Ao sabor dos casos

(António Guerreiro, in Público, 11/11/2022)

António Guerreiro

No dia em que escrevo este texto, acentua-se a incidência mediática num caso que envolve o secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro. A vida política portuguesa (mas não só: até os Alemães têm suficientes casos que os levam a dizer uma coisa que nós muitas vezes pensamos ser um hábito exclusivamente nosso: “Isto só na Alemanha”) é uma sucessão ininterrupta de casos, desde há bastante tempo. O caso, geralmente, é uma formação patológica, uma espécie de quisto que nós vemos crescer e suscita da nossa parte uma condenação, um assentimento ou um indulto. Uma fenomenologia dos casos é actualmente necessária.

À medida que eles se acumulam, a nossa impaciência aumenta. Na esfera populista, para utilizar uma palavra muito usada e sujeita a grandes flutuações, predomina a indignação, muito mais do que a impaciência, e passa-se a falar e a agir segundo a regra de que a política e os seus protagonistas são um único e triste caso. Numa esfera pública mais sóbria e indulgente, onde ainda não se mergulhou no total desencanto porque predomina um realismo cheio de prudência, os casos acabam por suscitar uma reacção paradoxal de hostilidade em relação ao sujeito do caso, acompanhada por alguma reserva face a quem levantou ou alargou a vigência do caso. Não se trata de solidariedade para com o indivíduo implicado no caso, nem de hostilidade em relação a quem o descobre e denuncia publicamente (um jornalista, geralmente, que evidentemente cria um caso porque teve a ajuda de algum informador), mas de outra coisas diferente, uma espécie de recusa não racionalizada em participar nesta política feita de casos que envenenam a esfera pública e tornam o ambiente irrespirável. Quem está cansado de casos, acaba por quase não querer que eles sejam divulgados e que tenham uma vida mediática tão poderosa. É como fugir à recepção das más notícias; ou evitar ler os e-mails porque se cansou de ter de responder.

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Quanto mais se aspira a uma esfera pública, onde a política (tal como a ciência, o saber em geral e o jornalismo) tem um lugar importantíssimo, mais se odeia os casos. Nesta perspectiva, os casos colocam-nos sob chantagem; e quem deu origem ao caso é duplamente culpado: por um qualquer acto ilícito ou ilegítimo que cometeu e por desviar a política do curso que ela devia seguir no espaço público. É como um incendiário que, para além dos danos directos, é responsável por muitos danos indirectos.

Em tempos já recuados, fez escola uma oposição entre a política e o político. A política era aquilo a que chamamos também “vida política”, com todas as suas contingências; era a dimensão mais pragmática da acção política, na sua dimensão gestionária. O político, pelo contrário, era a dimensão de pensamento, de teoria e de linguagem da política tal como ela se manifestava em acto. Esta diferença quase desapareceu no nosso tempo, em que a política pode desdenhar do político ou ignorá-lo com sobranceria. Em boa verdade, o político até lhe forneceu boas razões para isso, ao querer submete a política ao reino das ideias, ou, o que é pior, de uma ideia (a ideologia, vista no seu aspecto negativo, não é mais nada senão isto).

Mas voltemos aos casos, que são quase sempre casos de Justiça. O que espanta é que sejam tantos, que haja tantos cruzamentos ilícitos ou moralmente inaceitáveis. Às vezes, até parece que há a política e a sua sombra, sempre a acompanhá-la; até parece que quem chega aos lugares de poder na coisa pública e à governação nunca está isento de eventuais incriminações ou recriminações; até parece que há uma qualquer cumplicidade ou mesmo consubstancialidade entre os vícios privados e a vocação política.

De um modo geral, os casos, olhados objectivamente, não são o que de mais grave acontece. Mas nem por isso devem ser subestimados ou ocultados. Por isso é que a transparência é hoje objecto de uma forte reivindicação, muito embora possamos apontar grandes aspectos negativos à transparência: desde logo porque se tornou um mito: e porque uma sociedade transparente é um pesadelo, é o triunfo da vigilância.

Seja como for, os casos são um factor de perturbação na vida política e nada é mais frustrante do que a chamada “política dos casos”. E são tantos que ficamos sem saber se isso é prova de que toda a gente que chega um cargo público é examinada de maneira implacável ou o que surge a descoberto é proporcional ao que se esconde.



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Face escondida de Zelensky. Contas em paraísos fiscais e relações perigosas

(In AbrilAbril, 08/08/2022)

Zelensky é acusado de ter passado contas offshore para o nome da mulher. 

O romance de amor entre a comunicação social Ocidental e o presidente da Ucrânia parece ter tido melhores dias. Os órgãos de comunicação social Welt, na Alemanha, e Exxpress, na Áustria, dão grande destaque à publicação de um livro sobre o chefe do regime de Kiev que saiu no passado fim-de-semana, de autoria dos jornalistas de investigação Steven Derix e Marina Shelkunova: Zelensky, uma Biografia Actual...


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As intermitências do progresso ou governo Bolsonaro vende o Brasil

(Pedro Augusto Pinho, in port.Pravda.ru, 04/07/2022)

Em amplo salão climatizado, luxuoso, três pessoas estão reunidas. Confortavelmente sentadas em acolhedoras poltronas, servidas por quinze empregados, BlackRock, Vanguard e Street State discutem a situação mundial. Juntas elas representam muito mais do que o maior produto nacional bruto de qualquer país do planeta. Porém não são pessoas conhecidas; transitam pelas ruas, não como qualquer mortal, pois tem seguranças e serviçais sempre a acompanhá-las, mas incógnitas. Pessoa alguma sabe que ali estão os que mais roubam, corrompem e matam no mundo: são os principais mentores do Clube Bilderberg, comandam a rede de 85 paraísos fiscais espalhados por toda Terra, por onde transitam diariamente muitos trilhões de dólares estadunidenses, declaram guerras e decidem sobre a existência da vida humana. Se os olhássemos como os gregos antigos, diríamos que Bilderberg é o Olimpo e estes são os deuses. Mas deuses da pós-modernidade, não lançam raios fulminantes sobre os mortais, lançam dinheiro para corrompê-los, vírus para destruí-los, notícias para confundi-los. 

Vanguard: O rombo já está insustentável. Até aquele grupelho do Instituto Schiller divulgou ser de dois quatrilhões de dólares. Precisamos tomar decisão urgente. Desta vez a crise pode nos prejudicar. 

BlackRock: Não fique assustado. Será mais uma daquelas em que limpamos os cofres públicos, como a de 2008. 

State Street: Mas, desta vez, eles já estão mais vazios e o montante é ainda maior. Penso como Vanguard, que precisamos agir com mais rigor e mais rápido. 

BlackRock: E o que vocês propõem? 

Alguns minutos de silêncio. Vanguard pede uma bebida ao serviçal mais próximo. Nenhum quer se arriscar a propor algo impossível. O covid não foi tão mortal quanto parecia, embora tenha rendido bom dinheiro para as farmacêuticas e os sistemas de saúde que eles controlam. Precisam ser criativos. Passam-se longos segundos. 

State Street: Vamos comprar um país rico. 

Entreolham-se. 

BlackRock: Os Estados Unidos já são nossos … E estão falidos … 

State Street: Tem que ser um país rico, mas com elite sem interesse nacional, que controle um governo imbecil, que use o comunismo como ameaça. 

Risos discretos, pois estão preocupados com a proposta de State Street. 

Vanguard: Explique melhor. O que tem em mente, State Street? 

State Street: Estou pensando no Brasil. Tem a Amazônia, uma terra de ninguém, dominada por marginais, que não exploram racionalmente as riquezas minerais e o potencial biológico e vegetal. Tem amplas reservas de água doce, que eles não sabem usar para ganhar dinheiro. E ainda mais: tem enorme reserva de energia fóssil e hídrica, que faria qualquer país ser o mais rico do mundo, mas suas elites são tacanhas e baratas, até hoje não enxergaram esta fabulosa riqueza e ficam mendigando trocados. O único governo que procurou modificar esta situação, eles levaram ao suicídio e ainda passaram cinquenta anos tentando revogar suas decisões nacionalistas e trabalhistas. 

BlackRock: Bem pensado, State Street. Detalhe um pouco mais esta sua ideia. 

State Street bebe um gole do champagne, organiza mentalmente suas ideias e começa a expor, como um general, seu plano de conquista do território inimigo. 

State Street: O Brasil é imenso, todo ele é ocupável, não tem desertos, geleiras, o clima é propício à vida animal e vegetal. E, o que é mais importante, tem uma elite que toma conta deste país deste o tempo da colonização portuguesa, que nunca se interessou por ele. Ao contrário, sempre agiram como estrangeiros de passagem: tirar o máximo, no mais curto tempo, e ir gastar no exterior. Nos séculos anteriores ao XX eram Portugal, França, Inglaterra, depois passaram para os Estados Unidos que, ainda hoje, é onde compram seus imóveis … (discreto sorriso de troça, acompanhado pelos demais). 

Vanguard: Tudo bem. Mas como operacionalizar a compra? Aliás, o que exatamente iremos comprar e quanto você avalia o preço? 

State Street: Nada diferente do que fazemos. Primeiro dominar as mídias, as escolas, a classe militar, judiciária e os políticos. Assim estaremos neutralizando eventual oposição. Todos são muito baratos. Uma garrafa de uísque sem data de envelhecimento compra deputado ou general.

(O assunto é sério. Ninguém ri. State Street continua.) Depois colocamos à venda o que de mais valioso eles têm: energia e minérios. Há poucos minerais ainda disponíveis; a grande maioria já é nossa, mas precisamos organizar melhor a extração na área amazônica porque há muitos marginais, contrabandistas, aventureiros se metendo. Há total falta de Estado naquela região. Precisamos ter milícia nossa, o que o domínio do Estado facilitará. 

BlackRock e Vanguard concordam com o mexer de cabeça. 

State Street (prosseguindo): A cereja do bolo é a Petrobrás. É difícil, mas não impossível. Contamos com a mente corrupta e a ignorância das elites, civis, militares e eclesiásticas, embora a igreja católica pouco valha no Brasil de hoje. Os neopentecostais, a igreja do cofrinho, têm dominado amplamente a população, e seus bispos e pastores trabalham a nosso favor e ainda colocam seu dinheiro em nossos fundos (gostosa gargalhada toma a sala). 

Todos os dirigentes da cadeia hierárquica que vai do Presidente aos diretores da Petrobrás já estão comprados; nenhum Ministro ou Chefe de autarquia ou departamento irá interferir. Só as reservas de petróleo existentes no pré-sal, a 100 dólares o barril, nos rendem dez trilhões, que sabemos muito bem o que fazer com eles. E ainda teríamos o consumo dos derivados, dirigindo todas as refinarias e redes de distribuição, através de nossas controladas.

Com a recessão destes últimos anos, o consumo brasileiro ainda está em 2,5 bilhões de barris/dia, aproximadamente, ou seja, quase 400 bilhões de litros de combustíveis, que o coloca entre os dez maiores consumidores de petróleo do mundo. Certamente não é tudo, mas poderemos respirar mais aliviados diante da divulgação, que já está sendo feita, dessa nossa imensa dívida, dessa quantidade de emissões de títulos sem lastro caucionando, dando garantia e afiançando os fundos de investimentos que vendemos por todo mundo. Portanto, caros colegas, tratemos de comprar o resto do Brasil. 

Com a frieza que lhes caracteriza, BlackRock e Vanguard aceitam a proposta de State Street.  

Sugere-se o fundo musical de “Meu Caro Amigo”, de Chico Buarque e, no Intervalo, deve ser colocada a placa com seguintes dizeres: 

“FOLHA DE S.PAULO – 29/06/2022 – GOVERNO AVALIA MECANISMO PARA OBRIGAR A PETROBRÁS A VENDER ATIVOS, INCLUINDO REFINARIAS”. 

Autor – Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado. 


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