O PCP não sabe fazer propaganda?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 29/05/2019)

Jerónimo de Sousa

O PCP odeia o culto da personalidade. O medo de cair no erro político do culto da personalidade tem duas origens: a forma como, ao longo de quase um século de história, o Partido Comunista Português educou a sua prática de fazer política e a forma como interpretou os erros e os crimes dos países do bloco soviético, que levaram à desagregação da experiência socialista no Leste europeu (*).

O medo do culto da personalidade molda o formato de propaganda do PCP e, por consequência, estrutura a propaganda da CDU, a coligação partidária com os Verdes com que o PCP concorre a eleições.

Dou um exemplo concreto: ao longo de décadas de intenso combate político, o Partido Comunista Português produziu milhares de cartazes de propaganda. Pois dou um doce a quem me apresente um cartaz de apelo ao voto no PCP, numas legislativas, com a fotografia de Álvaro Cunhal. Se houver um é, quase de certeza, apócrifo ou feito à revelia do próprio dirigente histórico do partido.

Durante muitos anos os únicos cartazes eleitorais do PCP com fotografias individuais de candidatos eram os das eleições presidenciais, dada a natureza nominal da eleição. Mesmo para as autárquicas, a preferência ia para cartazes com letras, composições gráficas abstratas, desenhos, foices, martelos e fotografias de multidões, de trabalhadores, operários, camponeses ou de grupos de candidatos. Só bastante tarde se tornou banal a utilização de cartazes com a fotografia do candidato a presidente de câmara.

Lembro-me, aliás, da polémica no interior do PCP quando, em 1989, para as eleições europeias, a CDU apresentou um cartaz com uma fotografia de Carlos Carvalhas. Lembro-me como isso motivou debates e lembro-me como, a custo, lá se aprovou o princípio político da admissibilidade da utilização, parcimoniosa, de cartazes de propaganda com fotografias individuais de cabeças-de-lista.

Ainda hoje a CDU, nas eleições europeias, puxa habitualmente pela fotografia do seu cabeça-de-lista, como aconteceu agora com João Ferreira, mas para as legislativas não é propriamente elevada a quantidade de cartazes com a fotografia do secretário-geral, Jerónimo de Sousa, diria que é mesmo excecional.

Nos círculos eleitorais distritais para as eleições à Assembleia da República, às vezes, aparecem cartazes com os cabeças de lista da CDU, mas não são os dominantes, o que domina é a repetição massiva do logótipo da coligação.

A propaganda do PCP suportou-se sempre num trabalho contínuo de distribuição de informação porta a porta, fábrica a fábrica, escritório a escritório; numa promoção constante de debates temáticos por todo o país; numa procura de contacto direto com populações.

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Mas a atomização da vida laboral, as dificuldades da vida urbana, a desertificação do interior, as diminuições de funcionários no partido tornam cada vez menos eficaz esse processo de propaganda – é mais difícil ir ter com as pessoas aos locais habituais, porque elas ou não estão lá ou não têm tempo para lá estar.

Quando o PCP explica as suas derrotas eleitorais, como a do passado fim-de-semana, faz sempre um enquadramento das circunstâncias políticas que as motivaram e queixa-se, quase sempre com razão, da desigualdade de tratamento na comunicação social.

No debate interno das próximas semanas tenho a certeza que o PCP vai tentar analisar os motivos de fundo da sua erosão eleitoral e discutir, por exemplo, se vale a pena, depois das legislativas, pensar em manter qualquer tipo de aliança com o PS ou se o conteúdo politico de cariz ecológico da CDU é adequado.

Mas tenho dúvidas que o PCP discuta com profundidade o problema que defronta com a eficácia da sua propaganda. E, no entanto, ele é evidente.

Por exemplo, visito páginas de Facebook e conto números de seguidores.

PS: 77 184 pessoas.

PSD: 146 734.

Bloco (Esquerda.net): 76 163.

CDS-PP: 33 945.

PAN: 156 170.

A página do PCP é seguida apenas por 14 500 pessoas, a dos Verdes por 11 114 e a da CDU por 13 981, valores muito abaixo dos que são alcançados pelos adversários e por um partido ainda pequeno como o PAN.

Se comparar as páginas pessoais dos candidatos às europeias, as diferenças são semelhantes ou piores: basta comparar os 98 848 seguidores de Marisa Matias com os 7 083 de João Ferreira

Mesmo qualitativamente, a mensagem passada nestas páginas de facebook é muito diferente.

Veja-se o início da última mensagem de Marisa Matias: “Ontem foi uma longa noite. Ontem devia ter-me deitado mais cedo porque hoje tinha de regressar a Bruxelas, mas deitei-me estupidamente tarde porque sou uma optimista e queria mesmo ver até ao último voto. A hipótese de eleger o Sérgio Aires, que antes parecia impossível, passou a ser uma urgência na minha cabeça…”

Há muito “eu”, muito “emoji”, muito individuo, muita paixão, muita falsa intimidade nas mensagens dos políticos que usam com eficácia este instrumento de propaganda. Marisa Matias sabe fazê-lo e o Bloco está-se nas tintas para a questão do culto da personalidade.

Comparo com o início da última mensagem na página pessoal de João Ferreira: “Os resultados provisórios das eleições ao Parlamento Europeu confirmam a eleição de dois deputados pela CDU – João Ferreira e Sandra Pereira. A CDU mantém uma importante representação no Parlamento Europeu elegendo dois deputados que são uma garantia sólida, coerente e de confiança na defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País…”

A mensagem é impessoal, distante, infinitiva. João Ferreira não é um líder, é o representante de um coletivo chamado CDU que publica um texto em tom de comunicado partidário. Como instrumento de propaganda, a página no Facebook de João Ferreira é uma quase inutilidade.

Serve esta comparação para exemplificar as dificuldades do PCP na utilização de redes sociais. Se fosse procurar exemplos de utilização do Twiter, do WhatsApp, Instagram ou de simples SMS, os resultados seriam semelhantes.

Estas dificuldades, parece-me, não têm a ver com falta de habilidade ou de sensibilidade para estes meios de comunicação por parte de quem faz a propaganda no PCP.

O problema para os comunistas portugueses é que a utilização das redes sociais na política, para ser eficaz, implica aceitarem práticas que contrariam a sua própria maneira de pensar o mundo, a forma como acham que se deve fazer política, a maneira como se devem debater os problemas. Não é um problema formal, é de conteúdo.

Uma das contradições insanáveis para a propaganda do PCP é que estar no Facebook de forma eficaz implica, sempre, cair no culto da personalidade, quer pela valorização do indivíduo-candidato e correspondente subvalorização do coletivo partidário, quer pelo inevitável tom de adulação ao candidato que as caixas de comentários feitos por seguidores produzem.

As dificuldades com a propaganda não são a razão principal para o fracasso eleitoral de partidos enraizados no país e institucionalizados no regime como o PCP é. Mas são uma componente relevante do problema.

Como é que um partido como o PCP que, no século XX, submetido a extremas dificuldades, revelou imensa energia, inovação, e eficácia na elaboração e distribuição da sua propaganda consegue agora lidar, no século XXI, com instrumentos como as redes sociais, sem trair o seu ideário? Não sei.

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(*) Num livro de Álvaro Cunhal, que me parece muitas vezes ser subestimado, O Partido com Paredes de Vidro, de 1985, o dirigente histórico do Partido Comunista Português explica como o PCP vê o problema do culto da personalidade:

“O culto da personalidade é um fenómeno negativo que comporta inevitavelmente pesadas consequências no partido em que se verifique.

Os elogios públicos e o exagero dos méritos do dirigente objeto do culto são aspetos superficiais.

As questões de fundo são extraordinariamente mais graves.

São as incompreensões e a supervalorização do papel do indivíduo.

É a atribuição a uma personalidade, não apenas do que lhe é devido pelos seus méritos mas do que se deve aos méritos de muitos outros militantes.

É o injusto apagamento da contribuição dos outros militantes, assim como da classe e das massas.

É a prática da direção individual e da sobreposição da opinião individual (mesmo que errada) à do coletivo.

É a aceitação sistemática, cega, sem reflexão crítica, das opiniões e decisões do dirigente.

É a crença ou a imposição da sua infalibilidade.

É o atentismo em relação às decisões do «chefe» e a quebra da iniciativa, intervenção e criatividade das organizações e militantes.

É a falsa ideia de que as tarefas que cabem ao Partido e até à classe operária e às massas podem ser realizadas pelo dirigente objeto do culto.

É o enfraquecimento da consciência comunista e da aprendizagem e responsabilidade dos dirigentes e militantes.

É o enfraquecimento e afogamento da democracia interna nos seus variados aspectos (trabalho coletivo, regra maioritária, independência de juízo e de opinião, prestação de contas).

É o caminho quase inevitável para a intolerância, o dirigismo, a utilização de métodos administrativos e sanções em relação aos que discordem do dirigente objecto do culto, o contradigam ou se lhe oponham.”

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Miguel Sousa Tavares e as redes sociais – a crítica da Estátua de Sal

(Por Estátua de Sal, 16/03/2019)

Na sua coluna de opinião, no Expresso desta semana, 16/03/2019, Miguel Sousa Tavares publica um artigo com o sugestivo título “De como a luta de classes vai matar a democracia”, (https://estatuadesalnova.com/2019/03/16/de-como-a-luta-de-classes-vai-matar-a-democracia/ ), o qual reputo da pior peça que li assinada pelo conhecido colunista.

O tema é as redes sociais que são para o MST uma espécie de diabo furibundo, responsáveis por todos os males do mundo actual. Assim, as redes estão a matar o jornalismo, a colocar no poder os políticos populistas de que o Miguel não gosta (eu também não), Trump, Bolsonaro, Matteo Salvini, originaram o Brexit, e irão liquidar, segundo ele, a democracia – suponho que se estará a referir à democracia parlamentar.

Mas vai mais longe. MST pinta os frequentadores das redes sociais como uma turba de trogloditas a espumar ódio pela boca, violência, boçalidade alarve, exibicionismo impante e voyeurismo vicioso e viciante, uns cobardolas seguidistas que se acoitam no anonimato para expandir as suas opiniões primárias. Perante esta aguarela pintada a negro, só me resta manifestar a minha discordância:

  1. Pois bem, caro MST, eu frequento as redes sociais, coisa que tu não fazes, e por isso opinas com base naquilo que tens ouvido dizer, ou então frequentas disfarçado de Pai Natal, para que não te topem, o que ainda é pior.
  2. E nas redes sociais vejo de tudo, o que é uma verdade elementar já que as redes não passam de um espelho, cada vez mais abrangente da sociedade em geral. Se existem lá os trogloditas que tu vês, não é o Facebook que os fabrica: eles existem no dia-a-dia das nossas vidas. Poderás dizer que, atrás do teclado do computador, poderão esses tais alarves exprimir opiniões e ataques que de outro modo não fariam e, nesse ponto, talvez tenhas razão. Mas, estará o mal na opinião que se expressa ou na existência do sentimento íntimo que a motiva? Adiante, fica para refletires.
  3. O mais grave da tua argumentação, e de muitos fazedores de opinião que pululam no espaço público, é acharem que as redes sociais são as responsáveis pelo populismo, pelos Trumps e companhia.
  4. Se o capitalismo não estivesse numa fase de refluxo das conquistas sociais da humanidade, se a desigualdade não fosse cada vez mais gritante, se o desemprego não fosse uma realidade para muitos e uma ameaça para muitos mais, se as políticas neoliberais de gestão da economia e de ataque aos Estados Sociais do pós Guerra não fossem cada vez mais acutilantes, achas mesmo que o populismo e a ascensão da direita teriam sucesso só porque a direita faz publicar fake-news no Facebook atacando os seus “bem-comportados” adversários políticos? Se a tua resposta for positiva eu direi que é uma idiotice completa.
  5. O que acontece é que, durante décadas, foi possível aos políticos do sistema gerir as opiniões das multidões e condicionar os resultados eleitorais através do controle da comunicação social, a tal que tu dizes ser “de referência” e que está a morrer. E sabes porque está a morrer? Porque, em grande parte, as redes sociais permitindo uma disseminação da informação num nível que não existia em décadas anteriores, vieram pôr a nu o papel de subserviência e venalidade de muitos dos ditos jornais de referência em relação a determinados grupos económicos e/ou partidos políticos. Já há muito que não eram isentos, só que agora, tal falta de isenção tornou-se gritante e os leitores fogem. Em Portugal, o caso do Expresso, onde tu escreves, é paradigmático deste fenómeno.
  6. Ou seja, a comunicação social mainstream, durante décadas teve o monopólio das fake-news (lembras-te das armas químicas do Saddam? Todos os respeitáveis jornalistas as tinham visto!), e agora tem que repartir tal missão com os clientes do Zuckerberg e companhia. É, de facto, um grande aborrecimento. Na verdade, os defensores do capitalismo passam a vida a louvar os mercados, mas na hora da verdade todos querem mesmo é ser monopolistas, até na produção de fake-news e na manipulação da opinião pública!
  7. E chegámos à parte final da tua prosa que é a maior parvoíce que alguma vez escreveste. A parte em que dizes que a luta de classes vai liquidar a democracia. Poder-se-ia pensar que estavas a referir-te ao conceito marxista de classe, conceito estribado nos diversos níveis económicos de acesso à propriedade (capitalistas versus proletariado, burguesia versus rentistas, etc), mas não. Tu descobriste uma nova categorização. A luta de classes dos tempos modernos é a luta entre aqueles que exprimem opiniões canhestras e primárias no Facebook, que não estudam os assuntos mas que acham que tem o direito a dissertar, em oposição àqueles eruditos como tu (suponho que te consideras inserido neste grupo) que fazem os trabalhos de casa e emitem opiniões abalizadas.
  8. Pois bem, neste caso das redes sociais, cometeste exatamente o mesmo pecado de que acusas os opinantes do Facebook e afins. É que não fizeste mesmo os trabalhos de casa. Se os tivesses feito ficarias espantado com a qualidade de muitos textos que são publicados nos murais dos seus autores no Facebook, e que não ficam em nada a dever aos que tu publicas. Eu, no meu blog, publico muitos desses textos e também escrevo para as redes sociais.
  9. Sabes, há muita gente a escrever nas redes e nos blogs porque nem todos somos privilegiados como tu, com os ascendentes de família que tiveste e que te permitiram ter acesso fácil à publicação nos jornais e à opinião nas televisões. Eu, se fosse convidado a escrever no Expresso, por exemplo, achas que ficaria atrapalhado por não saber o que escrever? E como eu, muitos outros.
  10. É por isso que te digo que nada sabes de redes sociais, as quais permitiram a muitos publicar os seus pontos de vista e debatê-los. É lamentável que te tenhas colocado numa posição de “comentador iluminado”, uma espécie de representante da aristocracia dos jornalistas portugueses, em oposição à plebe ignara e ululante que OUSA querer ter opinião. Sinceramente, deve ser mal da época, mas deves ter sido também atacado pelo vírus da supremacia, no teu caso a supremacia das luzes e da erudição. Há outros que cultivam a supremacia da cor da pele, do sexo ou de outras características físicas.
  11. Assim, concluis que a democracia está em perigo porque o jornalismo de referência está em perigo e a turba está nas mãos das redes sociais e tu não vês como se pode resolver isso.
  12. Pois eu explico-te. Talvez seja preciso que os iluminados como tu venham para as redes sociais fazer pedagogia e deixarem o pedestal onde se colocam, pondo de lado o distanciamento e a sobranceria com que tratam aqueles que os leem, combatendo assim aquilo que dizes ser o “obscurantismo organizado das massas” (sic).
  13. Esse é um tipo de ação para o qual tenho dado o meu contributo, divulgando textos de carácter político e económico, nomeadamente os teus, aqui e nas redes sociais.
  14. Já agora, em jeito de consolação, para que percebas que as massas não são tão estúpidas como apregoas, dir-te-ei que o segundo texto mais lido neste blog, desde a sua fundação há quatro anos, é da tua autoria, “Cavaco Silva: vinte anos perdidos”,
    https://estatuadesalnova.com/2016/03/12/cavaco-silva-vinte-anos-perdidos/ e teve até ao momento, 39256 leituras. É este poder das redes sociais que te escapa e este número de leitores deveria levar-te a refletir sobre aquilo que se está, de facto, a passar neste admirável mundo novo da sociedade da informação e sobre as consequências que daí irão advir no plano da política e da organização das sociedades.
  15. No fundo, ninguém sabe para onde este trajeto e este uso da tecnologia irá conduzir as sociedades humanas. Mas não é pôr – como a avestruz e como tu -, a cabeça na areia que nos irá desvendar o fim do percurso que estamos a trilhar.
  16. Para terminar espero que me reconheças o direito a ter uma opinião crítica em relação às tuas posições, apesar de talvez achares que, fazendo eu parte das “massas ignorantes”, não deveria ter o direito à opinião.

De como a luta de classes vai matar a democracia

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 16/03/2019)

Miguel Sousa Tavares

(Considero este o pior artigo que li da autoria do Miguel Sousa Tavares. Toda a argumentação é um chorrilho de banalidades dissertando sobre o que me parece que só conhece de ouvir dizer, a saber, as redes sociais. A Estátua, publica uma crítica no artigo a seguir.

Ver aqui

Estátua de Sal, 16/03/2019)


Passeando-se pelo Facebook, José Pacheco Pereira encontrou ali “bullying, tribalismo, radicalismo, cobardia anónima e ajustes de contas pessoais”. Notável e tardia descoberta, embora não seja verdadeiramente recente. Foi há uns dez anos, estava o monstro nos seus inícios, que ele me tentava convencer de que eu resistia à emergência das redes sociais porque via nelas a ameaça da democratização da opinião do “povo” contra as “elites” cuja opinião monopolizaria todo o espaço público. Era a época em que ele achava também que o jornalismo tinha sempre uma agenda política própria cujo fim último era o de sabotar o poder político legitimamente eleito e constituído. Onde esse tempo já vai! E, todavia, dez anos não foi assim há tanto tempo…

Mas, em dez anos, já houve tempo para que o próprio Pacheco Pereira experimentasse na pele o execrável veneno da “democratização” da opinião consumado através das redes sociais. E, sobretudo, houve tempo para que ele e qualquer espírito lúcido pudessem lamentar a morte lenta do jornalismo de referência, às mãos dos instrumentos de destruição maciça dos senhores Zuckerberg, Bezos e outros que tais. E tempo para que todos aqueles que continuam a acreditar na democracia como instrumento de escolha dos governantes estejam seriamente assustados com a alternativa fornecida pelas fake news e a informação canalizada por algoritmos e dirigida a massas crescentes de eleitores conscientemente mantidos na ignorância e na desinformação. Neste aspecto, a pergunta já não é se existe uma conspiração contra a democracia alimentada através das redes sociais: uma comissão de inquérito do Parlamento Britânico respondeu a isso com um sim taxativo. A pergunta é como lhe fazer frente e a tempo de evitar novas falsificações da vontade dos eleitores, como o foram o ‘Brexit’ ou as eleições americanas ou italianas.

A resposta a essa pergunta não é fácil. O Facebook, o Instagram, o Twitter — o meio favorito para que os idiotas se façam eleger e governar — são verdadeiros instrumentos do Diabo. Olhados de perto, todas essas inócuas redes cujos utilizadores juram só aproveitarem para reencontrar os colegas da primária ou fazerem contactos profissionais, constituem um catálogo sabiamente fundado em todos os defeitos da natureza humana, a que, mais tarde ou mais cedo, eles irão sucumbir. Depois, é claro, é conforme a educação e os princípios de cada um. Mas a grande massa dos que ali desaguam, entregue sem freio a si própria, é um espectáculo lastimável do pior da natureza humana. A tal cobardia anónima é, fatalmente, a primeira tentação irresistível: ofender, insultar, mentir, caluniar, difamar, inventar sobre o outro a coberto do anonimato, podendo tudo dizer sem nada arriscar, deve ser uma verdadeira catarse. A seguir vem o exibicionismo (a par do correspondente voyeurismo, para o qual existem os exibicionistas), e a noção de que se é tão mais importante quanto se expõe a vida aos outros, por mais idiota que ela seja. Para sermos sérios, não foram precisas as redes sociais para descobrir isto: as “massas” foram sempre o território por excelência onde o mito do “bom povo” de desfazia perante a realidade pura e dura — bastava imaginar o Coliseu romano na Antiguidade, as fogueiras da Inquisição ou os estádios de futebol nos tempos de hoje, para o constatar. Sempre me perguntei onde estava, apenas cinco dias antes — a 24 de Abril de 1974 — o bom povo português que desfilou em massa contra o fascismo no 1º de Maio seguinte.

A coragem das multidões é facílima, a sua cobardia é inevitável. Nas redes sociais este saudável exercício de ajuste de contas com tudo e mais alguma coisa está ao alcance de um simples teclado de computador, como ainda recentemente o constatámos com o linchamento popular do juiz-desembargador Neto de Moura — que, por si só, canalizando nele toda a fúria popular, aliviou tantas consciências, elevou tantos cidadãos ao estatuto de heróis e, quem sabe, terá resolvido o problema da violência contra as mulheres. Depois de assistirem ao desfile dos “notáveis” contra o juiz e não desejando ser menos do que eles, o bom povo das redes sociais, ao que li, lançou sobre o homem uma barragem sem precedentes de insultos, ofensas e ameaças, culminando em acto de suprema coragem qual foi a criação de um site com milhares de assinaturas a desafiar o juiz a processá-los, tal como aos “notáveis”. A coisa chegou a tal extremo que até Daniel Oliveira, reconhecendo ter contribuído para tais reacções do lado dos “notáveis”, se viu forçado a escrever contra a “histeria linchadora”.

Mas o erro de Daniel Oliveira não foi o de não ter antecipado a “histeria linchadora” do povo das redes sociais — isso seria demasiado ingénuo para ser credível. O seu erro, tal como o de Pacheco Pereira, foi o de não ter percebido que aquilo que é a essência do mal das redes sociais, além da cobardia e do exibicionismo, é a luta de classes. Para um marxista é difícil aceitar que, ao contrário do dogma, a luta de classes não seja o motor que faz avançar a história, mas sim o que a faz regredir. E, todavia, é disso que se trata. O povo que vomita opiniões nas redes sociais, com a mesma facilidade com que vomita perdigotos, é justamente aquele que acredita, como outrora Pacheco Pereira, que tem direito à “democratização da opinião”. E que isso o dispensa de ter uma opinião informada, dando-se ao trabalho de ler livros, jornais, de ouvir os outros, de reflectir sobre os assuntos, de consultar relatórios, estudos, enfim, de ter trabalho com o assunto. Aliás, basta seguir um qualquer debate sobre qualquer tema nas redes sociais para logo perceber que ali ninguém está interessado em debater o que quer que seja nem sequer em convencer o outro: rapidamente qualquer esboço de troca de argumentos descamba para o insulto pessoal mais rasteiro e ordinário. Não há ali sombra de democratização de opinião, de alternativa popular às elites, do que quer que seja que se possa suportar. É a mediocridade e a inveja a arrombarem a porta, já nem sequer da democracia, mas de um mundo simplesmente habitável. E é esta gente, com estes valores e esta educação cívica e política, que elege os Trumps, os Bolsonaros, as Le Pens e os Salvinis.

Ou então, como fazem as novas gerações, abstém-se de votar, de participar na política e na vida política sob qualquer forma, porque diz que esta não a representa nem lhe interessa. Mas também não lê jornais e, tirando os seus nichos de interesses, não segue o que se passa no mundo. Todos os políticos e todos os editores de informação do mundo inteiro procuram desesperadamente a resposta à pergunta de como trazer as novas gerações para o seu mundo — pois que não têm outro para lhes oferecer. Ninguém encontra a resposta certa, mas uma coisa eu sei: a democracia representativa, tal como a conhecemos (e eu não conheço outra) não sobreviverá sem um jornalismo de referência. O verdadeiro jornalismo não ameaça o poder político democrático, não usurpa a sua legitimidade própria: nunca o fez. Pelo contrário, é a sua primeira trincheira de defesa. Contra si mesmo e contra essa nova e tenebrosa ameaça que é o obscurantismo organizado das massas.

Hoje, assistimos à morte acelerada do jornalismo às mãos daqueles que na sombra descobriram como manipular o sinistro algoritmo capaz de controlar os milhões de brothers das redes sociais. E, a par da morte do jornalismo, perfila-se a morte das democracias. Que ninguém duvide.