Greve a la CR7

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 01/10/2026)


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A única coisa interessante na novela Cristiano Ronaldo é que entrou em greve. Talvez agora possamos todos seguir o seu exemplo e sobretudo o dos bombeiros e professores em França, estes, perante a ameaça da polícia de choque para os estudantes desocuparem os liceus, que ocuparam contra os cortes orçamentais, fizeram um cordão humano, de professores, a proteger os alunos! Há mais – muito mais. A greve de Madrid da educação, por tempo indeterminando, com plenários e assembleias diários nas escolas e nas ruas, marcada por todos os sindicatos, leram bem – todos -, com o apoio das associações de estudantes e tudo com uma exigência – redução da jornada de trabalho em escola para 17 horas, o resto do tempo é para com calma preparar aulas! Ou os mais de 50 mil estudantes alemães que, pela terceira vez este ano, fazem greve e saem às ruas contra o serviço militar obrigatório e os gastos de guerra. Ou as acampadas – já são dezenas em toda a Espanha – que não aceitam as medidas paliativas de Sanchez, mostrando a geração Z e o alfabeto inteiro a erguer-se.

Esta droga paralisante que é Ronaldo e o futebol em Portugal, aspergidos por televisões e rádios, financiadas pelos mesmo que financiam os Bancos e os fundos para hipnotizar a população, já fede, há muito. Uma coisa é o jogo e que se divirtam e muito, outra é manipular, esconder e asfixiar a esfera pública que vê o SNS, as Universidades, as escolas, todos os serviços, colapsarem sem financiamento, e procura fazer esquecer que ontem o partido fascista Chega, a extrema direita da IL e o PSD deram a mão para resolver o lucro dos fundos, que eles chamam “crise de habitação”. O que foi aprovado permite aos accionistas bancários que já têm 20% das casas para arrendar entrarem com subsídios (do Governo, até 2300 euros) no mercado de arrendamento, acelerando os despejos dos trabalhadores e famílias. Ou seja, estes subsídio dependentes são ajudados pelo Chega, pela IL e pelo PSD. E o PS ainda vai aprovar orçamentos? E nós, fazemos como em Espanha, mobilizamos-nos ou ficamos à espera do PS?

Sai hoje, como sempre à quinta, quentinho, o www.jornalmaio.org – leiam, se puderem, o nosso artigo de editorial onde analisamos as medidas em Espanha, e onde demonstramos porque o preço dos combustíveis pode descer drasticamente, mesmo com guerra e sem mexer nos impostos. Deve-se descer impostos e parar já investimentos em guerra mas pode-se descer drasticamente o preço dos combustíveis mexendo nos obscenos lucros da Galp, cujos poucos accionistas concentram milhões em lucro por uma magia que publicamos neste número.

Um povo que conhece pode libertar-se, mas na ignorância nos querem. Façamos greve à ignorância e, como Ronaldo, mas sobretudo como em França, Alemanha, Espanha lutemos a sério pelo nosso futuro. Até pelo direito a ter tempo livre e jogar à bola.

Mais cabras nos montes e menos cabrões nas Instituições

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 30/07/2026)


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Foi uma semana rica no Absurdistão, em vários temas, exames, politécnicos, peles da Rússia e cabras no monte. Vejamos. O Governo paga 2,5 milhões à Deloitte para digitalizar papéis e 1 euro por resposta aos classificadores. Como os classificadores deram este trabalho gratuito, estes dados, à IA, durante este inesquecível mês de Julho – sem um dia de greve, um – para o ano esta tarefa será certamente feita por classificadores externos porque a Agência para a Gestão do Sistema Educativo – já não existe Ministério – é agora um Instituto público com possibilidade de contratar serviços privados, ou seja classificadores. Que aliás acabaram de receber ontem via Deloitte um aviso de contabilidade do tempo como o Sr que arranja a minha máquina da Mielle – “está em sua casa entre as 17:53 e as 17:55”. Kean Loach fez um filme sobre isto, Desculpem, passei aqui/esqueci-me de ti (um belíssimo trocadilho que a tradução não deu conta).

Vejam que nunca usei o termo educação nos exames – educação não são exames, de cruzes, muito menos um professor é um classificador. Tudo isto é transferência de impostos da educação dos nossos filhos e netos para as empresas de tecnologia. Tudo isto vem do PRR, da União Europeia, que diz que os helicópteros russos não podem apagar fogos, estão parados sem importação de peças, mas peles para a indústria de luxo Italiana estão liberadas, que eu vejo sempre Lagarde com os melhores vestidos italianos.

Há mais – o CEO da Agência, Fernando Alexandre, a quem ainda chamam Ministro, quando ele mesmo acabou com o Ministério – anunciou a criação de duas universidades…como? Não, a passagem de politécnicos a Universidades que a primeira coisa que fez foi um despedimento coletivo de dezenas de colegas nossos – porventura centenas – de professores que não passam de uma instituição a outra, não têm antiguidade, etc. Uma espécie de pacote laboral da função pública.

Seguem de vento em popa nas Universidades o despedimento de professores convidados, outro despedimento colectivo tratado apenas como mais um regular acto de gestão.

O Governo da Spinumviva anuncia que os pescadores de costa, os pequenos, muitos idosos, que têm margens de lucro de 2%, são obrigados a pescar o dobro de 12 mil para 24 mil euros ou então ficam sem licença…(vejam a belíssima reportagem em video e artigo do jornalmaio.org estivemos lá, eu mesma também, a ouvi-los, deixo o link nos comentários). Há mais:

Nunca subestimem o que a burguesia mundial faz para se manter no poder. Foi dito por esta gente que as casas do ciclone Kristin não estão reconstruídas “porque não há mão de obra”, mas que os investimentos em guerra em Portugal – com jovens a montar drones que matam em Gaza onde influencers se passeiam -estão de boa saúde – 5,8 mil milhões -o que daria para renovar 200 mil casas. Informação importante – a margem de lucro da indústria de guerra é 12%, não são pescadores de carapau.

Uma senhora num canal de Tv espanhola explicou que a serra de Madrid/Ávila ardeu como papel porque a gestão das aldeias e terras foi retirada às populações, com as leis da União Europeia de Rede Natura, protecção disto e daquilo, o que aconteceu foi a abertura para transformar o sul da Europa em minas de lítio e painéis solares. Ela termina, partilho aqui em link o vídeo, inimitável, zangada, furiosa, com uma frase que podemos guardar para o nosso querido mês de julho, queremos auto gestão democrática dos povos e “mais cabras nos montes e menos cabrões nas Instituições”

A Prestação Social e os Parasitas

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 12/06/2026, Revisão da Estátua)


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Creio que posso explicar num segundo o que significa a prestação social única deste Governo, e como ela pode fazer ajudar a garantir os juros dos investimentos de alguém como Palma Ramalho, Ministra do Trabalho, ou da venda e compra de imobiliário de Montenegro, sem que ambos tenham de trabalhar um único dia da vida deles.
Nas sociedades saudáveis só os velhos, crianças, e doentes não trabalham. Porque o trabalho deve ser dividido por todos. Era assim, mais ou menos, até ao capitalismo, quando surgiu a figura do “desempregado”, esse desconhecido até ao século XIX. O desempregado é aquele que garante que o empregado tem medo de perder o emprego, e por isso aceita piores salários. Também, nas nalgumas sociedades, antes do capitalismo, havia o cuidado com os doentes, idosos. Quanto mais idoso mais bem tratado era. No capitalismo quando mais doente ou idoso – já não é “produtivo” – mais abandonado deve ficar, se for das classes trabalhadoras. Os idosos ricos têm trabalho social especializado.

Ora, aqui vai telegraficamente:
1 – se há trabalho social a fazer, como diz o Governo, contratam-se pessoas e paga-se bem. Se se pagar mal, apenss o salário mínimo, são 1600 euros (dos quais 800 líquidos vão para o trabalhador directamente e o resto para a sua reforma, doença, etc).

2 – A proposta da AD, Chega, IL – e da UE – é que se contrate quem tem um subsídio, de 300, 400 ou 600 euros, ou seja, cortar para menos de metade o salário mínimo nacional. O lar privado ou do Estado passa agora a ter empregados por 400 euros. O que sobra deste corte de mais de metade do salário pode ser investido em guerra, ou a remunerar os investidores em juros da dívida pública.

3 – As prestações sociais não são, na sua maioria, “não contributivas”, mentem-nos com todos os dentes – são desempregados que ficaram doentes aos 50 anos, que contribuíram 20 ou 30 anos, gente que ficou sem casa, desmoralizados, ou pessoas que sempre foram doentes. Não são preguiçosos ou arrivistas, como por norma são os filhos de accionistas, netos de banqueiros, especuladores ou políticos profissionais.

4 – O trabalho social não é desqualificado. Algo que qualquer um pode fazer. São terapeutas ocupacionais, psicólogos, terapeutas da fala, assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas – tudo isto, altamente qualificado para cuidar de idosos acamados, esquizofrénicos, gente que não pode andar por maleitas do trabalho, bebés que nasceram com paralisia cerebral.
O que a AD-Chega propõe, é que desempregados pagos abaixo do salário mínimo sem qualificações passam a cuidar de idosos e doentes. É repugnante.

A proposta vem de Palma Ramalho e de Montenegro, Ramalho tem um património de 5 milhões de euros. Que, se estiverem todos no banco, sem ela fazer nada – zero, nestum – recebe no final do ano 75 mil euros em juros! Ou seja, 6 250 euros por mês. Leram bem, mais de 6 mil euros por mês sem nunca trabalhar!

Como, no capitalismo, só o trabalho real produz valor, alguém vai ter de produzir 75 mil euros para os entregar a pessoas como Ramalho. E pode ser uma operária por turnos, despedida com hérnias discais, obesa da má alimentação, deprimida, por ter perdido a casa, aos 50 anos de idade. Esta operária é tratada como parasita na lei da AD e do Chega. Palma Ramalho como uma Sraª Ministra digna.

5 – Acresce algo ainda mais grave – doentes e idosos são os mais vulneráveis a abusos sexuais e maus tratos. Com o trabalho ocasional, degradado, pode haver uma tendência para os tratar mal, e ninguém dá por isso.

6 – Em suma, isto significa: cortes de salário, trabalho forçado (por todas as definições legais e históricas), e abandono de idosos e doentes, com acréscimo de maus tratos. Eis a lei da Prestação Social Única.

Devia responder-se a isto com uma greve conjunta do sector social. Que há muito se deviam unificar numa única organização sindical – façam um grande encontro nacional, unifiquem-se – que questione esta medida de barbárie, mas também as condições de trabalho nas misericórdias, os esquemas de instituições religiosas nos cuidados, que ocuparam o lugar abandonado pela segurança social, e que distribuem tachos aos partidos de direita e extrema direita, que sempre adoraram um pobrezinho, doente, de mão estendida. É a caridade. Afinal, como podia haver alguém com 5 milhões de património se não existissem muitos pobres a pagar a conta?

PS: às maquinas/bots do Chega que aqui vêm sem dar a cara insultar-me perguntando “se se permite uma professora marxista paga por uma Universidade pública” eu escrevi este artigo gratuitamente, como os que aqui escrevo diariamente, em geral às 6 da manhã; a investigação que faço na Universidade devolvo-a em conhecimento a toda a sociedade, é isso que faz um intelectual público, oferece ideias e conhecimento, de rosto à vista; e ainda pago e com alegria, mensalmente, uma quota para o Jornal MaioMaio e outra anual para a Associação Científica que ajudei a fundar, o Observatório para as Condições de Vida – OCV. E sempre que os trabalhadores me pedem ajuda a organizar uma greve eu ajudo, pro bono, com todo o saber que estudei de greves passadas. Contam comigo, trabalhadores e desempregados, idosos e doentes. É a solidariedade. Bem unidos, façamos.

E pode ver também o artigo abaixo sobre o mesmo tema no jornal Maio.