Perguntem ao Marcelo

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 19/07/2019)

Ivo Rosa

Pelo altíssimo prestígio conquistado na academia e na prática profissional, pelo longuíssimo protagonismo adquirido na política e na comunicação social, até pela aristocrática iniciação ao poder supremo recebida no berço cujo círculo se fecha ao ter chegado a Chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa talvez seja o português-lúcido-residente-em-Portugal que está em melhores condições para identificar tentativas, goradas ou consumadas, de judicialização da política e de politização da Justiça. Podemos admitir que haja quem se equipare a ele nessa capacidade; não admitimos, nem com a imaginação à solta, que haja quem o supere.

Quando Armando Vara foi condenado a 5 anos de prisão efectiva pelo Tribunal de Aveiro – num processo onde não se encontraram provas de ter recebido qualquer verba de Godinho nem provado em tribunal ficou que este obteve qualquer benefício ilícito atribuível a Vara – Marcelo explicou o que se tinha passado: Marcelo e os factos jurídicos. Uma das formas de descrever a radicalidade da pena, a mais económica, seria ter dito que estávamos perante uma aberração judicial. Logo a seguir, seria dizer que Vara foi vítima de um suplício a mando de procuradores e juízes da República Portuguesa. Marcelo optou pela versão longa, tendo apresentado dois argumentos com que despachou o assunto em clima de festa. No primeiro, instituiu que “opinião pública” é o mesmo que “opinião publicada”, equivalência de imediato usada para estabelecer um nexo causal com a violência e carácter inaudito da condenação. Vara ia preso porque quem controlava a opinião publicada fez campanha para tal e os juízes foram volúveis ou cúmplices, lê-se à vista desarmada no seu subtexto. O segundo argumento fica como uma jóia retórica da melhor filigrana sofística, esse debochado exercício de apontar para uma intangível suposta tendência de valorização dos crimes contra o património para se justificar terem dado 17 anos e meio ao sucateiro (em ordem a se poder dar 5 anos de choça a Vara, né?) num caso onde os valores pecuniários aludidos são ridículos. A coisa termina com uma lição de moral, a moral dos mais fortes, em que Marcelo expressa a sua excitação e gozo com o castigo “exemplar” dado a Vara e outros pois tal iria atingir politicamente Sócrates e o PS.

Parece, então, de acordo com as doutas palavras daquele que se tornou “o mais alto magistrado da Nação”, que os juízes elaboram decisões também em reacção ao que encontram na comunicação social e que, supostamente, valorizam como retrato do sentir e querer da população. Tal não é necessariamente um mal, bem pelo contrário. A Justiça não é uma teologia, não é uma matemática, antes uma sociologia e uma hermenêutica. Deve ser, tem de ser, um sistema axiológico aberto ao presente e ao futuro. A Justiça subjaz como dimensão política fundadora e garante da coesão da comunidade. Por exemplo, há muito tempo que um escândalo, cada vez menos surdo, percorre a sociedade ao sabermos das argumentações usadas pelos tribunais portugueses para aumentarem o sofrimento e a injustiça a tantas vítimas de violência doméstica e de abusos sexuais. Nacos de prosa gongórica e aviltante quando não lunática, com a assinatura de ilustríssimos juízes, têm aberto a boca e os olhos de espanto e raiva a milhares ou milhões de cidadãos. Começar a assistir a mudanças nos critérios morais, psicológicos e antropológicos aplicados nos julgamentos de crimes desse foro, admitindo-se pela primeira vez na jurisprudência aspectos que deviam ser óbvios há séculos – como o de a eventual passividade da vítima não ser manifestação de consentimento, antes e muito provavelmente ser o efeito do pânico ou uma estratégia de sobrevivência – têm de ser celebrados mesmo que venham com vexante atraso histórico. O corolário é ambivalente, no entanto, pois se a influência mediática é bondosa quando corrige perversões e abusos judiciais, pela mesma dinâmica poderá suscitá-los nessa porosidade constatada. Uma Justiça que fosse apenas, ou que fosse alguma vez, o reflexo dos apetites e ódios da turbamulta seria a exacta negação da soberania e da liberdade.

Parece, então, que Marcelo Rebelo de Sousa é o português em Portugal a quem nos temos de dirigir para fazer a seguinte pergunta: na sua opinião de especialista em Direito e como cidadão que jurou defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa, isto do actual processo de linchamento em curso de Ivo Rosa pelos impérios comunicacionais da direita deverá saltar das capas da Cofina, dos títulos do Observador e do Expresso, dos textos do Público, e consumar-se em agressões físicas no meio da rua pelos populares mais voluntaristas?

A feérica vantagem de termos Marcelo em Belém neste tempo em que múltiplos jornalistas usufruem dos direitos consagrados na sua carteira profissional para perseguirem, coagirem e ameaçarem um juiz evita ter de gastar uma caloria a explicar que quando o esgoto a céu aberto cola a Ivo Rosa o cognome de “juiz dos poderosos” tal é feito com um objectivo político: difamar e caluniar por antecipação o que esse juiz venha a decidir no respeito pela Lei e pelos direitos fundamentais dos acusados no processo “Operação Marquês”. Tal como, simetricamente, o cognome de “super juiz” tem como objectivo validar qualquer abuso que Carlos Alexandre tenha cometido ou venha a cometer no seu combate contra os “poderosos/corruptos”.Marcelo sabe tão bem o que está em causa que ele próprio se serviu desse código quando comentou a prisão de Vara, o qual descreveu como um “privilegiado” e congratulando-se por ter sido condenado sem espinhas.

Marcelo está tão sensibilizado para a cruzada contra os “poderosos” que ofereceu o 10 de Junho a um franchisado do Ministério Público, um fulano que ganha muito dinheiro a tratar inocentes como condenados, a explorar a devassa da vida privada através dos instrumentos policiais do Estado, a fazer campanha pela redução dos direitos e garantias dos arguidos e dos cidadãos, a achincalhar pessoal e profissionalmente quem esteja sujeito a um inquérito judicial e ele tope que seja um alvo político para quem lhe paga, a usufruir e justificar os crimes cometidos por magistrados e jornalistas.

Um presidente da comissão organizadora do 10 de Junho de 2019 que, antes e depois dessa altíssima honra de Estado, espalhou a imagem de ser a Assembleia da República um local muito mal frequentado pois é onde os partidos com mais votos se reúnem para criar leis cuja finalidade é permitir aos políticos enriquecerem através da corrupção.

Pois é, Marcelo não carece que o ajudem a perceber o que se está a fazer a Ivo Rosa. Nessa matéria, podíamos outrossim esperar receber lições de um mestre. E se ele, ao lado do sistema partidário e até do sindicato dos juízes, assiste calado e sorridente ao espectáculo, se o que faz a Cofina sem o mínimo vagido de repulsa ou tímido protesto por parte de quem se considera “imprensa de referência” fica instituído como práxis a ser seguida pelos restantes órgãos de comunicação social, a única dúvida que resta é relativa ao tipo e intensidade da pressão que será necessária para obrigar Ivo Rosa a trair a sua consciência, a abjurar a sua responsabilidade, a fugir da sua coragem. Ora, estando em causa o processo judicial mais importante da História democrática e cuja politização começou ainda antes de haver arguidos constituídos, nós podemos não o saber mas sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República e tudo, o zelador-mor pelo “regular funcionamento das instituições democráticas” e cujo dever implica pronunciar-se “sobre todas as emergências graves para a vida da República” que não só jogos da bola e acidentes de trânsito, sabe. Sabe-a toda.


Fonte aqui

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Sobre o Estado e os placards de bordéis

(Joseph Praetorius, 11/07/2019)

Joseph Praetorius

O facto do MP continuar a usar um conhecido placard de bordéis de Lisboa para veicular posições suas e, no caso, contra a factualidade patente e produzida à vista de todos os presentes em sessão pública, coloca o problema da responsabilidade do Estado na frustração do Direito à Informação em vários níveis;

– O Estado deve ser interpelado como responsável pela deterioração da dignidade da publicação noticiosa, ao permitir a imunidade material objectiva de pretensos jornais, que são meros pretextos para a publicação de placards pornográficos de bordéis,

-O Estado deve ser processualmente interpelado como responsável pela facilitação desta modalidade de proxenetismo pornográfico, uma vez que, ao invés da promoção penal do MP, estes editores pornógrafos recebem notas para publicação do MP que devia promover contra eles,

– O Estado deve ser processualmente interpelado como responsável pela deterioração da qualidade da informação política e judiciária, uma vez que o seu Serviço de Informações e de Segurança ousa remunerar (como agentes e informadores) pretendidos jornalistas desses universos de pornografia de indiciados lenocidas, usando-os em campanhas suas (que são as de funcionários com o freio nos dentes, insusceptíveis de controlo pelo governo, ou pelo parlamento),

– O Estado é responsável pela inoperância da ERC e pela passividade da Comissão da Carteira, que asseguram a absoluta imunidade de quaisquer campanhas ad hominem, esmagadoras, irrespondíveis, maciças – envolvendo até as famílias das vítimas, compreendendo crianças – ao mesmo tempo que os tribunais perseguem com crua ferocidade o protesto de cidadãos comuns, ao abrigo da pretensa injúria e da pretensa difamação.

– Para se ter a noção da perversão radical da liberdade de palavra, os cidadãos comuns são submetidos a perseguição menos que miserável, por pretensa injúria e difamação, a propósito do mais leve protesto, escondendo o Estado os números actuais do miserável assédio a que os cidadãos são por ele submetidos sob tais epigrafes

”enquanto os funcionários do estado (designadamente das policias, MP, e até da organização judicial) se entregam ao estimulo de campanhas de imprensa ad hominem, em violação aberrante de todos os direitos da personalidade das vítimas, mas no próprio e exclusivo interesse dos funcionários, no quadro de acordos plausívelmente delituais,

”’e o Estado esconde – também miseravelmente – os números da chacina a que os seus agentes do MP e demais estruturas judiciárias se têm entregado; assim,

””foram proferidas no ano de 2013 (último ano de que há dados publicados, que os demais estão escondidos) 1190 condenações por injúria e difamação, simples ou agravadas (com apenas nove condenações de “crimes de imprensa”)

””’não há informação do tempo de pendência destes processos e não há dados quanto às absolvições e tempos de pendência, sendo certo que estes processos são mal em si próprio, doentio instrumento de controlo político, minagem da normal vida das pessoas que ali vivem sob constrangimento indecoroso, como eu próprio declarei ao parlamento sem desmentido ate hoje (não há aliás desmentido possível)

– A liberdade de expressão está completamente anulada neste território, ou apenas subsiste graças à blogosfera e ao FB,

-Transmutou-se numa liberdade de campanha infamatória arbitrariamente decidida por funcionários e seus cúmplices nos organismos da insolvente imprensa e na indigência dos meios audio-visuais comerciais (ainda que não possam passar os públicos por isentos, porque o não são)

-Sublinho – para se ter bem a noção do nível atingido de degenerescência – que tendo formulado há dias uma reclamação, em tribunal superior, onde sublinhava a inépcia de pretendidas manobras de vigilância fora das fronteiras, feitas por pretensos policias portugueses (que fora das fronteiras não podem fazer vigilâncias), onde notara que aqueles infelizes não tinham sequer conseguido descrever um percurso completo que houvessem feito, nem fixar o nome de estabelecimentos comerciais que queriam referir (aquilo era “um café” que ali havia, como se não houvesse vários, a caminho do qual seguiram o alvo “por várias ruas”, sendo que em algum lugar terá havido uma inversão de marcha, sem que se possa saber em qual das ruas de entre as diversas) recebi para meu espanto a resposta da policia num jornal (o tribunal preferiu discutir outras coisas) e vinham dizer que tinham descrito um percurso, sim, repetindo o relatório com os mesmos problemas (que não reproduziram em depoimentos verbais);

e portanto os funcionários seguem a evolução dos seus interesses em processo (com evidente colaboração do tribunal) e respondem ou retaliam pela imprensa onde haverá sempre um avençado que “escreve muito bem” a servir-lhes as versões a um público que felizmente já não há.

– Depois dos indecorosos casos de José Sócrates, Frederico Carvalhão e Bruno de Carvalho, o Estado não pode deixar de ser interpelado na óptica dos interesses difusos do Direito à informação pelo facto dos cidadãos estarem sob assédio constante de uma lumpen-imprensa, materializada na propaganda de funcionários e bordéis, parecendo restringir-se a seriedade ao quase único jornal relevante em Língua Portuguesa, o El País (também havendo a edição em Língua Portuguesa do Pravda)

– A conduta reiterada dos funcionários no abuso e manipulação das liberdades da imprensa, das quais também abusam proxenetas e pornógrafos sob a indesmentível protecção funcional daqueles, assume, objectiva e materialmente, o alcance de uma conspiração contra o núcleo fundamental dos valores e instrumentos da Democracia Parlamentar, conduzida por gente que tem do Estado uma concepção onde se assinalam todas as linhas do esboço de Hauriou: o Estado de Petain, Franco e Salazar.

Aos vossos postos, se não se importam.

Vamos tratar disto.

A frente da calúnia

(Valupi, in Blog Aspirina B, 09/07/2019)

Janeiro de 2010. Um deputado do PSD, chamado José Pacheco Pereira, recebe da Cofina uma quantia em dinheiro (não revelada) para/por dizer num órgão de comunicação social que “empregados do governo, e às vezes mais acima” escreviam anonimamente em blogues para insultar e caluniar os adversários políticos. Chamou à coisa: A Frente da Calúnia

Como nos três exemplos de blogues dessa frente caluniosa constava o Aspirina B, e como eu lia diariamente os restantes, Câmara Corporativa e Jugular, fiquei de imediato a saber que o deputado era não só mentiroso como ainda por cima mentia a troco de dinheiro e notoriedade. Para além de não existir qualquer empregado do Governo a escrever anonimamente no Aspirina B, muito menos o tal ou tais “mais acima”, igualmente não se publicavam calúnias nos três blogues acusados. Insultos, sim, à fartazana, pelo menos neste pardieiro. E também factos e argumentação da boa com base nos mesmos e nas legítimas convicções de pessoas, nos outros dois blogues, que cultivavam a democracia e a liberdade.

O deputado promovia em público uma conspiração que começava logo por se assumir como hipótese imbecil e delirante: os blogues tinham audiências residuais, incapazes de sequer terem influência na votação para uma junta de freguesia, sendo consumidos por públicos já politizados que iam à procura de redundância informativa e divertimento – ou de fantasmas e alvos para a agressividade tribal e identitária. Os blogues eram meia gota de água no oceano mediático dominado pelo Correio da Manhã e SábadoSolPúblico do Zé Manel, Expresso do Monteiro, TVI do casal Moniz, SIC do Balsemão, do Crespo, do José Gomes Ferreira, do mano Costa, RTP da Judite de Sousa e do José Rodrigues dos Santos, DN do Marcelino e saco de passistas na redacção, TSF do Baldaia e seus editoriais, jornal i do Martim Avillez, e ainda o grupo Rádio Renascença (ofereçamos um desconto ao Pacheco, omitindo os restantes blogues direitolas com visualizações superiores e, esses sim, com torrenciais calúnias). Porém, o deputado dava a três blogues – que respeitavam e cultivavam a ética republicana – uma importância decisiva que o impelia ao combate mais desvairado. Compreende-se sem dificuldade porquê, o horizonte da comunicação social estava coberto a toda a extensão pelos impérios mediáticos profissionais da direita, a dominar a paisagem sem concorrência. Valia tudo a partir dessa superioridade táctica imbatível no campo de batalha posto que a ideia não era a de respeitar a deontologia nem a módica decência. Desde a criação da maravilhosa bandeira da “asfixia democrática” até aos rasgados elogios para a campanha negra de Moura Guedes na TVI, na qual o especialista do “Ponto Contraponto” via um admirável exercício do “jornalismo livre”, a direita da baixa política pôs a carne toda no grelhador. Que restava ao Pacheco para além de fustigar o alinhamento das notícias na RTP? A que se poderia agarrar quando largava o cronómetro com que descobria terem dados dois segundos a mais a uma notícia sobre o PS comparada com a notícia do PSD no telejornal da hora de almoço? A luz ao fundo do seu túnel cognitivo e moral vinha de três minúsculos blogues onde encontrava injecções diárias, horárias, de dopamina e adrenalina – para além de servirem na perfeição para continuar a meter dinheiro no bolso a enganar os pategos. Bastava que os pusesse debaixo da sua lente de aumento grotesco da realidade para que os três mosquitos parecessem um exército de Godzillas acabados de chegar ao Terreiro do Paço. Absorvendo guloso os boatos que o laranjal decadente lhe despejava nos ouvidos, usava-os para se mascarar de especialista em contra-terrorismo político. A este deputado que tinha muitos e raros livros em casa ninguém enganava, os badamecos que serviam o mefistofélico Sócrates iam ser perseguidos pela implacável espada flamejante do Anjo da Marmeleira. A sua obsessão por Sócrates precisava de tangibilidade para suportar o fascínio que o consumia, daí a necessidade de projectar nos irrelevantes blogues uma pura fantasia quixotesca.

Janeiro de 2010. Pacheco Pereira é deputado depois de ter sido o braço-direito de Manuela Ferreira Leite na campanha para as legislativas de 2009. Usa a revista Sábado para caluniar o Governo e autores de blogues acusando-os da prática em que se lança desenfreado. Não fica como ironia sórdida, é mesmo tristeza à solta na cidade. Uma personalidade com tanto poder mediático e político, com contributos intelectuais valiosos no campo da investigação histórica, a exibir-se como um ranhoso, um pulha. Só que o deputado vinha de ter feito muito pior meses antes, e muito pior se preparava para fazer dentro de meses. Vinha de se ter tornado no mais vocal dos que tinham reduzido a política ao assassinato de carácter e ao envenenamento do espaço público com paranóias assustadoras. O Pacheco foi cúmplice da operação de espionagem política feita a coberto do “Face Oculta”, cúmplice do ataque a Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento que não cederam à golpada montada pelo irmão Vidal, cúmplice da “Inventona de Belém”. Espalhou, e ajudou a espalhar, a desvairada acusação de que o Governo socialista estava a usar os serviços secretos para fins políticos, que estava a dominar a banca, que ia dominar a comunicação social. Foi com recurso a esta pressão maníaca em que Sócrates era concebido como “monstrum horrendum, informe, ingens” que se convenceu Cavaco a alinhar no caso mais grave de violação dos deveres de um Presidente da República de que há memória em democracia. Eis o que o Pacheco andava a dizer, louco de raiva, nesses dias de histórica infâmia:

«Eu compreendo que o Presidente da República, até pelas coisas graves que tem certamente para dizer face aos ataques que lhe têm sido dirigidos, não queira falar em período eleitoral. O que diria perturbaria e muito o período eleitoral. Mas temo que só depois das eleições é que se vá saber demasiadas coisas sobre esta governação e sobre o Primeiro-ministro. E temo que isso seja um fardo muito difícil de gerir, ganhe quem ganhar as eleições. Seja no caso Freeport, seja na questão da eventual espionagem aos seus opositores, seja no ataque à TVI e ao Público, seja nos múltiplos negócios que estão por esclarecer, da OPA da Sonae à crise do BCP e à interferência da CGD, seja no caso BPN e nos nunca esclarecidos movimentos do dinheiro da Segurança Social, seja na tentativa de compra da PT da Media Capital e etc,. etc. Um etc. demasiado grande.»

Fonte

Em cima da ida às urnas nas eleições legislativas de 2009, com a golpada presidencial a descoberto, o general de Ferreira Leite vai para a frente das câmaras, vai para o meio dos ecrãs, berrar que Sócrates é um super-criminoso que está protegido pelo “período eleitoral”. É o que o safa, explica sem se rir e sem corar, senão Cavaco viria dizer das boas, contar tudo, restabelecer a lei e a ordem, revelar “as coisas graves que tem certamente para dizer“, certamente, de certeza certezinha. Azar do caralho isto das eleições. Vamos ter de esperar mais uns dias para limparmos a Nação do mal, garantiu o Pacheco aos eleitores com menos de 10 anos de idade. Só que depois das eleições não tivemos direito a essa catarse prometida, foi outro o programa das festas. Apareceu-nos um Cavaco a reconhecer que a “Inventona de Belém” tinha corrido mal e que havia de ter paciência. Melhores dias viriam, era uma questão de aguentar por nova oportunidade pois o método tinha sido validado. Era possível difamar um Governo a partir do Palácio de Belém, caluniar um primeiro-ministro em funções por obra e graça da Casa Civil, interferir em dois actos eleitorais com a chancela do Presidente da República e nada acontecer aos mandantes e executantes do crime, ficava demonstrado. Ali estava ele, o responsável máximo pelo irregular funcionamento das instituições, de pé em frente a uma multidão de jornalistas para provar isso mesmo.

Janeiro de 2010. Quatro meses depois, o deputado José Pacheco Pereira irá enfiar-se numa saleta da Assembleia da República para ler transcrições de escutas. Escutas que não tinham valor judicial mas que um juiz considerou terem valor político. Atente-se: escutas captadas ilegalmente, as quais não iriam ser usadas em tribunal por não serem prova ou indício de qualquer crime, foram entregues ao Parlamento para nele se violar a lei, a Constituição e os princípios fundamentais do Estado de direito. Dois deputados aceitaram ficar com essa nódoa indelével no currículo. Um deles, declarou nada ter encontrado que justificasse posterior acção de si próprio como deputado ou acção do seu partido, o PCP. O outro, declarou que o conteúdo das escutas era “avassalador”. No entanto, também nada mais fez a respeito nem explicou em que se baseou para a colorida adjectivação. O revanchismo e voyeurismo do Pacheco foram satisfeitos, é só isso que sabemos. Lambuzou-se celerado e cobarde na violência de usar o aparelho policial e judicial – mais o seu estatuto de deputado – para violentar a privacidade de dois cidadãos e, a partir daí, explorar o inaudito deboche como fonte de novas calúnias quando quisesse e como lhe apetecesse pelos anos afora.

Junho de 2019. O Sindicato dos Magistrados do Ministério Público organiza uma conferência onde junta Joana Marques Vidal a Eduardo Dâmaso, José Gomes Ferreira e João Miguel Tavares para se falar de “corrupção”. O SMMP não é conhecido por publicar estudos próprios ou de terceiros acerca da corrupção em Portugal ou na Antárctica. Ninguém faz ideia do que o SMMP realmente possui como informação a respeito do fenómeno. O mesmo, aliás, para cada um dos participantes na “conferência”, câmaras de vácuo quando se trata de obter dados fiáveis sobre as “redes de corrupção e compadrio“, sobre a “epidemia que grassa pela sociedade portuguesa“. Contudo, é inegável estarmos perante figuras gradas do “combate à corrupção”. Podemos até dizer que todas, em mais do que um sentido e modos, têm construído as suas carreiras e fama à conta da “corrupção”. Mas qual, se é também corrente o queixume deste grupo e seus clones acerca do baixíssimo número de prisioneiros condenados por corrupção? Dita a lógica, e o consumo da sua obra publicada, que a “corrupção” em causa seja aquela atribuída a inocentes, cidadãos que ainda não foram condenados por tal, nem se pode prever se alguma vez o serão mesmo que estejam actualmente acusados. Acontece que chegar à fase de acusação e depois ter o aborrecimento de esperar pelo julgamento em tribunal e ainda ver as defesas dos acusados a tentarem isso mesmo, defender quem foi acusado, é um processo demasiado moroso, e inclusive cruel, para quem vê cair na conta bancária os meritórios e abundantes frutos do “combate à corrupção”. Pelo que a “corrupção” é um maná que precisa de ser colhido logo pela fresca, assim que lhes dá o cheiro.

Veja-se o que se faz por rotina na Cofina, trabalho aproveitado pelos parceiros de luta: recebem-se informações divulgadas criminosamente por agentes da Justiça e publica-se criminosamente a versão dos procuradores como se fossem factos provados em tribunal. Nenhuma autoridade em Portugal sequer gasta uma caloria a tentar impedir, ou sancionar, esta prática que vira do avesso o código deontológico do jornalista.

É a Justiça instantânea de que o povo gosta, tudo mastigado pelos “jornalistas” e onde os alvos são políticos, ou amigos de políticos, triturados pelo sensacionalismo e pelas mentiras até deles nada mais restar do que uma papa infecta servida às alimárias carentes de “poderosos apanhados e castigados” nos jornais e na TV para continuarem dia após dia alienados e impotentes.

O SMMP chamou a Cofina, o grupo Impresa e o Público, nas pessoas dos seus mais notáveis caluniadores profissionais, para fazer um comício e uma parada militar. A estrela do evento foi uma ex-procuradora-geral da República que tem direito a culto de personalidade nesses meios de comunicação, que aceitou ser comissária política de um Governo e de um Presidente da República, que permitiu na PGR abusos da Justiça num processo de cariz político sem paralelo na História portuguesa, que protege a prática de crimes de violação do segredo de justiça no Ministério Público, que não respeita a sua actual responsabilidade no Tribunal Constitucional ao fazer declarações que comprometem a sua isenção e credibilidade, que se tem multiplicado em exibições de ambição política. Ocasião, portanto, para o Pacheco denunciar o obsceno processo de judicialização da política e de politização da Justiça em curso com um entusiasmo, se não superior pelo menos equivalente, ao que manifestou no combate aos tais três miseráveis blogues? Nada disso, ó santa ingenuidade. O senhor não pode morder na mão que o alimenta. A verdadeira frente da calúnia é uma indústria que dá muito dinheiro a muita gente. E que talvez venha a dar verdadeiro poder político a alguns santos de pau oco.


Fonte aqui