“O que nos deveria surpreender não é que tenham conseguido cortar o Nord Stream mas sim que não o tivessem feito anteriormente”

(Ola Tunander, entrevista, in Resistir, 21/07/2026)


Como os EUA transformaram a Alemanha num vassalo.


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HINTERGRUND – Professor Tunander, o senhor afirma que os acontecimentos em torno do Nord Stream não podem ser vistos de forma isolada. Por que razão considera que um olhar sobre a história – em particular sobre os anos 80 – é decisivo para compreender o presente?

OLA TUNANDER – O secretário da Energia dos EUA, William Richardson, afirmou em 1998: “É muito importante que, no final, o mapa dos gasodutos e a política coincidam”. Referia-se à Ásia Central, mas poderia muito bem ter sido uma declaração geral dos Estados Unidos sobre gasodutos. Os gasodutos ligam um Estado a outro. São uma ponte que cria uma interdependência que abre caminho para uma cooperação estreita e uma coexistência pacífica. À semelhança do que aconteceu com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço na década de 1950, e mais tarde com a UE, que geraram confiança e interdependência entre os antigos inimigos da Segunda Guerra Mundial, o gasoduto soviético-alemão ocidental da década de 1980 abriu caminho para uma interdependência germano-soviética.

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Porta aberta para a Espanha: A “via espanhola” que desafia Trump

(In Facebook, mural Venezuela en Tiempo Real, 28/03/2026, Trad. Estátua)


Num quadro mundial onde os tambores de guerra não param de tocar, a Espanha acaba de dar um golpe de grande efeito que poucos previramr. Enquanto o Estreito de Ormuz, a artéria vital por onde flui o petróleo do mundo se fecha para as grandes potências, Madrid conseguiu luz verde.

Não é coincidência. O Irão foi claro: enquanto mantém o cadeado para os EUA e seus aliados mais próximos, permite o trânsito para navios com bandeira espanhola. Porquê? Porquê? A resposta é tão simples quanto profunda: a firmeza de uma postura. A Espanha manteve-se do lado da diplomacia, rejeitando a escalada bélica e as intervenções que só prometem mais caos.

Durante anos, disseram-nos que alinhar cegamente com as políticas de confronto de Washington era o único caminho. Hoje, a realidade dita outra sentença. Ao marcar uma distância crítica com a narrativa belicista de figuras como Donald Trump, a Espanha não só protegeu a sua segurança, como ganhou relevância diplomática que hoje se traduz em benefícios tangíveis.

 Este “passaporte livre” em Ormuz não é um facto isolado. Faz parte de um design maior:

  1. Liderança Moral: A Espanha posiciona-se como a ponte necessária num mundo dividido.
  2. Segurança Energética: Enquanto outros sofrem bloqueios, o comércio espanhol respira.
  3. Independência Real: Fortalecer os laços com nações-chave como a China e a Argélia demonstra que há vida (e muita prosperidade) além das bases militares estrangeiras.

Este é o início de uma Espanha que finalmente decide o seu próprio destino sem esperar por ordens externas? Estamos testemunhando o sucesso da “via diplomática” contra a força bruta?

A estratégia de Madrid demonstrou que a paz não é apenas um valor ético, mas um instrumento económico e geopolítico de primeiro nível. Enquanto outros ficam encalhados na costa, a Espanha avança.

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O acordo impossível

(João Gomes, in Facebook, 25/03/2026)


Há propostas que nascem para ser assinadas. E há propostas que nascem para ser recusadas. O chamado “plano de 15 pontos” apresentado por Trump ao Irão pertence à segunda categoria.

À superfície, parece diplomacia: uma lista ordenada, numerada, racional de exigências e concessões. Um exercício de engenharia política com aparência de equilíbrio. Mas basta um olhar minimamente atento para perceber que não se trata de um acordo. Trata-se de um ultimato disfarçado de negociação.

O núcleo da proposta é simples: o Irão deve abdicar de tudo o que constitui a sua capacidade de dissuasão – nuclear, militar e regional – em troca de promessas económicas cuja solidez já foi anteriormente testada… e falhou. Desmantelar instalações, entregar stock, aceitar inspeções totais, limitar mísseis, abandonar aliados, abrir mão da sua influência geopolítica e ainda permitir mecanismos automáticos de punição futura. Tudo isto em troca de sanções que podem regressar ao sabor de um ciclo político em Washington. Não é um acordo. É uma reconfiguração forçada.

Ora, a teoria clássica dos conflitos ensina-nos algo elementar: negocia-se quando não se pode vencer – ou quando o custo de vencer é demasiado elevado. Mas aqui começa o verdadeiro paradoxo. Se é Trump a apresentar este plano, não é ilegítimo perguntar: o que estão, de facto, a reconhecer?

Não uma incapacidade militar – essa continua a ser enorme. Mas algo mais subtil e mais relevante: a impossibilidade de controlar as consequências de uma escalada. Uma guerra com o Irão não é apenas um teatro militar. É um evento sistémico. Energia, comércio global, estabilidade regional – tudo entra em colapso por arrasto. Não há vitória limpa num tabuleiro onde cada movimento provoca ondas de choque globais.

E é precisamente por isso que este “acordo impossível” levanta outra leitura, mais cínica – e talvez mais realista. E se isto não for para ser aceite? E se for, simplesmente, uma manobra dilatória? Ganhar tempo. Testar intenções. Criar narrativa. Posicionar forças. Preparar o terreno – político, mediático e militar – para um cenário alternativo. Porque, historicamente, negociar e preparar conflito nunca foram caminhos opostos. Pelo contrário: são frequentemente paralelos.

A hipótese de uma operação militar mais agressiva não pode ser descartada. Um ataque aéreo massivo, concentrado em infraestruturas críticas, centros urbanos costeiros, sistemas de defesa e logística. Uma tentativa de controlo de pontos estratégicos – ilhas, corredores marítimos, zonas costeiras. Um choque rápido, de alta intensidade, desenhado para desorganizar antes de consolidar.

Mas aqui entra o detalhe que raramente cabe nos planos: o “depois”. Desembarcar tropa é uma coisa. Sustentar é outra. Controlar território hostil, com profundidade estratégica, redes locais e capacidade assimétrica, é um problema de outra ordem. E é nesse momento que o custo humano deixa de ser abstração e passa a contabilidade política. Quantos homens são necessários para transformar um mapa em realidade? E quantos regressam? A história recente oferece respostas pouco animadoras.

É neste ponto que a ironia se torna inevitável. Um plano apresentado como alternativa à guerra pode, na verdade, ser o seu prólogo. Uma proposta impossível pode ser apenas o argumento necessário para justificar o inevitável: “tentámos a diplomacia”. E, no entanto, há um elemento que não pode ser ignorado: o outro lado também lê o jogo.

O Irão não é um ator passivo. Sabe que aceitar este plano seria abdicar da sua própria lógica de sobrevivência. Mas rejeitá-lo implica navegar um espaço perigoso, onde cada recusa pode ser reinterpretada como provocação. A margem de erro é mínima.

O “acordo impossível” cumpre assim a sua função essencial: não resolver, mas enquadrar. Não pacificar, mas preparar. Não construir confiança, mas gerir perceções. E talvez seja essa a sua maior eficácia. Porque, no fim, não se trata de chegar a um entendimento.

Trata-se de definir quem será responsabilizado pela sua ausência ou quem reconhecerá primeiro que não tem hipótese de continuar.

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