Os donos de Portugal

(Por Estátua de Sal, 31/01/2017)

Este documentário, exibido e realizado para a RTP e disponível na internet deveria ser viral. Mas não é. Foi realizado em 2012 e passou às 23h na RTP2. Passou de novo a 5 de Novembro de 2014 à mesma hora no mesmo canal. E passou no passado dia 27 de Janeiro, no mesmo canal, às 2h da madrugada!!

Nele estão presentes muitas das causas dos males do País. As élites que temos são nele retratadas de forma realista e fria. Como deve ser um bom trabalho jornalístico.

Ver esta peça é fundamental para se perceber como há meia dúzia de famílias que há décadas mandam no país. E continuam, em grande parte a mandar. E, infelizmente para nós, a mandar muito mal.

Pelos vistos, há quem não queira que o Povo saiba disto. No horário nobre das televisões servem-lhe telenovelas e futebol. E mesmo a RTP2, à cautela, só divulga isto pela calada da noite. A verdade servida só aos noctívagos é sempre mais inodora e insípida.

São quarenta e cinco minutos que valem a pena, acreditem.


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Esta Nau Catrineta – O Meu País

(António J. Branco, in Blog O Meu País, 29/01/2017)

 

Fundado por Dom Afonso Henriques em meados do século XII, Portugal é um dos poucos, pouquíssimos países (também Nação), com mais de duzentos e cinquenta anos de história. Filho “rebelde”, guerreiro, empreendedor, destemido, Dom Afonso Henriques, O Conquistador, mostrou desde o início uma estratégica eficaz com vista, não só ao alargamento do território, como também ao derrube de barreiras dogmáticas que limitavam (e limitaram) a sua acção enquanto rei, administrador e político. Uma das suas maiores guerras foi a resistência ao poder papal, que viria a ganhar (perdendo dinheiro) em Mil Cento e Setenta Nove, “comprando” a Bula Manifestis Probatum, ao Papa Alexandre III, que reconhecia Portugal como reino independente, mais de cinquenta anos depois de Dom Afonso ter dado os primeiros passos nesse sentido com a vitória na Batalha de São Mamede, em Mil Cento e Vinte e Oito.

Começámos bem, muito bem; com a Nau, esta Nau, a vencer milhas, desbravando territórios e chegando onde nunca antes alguém chegara.Orgulhemo-nos, pois, da nossa história, mas guardemos também a sua memória na qual, para além de fracos reis, “Alguns traidores houve algumas vezes” (Camões).

Mais de oitocentos anos após o sonho do Rei Fundador, Portugal está de novo à procura da sua independência, lutando não só contra os “primos” da actualidade (os reis de Leão e Castela de então) como também contra o poder dogmático de um “papa” que se permite (sendo-lhe permitido) validar bulas probatuns de duvidosos manifestis. Ah! Mas Portugal já passou por isto noutras eras – A Nau já foi saqueada em outras andanças. Pois já. E já enforcou “Távoras”, eliminou “Condes de Andeiros”, defenestrou “Vasconcelos” e “Migueís”, expulsou reis usurpadores e outros tais – “Que os muitos por ser poucos não temamos”.

A Nau, que até há bem pouco tempo navegava em mar alto e sem capitão de navio esteve (opinião pessoal minha), tal como a Catrineta, abandonada, à deriva e com a tripulação a morrer de fome, onde uma grande parte dos “marinheiros” sobreviveram alimentando-se uns dos outros: os que caíram no chão (inertes e impotentes) “comidos” pelos não mortos, mas também pouco vivos.

Premiaram-se os “Vasconcelos”, branquearam-se os “maus reis”, apagou-se a memória e tentou (tentaram alguns) reescrever-se a história, como se todos fossemos imbecis, desmemoriados, incapazes, imberbes e inúteis. Sem Rei, nem “Roque”, nem Timoneiro (ainda que um dos “grandes”, em tempos como tal se tenha afirmado), os Putos (sem parecerem bandos de pardais), oriundos de “Jotas” e outras tais, brincaram ao ajoelha aqui e dobra ali, perante os papas de agora e as papisas de um presente que se julgava extinto em termos de brio, dignidade e hombridade.

Tendo o tempo rodado alguns graus na direção certa e no sentido conveniente, vêm de novo os putos traquinas, de calções pelos joelhos e agrafados em suspensórios à cintura, oriundos de malfeitorias nefastas, pregar sermões ao vento (que aos peixes não conseguem fazer-se ouvir), anunciando a boa nova de velha maneira de pensar, fazendo crer que o povo, mais do que asno e burro, é também jumento apardalado em dia de chuvisco intenso que ao fim de tanto chover acaba mesmo por molhar.

Chamem-me, pois, tudo o que quiserem (“Serei tudo o que disserem”): miserável, pobretanas, invejoso. Mas estúpido, burro, asno, imberbe e inútil (“Poeta castrado”), NÃO!


Fonte: Esta Nau Catrineta – O Meu País

Europa: a História não deu nem tirou a razão a Soares

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/01/2017)

Autor

                                  Daniel Oliveira

Gostamos de discutir se a História deu ou não razão a alguém. Porque todos queremos estar do “lado certo da História”. A ideia é duplamente absurda. Primeiro, porque assume que o político trabalha para a História. O político trabalha para os seus contemporâneos e para um horizonte previsível. Ficar na História não é um objetivo, é uma consequência.

Depois, porque apesar do distanciamento permitir um olhar mais desapaixonado, o passado depende sempre do presente. E o presente vai mudando e com ele o olhar sobre os mesmos acontecimentos. A História nunca chega ao fim. Dá razão e volta a tirá-la. O importante não é estar do lado certo da História – para o conseguirmos teríamos de saber do fim dos tempos –, mas fazer o melhor possível com os dados que se tem.

Com a crise do euro não faltou quem dissesse que a História veio dar razão aos comunistas. No momento da morte de Mário Soares, associa-se a defesa da democracia e da liberdade ao seu europeísmo, dizendo que ele esteve do lado certo da História. Não pretendo resolver esta disputa. Quero apenas dar-lhe alguma perspectiva.

O projecto europeu desempenhou, na minha opinião, quatro funções para Portugal: consolidar a democracia, livrar-nos de uma elite bafienta, subsistir a vocação imperial pela vocação europeia e dar ao País meios para o seu desenvolvimento económico.

A primeira era a mais evidente e talvez a que mais moveu Mário Soares: ela consolidava o processo democrático, defendendo Portugal de outra influência que não fosse a europeia e norte-americana. Com a entrada na CEE, 11 anos depois da revolução, a democracia tornou-se irreversível. Não é possível fazer História contra-factual, mas não estou seguro que isso acontecesse sem a integração no clube das democracias europeias ocidentais. E foi isso, muito mais do que as criticas económicas, que moveu o PCP contra a entrada de Portugal na CEE.

A integração europeia abria o País ao exterior, vencendo décadas de isolamento que criaram uma elite provinciana, rentista e profundamente reaccionária. O regresso, ao fim de poucos anos, das burguesia criada ou protegida por Oliveira Salazar durante décadas – Champalimaud, Mello ou Espírito Santo – aos mesmos lugares de onde partira em 74/75 desmentiu essa ilusão. A nossa elite económica mudou muitíssimo menos do que o resto do País: é mais atrasada, medrosa e impreparada do que o povo que supostamente lidera. Mas é verdade que surgiram, apesar de tudo, novas elites cuja a ascensão só foi possível com a integração no espaço económico europeu. Não estou seguro é da sua relevância.

A adesão à CEE permitia que o país fugisse da sua própria pequenez, substituindo o Império pela Europa. Ao contrário dos dinamarqueses, belgas ou islandeses, Portugal nunca conseguiu viver de forma descomplexada com a sua dimensão. O facto de ter detido um império colonial não o dotou dessa humildade realista. E isso está interiorizado naquilo que somos.

Este complexo de simultânea menoridade e megalomania, esta fatalidade do império perdido, faz parte do que somos. Os maiores traumas que vivemos estão todos ligados a esta perda imperial: Alcácer-Quibir, desmantelamento luso-brasileiro, ultimato britânico e descolonização.

Todos eles resultaram nas mais profundas mudanças políticas que a metrópole conheceu. A quinta mudança foi a integração europeia, que nos “salvou” do maior dos nossos medos: a nossa própria pequenez. Ainda hoje, esse terror determina uma total incapacidade de discutir o nosso papel na Europa. Temos pânico de ficar confinados a este rectângulo.

Por fim, a Europa daria ao País os meios económicos e políticos para o seu desenvolvimento. Quem viveu os anos 70 sabe que Portugal se tornou irreconhecível desde então. Perco a conta às vezes que digo à minha filha que no meu tempo não havia isto e aquilo. E percebo quase sempre que a fronteira foi a entrada na Europa. No que toca a serviços públicos e alguns direitos básicos, o 25 de abril foi mais determinante. Mas na economia e no acesso a bens de consumo a Europa é que fez a diferença. O preço foi, como sabemos, a destruição de grande parte de um tecido produtivo obsoleto, sem a necessária substituição por um mais moderno. A Europa, em vez de ajudar a substituir por uma economia mais modernizada, contribuiu para desmantelar e substituir a produção por importação.

Era possível dizer – dizia-se sem qualquer receio –, nos anos 90, que a aposta de Soares tinha sido totalmente ganha e que os comunistas tinham mostrado, mais uma vez, estar do lado errado da História. Portugal conhecia níveis de desenvolvimento e qualidade de vida nunca vistos, era impossível aflorar sequer qualquer tipo de crítica à escolha europeísta. A opção definida em Maastricht e consolidada em Lisboa, que encaminhou a União para um projeto de liberalização económica e divergência entre nações estava já inscrita no DNA do projeto europeu. A criação do euro e o alargamento exponencial e descontrolado da UE transformou a Europa noutra coisa. Depois de cumprir todas as suas funções, a nossa participação na União Europeia está a ter o resultado oposto ao pretendido: está a desgastar a nossa democracia (e a das restantes nações europeias), esvaziando-a de objeto e propósito; colocou no lugar da nossa obsoleta elite económica um poder financeiro distante, volátil e predatório; substituiu os nossos sonhos imperiais por uma mentalidade de colonizado; e retirou-nos qualquer instrumento soberano que permita defender o nosso desenvolvimento económico e social.

Soares apoiou todos os passos que foram dados para aqui chegar, em especial a criação do euro. E fê-lo na convicção de que a Europa que defendia era a mesmo que tinha garantido um enorme desenvolvimento social e económico e a consolidação da nossa democracia. Tal como Mitterrand, Soares era uma político sem sensibilidade económica. Por isso sobrevalorizou o processo de integração política e ignorou a dinâmica económica e de poder entre Estados que a integração monetária provocaria.

Nos anos 90, Soares mostrava que a escolha europeia pela qual se bateu estava totalmente certa, o que obrigou os comunistas a enfiar a viola no saco. Em 2017 é impossível dizer as coisas assim. Isto apenas quer dizer que a História nunca está feita, e por isso nunca sabemos a quem ela vai realmente dar razão. Vai dando e tirando razão a todos. Com os dados que tinha, Soares fez a escolha certa: a integração europeia consolidou a democracia, abriu o país ao mundo e garantiu um extraordinário salto económico e social. A União que se forjou para o século XXI não oferece ou oferecerá nada disso. Soares percebeu-o e foi-se opondo ao rumo que as coisas tomaram, não percebendo que as condições para este novo momento foram definidas pela sua própria geração – Mitterrand e Kohl –, quando iniciou a caminhada para a integração monetária e forçou novos passos para os quais a Europa não estava preparada.

Reconhecer que o projeto europeu, que garantiu décadas de paz, protegeu o Estado Social e permitiu uma convergência económica e social entre Nações livres, está morto e que a União é hoje o oposto disto tudo representa, para tradição socialista europeia de que Soares é uma das figuras históricas, um momento tão doloroso como aquele que os comunistas viveram nos anos 90.

Fazê-lo não tira razão à escolha europeia que Soares defendeu nos anos 70 e 80. Apenas assume o que Soares assumiu muitas vezes: que as opções mudam quando muda a realidade. A História deu razão a Soares e depois tirou-a. Será a nova geração de socialistas a adaptar-se a um tempo em que ser europeísta quer dizer o contrário do que queria.