Voando sobre um ninho de cucos – III

(Carlos Esperança, 15/10/2021)

Ao começar mais um exórdio sobre a ornitologia política a que me propus no estudo de pássaros, passarinhos e passarões da política portuguesa, deixo um pássaro lento, mais parecido com a galinha, e avanço para uma ave de grande envergadura.

Marcelo, hipercinético, de incontrolável loquacidade e ambição, anda, desde o início do segundo mandato, a tecer as malhas da ascensão da direita ao poder, sob o seu comando, ajudado pelos media e a feliz circunstância de ter sucedido a um pétreo salazarista.

As referências ao OE não são de agora, em pleno furacão das negociações que o próprio se encarrega de dificultar. Ao repetir com insistência, desde o início da legislatura, que não lhe passa pela cabeça, em cada ano, que o OE não seja aprovado, sabe bem que tece a intriga que dificulta as negociações. Não quer dramas, crises, indecisões ou guerrilhas – diz, e estimula-as. Não se cala!

O avatar civilizado, culto e inteligente do antecessor é mais sibilino na intriga e eficaz na cizânia que lança entre os partidos esquerda. Foi a fraqueza da direita que o levou a precipitar-se na perturbação do regular funcionamento das negociações interpartidárias.

A vitória de Moedas em Lisboa levou-o a verbalizar a euforia e a assumir a predileção por Paulo Rangel enquanto tenta fazer a Rui Rio o que vem fazendo a António Costa.

A peixeirada com a substituição do CEMA pelo almirante Gouveia e Melo, decisão que a imprensa garantiu estar combinada entre PR, PM, ministro da Defesa e os almirantes envolvidos, foi a versão palaciana da insidiosa intriga das escutas urdida na Casa Civil de Cavaco, agora orquestrada na Casa Militar do atual inquilino de Belém.

Convinha, por um módico de decência, que Marcelo explicasse o lacónico comunicado em que “ficaram esclarecidos os equívocos”, sabendo que o sentido de Estado do PM e do ministro da Defesa não lhes permite esclarecer o que o PR deve.

Marcelo não tropeça na gramática, come bolo-rei com elegância e beija a mão de uma senhora sem parecer antropófago, mas não basta para ser um PR probo. A impaciência para levar a direita ao poder levou-o a precipitar-se, podendo provocar as eleições que não estavam previstas na sua agenda e, num descaramento próprio de um cabo eleitoral, já veio referir que António Costa tem margem orçamental para satisfazer as exigências do PCP e BE, preparando a culpabilização antecipada do PS pela eventual rutura.

Promove o aventureirismo orçamental, alheio à incerteza sanitária, à agitação social e à subida dos combustíveis, para depois poder culpar toda a esquerda pelos erros que ele próprio estimula sem que os media o desmascarem.

Surpreende que os militantes do PS, talvez envergonhados do voto presidencial, não lhe façam notar a permanente provocação ao PM cujo sentido de Estado o impede de deixar o País à deriva.

A ameaça de que obrigará a eleições legislativas em caso de um chumbo do OE/22 faz parte do folclore e do condicionamento da opinião pública, porque a não aprovação do OE implica a demissão do Governo, sem que o PR possa fingir que depende dele.

Um político com a dimensão de António Costa não merece ser assado no lume atiçado pelo PR, e este deixou de merecer a complacência da esquerda.

Marcelo é um democrata da ala direita do PSD. Voltarei ao assunto para depenar a ave que voa demasiado alto para o que merece e a CRP lhe concede.

É urgente aparar-lhe as asas.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A indústria da calúnia depende da cultura da calúnia

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 13/10/2021)

Como não existe imprensa em Portugal, nenhum jornalista irá perguntar a Cavaco a que órgão se referia com estas palavras: “subserviência de parte da comunicação social à lógica do Governo“. Estará a pensar em rádios locais, blogues ou nalgum jornal de escola secundária? Mistério. Onde não há mistério é na reacção que o seu artigo causou. Louçã fez um exacto resumo do fenómeno:

“Ei-lo agora regressado à liça para exigir nada menos do que uma nova liderança para o seu partido (e para o país, pois só a direita merece conduzir Portugal, como nos recorda), cansado de uma “oposição política débil e sem rumo”. O problema é que ninguém gostou disto: os riistas preferem ignorar a bofetada, os rangelistas querem tudo menos evocar esse passado cavaquista que já não dá votos, no Largo do Caldas não há vagar para estas coisas, a extrema-direita tem mais que fazer com a re-re-re-reentronização do chefe, no centro ouve-se o insulto, na esquerda não é prosa popular.”

Ouçam o grito amordaçado de Cavaco Silva

Resumo exacto mas incompleto. O que lhe está a faltar de essencial é o que igualmente não se vislumbra em nenhuma outra opinião que tenha encontrado a respeito, um módico sentimento de nojo ou de alarme. Refiro-me à passagem em que Cavaco lança aquilo que só pode ser lido como calúnia tal como o Código Penal a define: “São muitos os portugueses que têm medo de criticar o Governo. Receiam ser prejudicados na sua vida pessoal, profissional ou empresarial, incluindo de familiares, medo de perderem o emprego ou de serem injustamente excluídos de oportunidades de realização pessoal ou de negócios.

Na minha ingenuidade, fico banzo com a ausência de qualquer resposta a este ataque, seja por parte dos visados ou de qualquer outra entidade ou cidadão com acesso aos meios de comunicação social que igualmente se sintam patrioticamente atingidos, dado o estatuto do acusador e a gravidade da acusação. É, literalmente, o vale tudo como norma de intervenção política. Eis-nos perante um exercício de diabolização não só do Governo mas igualmente de todos os restantes órgãos de soberania. Crimes escabrosos, próprios de uma tirania, são cometidos amiúde, às claras, e só Cavaco teve coragem para os denunciar numa folha de jornal. E ficamos calados após se lançar, com foguetes, a barbaridade na “imprensa de referência”?

Há método no delírio, contudo. A diabolização dos socialistas por Cavaco, como lembra Ascenso Simões (que espantosamente foge de afrontar a calúnia), começou no Verão de 2008 a respeito dos Açores, no que ficou como uma das mais bizarras comunicações presidenciais de que há memória; e, acrescento eu, tal estratégia de terra queimada foi sempre em crescendo, passando pelo Face Oculta (espionagem a um primeiro-ministro em funções, sem autorização legal para as escutas), pela Inventona de Belém, pelo afundanço do País na Troika, e culminando na Operação Marquês pela mão de Joana Marques Vidal. Desde há 13 anos, sem interrupção, que Cavaco e a direita, salvo raras e individuais excepções, decidiram fazer o que pudessem para criminalizar socialistas e o PS. Em Outubro de 2021, o plano cavaquista continua o mesmo, vindo de um rancor fétido que já não irá desaparecer enquanto viver, só irá piorar.

Não se poder encontrar uma singular voz com relevância política, social, cívica ou meramente mediática que afronte em nome da Cidade quem tanto lhe quer mal é uma, mais uma, siderante prova de sermos cúmplices da pulharia.


Fonte aqui


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

‘Arrepiado’ com a dupla Cavaco & Eanes

(Alfredo Barroso, in Facebook, 09/10/2021)

Cavaco “depois de mim o dilúvio” Silva, já nem se lembra da miséria causada pelo governo Passos-Portas, que apoiou.


Já se tornaram habituais os ataques brutais aos Governos do PS e aos partidos de esquerda, lançados periodicamente em algum jornal ‘de reverência’ (como, por exemplo, o ‘Expresso’ – ver aqui o último artigo de Cavaco) pelo “senhor Silva” (era como lhe chamava o ‘ogre’ da Madeira Alberto João Jardim) e que eu hoje prefiro tratar como o senhor Aníbal Cavaco “depois de mim o dilúvio” Silva. Ele e o general Ramalho Eanes estão a tornar-se duas peças do museu político nacional que, de vez em quando, sentem absoluta necessidade de sair dos seus metafóricos ‘sarcófagos’ (em que é suposto estarem ‘mumificados’) para se mostrarem ‘vivíssimos da costa’ e ‘taparem o sol com uma peneira’…

Constituem ambos – Cavaco & Eanes – uma bem conhecida parelha reacionária, sempre apostados, em vão: um deles, Ramalho Eanes, em tomar conta do PS, primeiro com ‘cavalinhos de Troia’, depois com a criação do PRD ‘que Deus tem’; o outro, Aníbal Cavaco “depois de mim o dilúvio” Silva, em destruir o PS ou, pelo menos, em reduzi-lo à ínfima espécie (com a ajuda de Eanes e do PRD). De facto, ambos são ‘retratos chapados’ ou exemplos inolvidáveis da mesquinhez e da mediocridade política que ascendeu ao poder e fez muitíssimo mal à democracia portuguesa – e quer continuar a fazer…

O certo é que todas as direitas ainda não se refizeram da clara derrota sofrida nas eleições gerais autárquicas (que o PS ganhou em votos, em Câmaras Municipais, Assembleias e Juntas de Freguesia conquistadas) e agora querem agarrar-se, como náufragos às boias, a tudo e todos quantos sirvam para dar ‘arraiais de porrada’ neste Governo e no PS.

Não foi por acaso que, de repente, os ‘doutores catástrofe’ da Ordem dos Médicos recomeçaram a atacar o SNS, clamando que os hospitais públicos estão a rebentar pelas costuras (viram a ‘mesa oblonga’ da SIC Notícias só com defensores dos hospitais privados?). Tal como não foi por acaso que Eanes & Cavaco saíram dos ‘sarcógrafos’ para darem uma ajuda muito mediática ao ‘Arraial De Porrada Em Curso’ (ADPEC) no PS.

Tal como nunca é por acaso que o comentador-mor do ‘reino’ de Portugal, mais conhecido como Marcelo PR, se põe e repõe a fazer declarações hipócritas e só pretensamente enigmáticas e subtis sobre a governação do PS e os ‘cacaus’ da ‘bazuka’, ao mesmo tempo que comenta (coisa espantosa) o que é que a direita pode fazer com este ‘punhal eleitoral’ que não chega a ser uma ‘espada’ – o Carlos ‘ir além da Troika’ Moedas – para ‘chatear’ o Costa, por exemplo, molhando-lhe os sapatos com aquilo que o dicionário da Porto Editora descreve como sendo o líquido excretado pelo aparelho urinário, constituído por água com substâncias minerais e orgânicas, entre elas importantes produtos de desassimilação, como a ureia, o ácido úrico, etc…

As direitas são assim, mas, para derrubarem o Governo, já, precisam, obviamente, que não só o BE mas também o PCP se disponham a ‘chumbar’ o Orçamento de Estado. Com o BE podem contar, com o PCP ainda não sabem…

Campo d’Ourique, 9 de Outubro de 2021


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.