A liturgia da obediência

(João Ferreira, in Facebook, 07/05/2026, Revisão da Estátua)

Ao centro o Presidente do Parlamento da Ucrânia recebido na Assembleia da República. O currículo antidemocrático – mesmo fascizante – do cavalheiro pode ser consultado aqui.

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Há momentos em que o silêncio pesa menos do que o aplauso. E o que se viu na Assembleia da República foi precisamente isso: o peso insuportável da submissão travestida de virtude.

O presidente do parlamento ucraniano foi recebido de pé, ovacionado como herói, símbolo de uma causa que nos é vendida como sagrada, intocável, moralmente pura. E eu pergunto: herói de quê? De que memória? De que verdade?

Perdoem-me, mas eu não aplaudo. Eu sinto vergonha. Vergonha de ver quase todo o espectro político português alinhado numa coreografia servil, incapaz de questionar, incapaz de pensar para além do guião imposto por Bruxelas, Washington e pela máquina mediática ocidental.

E ironicamente, no meio desta cegueira coletiva, foi o Partido Comunista Português — partido cuja visão ideológica rejeito frontalmente — o único a manter-se sentado. O único a recusar participar nesta liturgia da propaganda. E isso diz muito. Diz demasiado. Quando um partido que sempre combati politicamente demonstra mais independência de pensamento do que quase toda a restante classe política, algo está profundamente errado.

Vivemos numa época em que a ignorância já não é acidente: é método. Repetir slogans substituiu pensar. E qualquer tentativa de contextualizar o conflito ucraniano é imediatamente catalogada como traição, heresia ou cumplicidade. Fala-se de democracia, mas cala-se a complexidade. Fala-se de liberdade, mas censura-se o contraditório. Fala-se de paz, enquanto se financia guerra.

E o mais grotesco é assistir a tantos, embriagados por propaganda, a chamar “comunista” à Rússia atual, revelando um analfabetismo político quase ofensivo. Confundem categorias. Confundem história. Confundem realidade. Porque foram treinados para reagir, não para compreender.

A propaganda moderna não inventa necessariamente mentiras. Seleciona verdades. Mutila contextos. Fabrica moralidade conveniente. É uma técnica antiga, apenas equipada com ferramentas novas.

E enquanto esta encenação se desenrola, Portugal afunda-se. Salários indignos. Habitação impossível. Serviço Nacional de Saúde em rutura. Jovens a emigrar. Reformados a sobreviver. Mas há sempre dinheiro para guerras externas. Há sempre urgência para conflitos alheios. Há sempre entusiasmo para causas importadas. E para os portugueses? Sacrifício. Resignação. Silêncio.

Chamam solidariedade ao envio de milhares de milhões para alimentar um conflito sem fim, mas esquecem-se da solidariedade básica para com o próprio povo.

Aplaudem longe. Ignoram perto. Aplaudem símbolos. Abandonam pessoas. Perdoem-me, mas eu não consigo alinhar nesta encenação coletiva. Não aplaudo porque pensar ainda não é crime. Não aplaudo porque a consciência pesa mais do que a conveniência. Não aplaudo porque a dignidade começa precisamente onde termina a obediência cega.

E hoje, olhando para aquele hemiciclo de pé, não vi coragem. Vi conformismo. E isso envergonha-me. Mas esta crise não é apenas moral. É também política.

E é precisamente aqui que se revela outra tragédia nacional: Portugal não tem uma força política equivalente ao Vox, não tem uma figura como Matteo Salvini, não tem uma força como a Alternative für Deutschland, nem sequer uma tradição de pensamento estratégico e soberano como a de Charles de Gaulle. Não existe em Portugal uma direita conservadora sólida. Intelectualmente preparada. Culturalmente consciente. Geopoliticamente lúcida.

Existe apenas um agrupamento político em torno de um líder, tratado por muitos como a grande esperança nacional, mas que, olhando friamente, continua mais próximo de um movimento de contestação do que de um verdadeiro partido. Porque um partido exige doutrina. Exige estrutura. Exige coerência.

E o que ali vejo é uma contradição permanente: à direita nos costumes, à esquerda na economia. Uma fórmula politicamente explosiva. Intelectualmente inconsistente. Na prática, estatismo económico revestido de retórica identitária. E isso não é uma direita estruturada. É improviso político.

Na geopolítica, a confusão é ainda mais evidente. Prefere-se ouvir ativistas e comentadores como Irineu Teixeira, alinhados com narrativas emocionais, em detrimento de análises estratégicas e militares de homens como Agostinho Costa, cuja leitura do conflito — concorde-se ou não — revelou, ao longo destes últimos anos, uma consistência que muitos dos seus opositores nunca conseguiram acompanhar. E isso é revelador. Porque uma direita séria escolhe a análise sobre a agitação. Escolhe a estratégia sobre a histeria. Escolhe a realidade sobre a propaganda.

Quanto ao líder desse agrupamento, reconheço-lhe uma utilidade política inegável. Na oposição, muitas vezes acerta no diagnóstico. Em muito do que denuncia, concordo. Mas a política mede-se no poder, não no protesto. E é precisamente aí que nasce a minha desconfiança.

Porque demasiadas vezes vi, dentro desse mesmo espaço político, a distância brutal entre o discurso e a prática. E quem conhece por dentro aprende depressa uma verdade simples: há quem combata o sistema apenas até ter oportunidade de o administrar.

Portugal não precisa de salvadores. Precisa de uma direita consciente. Séria. Coerente. Estruturada. E isso continua, infelizmente, por nascer.

E há algo que é preciso ser dito com clareza: não culpem a direita pela queda da Europa. A direita soberanista e conservadora não governa a Europa. Não controla a União Europeia. Não define o rumo da Comissão Europeia. Não molda o pensamento dominante em Bruxelas.

A responsabilidade pelo estado atual da Europa pertence a quem a governa há décadas. Aos arquitetos deste modelo. Aos sacerdotes deste dogma. Aos administradores deste declínio.

E o mais trágico é que muitos ainda não perceberam que a Europa — leia-se, a União Europeia — entrou numa trajetória de isolamento estratégico, declínio económico e irrelevância geopolítica. Como no Titanic: continuam a tocar música e a dançar, mesmo com a água já pelos pés.

E esse paralelismo é brutalmente exato. Porque, no início deste século, muitos acreditaram que o mundo caminhava para a consolidação definitiva de uma ordem unipolar, assente na hegemonia absoluta dos Estados Unidos e na expansão do seu modelo político, económico e militar. Parecia o encerramento da História. Um centro de poder. Uma narrativa dominante. Um modelo universal imposto como inevitável.

Mas a História raramente respeita guiões. A Rússia travou esse avanço estratégico. A China venceu no campo onde verdadeiramente se decide o poder duradouro: economia, indústria, tecnologia e planeamento estratégico. A Índia emergiu como potência civilizacional e económica. E o chamado Sul Global despertou para uma realidade simples: o mundo não precisa de um único centro de gravidade. Hoje estamos a viver as dores de parto dessa transformação histórica. A passagem de um mundo unipolar para um mundo multipolar. O fim progressivo da hegemonia absoluta norte-americana.

E é precisamente aqui que a União Europeia revela toda a sua fragilidade estratégica. Sem autonomia política real. Sem independência energética. Sem soberania militar efetiva. Sem visão própria. Bruxelas continua presa a uma lógica atlântica que já não corresponde à realidade emergente do século XXI. Aposta num paradigma em desgaste, enquanto o centro de gravidade mundial se desloca para Oriente e para Sul.

Enquanto insistimos em discursos moralistas, superioridade civilizacional e arrogância burocrática, outros avançam. A China avança. A Rússia reorganiza-se. A Índia afirma-se.

E a Europa? Debate regulamentos. Produz burocracia. Consome propaganda. E continua a olhar para o mundo com a arrogância colonial expressa por Josep Borrell, quando afirmou que “A Europa é um jardim e o resto do mundo é selva”.

Essa frase não foi apenas infeliz. Foi reveladora. Reveladora de uma mentalidade que ainda não percebeu que o mundo mudou. Mudou o eixo do poder. Mudou a economia. Mudou a ordem internacional.

E quem paga esse erro? Os povos europeus. Com inflação. Com energia cara. Com perda industrial. Com estagnação económica. Com perda de competitividade.

E, no entanto, grande parte dos media prefere maquilhar as consequências, anestesiar a opinião pública e proteger a narrativa dominante. Porque admitir o erro seria reconhecer que a Europa entrou numa guerra económica, estratégica e civilizacional para a qual não estava preparada. E pior: devido a escolhas que nem sequer servem necessariamente os interesses dos povos europeus.

Este sonambulismo estratégico, esta cegueira voluntária, esta embriaguez ideológica da Europa, vai sair-nos cara. Muito caro. Porque a História não espera por civilizações adormecidas. E quem insiste em dormir enquanto o mundo muda, acaba inevitavelmente por acordar derrotado.

Fonte aqui.

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