Quantos turistas queremos?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 12/01/2019)

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Miguel Sousa Tavares

1 Não é preciso ser especialmente patriota para concluir que Portugal é um dos países mais agradáveis do mundo para se viver e visitar: basta viajar e comparar. Por um acaso de circunstâncias — geográficas, climáticas, históricas, culturais — aquilo que noutras áreas tanto nos retarda e desespera é também o que, em termos de qualidade de vida, nos faz ser invejados e cobiçados como destino por tanta gente de outras paragens. Há mais de meio século que tiramos partido disso e que, em larga medida, vivemos também disso. Mas fazemo-lo essencialmente à nossa maneira: sem planeamento, ao sabor da procura e com as regras de jogo que nos são ditadas e não com aquelas que escolhemos, como se não tivéssemos alternativa. Em 50 anos, já cometemos erros irreparáveis, destruímos paisagens únicas e comprometemos recursos escassos sem retorno económico que o justificasse a não ser para os seus poucos usufrutuários directos — tantas vezes, aliás, apoiados por dinheiros públicos.

O lançamento do concurso para o Novo Aeroporto de Lisboa (NAL), no Montijo, consagrando enfim a solução Portela+1, é uma excelente ocasião para meditar como as coisas são feitas. Foi o crescimento exponencial do turismo em Lisboa na última década, que ninguém tinha previsto em tal dimensão, que tornou urgente e inevitável o NAL. E foi essa urgência que pôs fim à arrastada discussão sobre a escolha entre a construção de um novo aeroporto de raiz ou a alternativa do Montijo mais a expansão da Portela. Ao ponto a que as coisas chegaram, com 29 milhões de passageiros/ano na Portela, a discussão morreu de morte natural, não por falta de argumentos, mas por falta de tempo. Da mesma forma e pelos mesmos motivos que morreu a questão do estudo de impacte ambiental, superveniente à decisão e logicamente, portanto, um mero pró-forma. Mas há uma discussão que merece ser feita e que, essa, temos tempo para a fazer: quando nos dizem que a solução Portela+1 visa um horizonte de 30 a 40 nos, em que Lisboa possa estar preparada para receber o dobro de turistas por via aérea, uma pergunta se impõe: e nós queremos 60 milhões de turistas por ano em Lisboa, só contando os que chegam por via aérea? E para os enfiar onde — nos 30 hotéis que vão ser inaugurados só este ano e nos 500 mais que teriam de ser construídos até lá? Em mais 50 mil apartamentos dedicados ao Airbnb, em 100 esplanadas de praças que vamos inventar, em praias artificiais que vamos construir na margem sul do rio, nos museus que subitamente vão nascer como cogumelos?

Seria estúpido negar o que o turismo fez pelo renascimento de Lisboa, do Porto e de outras cidades que souberam, mais por iniciativa privada do que pública, aproveitar a “descoberta” recente de Portugal. A reconstrução de um parque urbano decrépito em vez de construção nova, a viragem das cidades para a rua, o aproveitamento das praças e jardins, a recuperação dos centros históricos, tudo isso mudou a cara a Lisboa, ao Porto, a Braga, a Guimarães, a Elvas, etc., e deu às cidades uma outra vida e um outro gosto em olhá-las. Simplesmente, como bem sabemos, nós somos dados ao exagero e quando um negócio é bom, não percebemos que ele só é bom quando não ultrapassa o limiar da sua sustentabilidade. Por mais que se repita e prometa o contrário, não aprendemos nada com o desvario algarvio, porque a ambição se sobrepõe sempre à prudência e porque, em matéria de urbanismo, primeiro autorizamos e depois é que ponderamos. Por mais que os erros se repitam, custa-nos entender que a quantidade não apenas mata a qualidade, como, a prazo, mata o próprio negócio, com uma lógica autodestrutiva de fuga em frente de que depois não há retorno. Veneza é hoje um triste exemplo disso. Mas numa cidade que não pretende ser uma cidade-museu, entregue apenas às pombas e aos turistas, é diferente e mais grave: quando chamamos turistas a multidões, é fatal que o preço a pagar vá ser outro e bem maior.

Convém ver o ponto de chegada e não apenas o ponto de partida: o turismo pode fazer muito pelas cidades, desde que a sua dimensão não afogue a cidade, que não a desvirtue e que não a torne inabitável para quem lá vivia antes e tem de viver no futuro, não sendo turista. E pode fazer muito pela economia de um país, como qualquer produto de exportação, mas, no limite, não representa a saúde económica de um país — que é medida essencialmente, não pelo que consegue facturar exportando mas pelo que consegue poupar não importando. Reduzir as propinas universitárias a zero pode ser uma medida muito popular, embora eu duvide que seja de justiça social. Mas de nada serve se um estudante que vem de fora tem de pagar 500 euros por mês pelo aluguer de um simples quarto na cidade, porque tudo o resto está reservado a turistas. E quem diz um estudante, diz um jovem em primeiro emprego. E quem diz 500 euros, pode dizer 1500 ou 2000 por um T1 no centro da cidade para um casal em começo de vida. Já toda a gente está consciente disto e, pelo menos, o problema da habitação na cidade está no centro das preocupações actuais das vereações municipais. Mas do lado da indústria é como se nada fosse: querem mais e mais. Mais hotéis, mais slots no aeroporto, mais paquetes no Tejo e até chegam a dizer que a classe média e média-alta têm de desaparecer do centro de Lisboa para dar lugar aos prédios de luxo.

Viver na sua cidade e não se sentir escorraçado dela é um direito primário que assiste a qualquer um. Ser mais bem tratado na sua cidade e no seu país do que aquele que vem de fora, para visitar ou viver, é o mínimo que um cidadão tem direito de esperar do seu governo.

Não somos ricos em quase nada, mas somos ricos em qualidade de vida. Podemos e devemos tirar partido disso, na justa medida. Mas não podemos vender a nossa qualidade de vida, ao ponto de deixarmos de a ter. Não há direito mais básico do que este, e é por isso que nenhuma política nos pode exigir uma escolha que sacrifique o essencial em nome de circunstâncias excepcionais que tendem a tornar-se a regra habitual e que fazem a fortuna de alguns com um bem comum que é de todos.


2 Facto 1: estamos entre os países da OCDE com maior abandono escolar após o ensino secundário obrigatório. A baixa taxa de frequência universitária é uma das causas do nosso crónico atraso económico e uma das principais causas de desigualdade social (relatório da OCDE). Facto 2: os professores portugueses do ensino secundário são, em termos comparativos do custo de vida, dos mais bem pagos entre os países da OCDE (Relatório da OCDE). Facto 3: os alunos que escolhem cursos de ensino superior na área da Educação (futuros professores que preparam os alunos para admissão nas universidades) estão entre os piores do secundário e os piores a Português (estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência). Facto 4: os Sindicatos dos Professores (Fenprof e FNE) estão na disposição de trocarem os tão reclamados nove anos, quatro meses e dois dias que contabilizam de tempo congelado para as progressões automáticas na carreira por oito meses por cada ano, para efeitos de reforma antecipada. Assim, os professores que tiverem 60 anos poderão reformar-se com a pensão por inteiro, enquanto para o comum dos portugueses a idade para tal está actualmente nos 67 anos. Tal medida, dizem, “permitirá rejuvenescer os quadros” (Mário Nogueira e Dias da Silva, sindicalistas). Porque os factos falam por si, resisto a fazer qualquer comentário, excepto este: é uma pena que a imagem dos professores portugueses seja a dada pelos seus sindicatos e é uma desgraça para o país que a política de Educação seja há 50 anos determinada ou condicionada por estes sindicatos.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Os pobrezinhos

(António Lobo Antunes, in Blog Resistir, Abril de 2017)

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O texto é dedicado à Dra. Isabel Jonet

(A propósito do recente texto que publicámos sobre os Tempos de Salazar, resolvemos recordar esta excelente descrição, de António Lobo Antunes, sobre o que era a pobreza nos tempos de Salazar e a forma como as classes mais privilegiadas a encaravam. 

Infelizmente, a pobreza ainda abunda por aí e os mais deserdados continuam a ser encarados de forma semelhante àquela que o texto retrata, ainda que talvez de forma um pouco menos acintosa.

Comentário da Estátua, 29/12/2018)


Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres.

Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.

Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

– Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.

O plural de pobre não era “pobres”. O plural de pobre era “esta gente”.

No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre.

Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

– Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável.

O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

– Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

– Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:

– O que é que o menino quer, esta gente é assim.

E eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais.

A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

– Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar, e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado “Almanaque da Sãozinha”, se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.


Fonte aqui

Previsões para 2018 (depois logo se vê)

(Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 25/12/2018)

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Todos os anos por esta altura os jornais pedem a dirigentes político-económicos e outros comentadores que digam o que esperam para o ano que aí vem. É um exercício heróico. Antecipar a evolução das sociedades humanas é, em certa medida, mais difícil do que prever o tempo.

Tal como a meteorologia, a dinâmica social é feita de choques imprevisíveis que alteram o rumo dos acontecimentos – guerras, catástrofes naturais, ataques terroristas, mortes inesperadas, surgimento de heróis acidentais, revelação escandalosas, etc. Como em qualquer sistema complexo, uma multiplicidade de agentes estabelece um número astronómico de interações, em sequências que simplesmente não é possível antecipar, tornando algo inglória a tentativa de ditar o futuro.

Há no caso das sociedades humanas um fator que simultaneamente dificulta e simplifica o esforço de previsão. Ao contrário do vento, da chuva ou dos raios solares, cada ser humano processa a informação que lhe chega e a ela reage de modos muito diversos. No ato de deliberação sobre agir ou não agir e como, os seres humanos constroem a sua própria história. A vários níveis, as pessoas são menos previsíveis do que os átomos, as moléculas e a energia em interação.

Por outro lado, precisamente porque estamos treinados para agir ou não agir em função da informação que nos chega, prezamos a estabilidade. Por muito que alguns admirem a transformação permanente, todos nos sentimos bloqueados na ausência de referências estáveis para orientar a nossa ação. Isto, por si só, torna as ações individuais mais previsíveis.

Ainda mais importante do que as ações individuais, a busca de previsibilidade leva os seres humanos a construir (ou a aceitar) sistemas estáveis de relações sociais – como os contratos verbais e não-verbais, as regras e as leis, as instituições formais, ou simplesmente os comportamentos rotineiros que definem em cada sociedade o que é e não é correto fazer e dizer. Por vezes, as regras que as sociedades humanas estabelecem para si próprias são de tal modo rígidas que as mudanças só acontecem sob a forma de cataclismos ou revoluções. Mas tais eventos são tão drásticos que é muito difícil antecipar se e quando poderão acontecer.

Tudo isto faz com que seja tanto ou mais interessante contrastar o presente com as previsões que dele se fizeram, quanto tentar prever o que aí vem.

A vários níveis terminamos 2018 com as mesmas expectativas com que iniciámos o ano. As nuvens de incerteza que rodeiam a administração Trump, seja a nível interno nos EUA ou nas relações com o resto do mundo, podem ou não vir a transformar-se em tempestade. O imbróglio do Brexit pode ou não vir perturbar as economias europeia e mundial. A eterna instabilidade no Médio Oriente pode ou não vir a originar uma crise petrolífera e o acentuar do estado de guerra que há muito caracteriza aquela parte do mundo. O que surpreende no mundo de hoje é que a mera expectativa de sobressalto já não chega para causar mossa. Os mercados antecipam o risco, os preços dos ativos ajustam-se e os negócios prosseguem, até que algo de muito grave aconteça.

No meio de tanta instabilidade, a União Europeia surpreendeu uma vez mais pelo seu imobilismo, para o bem e para o mal. Há um ano anunciavam-se “avanços” na integração europeia em resultado da incerteza mundial, o potencial de uma nova era protagonizada por Macron, riscos do populismo em Itália, eventuais alterações na política monetária do BCE. Um ano depois quase nada se alterou.

Perante isto, uns dizem que a UE não sai da cepa torta, continuando a caminhar para o colapso inevitável; outros elogiam a sua resiliência face a um mundo instável. De uma forma ou de outra, a UE que temos foi concebida para isto mesmo: para que nada nem ninguém a possa mudar. Será mais fácil transformar um Hollande, um Tsipras, um Macron ou um Salvini do que alterar o Tratado da UE. Quem não está preparado para apostar em cataclismos ou revoluções no curto prazo, melhor faria em assumir que nada de substancialmente novo virá de Bruxelas.

Quanto a Portugal, esperavam-se poucas mudanças para 2018. A surpresa é mesmo o pouco que mudou. Ao nível económico, o desemprego continuou a cair e a economia a crescer, ainda que com alguma desaceleração – como quase todos previam. Em parte por isso mesmo, o quadro político manteve-se praticamente inalterado, com as sondagens de fim de ano a mostrarem uma distribuição de intenções de voto muito semelhante às do início de 2018 (apenas com uma pequena descida do PSD nas sondagens, compensada por uma ligeira subida do CDS).

A estabilidade do quadro político é surpreendente para quem acompanha o dia-a-dia do país através dos jornais e televisões. A julgar pelos media, não faltaram em 2018 escândalos, polémicas e tensões na política portuguesa: Tancos, touradas, Robles, passwords falsas, reembolsos indevidos, coletes amarelos, entre outros. Poucos previam estes acontecimentos no final de 2017. Pouco parece importar.

O que 2018 parece querer ensinar-nos é isto: enquanto o mundo lá fora não nos pregar partidas, o país não está para grandes mudanças. Depois logo se vê.