O mundo rendido a Ronaldo

(In Diário de Notícias, 16/06/2018)

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No The New York Times, Rory Smith conta como Portugal negou “um momento catártico” à vizinha Espanha. Tudo graças a um livre direto de Ronaldo. Prova de que “à 45.ª é de vez”.


A única coisa que os adeptos espanhóis podiam fazer, depois de terminado, era aplaudir. Não fazia sentido abandonarem-se à desilusão, preocupados com o que tudo aquilo poderia significar. A Espanha teve a vitória arrebatada no último momento, viu negado um momento catártico pelo seu vizinho mais próximo mas, no entanto, não houve amargura nem tristeza: apenas admiração e espanto, às vezes não é a vitória, mas a participação.

Deve ter havido certamente um jogo melhor na fase de grupos do Campeonato do Mundo no passado do que o fascinante empate entre Espanha e Portugal na sexta-feira. Tem de ter havido um que tenha sido jogado com mais qualidade, mais rico em drama e mais absorvente. Esse jogo, onde e quando quer que tenha sido jogado, deve ter sido verdadeiramente notável.

Porque superar o que aconteceu na sexta-feira não é uma tarefa simples. Por duas vezes, Portugal liderou. Por duas vezes, a Espanha recuperou, antes de Nacho Fernández marcar o tipo de golo que supostamente está além da habilidade de um lateral direito. O golo deu à Espanha a liderança pela primeira vez na partida e colocou Fernando Hierro, o técnico espanhol, a caminho de uma imensa vitória com apenas um jogo e dois dias no cargo. E então Cristiano Ronaldo, mais uma vez, interveio.

Se os preparativos de Espanha para este jogo foram conturbados – com a demissão do seu técnico anterior, Julen Lopetegui, na véspera do início do Campeonato por não ter revelado que estava prestes a assumir o comando do Real Madrid -, os de Portugal também não foram muito melhores.

Vários membros da equipa, que venceu o Campeonato da Europa em 2016, estão prestes a rescindir os contratos com o seu clube, o Sporting Clube de Portugal, de Lisboa, devido à intimidação dos adeptos e a uma rutura na relação com o presidente do clube.

Entretanto, na manhã de sexta-feira, poucas horas antes do jogo, surgiu nos meios de comunicação espanhóis a notícia de que o próprio Ronaldo havia concordado em pagar às autoridades espanholas 21,8 milhões de dólares em impostos não pagos. Ele também recebeu uma sentença de dois anos de prisão com pena suspensa, segundo os jornais. Seria difícil de acreditar que esses acontecimentos não o perturbassem enquanto o jogo se aproximava.

Ainda assim, foi Ronaldo quem deu a liderança a Portugal, ganhando e convertendo uma grande penalidade com quatro minutos de jogo apenas. E foi Ronaldo quem recuperou a vantagem, com o pontapé que fez a bola passar sob o guarda-redes espanhol David De Gea, quando a primeira parte se aproximava do fim. E foi Ronaldo quem, faltando apenas alguns minutos para o fim da segunda parte, marcou um livre perto da grande área espanhola, com Portugal a perder por 3-2.

Ele havia marcado 44 livres nos Campeonatos do Mundo anteriores. Não marcou golo em nenhum deles. Contudo, como se costuma dizer: à 45ª é de vez.

É verdade que Ronaldo, aos 33 anos, já não é o jogador que era. Ele ainda está perfeitamente esculpido, é claro, uma capa da revista Men´s Health em pessoa, mas o ritmo elétrico abrandou um pouco; já não cobre tanto terreno (apenas um jogador, o defesa português José Fonte, correu menos que Ronaldo numa primeira parte em que um deles marcou duas vezes).

Mas é igualmente verdade que Ronaldo, mesmo no seu crepúsculo, brilha mais do que qualquer jogador com quem entra em contacto. Mais do que esmorecer como jogador, ele evoluiu para algo diferente. É enganador sugerir que se transformou num atacante, num predador da área da grande penalidade, porque ele não é realmente limitado por conceitos mortais como a geografia.

Em vez disso, ele atingiu um nível de eficiência tão devastadora que agora não exige realmente algo tão trivial quanto a bola. Ele não precisa de estar envolvido. Muitas vezes parece que não está a fazer nada ou algo bem próximo disso, como se fosse um mero passageiro. É uma ilusão. Ele está sempre no cockpit.

Isco, seu companheiro de equipa no Real Madrid, foi o jogador dominante no campo, aquele que esteve mais envolvido, que estimulou, sondou e espicaçou, e que vestia uma camisola da seleção espanhola. Ronaldo foi além da necessidade de ditar jogos. Ele preocupa-se apenas em defini-los.

O seu pontapé livre, é desnecessário dizer, elevou-se artisticamente, sem esforço, passou De Gea e entrou no canto da baliza espanhola, como Ronaldo, apesar de todas as evidências históricas em contrário, deve ter sabido que entraria.

Portugal que, como agora se vê, é uma nação que foi constituída em 1128 para que um dia pudesse produzir Cristiano Ronaldo, teria o seu empate. Mais importante, o Campeonato do Mundo de 2018 teve a sua centelha. O resplendor de um jogo como este pode durar pelo menos duas semanas. Nesta fase, ele pode ressoar pelo mundo.

A Espanha teria sido perdoada por se sentir como uma vítima. Foi a melhor equipa neste jogo, teve mais posse de bola, criou mais oportunidades, jogou o futebol mais inteligente, mais suave.

Parecia uma candidata ao título de Campeã do Mundo e não como se estivesse ainda em recuperação da saída de Lopetegui, abalada na sua essência por uma disputa entre os seus jogadores e os dirigentes da federação do país, tendo que se ajustar à vida sob um novo treinador que, até agora, tinha treinado apenas uma equipa da segunda divisão.

O facto de os jogadores espanhóis não terem permitido que nada disso os detivesse na sexta-feira, serve apenas para enfatizar a dimensão do desempenho de Ronaldo e a qualidade geral da partida.

E quando soprou o apito final, o estádio ficou de pé: não só os grupos de adeptos portugueses, não só os neutros e os russos, mas também os adeptos espanhóis, com aquelas camisolas vermelho-sangue. Eles aplaudiram a própria equipa, é claro; houve incentivo suficiente que permitiu ver o cenário completo, acreditar que o tumulto dos últimos dias pode não ser fatal para as suas esperanças.

Mas quando os jogadores de Espanha deixaram o campo, e Portugal ficou no círculo central, os adeptos espanhóis permaneceram de pé e continuaram a bater palmas enquanto todos os jogadores portugueses procuraram Ronaldo, para lhe apertar a mão, passar-lhe a mão pelo cabelo como se ao tocá-lo estivessem a tocar em algo sagrado.

Eles não se importam que ele atraia – exija, na realidade – toda a atenção. Eles não se importam de estar no elenco secundário, assim como os adeptos espanhóis não se importaram de fornecer o público para os três atos do espetáculo de um homem só. Às vezes, é um prazer estar simplesmente presente; às vezes, é um prazer recostar e assistir. E, no final, às vezes não há mais nada a fazer senão aplaudir.

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O que é feito da Yupido?

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 06/06/2018)

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(Agora, em Portugal, há uma comunicação social ejaculatória. Depois do repuxo, murcha logo e não se ouve falar mais no assunto. Tenho mais uns “cromos” para troca:

1) Qual o resultado da auditoria que Marcelo terá mandado fazer às contas de Belém e de Cavaco, quando chegou à Presidência da República?

2) Qual o resultado da auditoria no Ministério das Finanças aos computadores que não tinham registado a fuga de 10000 milhões de euros para offshores?

3) Qual o resultado da Comissão Europeia ter exigido de volta os milhares de euros de financiamento que fez à Tecnoforma devido às irregulariddes detectadas na empresa de Passos Coelho e comandita? Já pagámos? Vamos pagar? Está contemplada a verba no orçamento de Estado?

Comentário da Estátua, 06/06/2018)


Em setembro do ano passado, e durante uns dois dias, o País descobriu, subitamente, que a empresa portuguesa com maior capital social em Portugal se chamava Yupido, S.A, com uns robustos 28.768.199.972 euros, ou mais de 15% do PIB.

A informação despontou no Twitter e os jornalistas mais atentos pegaram nela. Lá se descobriu qualquer coisa. Aquele valor decorria da valorização de dois ativos tecnológicos, devidamente validados por um ROC. Dessa validação resultava que estava em causa “uma plataforma “de armazenamento, proteção, distribuição e divulgação de todo o tipo de conteúdo media” diferenciada “pelos algoritmos que a constituem”. Seja lá o que isso quer dizer.

A empresa tinha uma sede virtual, num escritório sem extensão telefónica. Não tinha clientes, não se lhe conheciam trabalhadores – embora tenha tido estagiários, que devem ter aprendido imenso – e nenhum parceiro comercial relevante. O montante de vendas era 0. Coisas assim. Tudo normal. Ou não.

Seguiu-se o habitual circo mediático, que como de costume foi muito intenso – não em profundidade, mas em número de notícias, isto porque a maioria dos órgãos de comunicação social se limitou a citarem outras noticias, numa cascata de inutilidade – e pouco durou. Incluiu, de forma algo deprimente, jornalistas a baterem a portas no pacato bairro de Telheiras.

De seguida, outro clássico, toda uma litania das entidades públicas a reboque de perguntas de jornalistas.

Segundo a imprensa da época, do Ministério Público à Polícia Judiciária, e da CMVM à Ordem dos Revisores Oficiais de Contas, isto é, tudo quanto era entidade supostamente responsável tinha aberto um inquérito, averiguação ou coisa que o valha. Até a Autoridade Tributária veio dizer, com a habitual gravitas, que não comentava a situação de contribuintes em particular.

Com isto tudo, está visto que já sabemos, entretanto, tudo sobre o que se passou. Não. Sabemos o mesmo. Que é quase nada. Nenhum jornalista voltou ao assunto depois do entusiasmo inicial, nenhuma entidade pública deu conta das conclusões a que se chegou. Nada. Zero.

E a Yupido aqui é só um exemplo. Estamos consumidos por um ciclo de informação de baixo valor acrescentado, que aparece e desaparece ao sabor de um ciclo mediático cada vez mais curto. Uma Economia não funciona bem assim.

No meio disto tudo, passou o tempo de uma gestação, da Yupido nunca mais ninguém ouviu falar e mais uma vez ficamos sem informação detalhada. Nós e o pobre especulador que foi a correr registar o domínio yupido.pt, convencido que estava a fazer o negócio de uma vida, e que o tem para venda até hoje. Os meus sentimentos.

A secura

(In Blog O Jumento, 23/05/2018)

blabla

 Portugal tem algum tema que mereça a preocupação dos cidadãos ou que mereça ser alvo de um debate público? A resposta é não, os canais de informação das televisões dedicam-se a tempo inteiro ao balneário de Alcochete e os três pontos na testa do Bas Dost são mais importantes do que os problemas do SNS, que foi notícia porque morreu António Arnaut.
Qual foi a última intervenção de António Costa de que nos lembramos? Foi a comentar o pedido de reunião que lhe foi endereçado pelo Sporting. Qual foi a último grande gesto de Marcelo? Foi  sua presença corajosa em Oeiras e a forma como forçou a ausência de Bruno de Carvalho. Qual foi o último cometário de Rui Rio de que nos lembramos? Foi sobre Alcochete.
Resumindo, Portugal tem um único e grande problema, os acontecimentos de Alcochete onde os muitos feridos e mortos se sintetizam nos três pontos na testa de Bost e um cagaço promovido a atentado terrorista pela Dra. Maria José Morgado. As eleições mais importantes do país deixaram de ser as legislativas e as europeias para passarem a ser as do Sporting. A próxima reunião a acompanhar não é o congresso do PS mas sim o próximo encontro entre Marta Soares e Bruno de Carvalho. O Novo Banco deixou de ser problema e as atenções estão no boné do Ricciardi com a inscrição GAJ, Grupo de Apoio a Jesus. Não importa se Centeno continua no Eurogrupo, a dúvida é se Jesus cumpre ou não o contrato.
O país é isto, uma merda de comunicação social que vive da sua cultura de pasquim e que sem incêndios, assaltos a Tancos ou falsos atentados terroristas em Alcochete não sabe como sobreviver. O país está condicionado pelos telejornais e os próprios políticos vivem para os jornais, as prioridades do país deixaram de ser os seus problemas para serem os que dominam a agenda. Em vez de elegermos políticos para pensarem no país, elegemos políticos que assistem ao telejornal da manhã para saberem o que vão dizer no da hora de almoço e depois esperam pelo da noite para saberem o que se diz do que eles disseram.