriga, que correu mal, contra o PM, às explicações exigíveis sobre negócios privados, às ligações com vizinhos de um condomínio de luxo e acabou a estrebuchar contra a formação de um governo que a AR exigia e a Constituição lhe impunha.

Este homem pôde ser tudo em democracia, sem nunca a estimar; representar o País, sem o merecer; presidir ao 10 de Junho, sem ler Os Lusíadas; ser o PR dos portugueses, sem saber o plural de cidadão; jurar respeitar e fazer respeitar a Constituição, sem a prezar; e chefiar a República, para lhe apagar a data no calendário dos feriados.

Para cúmulo do opróbrio, num intervalo da defunção política, no rescaldo das eleições autárquicas, cujos resultados o contrariaram, numa manifestação de indigência cívica e no pior e mais degradante exemplo de cidadania, declarou:

“Acontece que não votei nas autárquicas. Estava num casamento”.

O ex-PM e ex-PR e a sua inseparável prótese conjugal preferiram a boda e a missa ao cumprimento de um dever cívico e ao exemplo a que eram obrigados.

Ditosa Pátria!

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A má moeda

(In Blog O Jumento, 09/10/2017)
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Nos últimos anos, sempre que olhava para a primeira fila da bancada parlamentar do PSD vinha-me à memória a cara dos que se sentavam ao lado de Sá carneiro nos primeiros tempos do PSD e dava comigo a pensar como este partido se degradou ao longo doa anos. Cavaco herda o partido com a morte de Sá Carneiro e deixa-o sem qualquer capacidade de renovação. Se fosse possível comparar o QI dos parceiros de Sá Carneiro com a equipa de Passos Coelho o resultado seria mais ou menos se comparássemos uma turma universitária com uma do nono ano de escolaridade.
Alguém consegue imaginar um Hugo Soares a dizer baboseiras sobre roubos e furtos, como líder parlamentar do PPD sentado entre Sá Carneiro e Magalhães Mota ou Mota Pinto? Só se fosse numa sessão parlamentar dedicada às escolas das CERCI. Esta pobreza intelectual começa com Cavaco e agravou-se com Santana Lopes, o líder dos santanetes e das santanetes.
Nos dias que correm mete dó olhar para o grupo parlamentar do PSD, se compararmos aquela gente com gente como Magalhães Mota, Sousa Franco, Mota Pinto, Pacheco Pereira, Leonor Beleza e muitos outros, apercebemo-nos de como aquele partido se encontra em decadência. Basta assistir a qualquer debate parlamentar para nos apercebermos que há mais capacidade oratória e gente melhor preparada no grupo parlamentar do BE do que no do PSD.
Se em vez de assistirmos a uma sessão plenária acompanharmos algumas comissões especializadas, então os representantes do PSD chegam a ser deprimentes, como é o caso do Carlos Abreu Amorim. Compare-se por exemplo com as cabeças do PSD na economia onde só existe a Maria Luís Albuquerque, uma licenciada em economia com um curso tirado numa escola modesta. Compare-se o conhecimento e inteligência da Maria Luís com personalidades como Miguel Beleza, Miguel Cadilhe, Braga de Macedo e até mesmo com o modesto Bagão Félix.
O PSD não se consegue renovar. Está entregue ao aparelho, quando ascende ao governo aparece um ou outro jovem promissor, mas mal começam a perceber que o PSD vai deixar o poder desatam a fugir.
Antes de Cavaco Silva deixar a sua miserável marca no PSD alguém conseguiria imaginar um Santana Lopes em líder do PSD? Mas quarenta anos passados desde a fundação do PSD as três principais personalidades deste partido são Passos, Rui Rio e Santana Lopes.
Cavaco tinha razão quando recordou a Lei de Gresham que diz que “a má moeda afasta a boa moeda”. Só se esqueceu de dizer que era ele a má moeda e que depois dele os deputados e líderes do PSD não passam de trocos de má moeda.

Passos Coelho surtou? Ou está em estado de negação? Ou é assim de nascença?

(In Blog Um Jeito Manso, 17/09/2017)

Acabei de vê-lo. Estava aí numa qualquer acção de campanha e o que ele dizia, com aquele seu incomodativo sorriso amarelo, era de dar dó. O homem parece não estar bem. Não é apenas ressabiamento. É mais do que isso. É doença. Doença ou deformação severa.

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