A extra ordinária Operação Marquês

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 04/06/2019)

José Sócrates

Depois de 4000 páginas de despacho acusatório, 53 000 de investigação, 77 000 de documentação anexa, 8000 de transcrições de escutas telefónicas, 13,5 milhões de ficheiros informáticos, 103 horas de vídeos de interrogatórios e 322 de depoimentos áudio de testemunhas, o que será mais extraordinário na “Operação Marquês”? Haverá respostas para todos os gostos, agendas e ódios, mas duvido que alguma ultrapasse em espanto e relevância esta: não se ter constituído como arguida Maria Adelaide de Carvalho Monteiro e não se ter constituído como arguido qualquer outro elemento dos XVII e XVIII Governos para além do respectivo primeiro-ministro. Isto é, as pontas da suposta investigação – que supostamente começou com a denúncia de dinheiro recebido da sua mãe por Sócrates na CGD e que terminou com uma acusação onde se diz terem existido supostos crimes cometidos em Gabinetes Ministeriais e Conselhos de Ministros – não constam no processo.

Algo similar aconteceu no “Face Oculta”. Num caso construído sem provas e baseado no relato em segunda mão de Ana Paula Vitorino, alegou-se que Mário Lino acedeu a um pedido ilícito de Vara mas o ex-ministro alegadamente cúmplice nem sequer foi constituído arguido. Porquê? Porque se calculou que, sem provas, sem prejuízo para o Estado, sem mais nada a não ser uma conversa que se diz ter existido com um certo sentido subjectivo, não seria possível fazer-se a Mário Lino o que se ia fazer a Vara – nem se podia fazer a Vara alguma coisa sem por tabela Lino ter de levar igual ou até pior. O temor e tremor de acusar e prender um ex-ministro exclusivamente com provas indirectas e sem qualquer possibilidade de o relacionar com algum proveito material, ou outro, arriscava boicotar a vingança destinada ao asqueroso socialista que tinha ousado ir para o BCP como administrador depois do caos para onde o banco foi arrastado por Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto.

Num certo dia de um certo mês de 2013, Rosário Teixeira e Joana Marques Vidal encontraram-se, a sós ou acompanhados por outros procuradores, e decidiram que era desta que o inimigo nº 1 da oligarquia portuguesa ia ser apanhado, linchado e enterrado. Nessa reunião, adivinho, tomaram decisões sobre a mãe de Sócrates e sobre os ministros e secretários de Estado ligados a Sócrates. Seria possível deter a frágil senhora, levá-la algemada para ser interrogada pelo Carlos Alexandre e de lá ter de mandá-la na ramona para uma prisão feminina qualquer? Isso causaria demasiado ruído mediático, correndo-se o risco de gerar antipatia contra a PGR e simpatia a favor de Sócrates.

Pelo que se decidiu logo ali, imagino, que a pessoa que se iria apontar como tendo sido cúmplice principal de uma transacção fraudulenta no mais grave caso de suspeita de corrupção da História de Portugal iria ficar de fora do processo. E quanto às dezenas de ex-governantes que iriam ser apontados também como cúmplices de decisões supostamente vendidas por milhões vindos do Grupo Lena, do BES ou de quem a acusação se lembrasse de inventar? Idem, aspas, não haveria logística para serem investigados e nem tal era preciso, antes pelo contrário. A aventura seria triunfal mesmo que apenas decapitasse uma das cabeças da Hidra, a mais apetecida. Aumentar o número de arguidos com responsabilidades nos Executivos socráticos traria mais atrasos, mais dúvidas, mas riscos de se perceber que toda essa gente estava a ser presa para ser investigada, devassada e assassinada política e socialmente. Ter Sócrates como troféu de caça, mesmo que dali por não sei quantos anos ele acabasse condenado apenas por fraude fiscal, era só o que interessava garantir. A “Operação Marquês”, logo a partir da sua detenção para ser interrogado, iria ser a sua condenação instantânea sem ser preciso ficar dependente dos volúveis juízes. Os restantes alvos seriam atingidos por associação e contágio.

A “Operação Marquês” iria ser excepcional, algo nunca antes visto na Justiça portuguesa quanto aos recursos disponíveis e quanto ao caudal criminoso das violações do segredo de justiça e dos direitos fundamentais. A PGR só iria avançar se tivesse a certeza de conseguir blindar a acusação mesmo antes de se poder saber qual viria a ser o seu conteúdo. Aceitar arquivar o inquérito caso a investigação nada encontrasse não era uma opção. O suspeito teria de ser tratado como condenado a partir da sua constituição como arguido; a matéria de facto era um tópico quase indiferente, algo se iria apanhar de certezinha absoluta, e o trânsito do dinheiro já chegava para o gasto. O que importava era o simbolismo, o choque e pavor, a exibição da presa derrotada, ferida de morte. Para tal era necessário garantir não só a cumplicidade como a activa colaboração do juiz a quem competia a defesa das liberdades e garantias dos cidadãos. Carlos Alexandre era perfeito para esse papel de carrasco – e não havia alternativa, não havia risco de calhar um juiz que tivesse a mania de querer ser isento. O Ministério Público da santa Joana olhava à volta e via o Presidente da República, o Governo e a maioria parlamentar a pedirem acção impiedosa contra o monstro que os apavorava e que não admitiam ver como candidato à Presidência, via a comunicação social dominada pelos impérios da direita pronta para iniciar um fogo de barragem épico com a sua ubíqua indústria da calúnia, via o magistrado judicial responsável pelo Tribunal Central de Investigação Criminal a arder de desejo para ser a arma divina que limpa o mundo do pecado e dos políticos demoníacos, via um ano eleitoral a chegar para umas legislativas onde era preciso debilitar ao máximo um PS que tinha trocado o manso Seguro pelo bravo Costa. Era desta, 40 anos depois do 25 de Abril voltaríamos a poder assistir a um regime de excepção para julgar criminalmente opositores políticos.

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É tentador ver na entrevista que Carlos Alexandre deu à SIC, em Setembro de 2016, o maior escândalo alguma vez protagonizado por um juiz em funções. Nela, ouvimos referências directas a um arguido num processo ainda sem acusação onde o próprio era juiz de instrução – ou seja, onde se tinha comprometido com o Estado a defender a Constituição e os códigos legais para respeitar os direitos desse mesmo arguido. Para além de ser o processo mais importante na história da Justiça portuguesa por estar em causa uma suspeita de corrupção sobre um primeiro-ministro, o registo usado para violar o dever de reserva a que os juízes estão obrigados misturava a intenção de publicitar a culpabilidade de Sócrates com o culto da sua augusta e proba pessoa de Mação, que ficava como bastião popular e rural contra os corruptos da elite e da cidade. Infelizmente, essa estouvada e torpe manifestação de soberba está longe do que é o supremo escândalo relativo à sua figura e papel na “Operação Marquês”. A suspensão do Estado de direito começou logo após a detenção dos suspeitos quando decretou a prisão preventiva de Sócrates e declarou ter pena de não poder impor uma pena ainda mais grave logo naquela fase inicial e sem sequer se saber quais os eventuais crimes em causa. Continuou com o prolongamento da prisão em Évora, concordando com Rosário Teixeira no deboche de se considerar demasiado arriscado passar Sócrates ao regime de prisão domiciliária sem o uso humilhante de uma pulseira electrónica – e isto apesar do Tribunal da Relação já ter excluído o perigo de fuga. Culminou com uma entrevista à RTP onde considerou uma farsa o sorteio informático que designou Ivo Rosa como o magistrado que liderará a fase de instrução criminal, assim despejando sobre todo o sistema da Justiça portuguesa uma calúnia maximamente agravada pelo seu estatuto. Pelo meio, conseguiu a mudança do Tribunal Central de Instrução Criminal do Campus de Justiça para as instalações da antiga sede da Polícia Judiciária, cuja leitura tanto pode ser vista como gesto político e/ou sintoma de paranóia, e ainda disparou ameaças genéricas para outros magistrados não identificados alertando ter uma excepcional memória. Last but not least, descobrimos que a relação com um certo amigo e o seu dinheiro, numa mixórdia de promiscuidades incríveis tendo em conta que ambos são magistrados, era um bocadinho diferente do que tinha apregoado na TV quando quis condenar na praça pública um cidadão à sua guarda.

A extraordinária responsabilidade, complexidade e cautela exigidos numa investigação com as consequências da “Operação Marquês” pedia um juiz com este perfil pacóvio, justiceiro, megalómano e estúrdio? Ao contemplarmos o modo como o seu desprezo pela Lei e pelos direitos de outrem foram validados pelo Conselho Superior da Magistratura, e ao percebermos que esse órgão é uma entidade corporativa onde a Assembleia da República e o Presidente da República se demitem estrategicamente da sua soberania quando há comunhão de vontades contra o bem comum, ficamos na posse de um retrato onde é todo o regime que apoia e protege Carlos Alexandre. Um retrato onde é cristalino o desprezo pela descoberta dos factos e a condenação dos eventuais criminosos, caso contrário jamais se deixaria de fora uma cidadã sem a cumplicidade da qual não teria existido a descoberta do crime (dizem eles), e ainda menos se deixaria sequer sem investigação as dezenas de governantes que tomaram decisões apenas para que Sócrates enriquecesse de modo ilícito (dizem eles). Em que outros casos cidadãos dados como coniventes em actos ilegais ficam impunes por causa da idade, sexo ou relação familiar com outros delinquentes?

Por que raio a mãe de Sócrates, designada como a ponte entre Carlos Santos Silva e Sócrates para a lavagem de dinheiro vindo da corrupção, nem sequer como arguida foi constituída? E se o Ministério Público acha que existiu um Governo em Portugal que manipulou negócios de milhares de milhões de euros, envolvendo centenas de decisores entre responsáveis executivos, administradores bancários e accionistas da PT e do BCP, só para que um primeiro-ministro pudesse ir para Paris estudar e ficar numa casinha com um soalho ao seu gosto, como é que essa inominável e indescritível perversão da República Portuguesa fica sem investigação e condenação judicial?

A “Operação Marquês” nasceu de uma legítima suspeita a respeito da circulação de dinheiro usado privada e ocultamente por Sócrates, a qual teria de ser investigada necessariamente. Porém, a violação do Estado de direito marca os antecedentes e desenvolvimento da investigação, onde há igualmente legítimas suspeitas de espionagem ilícita sobre Carlos Santos Silva e Sócrates, legítimas suspeitas sobre abusos de poder no Ministério Público antes da abertura formal do processo, legítimas suspeitas sobre manipulação ilícita do sistema de Justiça de modo a garantir que fosse Carlos Alexandre a conduzir o processo até à acusação, legítimas suspeitas de actos criminosos cometidos pela equipa de procuradores de Rosário Teixeira ao violarem o segredo de Justiça, legítimas suspeitas da inexistência de integridade em Carlos Alexandre ao aceitar ser juiz num caso em que à partida já considerava culpado o arguido sem lhe conceder o direito a um processo justo. Tendo em conta que este caudal de violências foi festejado e reclamado como triunfo supremo por parte de Passos Coelho e Cavaco Silva aquando da campanha para a continuidade da sua Procuradora-Geral da República, a heroína a quem fizeram uma estátua de elogios e agradecimentos, fica evidente que a dimensão de linchamento e assassinato de um inimigo político não só supera como torna irrisória a dimensão judicial de se averiguar se um certo cidadão cometeu actos ilegais, seja lá qual for a sua gravidade.

Neste sentido, a “Operação Marquês” é o maior triunfo da direita decadente desde o estabelecimento do Cavaquistão. Ver o PS e a esquerda a colaborarem com este festim sórdido e odiento exibe um regime onde é necessária a destruição de Sócrates por razões de Estado.


Fonte aqui

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Coisas do Carvalho

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 21/05/2019)

Manuel Carvalho

«No Portugal deslumbrado com os fundos europeus, do dinheiro fácil e da promiscuidade barata, bastava ser rico, estar de pé firme na oligarquia da capital para se merecer uma distinção. Berardo não foi o criador dessa cultura; foi sim uma das suas mais exuberantes criações. Puni-lo por se ter tão perfeitamente integrado nesse caldo venal de vícios e favores faz todo o sentido – até para que não continue a gozar com os brandos costumes e com a impunidade alimentada pela lentidão da Justiça. Mas jamais apagaremos esses dias [que] levaram o país até perto da bancarrota com gestos simbólicos.

Caímos assim na essência da Operação Marquês. No julgamento dessa nódoa da história nacional recente, nessa tentativa de uma elite plutocrata criar um sistema de poder tentacular. Se Berardo entrou nesse jogo a convite, se hoje pode dizer que não tem dívidas e se não se vislumbram meios de a Justiça o forçar à verdade é porque, no essencial, nada mudou. Pior: enquanto os tribunais se limitarem a arrastar os processos, enquanto não tiverem meios eficazes, enquanto não forem capazes de punir os “golpes de estado” de pessoas como Berardo, nada mudará. É bom que Portugal seja um Estado de Direito, mas o que o circo do empresário madeirense veio revelar é que, numa questão essencial para a defesa dos valores colectivos, esse Direito se continua a escrever por linhas tortas. Vamo-nos, por isso, contentando com a retirada das comendas.»

Editorial do Público de 18 de Maio


O actual director do Público, em representação da Redacção e do accionista (posto que recorre ao estatuto do “editorial”, assim institucionalizando a sua opinião), considera que a “Operação Marquês” consiste no julgamento “de uma elite plutocrata” que terá tentado “criar um sistema de poder tentacular”. Onde é que já lemos e ouvimos a mesma denúncia, precisamente com o mesmo léxico? Na Cofina, no Grupo Impresa, no Observador, nos meios de comunicação social da Igreja Católica (inclusive nos mais recônditos e supostamente dados ao aprofundamento de temáticas religiosas, teológicas e espirituais). Recentemente, imaginando ter ganhos eleitorais ou por desvairo canalha, Rui Rio juntou-se a esta súcia, assim acabando com as dúvidas que pudessem existir a respeito da sua honestidade intelectual, integridade cívica e qualidade de estadista.

Há tectónicas consequências em se entender a “Operação Marquês” não como um processo de investigação objectiva sobre eventuais crimes factuais da responsabilidade de indivíduos a quem se concede o direito de defesa e passar a vê-la como o combate final contra um inimigo que ameaça a liberdade, os direitos fundamentais e o futuro imediato da comunidade. Ao se recorrer à mais pulha das falácias, a petição de princípio, fica-se com carta branca para qualquer violação da lei e qualquer violência que se consiga cometer contra aqueles que, ainda antes do julgamento e mesmo antes da inquirição judicial, já eram pintados como os monstros que se garante que são anos e anos depois de ainda nada ter sido provado em tribunal contra eles. Mas as vantagens não se esgotam na auto-justificação para os imparáveis e compulsivos discursos de ódio, também desta forma se garante uma inevitável vitória política aconteça o que acontecer no desfecho do processo intencionalmente transformado em julgamento político: com condenações pesadas e exemplares mesmo que nada seja provado directamente, como se fez a Vara, o sucesso será retumbante – o PS ficará como o partido dos corruptos para as próximas décadas; com condenações de severidade mediana e adequadas aos eventuais crimes provados directamente, será possível manter o discurso da monstruosidade que ficou por punir por causa de tudo e de todos; e com absolvições para a totalidade da acusação ou quase, especialmente para as acusações de corrupção, o sucesso volta a ser retumbante pois será possível repetir o discurso da calúnia e do ódio e alargá-lo a certos elementos da Justiça, especialmente magistrados judiciais que ficarão associados aos “corruptos” como seus protectores.

Entretanto, enquanto se espera pelo trabalho insano de Ivo Rosa, e tal como vimos publicamente logo em Julho de 2014 (ainda não existiam arguidos na “Operação Marquês”), os crimes cometidos em nome do combate ao crime continuam e são aplaudidos por uma claque que domina o espaço mediático. Atribuir natureza maligna a outrem em contexto de conflito sobre recursos valiosos, como se faz na política mas não só, impele a passar-se ao ataque mesmo sem sinal de movimento ameaçador do inventado inimigo. Pensemos: como é que se poderia, na prática, julgar uma “elite plutocrata”, especialmente a respeito de algo que se define como “tentativa” de não sei quê? Se foi uma tentativa, então não chegou a realizar-se. E se está em causa quem se alega já estar no topo de um poder financeiro corrupto, então os únicos “tentáculos” que interessam são aqueles que se diz não terem chegado a existir em vez dos outros, reais, que lhes deram e permitiram manter esse suposto poder sabe-se lá desde quando?

Não é só esta história que está muito mal contada, é a evidência de que se quer contar esta história fantástica para abafar as outras de uma verosimilhança já inscrita na História. Por exemplo, a história das relações de Ricardo Salgado/BES com o PSD e o CDS, com Cavaco, com Durão Barroso, com Carlos Moedas, para só dar exemplos ao correr da teclado e sem entrar na “sociologia da Comporta” que abraça pela cintura o actual Presidente da República.

O vale tudo de agentes da Justiça e de jornalistas contra os seus alvos políticos e mediáticos caídos em desgraça – espiados, devassados e expostos para linchamento popular – ocorre com a aprovação do regime. Abafam-se as versões declaradas sob juramento, ou voluntariamente, que apresentem explicações dos protagonistas na berlinda contrárias às calúnias e faz-se debochadamente a diabolização hiperbólica onde o nome “Sócrates” é repetido em êxtase bacante.

Manuel Carvalho sabe que seria impossível julgar “elites plutocráticas”, fosse lá pelo que fosse, num Estado de direito. Esses delírios jacobinos ocorrem em sociedades que saem ou entram em guerras civis ou que estão sob o domínio de tiranos repressivos. Ele também sabe que acordou para o suposto colossal problema não pelo que andou a fazer como jornalista desde 1989 mas porque alguém resolveu prender Sócrates para ser investigado. A partir deste acto fundador, onde se desconhece se algum crime ocorreu mas se trata o suspeito como culpado do que qualquer macaco se lembre de imaginar, o paradigma da “Operação Marquês” ficou estabelecido. Era impossível voltar atrás, sequer impedir o vendaval de perfídias a caminho. A lógica passou a ser a de garantir a condenação, e para isso nada como tratar do assunto pelas próprias mãos não vá o Diabo fazer das suas no último momento. Pela sua parte, em nome de um accionista que é parte interessada na “Operação Marquês”, como director de um semipasquim onde se paga a caluniadores profissionais, este senhor faz a sua parte. Despacha editoriais do Carvalho.


Fonte aqui

Dez milhões de idiotas

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 11/05/2019)

MST

1 Afinal, no passa nada: além do “teatro” montado por António Costa, foi tudo uma grande confusão de jornalistas, comentadores, cidadãos e do próprio Mário Nogueira, que cantou vitória após a sessão parlamentar da outra quinta-feira, que todos julgaram ter consagrado o direito à reposição integral do tempo reclamado pelos professores. Nada disso: nunca houve coligação negativa alguma entre a direita e a extrema-esquerda, nunca houve qualquer texto cozinhado a quatro mãos (esqueçam a fotografia aqui publicada sobre eles na sua tarefa legislativa, porque ela não passou de uma montagem). Mais: nem houve votação alguma (versão Rui Rio), ou, se houve, o que se votou foi exactamente o contrário do que foi dito (versão Assunção Cristas). Somos todos idiotas, ninguém percebeu a genialidade táctica de Rio e Cristas, fingindo votar o que não votaram, fingindo dar aos professores o que jamais quiseram dar, fingindo-se comprometidos com um texto de alteração legislativa que afinal nunca existiu. Nada disso: não é verdade, por exemplo, que o BE e o PCP tenham recusado as alterações propostas pelo PSD e CDS, enquanto que estes aprovaram as deles. Foram todos ao engano: a Fenprof, o BE, o PCP, os militantes centristas a quem Cristas teve de escrever à pressa explicando-lhes que uma coisa era reconhecer uma dívida outra coisa era pagá-la, e os notáveis do PSD cuja consternação e revolta Rio teve de ouvir e para quem teve de inventar tantos truques de ilusionismo que por pouco não se fazia desaparecer a si próprio. Somos todos idiotas, dez milhões de idiotas, explicaram-nos eles.

Fiquemos então assim. A política não é para espíritos simples, para deduções apressadas — e é por isso, aliás, que Rui Rio explicou que demora sempre pelo menos dois dias até ter opinião sobre o que quer que seja. Fiquemos com a lição de quem sabe.

Mas apesar de o grosso da tremenda maquinação montada por António Costa e engolida sem espinhas por dez milhões de embasbacados crentes ter sido assim desmascarada por Cristas e Rio, pelo sim pelo não eles lá foram acrescentando alguns argumentos outros, mesmo que conflituando com a sua verdade principal. Por exemplo: nada daquilo acarretando despesa alguma ou sendo para pagar, Rui Rio sugeriu, todavia, que sempre se podia pagar em horário de trabalho ou reformas antecipadas, com a pensão por inteiro. Excelente ideia: mais um regime de privilégio e excepção, que algures vi justificado com o argumento de que há professores a mais e a classe precisa de ser rejuvenescida. Pois: mas votaram eles contra a integração dos 20.000 “precários”, que já se sabia não fazerem falta e que foi a penúltima reivindicação da Fenprof ? E que a classe está envelhecida é uma verdade, mas não estão todas, não está o país inteiro? Vamos todos para a reforma antecipada?

Argumento insistente foi também o do real valor dos milhões envolvidos, apesar de se ter ouvido Assunção Cristas jurar que nem um cêntimo a mais estava em causa. Claro que a questão dos milhões importa: não é indiferente saber se são 300, 400 ou 800 milhões. Mas, independentemente da maneira como se façam as contas, o fundamental não é a questão financeira, mas a questão política, o princípio. Vi o estafado argumento de que se há dinheiro para acorrer aos bancos, pagar as PPP ou as rendas excessivas da electricidade, também há para os professores. É um argumento ao nível de conversa de café, que, aplicado a cada caso e situação, nos levaria rapidamente de regresso ao pedido de socorro. Justamente porque tivemos e ainda temos de pagar por esses desvarios é que sofremos o que sofremos. Porquê, então, saldar contas de um passado em que todos perderam — e muitos bem mais do que os professores — em benefício apenas destes e dos restantes “corpos especiais” da função pública? Porquê recompensar a classe dos professores, onde o absentismo subiu 10% e as despesas com pessoal 700 milhões, apenas nos últimos três anos (números do insuspeito David Justino), ou a dos polícias, com os seus 24 sindicatos e milhares de dirigentes e delegados sindicais, com direito a quatro dias de folga por semana para “trabalho sindical”? Essa é a grande questão. E se todos nós não percebemos a atitude do PSD e do CDS (nem a do BE e do PCP), dá-me a ideia de que também Assunção Cristas e Rui Rio não perceberam o essencial: a revolta surda daqueles que já estão fartos disto e que não viram em todo este episódio nada mais do que um capítulo do método “vale tudo” na caça ao voto. Que eles depois, em lugar de reconhecer que erraram ou de arrepiar humildemente caminho, ainda tenham querido tomar-nos a todos por parvos, é brincar com o fogo.


2 Os números resultantes da acusação do Processo Marquês são de pura demência: 4000 páginas de despacho acusatório, 53.000 de investigação, 77.000 de documentação anexa, 8000 de transcrições de escutas telefónicas, 103 horas de vídeos de interrogatórios e 322 de depoimentos áudio de testemunhas. Tudo isto desaguou nos braços de um só juiz de instrução, que terá a seu único cargo decidir arguido por arguido, acusação por acusação, prova a prova, quais e o quê manda para julgamento. Como é óbvio, o Processo Marquês vai consistir numa tarefa desumana para os seus intervenientes, a começar por Ivo Rosa e magistrados do julgamento, mas também extensível a todos os outros intervenientes, como os jornalistas e todos aqueles que ainda não fizeram o seu julgamento prévio e queiram mesmo saber o que se passou e seguir de perto o trabalho da Justiça.

Num texto sobre o assunto, o juiz Manuel Soares, presidente da respectiva Associação Sindical, insurge-se contra a falta de meios de ajuda ao juiz de instrução, nomeadamente a falta dos assessores previstos na lei. Tem razão, mas não vai ao fundo da questão. O fundo da questão é constatar como a hierarquia do Ministério Público, contra todas as suas proclamações, permitiu que a equipa de magistrados do MP do Processo Marquês, liderada por Rosário Teixeira, pudesse livremente dar à luz um monstro como este, que só para deduzir a acusação precisou de uma dúzia de magistrados a escrevê-la a várias mãos. Porque não havia necessidade nenhuma de assim ser, se Rosário Teixeira, com o apoio de Carlos Alexandre, não tivesse cedido à tentação de fazer o “julgamento do regime”, à conta da acusação contra José Sócrates. Isso tornou-se-me evidente quando, com base na simples opinião de Paulo Azevedo sobre a OPA falhada da Sonae à PT, resolveu envolver também Sócrates no caso e, para fechar logicamente o círculo e socorrendo-se da “delação premiada” oferecida à muito pouco recomendável testemunha Hélder Bataglia, envolvê-lo também com o BES. Isso acrescentou uns milhares de páginas e dezenas de testemunhas ao processo desnecessariamente — pois, se achou que tinha elementos suficientes para tal, o podia ter remetido para um outro processo, a cargo de outro magistrado. Assim, além de mais, salvo melhor opinião, só veio enfraquecer a acusação quanto ao restante, deixando a impressão de que, se juntou a PT e o BES ao processo já no final da investigação, foi porque achou que o que tinha até aí contra José Sócrates era fraco ou de êxito duvidoso. O facto é que o monstro foi crescendo para todos os lados à vista dos superiores hierárquicos do procurador, que nada fizeram para o impedir e que assim deixaram ser entregue em tribunal um processo que, pela sua dimensão absurda, é virtualmente impossível de ser decidido sem levantar tantas ou mais dúvidas do que certezas. Justamente o contrário do que se pedia e se dizia pretender.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia