Atentado contra Trump: discurso, evento e produção de sentido na política contemporânea

(Verbena Córdula, in Diálogos do Sul, 28/04/2026)

Registro de Trump instantes após suposto atentado em 13 de julho de 2024, durante a campanha presidencial nos EUA.

A narrativa de Trump como alvo pode gerar um efeito paradoxal: aquilo que (em tese) deveria enfraquecer sua imagem de líder, pode ser reinterpretado como prova de sua centralidade no cenário político.


Como interpretar, de forma minimamente rigorosa, o impacto político de uma tentativa de magnicídio contra Donald Trump? Isso altera sua posição simbólica no campo político, ou somente se trata de mais um episódio rapidamente incorporado a uma narrativa já existente de adversidade e centralidade? A resposta não é imediata (e justamente por isso exige cautela analítica). Em termos estritamente empíricos, eventos dessa natureza podem produzir efeitos distintos, dependendo do contexto político, da cobertura midiática e da recepção pública. Não há, portanto, garantia de que uma tentativa de assassinato produza, automaticamente, fortalecimento simbólico.

Para tentarmos responder, levantarei uma de tantas hipóteses possíveis, qual seja, a de que certos enquadramentos discursivos tendem a reorganizar esse tipo de evento em chave de excepcionalidade. Nesse caso, a violência não aparece somente como ameaça, mas, sobretudo, como evidência de relevância política. Me explico. O líder (Trump) seria alvo justamente porque ocupa uma posição central no imaginário conflitivo.

Reforço a apelos já existentes

O ponto decisivo aqui é que a condição de “ser alvo” pode ser reconfigurada simbolicamente como prova de que o agente político ocupa uma posição de destaque no interior de um campo altamente tensionado. Assim, a tentativa de magnicídio contra Donald Trump não seria unicamente um ato de violência política, mas também um elemento passível de ser reinterpretado como confirmação de sua visibilidade e importância dentro do imaginário coletivo. Nesse enquadramento, o raciocínio tende a se estruturar de forma quase circular, ou seja, de que ele é alvo porque é relevante, e que sua relevância é reforçada justamente pelo fato de ser alvo.

A violência, em certos enquadramentos, não é interpretada como ruptura do sentido político, mas como elemento que contribui para produzi-lo. Em vez de desorganizar a leitura dos acontecimentos, ela é incorporada como confirmação de categorias já estabelecidas, como “ameaça”, “perseguição” ou “confronto”. Essa hipótese é, a meu ver,  analiticamente relevante porque evidencia um mecanismo recorrente em contextos políticos — a transformação de acontecimentos críticos em elementos de confirmação discursiva. Assim, a violência deixa de ser apenas um problema institucional e passa a integrar um repertório simbólico no qual a figura de Donald Trump é continuamente reconstruída como central (e politicamente) significativa.

Me explico melhor. A violência deixa de ser compreendida exclusivamente como um problema de segurança pública ou de estabilidade institucional. O acontecimento, portanto, não esgota seu sentido no fato bruto, mas se prolonga na sua circulação discursiva. Nesse processo, a violência passa a funcionar como um elemento maleável, suscetível a diferentes interpretações — pode ser lida como falha institucional, como sintoma de polarização ou, em certos contextos, como evidência de centralidade política do alvo. O ponto decisivo não está, apenas, no que aconteceu, mas no modo como o acontecimento é transformado em discurso e, posteriormente, estabilizado em interpretações mais ou menos consolidadas.

Ao ser reiteradamente mencionado, reinterpretado e associado a elementos já conhecidos (como no caso do atentado que Donald Trump sofreu durante a campanha eleitoral), o evento vai perdendo sua condição de ruptura isolada e passa a funcionar como parte de uma sequência inteligível. A violência, nesse sentido, não interrompe, necessariamente, a ordem simbólica. Em vez de desorganizar o sentido, ela acaba ajudando a reorganizá-lo, porque passa a reforçar apelos já existentes, tais como “ameaça”, “conflito” ou “perseguição”.

A partir de tal lógica, é possível hipotetizar que esse processo pode produzir efeitos políticos relevantes para o próprio governante envolvido. Ao ser incorporado a uma narrativa de adversidade contínua, Trump deixa de ser percebido como um ator político normal, e passa a ocupar uma posição simbólica de centralidade no interior do conflito. Isso não significa, necessariamente, um aumento automático de apoio, mas sim uma reorganização do modo como sua figura é interpretada publicamente.

O fato de Trump ser alvo tende a ser lido como indicador de importância, e não de vulnerabilidade. Desse modo, a narrativa pode produzir um efeito paradoxal — aquilo que (em tese) deveria enfraquecer sua imagem de líder, pode ser reinterpretado como prova de sua centralidade no cenário político. Esse deslocamento interpretativo ocorre porque a exposição ao risco é frequentemente convertida em sinal de relevância política, sobretudo em contextos de alta polarização. Assim, a vulnerabilidade imediata do mandatário é reinterpretada como evidência de sua posição central nas disputas simbólicas em curso. No limite, o evento deixa de ser exclusivamente uma ameaça pessoal e passa a funcionar como confirmação de sua visibilidade e impacto no cenário político.

Dimensões simbólicas ligadas à sobrevivência

Esse tipo de circulação discursiva tende a deslocar o foco do debate público. Em vez de avaliações centradas exclusivamente em desempenho governamental, em políticas públicas ou em resultados institucionais, a atenção pode ser reorientada para temas como segurança, enfrentamento e resistência. Em termos hipotéticos, esse deslocamento pode ser politicamente vantajoso, especialmente em contextos de baixa popularidade. Quando índices de aprovação são reduzidos (como é o caso), a ênfase em performance administrativa tende a ser um ponto de vulnerabilidade. De acordo com levantamento do jornal The New York Times, 58% dos estadunidenses reprovam o desempenho de Donald Trump, o maior percentual de reprovação desde o fim do primeiro mandato.

Por isso, a reconfiguração do debate em torno de questões de ameaça e de sobrevivência política pode reduzir o peso relativo dessas avaliações negativas. Assim, ao invés de o debate público permanecer concentrado em críticas à gestão, a agenda pode ser reorganizada em torno de uma lógica de crise e de confronto. Isso permite que atributos como força, resiliência e capacidade de enfrentamento ganhem maior destaque na avaliação do presidente. Em outras palavras, o eixo de julgamento se desloca de “eficácia governamental” para “capacidade de lidar com ameaças”.

Esse tipo de deslocamento — do julgamento baseado em desempenho governamental para um julgamento baseado em “capacidade de enfrentar ameaças” — já foi observado em diferentes contextos históricos, e costuma ser descrito na literatura de Ciência Política como “efeito de coesão em torno da bandeira”. Em termos gerais, esse efeito ocorre quando crises de segurança (guerras ou atentados) produzem uma tendência temporária de aumento de apoio ao governo, independentemente de avaliações anteriores sobre sua gestão. O mecanismo central não é uma mudança estrutural de opinião, mas uma reorganização, ainda que momentânea, das prioridades do debate público.

Exemplo frequentemente citado é o período imediatamente posterior aos atentados de 11 de setembro de 2001, quando o então presidente dos Estados Unidos, George Walker Bush (Bush filho), experimentou um aumento significativo de aprovação. Naquele contexto, a agenda pública foi fortemente deslocada para temas de segurança nacional, e resposta ao terrorismo. Isso ampliou o espaço político para ações militares subsequentes, incluindo a invasão do Afeganistão e, mais tarde, a guerra no Iraque. Em ambos os casos, a linguagem de “ameaça” desempenhou papel central na reorganização do debate.

Um exemplo especialmente emblemático é o do general francês Charles de Gaulle. Durante a Segunda Guerra Mundial, após a derrota militar da França em 1940 e a instauração do regime de Vichy (governo colaboracionista que administrou a França sob ocupação nazista), o general De Gaulle não ocupava uma posição formal de poder dentro do Estado francês. Sua legitimidade se dá a partir de um ato político excepcional, em junho de 1940, mais precisamente no dia 8 — transmitido de Londres —, conclamando a continuidade da resistência francesa contra a ocupação nazista. Aquele foi o gesto que marca uma ruptura. De Gaulle passa a representar, antes de tudo, a ideia de uma “França que não se rende”, mesmo quando o Estado oficial francês havia capitulado. Sua autoridade política nasceu ali, de uma construção simbólica.

Após a libertação da França, essa dimensão simbólica tem efeitos diretos sobre sua reintegração política. De Gaulle retorna ao centro do processo político francês como figura que já havia sido previamente investida de legitimidade pela experiência da guerra. Sua liderança no pós-guerra — especialmente na reorganização do Estado francês e, posteriormente, na fundação da Quinta República — é fortemente influenciada por essa autoridade simbólica acumulada durante o conflito.

Disputa interpretativa

Como vemos, os exemplos citados ilustram como, em contextos de crise existencial, a avaliação de líderes pode ser profundamente reorganizada. A legitimidade poderá deixar de depender, exclusivamente, de critérios administrativos ou procedimentais, e passar a incorporar dimensões simbólicas ligadas à sobrevivência coletiva, à resistência e à capacidade de representar a continuidade da comunidade política em momentos de ruptura histórica.

A partir daqui, a pergunta que não quer calar é: seria possível observar dinâmica semelhante no caso de Donald Trump? (Ele já foi exposto a um atentado na campanha eleitoral e outro em pleno exercício da Presidência).

A resposta, em termos analíticos rigorosos, não é simples — e justamente por isso a comparação exige cautela. Diferentemente dos casos clássicos de guerra total ou de ocupação territorial, o cenário político contemporâneo estadunidense não se estrutura em torno de uma ameaça externa unificada e, consensualmente, reconhecida como existencial. Isso já altera (profundamente) o tipo de “reorganização de legitimidade” que poderia ocorrer. Ademais, mesmo eventos de alta carga simbólica não produzem efeitos automáticos, ou mesmo homogêneos. Eles são disputados, simultaneamente, em múltiplos circuitos de interpretação (mídia institucional, partidos, redes sociais e instituições). Por isso, o mesmo acontecimento pode ser enquadrado como prova de perseguição política, como falha de segurança estatal ou como sintoma de radicalização interna — dependendo do público e do ator discursivo envolvido.

Outro elemento importante é que, no caso de democracias burguesas altamente polarizadas (como é o caso dos Estados Unidos na atualidade), a lógica de “reorganização simbólica em torno do líder” não funciona de forma unificada. Em vez disso, ela tende a se fragmentar. Parte do eleitorado pode interpretar episódios de violência como reforço da centralidade do líder, enquanto outra parte pode vê-los como sinal de instabilidade ou risco institucional. Ou seja, não há convergência interpretativa, o que limita efeitos semelhantes aos observados em contextos de guerra total.

Há, ainda, um fator estrutural relevante. A avaliação de líderes como Trump permanece fortemente ancorada em critérios domésticos contínuos — economia, imigração, decisões judiciais, desempenho administrativo e disputas institucionais. Isso reduz o espaço para que eventos episódicos sejam convertidos em reconfigurações duradouras de legitimidade, como ocorre em contextos de exceção prolongada. Logo, embora seja possível levantar a hipótese de que episódios de violência política possam deslocar temporariamente o foco do debate público — ativando, em certos segmentos, narrativas de enfrentamento e centralidade —, é metodologicamente mais difícil sustentar que isso produza uma reordenação ampla e estável da legitimidade política nos moldes históricos clássicos.

Por isso, a pergunta se “será assim com Trump” não admite resposta única. O que podemos observar é uma arena de disputa interpretativa em que eventos críticos podem ser incorporados a narrativas concorrentes, sem que nenhuma delas se imponha, de forma totalizante. Isso torna o efeito final necessariamente instável, condicionado ao contexto e à disputa discursiva em curso. Veremos.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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Montenegro e a cordilheira – ou a ascensão do lúmpen

(Fernando Campos, in blog O Sítio dos Desenhos, 08/10/2024)

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Todo o homem tem uma porção de inépcia que há de sair em prosa ou verso, em palavras ou obras, como o carnejão de um furúnculo. Quer queira quer não, um dia a válvula salta e o pus repuxa.

Camilo Castelo Branco


Cavaco Silva é o caso exemplar de que em Portugal é perfeitamente possível desempenhar os mais altos cargos remunerados – na academia, na política e na finança – enfim, ter sucesso, sendo-se estruturalmente analfabeto – isto é, desconhecendo, de todo ou em partes grandes, a mais elementar forma de se exprimir publicamente dentro das normas convencionadas da sua própria língua materna. 

Cavaco diz “não façarei”. Na caváquia (a pátria do Cavaco) todos fazem como ele.Marques Mendes, seu ex-ministro e candidato auto-proclamado a presidente da república, um hominídeo católico com mais de sessenta anos, manifestou-se esfuziantemente orgulhoso de si mesmo por ter descoberto recentemente uma palavra portuguesa de que ele nunca tinha ouvido falar: “genuflexório”. Nuno Melo, o ministro da defesa, fala como quem sabe do “tratado do atlético-norte”. Bugalho, o jovem serafim candidato da AD ao Parlamento Europeu, foi para Bruxelas cantando e rindo, muito ufano das “sete quinas da nossa bandeira”. A ministra do Interior confunde “urologia” com “orografia”. Estas coisas não se inventam.

Luis Montenegro, por exemplo, fez a instrução primária, a preparatória, o secundário inteirinho, licenciou-se em Direito na Universidade Católica (e pós-graduou-se em Direito da Proteção – assim mesmo, em acordês – de dados pessoais, na mesma universidade), exerceu advocacia, casou com uma senhora, foi pai de dois meninos, entrou para a maçonaria, ou talvez não, presidiu à assembleia geral de duas das maiores empresas portuguesas, entrou na política, foi deputado municipal, vereador, deputado à assembleia da República, líder da sua bancada e agora é primeiro-ministro – sempre a dizer “será-lhe”. 

Em 2012 debrucei-me pela primeira vez sobre este vulto da Caváquia. Foi quando ele era o líder parlamentar do PSD e referiu, a propósito de qualquer coisa, que a redução dessa coisa no orçamento não seria uma “Min-nun-dência”(!!!) no que concerne à redução do défice. 

O que então me pôs a pensar não foi a substância de tão pertinente convicção mas sim a ênfase substantiva, o à-vontade sorridente e orgulhoso-de-si-mesmo, o ar inflamado e descomplexado, do tribuno. Na época concluí que a literacia, ou melhor, a falta dela em Portugal não era apenas uma min-nun-dência, mas um verdadeiro Monte Negro. E deduzi que, com os outros deputados do seu grupo parlamentar, ele conformaria uma autêntica, incontornável, cordilheira.

Mas receio que agora seja bem maior – e pior – pois se, além destes, somarmos o remanescente dos cristãos-velhos do CDS; uma terça parte da bancada cor-de-rosa, a do sucialismo empresarial; mais o Branca-de-Neve e os quarenta e nove rolões pretos do integralismo chegano e aindaos quéques azul-bébé do liberalismo luzitano – será fácil de verificar que todos juntos, todos muito ardentemente sionistas-novos, conformam um acidente sociológico de uma densidade tão impenetrável a qualquer conceito de justiça elementar como inacessível a qualquer ideia generosa ou noção de bom-senso e de decência.

Não creio, como sugere a imprensa dominante, que isto configure qualquer emergência súbita de um certo povo-baixo, mas sim a ascensão lenta do lúmpen; de um lúmpen velhaco e vingativo, dotado daquele género de sensibilidadesinha medíocre que exulta, alarve, com a assunção da sua própria desfaçatez e se compraz, condescendente e cúmplice, com a expressão pública da ignorância rasa e da grosseria refinada na mais espessa estupidez.

Tudo isto no ano em que, paralelamente, o país oficial comemora impávido e mui solene os cinquenta anos do Vinte e Cinco d’Abril. Um fenómeno bizarro, de padrão talvez esquizotípico, bastante complexo. Fiz um desenho, como sempre sucinto e simplificado, para o tentar entender. O futuro decerto explicará-lho.

Fonte aqui

A política do choque

(António Guerreiro, in Público, 23/08/2019)

António Guerreiro

A mais pura lógica do clash governou o discurso de todas as partes envolvidas na greve dos motoristas de matérias perigosas. O choque, a virulência e a rivalidade são normais nestas circunstâncias, mas o que é novo é o facto de todos terem abdicado dos instrumentos narrativos, daquilo que a palavra inglesa storytelling designa no campo da publicidade e da comunicação, enquanto utensílio retórico eficaz e pedagógico para nos dar, através de uma “história”, uma razão necessária a que podemos ou não aderir. Essa história pode muito bem pedir emprestado à ficção o seu esquema narrativo.

Ora, neste caso, parece que ninguém estava interessado em contar-nos a “história”, em analisá-la nas suas sequências, em expor de modo narrativo tudo o que conduzia àquele desfecho. Por isso, muita informação estava omitida, tornando difícil compreender a posição de ambas as partes. Prescindindo dessa ferramenta discursiva que é o storytelling, o sindicato dos motoristas pôs em acção um mestre do clash, um advogado treinado na estratégia do choque. E o governo e os patrões, coligados numa santa aliança, responderam da mesma maneira.

Talvez esta lógica do choque, do imprevisível e da ruptura possa ser hoje generalizada ao regime dos discurso políticos dominantes. É o que defende num livro recente, intitulado precisamente L’ ère du clash (Fayard, 2019), o escritor francês Christian Salmon, que em 2007 tinha publicado Storytelling: la machine à fabriquer des histoires et à formater les esprits. O que ele nos vem dizer agora, com muita verosimilhança e baseado em exemplos eloquentes, é que a chave da comunicação e da retórica políticas já não está na articulação das stories, na arte de as contar, mas nas frases curtas e violentas, ou em palavras que nem chegam a formar frases, e que são como projécteis, lançados contra os adversários ou inimigos. Christian Salmon mostra que a lógica do clash transposta para a política actualiza as técnicas de guerra e coloca-se ao serviço de uma agonística fundada na ruptura e na provocação. Entre nós, podemos verificar que este regime discursivo triunfou em toda a linha na vida política (devemos fazer uma ressalva: o Partido Comunista continua a acreditar no poder das stories e faz delas um uso retórico sem quebras) e tornou-se o instrumento fundamental do governo, que começou por recorrer às técnicas do storytelling para legitimar a coligação e passou nos últimos tempos à lógica do clash na relação instrumental com os seus parceiros. As longas frases das sequências narrativas e as articulações lógicas não são de modo nenhum o que sustenta o discurso de António Costa e do seu governo. A gramática e o léxico estão reduzidos a um mínimo estrito. E isso é um sintoma de que a matriz ideológica com que este governo se apresentou foi apagada e o que hoje brilha em todo o seu esplendor é o modelo pragmático. E este, na verdade, dá-se muito melhor com a lógica do clash do que com a do storytelling.

No seu livro, Christian Salmon defende que a presidência de Obama correspondeu a uma idade de ouro do storytelling. Mas acrescenta que este não foi “um meio de devolver crédito à política, mas como um sintoma do seu descrédito”. Tratou-se de prosseguir a política por outros meios e pô-la ao serviço da audiência. Por oposição a Obama, Trump é o Presidente que exacerbou até à caricatura a lógica do clash. O idioma do trumpismo é uma linguagem de guerra, do ataque contínuo e da provocação. O seu fraseado é quase sempre agramatical, sem princípio nem fim. O que esta língua tem de mais perigoso é que ela acaba por se insinuar no espírito das multidões. Ao deixar a Casa Branca, em 2018, Steve Bannon disse numa entrevista ao Paris Match (cito do livro de Christian Salmon): “Não sou um conselheiro de alma, mas um street fighter. Para mim, a Casa Branca era precisamente um lugar de trabalho muito militar”.

A militarização da política é para onde leva a lógica do clash. Nós, por cá, acabámos de sentir os seus efeitos. Ainda que tímidos, foram suficientemente eloquentes. Há um modelo de governação em curso que, mal se apresenta a oportunidade, é todo ele exibição de virilidade e musculatura.