A cruzada do bem

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 18/02/2025)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

27 de Fevereiro de 2022, há pouco menos de três anos.

Se alguns nem sabiam situar a Ucrânia no mapa; outros, se das direitas, agiam por atávico reflexo condicionado e pensavam convictamente que a Rússia era «o comunismo», enquanto outros, se das esquerdas, afirmavam serem os russos «nazis».

Havia, ainda, os impressionáveis, aqueles que sem manifestar qualquer interesse em perceber o que ali acontecia há muito, lançavam mão ao discurso primitivo do anti-russismo desmazelado, pensando que bastava encadear um colar de adjetivos vazios e chorosos para adubar o fogo cego dos desabafos raivosos.

Todos, sem exceção, tanto os das direitas, como os das esquerdas, ou ainda os despolitizados, há muito que haviam aderido acriticamente ao preconceito da superioridade da «nossa maneira de viver», muito embora, tanto uns como outros se odeiem profundamente e tenham um entendimento conflituante a respeito dessa «maneira de viver».

Verificou-se, ainda, um fenómeno há mais de cem anos apontado por Le Bon: o surgimento dos camaleões que se queriam furtar às acusações dos extremistas de signo oposto e, assim, faziam o banho lustral de bondade. Partidários do Chega, do eterno envergonhado CDS, do PSD, do PS, do Bloco e do Livre irmanaram-se ombro a ombro com a bandeira que passara a ser o pendão comum azul-amarelo da forquilha invertida.

Os esquerdistas ali metidos não perceberam que glorificavam uma etnocracia “nacionalista” que por cá tanto abominam, ou um regime vassalo dos EUA e da NATO, enquanto os direitistas aplaudiam e exultavam com a cruzada contra o regime russo que é o contrário do “woke” que insuportavelmente lhes enche a boca de manhã à noite.

Obviamente, todos se portaram inqualificavelmente mal e conseguiram a proeza de colecionar todas as fraquezas possíveis de apontar aos homens [e às mulheres]: fraqueza intelectual, ignorância, caça ao inimigo inexistente, agressividade, arrogância, preconceito, irresponsabilidade, intolerância, imaturidade e, pois, oportunismo. Terão de beber a tisana depuradora antes de poderem voltar a falar.

5 pensamentos sobre “A cruzada do bem

  1. A falta de cultura é confrangedora. Mas beneficia os fachos de ontem e de hoje! Ainda bem que há gente a escrever o que aconteceu.

  2. Ou seja, se bem compreendi, por vezes será necessário dar uma no cravo, outra na ferradura, tipo só a verdade é revolucionária, embora, por vezes, não possa ser revelada! Certo?

  3. Pessoalmente também acho que a Rússia devia ter invadido mais cedo, aliás, logo em 2014, em vez de assobiar para o lado enquanto os banderistas cometiam crimes hediondos como a queima de dezenas de pessoas vivas em Odessa.
    Mas se a coisa foi como foi o que seria se dirigentes da tal esquerda tivessem dito claramente que apoiavam a ação militar russa?
    Teria havido pelo menos uma petição, que recolheria aí um milhão de assinaturas nos primeiros três dias, a exigir a deportação para a Rússia de quem fosse militante do tal partido ou denunciado como simpatizante.
    Por isso foi preciso dizer que a invasão foi má mas mau foi também a política de confrontação com a Rússia e mau e também continuar a política de confrontação em vez de negociar a paz.
    Mas continuamos a ter uma população anestesiada que continua a achar normal que nos digam que morreremos onde tivermos de morrer e que e preciso comprar armas e mais armas sob pena de sermos invadidos pela Rússia.
    E assim sendo, quem se atrevera a dizer, sob pena de perder ainda mais gente, que a Rússia tem razao nesta trapalhada toda?
    E a paz essa e que não chega.
    O Tiranossauro diz agora que quer eleições na Ucrânia.
    Ora eleições numa terra tomada por nazistas e uma Gestapo, chamada SBU, que mata opositores como cães, como garantir que essas eleições sejam mesmo justas e não um mero acto de legitimação de Herr Zelensky?
    Vão ver se o mar da choco.

  4. Houve uma esquerda que não papou histórias da carochinha.
    Uma esquerda que sempre disse que a política de confrontação com a Rússia acabaria por dar mau resultado.
    Uma esquerda que sempre disse que as políticas de destruição de países para lhes sacar recursos e a política de sanções assassinas para que outros tenham regimes “amigos” que vendessem esses recursos a troco de quase nada lançando os seus povos numa miséria negra levaria os dirigentes russos a acreditar, com razão, que lhes queriam fazer o mesmo.
    Putin disse o claramente, que não jogaria a sorte do seu país com uma aliança que se diz defensiva mas já tinha destruído vários países, nomeadamente Jugoslávia, Iraque e Libia.
    Uma esquerda que não achava lógico que se andasse a diabolizar Putin só porque este defendia valores conservadores e não embarcava em defesa de minorias sexuais.
    Uma esquerda que sempre denunciou a guerra feita no Leste da Ucrânia desde 2014 e o Golpe de Maidan.
    Que sempre denunciou o crescimento exponencial do nazismo na Ucrânia e a perseguição sem tréguas as forças de esquerda no país com a ilegalização de partidos.
    Mas essa esquerda foi sempre diabolizada e classificada como Putinista.
    Foi fortemente penalizada em termos eleitorais e quem era identificado como seu militante ou simpatizante era enxovalhado na rua com mimos como “vai para a Rússia” e “devias ser deportado para a Rússia e obrigado a pagar a viagem”.
    E tenho a certeza que se alguém se lembrasse de fazer mesmo tal barbaridade esses grunhos estariam a porta a aplaudir enquanto os desgraçados eram arrancados de casa a exemplo dos grunhos polacos que aplaudiam a deportação dos judeus para campos de concentração.
    Sedes do partido foram brindadas com insultos na parede fronteira e “altares” alusivos a guerra da Ucrânia.
    Enfim, lá foi preciso a malta pintar a parede que por acaso até estava a precisar e limpar as fotografias, flores e o raio que parta.
    E sorte por ninguém se ter lembrado de desatar a queimar sedes como no tempo da extrema direita no tempo do PREC.
    Essa esquerda continua a dizer que e preciso abandonar o caminho da confrontação e do desperdício em armamento e tomar o caminho do desenvolvimento, da cooperação e da paz.
    Por isso desculpem lá mas não ponham tudo no mesmo saco com o PS que nunca foi esquerda, e as enguias do Bloco e do Livre.
    Podem ser poucos, cada vez menos, como se ufanam uns e outros por aí, mas ainda há alguns por isso não vale a pena ignora los e por tudo no mesmo saco.

    • Mas essa mesma esquerda não condenou a «invasão» da Ucrânia pela Rússia? A Rússia devia ficar a ver o regime de Kiev, discípulo dum Bandera, fazer dos russófonos do leste do país o mesmo que o regime israelita tem feito aos palestinianos em Gaza?

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.