E finalmente começou a novela…

(Estátua de Sal, 03/07/2025)

Começou hoje a encenação que dá pelo nome de “julgamento da Operação Marquês”. Antes de mais devo aos meus leitores, em jeito de declaração de interesses, a resposta à seguinte questão? Acha a Estátua que Sócrates é culpado ou inocente? A Estátua não sabe e é mais que legítimo que existam dúvidas sobre a existência de eventuais culpas, e sobre qual o seu grau. Mas sabe, sem qualquer dúvida, quatro coisas que passa a expor:

1) Compete à justiça provar a sua hipotética culpabilidade – o que está longe de ter sido conseguido -, e não a Sócrates provar que é inocente.

2) Os atropelos jurídicos que têm sido cometidos na saga judicial do processo Marquês, desde a prisão de Sócrates em 2014 até hoje, são mais que muitos e não pode censurar-se Sócrates por os invocar, arguindo nulidades processuais em sua defesa, já que isso é um DIREITO insofismável que lhe assiste.

3) Se Sócrates fosse um distinto militante do PSD ou do CDS, provavelmente este processo nunca teria nascido, ou há muito que já teria tido o arquivamento como destino. Assim aconteceu com Portas e o “caso dos submarinos”, (ver aqui), em que a justiça alemã provou a existência de corrupção sobre os governantes portugueses, mas cá o Ministério Público não conseguiu descortinar os corrompidos e mandou arquivar o caso. Assim aconteceu no “caso dos sobreiros Portucale”, com ministros do CDS a serem ilibados, sendo apenas julgados funcionários do partido, apesar dos “donativos” ao CDS terem sido mais que provados (Ver aqui e aqui). Assim aconteceu com Cavaco e a muito mal contada história da “casa da Coelha”, ver aqui). E assim está também a acontecer com Montenegro no caso Spinumviva, em que apesar de todos os indícios, apesar das meias-verdades do Primeiro-ministro e das suas tentativas de ocultação, o Ministério Público não vê motivos para investigar.

4) A conclusão é óbvia: há décadas que o lawfare é praticado em Portugal, com uma enorme taxa de sucesso e sempre com os mesmos objetivos: colocar no poder o PSD/CDS ou branquear os desmandos destes partidos quando já estão à frente da governação.

Neste contexto, não vai fazer-se qualquer julgamento ou praticar-se justiça, mas apenas fazer-se uma encenação do folhetim da “corrupção de Sócrates” para consumo mediático, com o objetivo de acabar com o que resta do PS nas eleições autárquicas de 12 de Outubro. O timming foi escolhido a dedo. Saem agora os primeiros episódios da novela só até dia 16, quando começam as férias judiciais, e a partir de 1 de setembro virá o enredo mais pícaro, coincidindo com a campanha eleitoral.

Quando em abril de 2021 o juíz Ivo Rosa, deu como não provadas todas as narrativas do Ministério Público quanto aos hipotéticos crimes de corrupção de Sócrates, escrevi e publiquei aqui um texto em que, a dado passo, dizia o seguinte:

Sendo a Justiça um sistema imperfeito – porque humanos e imperfeitos são os seus agentes -, fiquei hoje com a sensação de que o sistema contém em si, ainda assim, uma lógica de contrapesos que lhe permite corrigir os seus próprios limites e falhas.

Perante o que se passou a seguir, em que uma turba de juízes e procuradores, mancomunados com um batalhão de jornalistas, tentaram destruir e reverter o despacho de Ivo Rosa, tenho que fazer mea culpa e reconhecer que me enganei.

A Justiça, em Portugal, é incorrígivel pois funciona num casulo de opacidade, fechado ao escrutínio democrático. Assim, é ela que comanda a política, enviezando, sempre que é necessário a certos interesses, o sentido de voto dos cidadãos.

E isso aconteceu repetidas vezes após o 25 de Abril, e também aconteceu neste caso, independentemente, da culpa ou da inocência de José Sócrates.

E para terminar deixo dois textos que corroboram a conclusão que acima expressei. Um, de Miiguel Sousa Tavares, que aqui publiquei em 16/04/2021, aquando da saída do despacho de Ivo Rosa.

Outro mais atual, de um fundador do PS, ainda vivo, António Campos, uma referência de antifascismo, um tipo de referência cada vez mais rara no PS.


O lobby dirigido pelo Ministério Público

(António Campos, in Facebook, 02/07/2025, Revisão da Estátua)

O José Sócrates é acusado de ter sido corrompido pelo grupo Lena, pelo grupo Espírito Santo e por um empreendimento de Vale de Lobo.

O lobby organizado contra ele, é dirigido pelo Ministério Público, com a colaboração de alguns jornalistas bem conhecidos da praça pública, e o silêncio cobarde de falsos democratas que nunca exigiram a prova dos factos da corrupção destes três grupos.

Estamos fartos de ouvir acusações públicas mas nunca foram publicadas as verdadeiras e incontestáveis provas de corrupção daqueles grupos.

O que temos visto e ouvido são sistemáticas violações dos direitos, liberdades e garantias constitucionais sobre a sua vida privada e da de um amigo.

O lobby dirigido pelo Ministério Público, prende-o e só o acusa passados três anos, nomeia juízes membros do lobby e o Conselho Superior da Magistratura cria um grupo para acompanhar o processo.

Este comportamento lembra os tribunais plenários da ditadura fascista.

Sócrates, hoje em Bruxelas, disse uma verdade insofismável de que só nas ditaduras os juízes são escolhidos para julgarem processos e até vai ter um grupo de fiscalização que lembra a PIDE que decretava a pena.

É óbvio, que a sua capacidade de pensar e de realizar politicamente, assustou e muito a mediocridade reinante.

O Mistério Público após tantas violações constitucionais tem de provar publicamente com provas reais a corrupção das três entidades ,em vez de o julgar na sua vida privada.

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Sócrates na CNN – que grande baile!

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 21/11/2024)

(Como é que puseram dois novatos a entrevistar Sócrates, um veterano da comunicaçao televisiva, e ainda por cima a querer minimizá-lo e contraditá-lo? Uma decisão de puro amadorismo. Sócrates fê-los em picadinho e foi um gozo ver. Usando uma metáfora tauromáquica, Sócrates toureou, espetou os ferros e até cortou orelhas… 🙂

Estátua de Sal, 22/11/2024)


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Há pouco, ante dois jornalistas atrevidos que são um dos vértices da sagrada aliança entre o poder judicial, o poder político e as fábricas de notícias, José Sócrates – goste-se ou não deste fulano com mil defeitos, mas inteligente e brutal, tanto na defesa como no ataque – portou-se como é raro entre nós. Fez frente, impugnou todos os comentários e desmontou todas as insinuações, zombou dos gazeteiros e disse do regime o que Mafoma não diria do toucinho.

Nisso, tem toda a razão, pois nesta terra nada é claro, tudo parece encomendado e tudo se mercadeja ao sabor de cismas pessoais, de arranjos entre grupetas e macaqueações de justiça preparadas fora dos tribunais, fora das redacções e fora da esfera da acção dos políticos. Se a justiça é sempre tardia, a falsa justiça é apanágio dos povos de moralidade estragada.

Ver vídeo da entrevista completa aqui.

Breve história do Processo Marquês escrita no dia em que faz 10 anos

(José Sócrates, in Diário de Notícias, 21/11/2024)


(Independentemente da culpabilidade de Sócrates – que não sabemos ainda se existe ou não, pois ainda não foi julgado e, por isso, só podemos ater-nos a presunções -, há duas condenações que podem já avançar: 1) A justiça em Portugal que, em dez anos não conseguiu chegar a uma conclusão; 2) A “democracia” em Portugal que tem vivido e avançado montada em golpes de “lawfare” cada vez mais óbvios e despudorados, como aconteceu com o último governo de Costa.

Estátua de Sal, 21/11/2024)


Sucintamente, a história pode ser assim contada. Durante 10 anos, o Estado português levou a cabo a mais formidável campanha de difamação contra um cidadão inocente que alguma vez teve lugar em Portugal: negou o direito de defesa, vigarizou a escolha do juiz do inquérito, violou o segredo de justiça e rejeitou a presunção de inocência.

Anotemos brevemente os factos. Só os factos, por favor. O Estado português começou por manipular a distribuição do processo e fraudar a escolha do juiz. Não realizou o sorteio que a lei exige e transformou o inquérito num jogo viciado – uma jaula de ferro com o juiz de um lado e o procurador do outro.

Depois, nomeado o juiz e já seguros de si, deram início ao vendaval de violência e de abusos que durou os quatro anos de inquérito. O procurador ordenou a detenção no aeroporto, que foi transmitida em direto nas televisões. Em seguida, o juiz decretou prisão preventiva, alegando perigo de fuga, quando o visado estava a entrar no país, não a sair. No despacho escreveu assim: “Tal promoção, (a de prisão preventiva) a pecar não será por excesso.” Exatamente assim, com estas palavras.

O Sistema Judicial ratificou, o jornalismo aplaudiu e a política calou-se perante a barbaridade. A partir daí seria uma luta solitária.

Há várias formas de contar a história do processo. Uma delas é a da mentira.

Mentiram tanto, e mentiram durante tanto tempo, que se transformaram eles próprios na Mentira, com M grande.

Mentiram quanto ao “TGV”, mentiram nas “casas da Venezuela”, mentiram na “Parque Escolar”, mentiram na “OPA da Sonae”, mentiram em “Vale do Lobo”, mentiram quanto à “proximidade a Ricardo Salgado”, mentiram no “apartamento de Paris”, mentiram na chamada “fortuna escondida”. A espiral demoníaca da mentira e da violência funciona por retroalimentação – mais mentira implica mais violência, e mais violência necessita de mais mentira.

Dez anos depois, a decisão instrutória, (que está em vigor, embora sob recurso), considerou que nenhuma das acusações tem mérito para subir a julgamento. Todas elas eram “fantasiosas” ou “especulativas” ou “incongruentes”. Nenhuma tem fundamento. E, por favor, prestem atenção a este detalhe – a decisão judicial não diz respeito à ausência de provas, mas de indícios.

Vejamos agora de outro ângulo. A história do processo é também a história da vertiginosa e contínua mudança na acusação.

Em 10 anos, o Estado fez três acusações diferentes. A primeira acusação foi apresentada em setembro de 2017 com uma alegação principal de corrupção para ato lícito.

Quase quatro anos depois, como já referi, a decisão instrutória destruiu toda a acusação. Nesse momento nasceu uma segunda acusação – o juiz Ivo Rosa transformou o alegado testa de ferro em corruptor ativo e mudou o crime: agora já não é corrupção para ato lícito, mas corrupção sem ato.

Três anos depois o Tribunal da Relação derrubou esta segunda acusação, considerando-a ilegítima, ilegal e baseada numa “alteração substancial de factos”. Nesse mesmo ano, nesse mesmo tribunal, nasceria, então, a terceira acusação – invocando um “lapso de escrita”, o tribunal considerou que, afinal, a verdadeira acusação é de corrupção para ato ilícito.

Portanto, e em síntese: 10 anos e três acusações diferentes de corrupção – a primeira para ato lícito, a segunda sem ato, a terceira para ato ilícito.

A crónica do processo é a da metamorfose da acusação – derrubada uma, nasce outra; derrubada a segunda, nasce uma terceira. Vale tudo para salvar a face do Ministério Público. Vale tudo para alargar os prazos de prescrição. Vale tudo para manter o processo vivo – “Se não foste tu, foi o teu pai”. Nunca terá fim.

A fabricação desta terceira acusação merece ser contada. Foi assim: em 2024, três juízas consideram que a acusação inicial (aquela que foi apresentada em 2017) continha um “lapso de escrita “. Assim sendo, dizem elas, as alegações que indicavam crimes de “corrupção para ato lícito” deveriam ser lidas como querendo significar “corrupção para ato ilícito”. O erro era tão óbvio que o anterior juiz deveria ter corrigido.

Acontece que o “lapso” nunca foi referido durante toda a fase de instrução – nem nos interrogatórios, nem no debate instrutório. Nunca foi invocado pelo Ministério Público. Naquela sala do tribunal, durante três anos, ninguém ouviu falar daquele lapso.

Ainda mais: a 21 de Novembro de 2018 a equipa de procuradores entregou ao tribunal um documento destinado a corrigir “alguns lapsos de escrita”. Quinze páginas de lapsos, mas não esse. Não, nunca houve lapso de escrita algum. O lapso de escrita é a última mentira do Processo Marquês. A última fraude.

Finalmente, o tempo.

Dez anos de violência e de arbítrio. Dez anos de prisão na opinião pública. Dez anos em que o sistema criminal português se comportou como na ditadura, prendendo e difamando um inocente, enquanto escolhia o juiz do inquérito que melhor servisse o Ministério Público.

Nem presunção de inocência, nem direito de defesa, nem igualdade de armas – prazos imperativos para o cidadão; prazos meramente indiciativos para o Estado. Na verdade, os prazos de inquérito há muito que deixaram de indicar seja o que for, na medida em que deixaram simplesmente de existir, não por vontade do Parlamento, mas por vontade do Ministério Público, que decidiu apagar esse artigo do Código de Processo Penal. Diferentemente do que para aí dizem, a ameaça à separação de poderes vem da usurpação de funções do poder político pelo poder judicial, não o contrário.

No entretanto, o jornalismo cumpriu o seu papel. O jornalismo divulgou, o jornalismo justificou, o jornalismo branqueou – manobras dilatórias são as dos advogados, não existem manobras dilatórias do Estado. O adiamento dos prazos de inquérito, o adiamento dos prazos de instrução, o incumprimento de qualquer tipo de prazo pelo Estado é visto, pelo jornalismo, como a procura da “verdade material” ou como resposta à chamada “dificuldade em provar”, ou ainda como forma de ultrapassar a costumeira “falta de meios”.

Para o jornalismo português há sempre um qualquer fim social que justifica a selvajaria do Estado e a quebra das mais elementares garantias individuais. Para o jornalismo, o Estado nunca demora, só a defesa, só o advogado, só o cidadão tem interesse no atraso. A queixa por ausência de justiça em tempo razoável, apresentada em 2017, nunca foi julgada – mas nunca o jornalismo referiu este facto. Nunca. É como se não existisse. Se tens o atrevimento de te queixar de atrasos na Justiça, então justiça é que não obterás. Difícil imaginar maior perversidade.

A história do Processo Marquês não é a de um processo de direito comum, mas de um processo de exceção. O Processo Marquês nunca foi um processo judicial, mas uma armação política. A sua razão de ser nada teve a ver com justiça, mas com política – impedir a minha candidatura a Presidente da República e evitar que o Partido Socialista ganhasse as Eleições Legislativas de 2015. A única diferença face ao recente Processo Influencer é que, há 10 anos, não se esqueceram de escolher o juiz. A diferença que faz escolher o juiz.

Seja como for, neste momento, no Processo Marquês, não existe acusação (anulada em 2021), nem pronúncia (anulada em 2024) – mas a perseguição continua. A operação de lawfare segue à risca os procedimentos: manipularam a escolha do juiz, fabricaram acusações falsas e estapafúrdias, incumpriram todos os prazos e violaram o segredo de justiça, por forma a alimentar o jornalismo e fazer dele o seu principal aliado.

lawfare é assim: não se destina a ganhar um melhor lugar na mesa de negociações – é uma guerra de extermínio. Em Portugal dura há 10 anos.

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