A guerra do Irão — da ilusão da libertação à ameaça de uma terceira Guerra Mundial

(Ricardo Graça, in Facebook, 15/03/2026, Revisão da Estátua)


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Há uma crença que circula com a convicção das verdades simples: os Estados Unidos foram ao Irão libertar o povo iraniano de um regime opressor. A intervenção era necessária. Era justa. Era inevitável.

Compreendo quem pensa assim. A narrativa é sedutora, foi construída com décadas de investimento mediático e diplomático, e apela ao que há de mais nobre no ser humano — o desejo de que os mais fortes protejam os mais fracos. O problema é que a história não confirma essa narrativa. Confirma o oposto.

O padrão que a história regista

Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, disseram ao mundo que iam libertar o povo iraquiano e eliminar armas de destruição maciça que ameaçavam a humanidade. As armas nunca existiram — o próprio governo americano o admitiu posteriormente. O povo iraquiano ficou com um Estado destruído, uma guerra civil que durou anos, centenas de milhares de mortos civis e o surgimento do Estado Islâmico no vácuo de poder criado pela intervenção. A libertação custou mais vidas do que o regime que a justificou.

No Afeganistão, os Estados Unidos e a NATO estiveram vinte anos. Vinte anos de ocupação militar, de construção institucional, de formação de exércitos e de promessas de democracia. Em agosto de 2021, os últimos soldados partiram. Duas semanas depois, os Talibã estavam de volta a Cabul — exatamente onde estavam antes da invasão. Vinte anos. Triliões de dólares. Dezenas de milhares de mortos. O resultado foi zero — exceto para a indústria do armamento, que nunca trabalhou tanto.

Na Líbia, a NATO interveio em 2011 para proteger civis e derrubar Muammar Kadhafi. O regime caiu. O que ficou foi um Estado falhado, partido em facções armadas rivais, com dois governos paralelos, tráfico de seres humanos institucionalizado e uma guerra civil que dura até hoje. A Líbia de Kadhafi era um Estado autoritário. A Líbia pós-NATO é um caos sem Estado.

No Vietname, os Estados Unidos combateram durante duas décadas contra o comunismo e pela liberdade do povo vietnamita. Cinquenta e oito mil soldados americanos morreram. Mais de dois milhões de vietnamitas civis morreram. O napalm queimou aldeias inteiras. O Agente Laranja contaminou gerações. E o Vietname tornou-se comunista na mesma — porque a força militar nunca resolve o que é uma questão política e cultural.

A lista não fica por aqui. Granada, 1983. Panamá, 1989. Somália, 1993. Jugoslávia, 1999. Síria, 2011. Haiti, múltiplas vezes. Em cada caso, a narrativa foi a mesma: libertação, democracia, proteção de civis. Em cada caso, o resultado foi destruição, instabilidade e o surgimento de novos problemas mais graves do que os que a intervenção pretendia resolver.

Não é má sorte. É um padrão.

A ilusão da libertação — porque seduz e porque falha

Quem acredita genuinamente que os Estados Unidos foram ao Irão salvar o povo iraniano não está errado em querer que os iranianos sejam livres. Está errado quanto ao instrumento. A liberdade não se entrega com bombas. A democracia não se instala com ocupação militar.

A autodeterminação dos povos — que é um princípio fundamental do direito internacional, consagrado no artigo 1.º da Carta das Nações Unidas — significa exactamente isso: são os povos que determinam o seu destino, não as potências externas que decidem qual o destino que merecem.

O povo iraniano tem uma história de milénios, uma cultura extraordinariamente rica e uma capacidade demonstrada de resistência e transformação. Merece liberdade. Merece dignidade. Merece um Estado que o respeite.

O que não merece é ser o próximo capítulo de um manual de intervenção que produziu, em cada aplicação anterior, mais morte, mais caos e mais sofrimento do que aquele que pretendia eliminar.

A pergunta que quem apoia a intervenção deve responder não é “o regime iraniano é mau?” — é. A pergunta é: “existe alguma evidência histórica de que uma intervenção militar americana produziu liberdade duradoura e estável?” A história responde com uma consistência perturbadora: não.

O direito internacional que ninguém cita

A Carta das Nações Unidas, assinada em 1945 após a devastação de duas guerras mundiais, proíbe no seu artigo 2.º, n.º 4, o recurso à ameaça ou ao uso da força nas relações internacionais contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado.

As únicas exceções são duas: a legítima defesa individual ou coletiva prevista no artigo 51.º, e a autorização expressa do Conselho de Segurança das Nações Unidas ao abrigo do Capítulo VII. Nenhuma destas exceções se aplica a uma intervenção ofensiva unilateral contra o Irão.

O Tribunal Penal Internacional tem jurisdição sobre crimes de guerra e crimes contra a humanidade desde o Estatuto de Roma de 1998. Os ataques deliberados a populações civis, a destruição desproporcionada de infraestruturas e o uso de armas de efeito indiscriminado constituem crimes de guerra tipificados. A questão é que o TPI pune os fracos — líderes africanos, ditadores de países periféricos. As grandes potências com assento permanente no Conselho de Segurança operam numa impunidade estrutural que o próprio sistema internacional consagrou ao dar-lhes direito de veto.

É a maior hipocrisia do direito internacional: o sistema foi criado para prevenir guerras e julgou os criminosos de guerra de Nuremberga. Mas foi desenhado por quem ganhou a guerra — e garante que quem tem poder suficiente nunca será julgado pelo mesmo tribunal.

Portugal e a Constituição que ninguém lê

O artigo 7.º da Constituição da República Portuguesa é um dos mais notáveis do constitucionalismo europeu. Estabelece que Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva.

Portugal preconiza constitucionalmente a dissolução dos blocos político-militares. É membro da NATO — o maior bloco político-militar do mundo. A tensão entre o texto constitucional e a prática política nunca foi resolvida. Nunca foi sequer debatida com seriedade.

O artigo 8.º da CRP estabelece que as normas de direito internacional geral ou comum fazem parte integrante do direito português. A proibição do uso da força consagrada na Carta da ONU, o direito internacional humanitário, os princípios de Nuremberga — tudo isto faz parte do ordenamento jurídico português. O que significa que qualquer participação ou apoio português a uma intervenção que viole estes princípios é inconstitucional e internacionalmente ilícita.

O silêncio do Estado português perante a guerra no Irão não é neutralidade. É cumplicidade por omissão — a mais confortável das cumplicidades.

O espectro da terceira guerra mundial

Quem lê história com atenção sabe que as grandes guerras não começam com uma declaração solene. Começam com um incidente, uma escalada, uma resposta que provoca outra resposta, até ao ponto em que o mecanismo de alianças e compromissos arrastar nações inteiras para um conflito que nenhuma delas quis individualmente.

Foi assim em 1914. O assassinato de um arquiduque em Sarajevo acionou um sistema de alianças que transformou um conflito regional numa guerra que matou vinte milhões de pessoas.

O cenário atual tem todos os ingredientes estruturais para uma escalada com consequências imprevisíveis. Uma potência ocidental em operação militar no Irão. A Rússia e a China com interesses estratégicos diretos na região e compromissos com actores regionais. Israel num estado de guerra permanente. O Hezbollah, o Hamas, as milícias iraquianas — todos com capacidade de amplificar o conflito. E uma arquitectura de alianças que, se acionada, envolve potências nucleares.

A diferença entre 1914 e hoje é que as armas nucleares existem. E que os Estados que as possuem não demonstraram, nas últimas décadas, a prudência necessária para inspirar confiança de que nunca as usarão.

Isto não é alarmismo. É análise geopolítica elementar.

Guerra — a falência de tudo o resto

Há uma definição de guerra que toda a gente conhece mas poucos citam na sua dureza real: guerra é o fracasso organizado da humanidade em resolver os seus conflitos por meios civilizados.

Cada bomba que cai sobre uma cidade representa a falência da diplomacia, do diálogo, do direito internacional e da razão. Representa a decisão de que é mais simples destruir do que negociar — e que as vidas que serão destruídas no processo valem menos do que os objectivos que se pretendem alcançar.

O direito internacional humanitário — as Convenções de Genebra, o Protocolo Adicional I — tenta humanizar o inumano, estabelecendo regras para a guerra como se a guerra pudesse ter regras que a tornem aceitável. É um esforço nobre. E é uma admissão de derrota civilizacional: não conseguimos eliminar a guerra, então tentamos torná-la menos bárbara.

Não é suficiente. Nunca foi suficiente. E enquanto existir a convicção de que os problemas políticos têm solução militar, continuará a não ser suficiente.

E a guerra, qualquer guerra, começa sempre com uma justificação que parece razoável — e termina sempre com mortos que não têm culpa nenhuma.

A invasão do Irão – A Europa, Trump e os partidos portugueses

(Carlos Esperança, in Facebook, 04/03/2026)


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É deprimente ver programas televisivos onde se confronta a opinião dos deputados dos três únicos partidos com acesso regular aos ecrãs e compará-la com a dos principais líderes europeus.

Os países europeus têm posições para todos os gostos, desde a oposição frontal do PM de Espanha à violação do direito internacional à subserviência do chanceler alemão, que causa inveja ao lacaio de Trump, o sr. Mark Rutte. Até o RU, país que alinhou sempre a política externa pela dos EUA, teve um lampejo de dignidade e desagradou a Trump. Macron, apesar da bravata de deslocar ogivas nucleares para outros países europeus, não tem a coragem de De Gaulle ou Mitterrand. Itália, Hungria e Eslováquia são os aliados óbvios e preferidos do presidente americano que pode não acabar o mandato.

O governo português tomou a posição que o PS provavelmente tomaria, nem por isso honrosa, e que mereceria alguma benevolência se não tivesse admitido participar como observador, ao lado dos piores regimes, no Conselho da Paz de Trump, para Gaza, cuja intenção é substituir a ONU e ser aí presidente vitalício.

Apoiar Trump e Netanyahu na invasão do Irão não é ser solidário com os EUA onde a maioria da população se opõe, é apoiar a aventura criminosa que viola grosseiramente o direito internacional. Nem o facto de invocar diariamente motivos diferentes faz vacilar os apoiantes, que esquecem as funestas invasões do Iraque e do Afeganistão, sempre com dramáticas consequências para a Europa.

Nos três partidos referidos, PSD, Chega e PS, é deprimente ver o alinhamento dos dois primeiros contra o PS, acusando-o de estar, em conjunto com o BE e o PCP, ausentes do debate, na defesa de uma teocracia tenebrosa contra duas democracias, EUA e Israel. Do PS só pode lamentar-se a timidez na defesa do direito internacional e a necessidade de afirmar a sua diferença em relação à posição de Espanha.

No fundo, o PSD e o Chega preferem apoiar um criminoso condenado pelo TPI e outro cuja vitória eleitoral o livrou da condenação e sobre o qual pesam as piores suspeitas, a defender a paz e o direito internacional. Nem o trágico bombardeamento de uma escola cujo erro causou centenas de vítimas, entre mortos e feridos, os faz vacilar.

O PSD podia recordar-se do crime em que o seu antigo líder e PM de Portugal, Durão Barroso, enredou o País na invasão do Iraque, mas não se espera de Montenegro ou de Marcelo um módico de coragem para se afastarem de Trump e Netanyahu.

Da União Europeia o mínimo que deve esperar-se é a defesa do PM espanhol contra os humores e o arbítrio de Trump. Veremos se será solidário com um dos seus membros ou com o seu maior inimigo, se defende os valores civilizacionais e o direito internacional ou se pretende continuar vassala do irascível e desequilibrado PR dos EUA.

Quanto à infâmia do regime iraniano e à necessidade de remoção dos ignóbeis clérigos não pode haver duas opiniões diferentes em países civilizados, mas nunca uma ditadura caiu através de uma invasão nem uma democracia nasceu contra o direito internacional.

A coragem e a decência de Pedro Sánchez permanecerão como exemplo de estadista e patriota perante homúnculos, o único com sagacidade para ver em Trump o aventureiro de que o seu próprio país há de envergonhar-se. Merece ser recordado pela História.

Ameaçar é barato, executar é caro

(Vns News Brasil, in Facebook, 29/01/2026, Revisão da Estátua)


Milhões de pessoas no mundo acompanham a tensão entre Irão e Estados Unidos e interrogam-se por que, mesmo com tantas ameaças, os EUA ainda não atacaram de forma direta. A resposta é simples: as guerras não começam por emoção, começam por cálculo. Para Washington, atacar o Irão agora teria um custo enorme — militar, económico e político — maior do que o custo de esperar.

Hoje, o que existe é uma guerra indireta. O Irão testa mísseis, fortalece as suas forças e atua por meio de aliados regionais. Os EUA respondem com sanções, presença militar e pressão diplomática. Ainda assim, algumas linhas não foram cruzadas: não houve ataque direto ao território americano, não houve mortes em massa de soldados dos EUA e não há prova confirmada de que o Irão possua uma ogiva nuclear operacional pronta para uso. Enquanto esses fatores não acontecerem em simultâneo, a guerra aberta é evitada.

Para que os EUA ataquem “de verdade”, alguns gatilhos seriam decisivos: um ataque iraniano direto contra bases ou cidades americanas, muitas mortes de militares dos EUA atribuídas claramente ao Irão, ou a confirmação de que o país alcançou capacidade nuclear militar plena. Esses cenários mudariam o cálculo político em Washington e tornariam a resposta militar quase inevitável.

Caso uma guerra começasse, o primeiro alvo dos EUA não seria uma invasão terrestre imediata. O foco inicial seria aéreo e tecnológico: bases de mísseis, sistemas de defesa, centros de comando, instalações nucleares e infraestruturas militares estratégicas. O objetivo seria enfraquecer rapidamente a capacidade de resposta iraniana.

Mesmo assim, o Irão não é um país fraco. Ele não precisa de vencer os EUA em poder militar — basta resistir e impor custos. O país possui um grande número de mísseis, forças bem distribuídas, instalações protegidas e aliados regionais capazes de atacar interesses americanos e desestabilizar o Médio Oriente. Isso elevaria o preço do petróleo, afetaria o comércio global e pressionaria as economias no mundo inteiro.

Por isso, comparar o Irão com o Iraque de 2003 é um erro. O Iraque tinha um exército fragilizado, poucas alianças, defesas expostas e isolamento total. O Irão, ao contrário, tem capacidade militar maior, influência regional, uma infraestrutura defensiva mais sofisticada e apoio indireto de aliados estratégicos. O Iraque caiu rápidamente; o Irão enfrentaria uma guerra longa, cara e imprevisível.

No fim, se a guerra acontecer, os EUA provavelmente venceriam militarmente, mas pagariam um custo altíssimo. O Irão sofreria danos severos, mas não seria eliminado facilmente. Quem certamente perderia seriam os civis, a estabilidade regional e a economia global.

A guerra ainda não começou não por falta de ódio ou ameaça, mas porque, até agora, o custo de atacar continua maior do que o custo da contenção.

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