Coisas do Carvalho

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 21/05/2019)

Manuel Carvalho

«No Portugal deslumbrado com os fundos europeus, do dinheiro fácil e da promiscuidade barata, bastava ser rico, estar de pé firme na oligarquia da capital para se merecer uma distinção. Berardo não foi o criador dessa cultura; foi sim uma das suas mais exuberantes criações. Puni-lo por se ter tão perfeitamente integrado nesse caldo venal de vícios e favores faz todo o sentido – até para que não continue a gozar com os brandos costumes e com a impunidade alimentada pela lentidão da Justiça. Mas jamais apagaremos esses dias [que] levaram o país até perto da bancarrota com gestos simbólicos.

Caímos assim na essência da Operação Marquês. No julgamento dessa nódoa da história nacional recente, nessa tentativa de uma elite plutocrata criar um sistema de poder tentacular. Se Berardo entrou nesse jogo a convite, se hoje pode dizer que não tem dívidas e se não se vislumbram meios de a Justiça o forçar à verdade é porque, no essencial, nada mudou. Pior: enquanto os tribunais se limitarem a arrastar os processos, enquanto não tiverem meios eficazes, enquanto não forem capazes de punir os “golpes de estado” de pessoas como Berardo, nada mudará. É bom que Portugal seja um Estado de Direito, mas o que o circo do empresário madeirense veio revelar é que, numa questão essencial para a defesa dos valores colectivos, esse Direito se continua a escrever por linhas tortas. Vamo-nos, por isso, contentando com a retirada das comendas.»

Editorial do Público de 18 de Maio


O actual director do Público, em representação da Redacção e do accionista (posto que recorre ao estatuto do “editorial”, assim institucionalizando a sua opinião), considera que a “Operação Marquês” consiste no julgamento “de uma elite plutocrata” que terá tentado “criar um sistema de poder tentacular”. Onde é que já lemos e ouvimos a mesma denúncia, precisamente com o mesmo léxico? Na Cofina, no Grupo Impresa, no Observador, nos meios de comunicação social da Igreja Católica (inclusive nos mais recônditos e supostamente dados ao aprofundamento de temáticas religiosas, teológicas e espirituais). Recentemente, imaginando ter ganhos eleitorais ou por desvairo canalha, Rui Rio juntou-se a esta súcia, assim acabando com as dúvidas que pudessem existir a respeito da sua honestidade intelectual, integridade cívica e qualidade de estadista.

Há tectónicas consequências em se entender a “Operação Marquês” não como um processo de investigação objectiva sobre eventuais crimes factuais da responsabilidade de indivíduos a quem se concede o direito de defesa e passar a vê-la como o combate final contra um inimigo que ameaça a liberdade, os direitos fundamentais e o futuro imediato da comunidade. Ao se recorrer à mais pulha das falácias, a petição de princípio, fica-se com carta branca para qualquer violação da lei e qualquer violência que se consiga cometer contra aqueles que, ainda antes do julgamento e mesmo antes da inquirição judicial, já eram pintados como os monstros que se garante que são anos e anos depois de ainda nada ter sido provado em tribunal contra eles. Mas as vantagens não se esgotam na auto-justificação para os imparáveis e compulsivos discursos de ódio, também desta forma se garante uma inevitável vitória política aconteça o que acontecer no desfecho do processo intencionalmente transformado em julgamento político: com condenações pesadas e exemplares mesmo que nada seja provado directamente, como se fez a Vara, o sucesso será retumbante – o PS ficará como o partido dos corruptos para as próximas décadas; com condenações de severidade mediana e adequadas aos eventuais crimes provados directamente, será possível manter o discurso da monstruosidade que ficou por punir por causa de tudo e de todos; e com absolvições para a totalidade da acusação ou quase, especialmente para as acusações de corrupção, o sucesso volta a ser retumbante pois será possível repetir o discurso da calúnia e do ódio e alargá-lo a certos elementos da Justiça, especialmente magistrados judiciais que ficarão associados aos “corruptos” como seus protectores.

Entretanto, enquanto se espera pelo trabalho insano de Ivo Rosa, e tal como vimos publicamente logo em Julho de 2014 (ainda não existiam arguidos na “Operação Marquês”), os crimes cometidos em nome do combate ao crime continuam e são aplaudidos por uma claque que domina o espaço mediático. Atribuir natureza maligna a outrem em contexto de conflito sobre recursos valiosos, como se faz na política mas não só, impele a passar-se ao ataque mesmo sem sinal de movimento ameaçador do inventado inimigo. Pensemos: como é que se poderia, na prática, julgar uma “elite plutocrata”, especialmente a respeito de algo que se define como “tentativa” de não sei quê? Se foi uma tentativa, então não chegou a realizar-se. E se está em causa quem se alega já estar no topo de um poder financeiro corrupto, então os únicos “tentáculos” que interessam são aqueles que se diz não terem chegado a existir em vez dos outros, reais, que lhes deram e permitiram manter esse suposto poder sabe-se lá desde quando?

Não é só esta história que está muito mal contada, é a evidência de que se quer contar esta história fantástica para abafar as outras de uma verosimilhança já inscrita na História. Por exemplo, a história das relações de Ricardo Salgado/BES com o PSD e o CDS, com Cavaco, com Durão Barroso, com Carlos Moedas, para só dar exemplos ao correr da teclado e sem entrar na “sociologia da Comporta” que abraça pela cintura o actual Presidente da República.

O vale tudo de agentes da Justiça e de jornalistas contra os seus alvos políticos e mediáticos caídos em desgraça – espiados, devassados e expostos para linchamento popular – ocorre com a aprovação do regime. Abafam-se as versões declaradas sob juramento, ou voluntariamente, que apresentem explicações dos protagonistas na berlinda contrárias às calúnias e faz-se debochadamente a diabolização hiperbólica onde o nome “Sócrates” é repetido em êxtase bacante.

Manuel Carvalho sabe que seria impossível julgar “elites plutocráticas”, fosse lá pelo que fosse, num Estado de direito. Esses delírios jacobinos ocorrem em sociedades que saem ou entram em guerras civis ou que estão sob o domínio de tiranos repressivos. Ele também sabe que acordou para o suposto colossal problema não pelo que andou a fazer como jornalista desde 1989 mas porque alguém resolveu prender Sócrates para ser investigado. A partir deste acto fundador, onde se desconhece se algum crime ocorreu mas se trata o suspeito como culpado do que qualquer macaco se lembre de imaginar, o paradigma da “Operação Marquês” ficou estabelecido. Era impossível voltar atrás, sequer impedir o vendaval de perfídias a caminho. A lógica passou a ser a de garantir a condenação, e para isso nada como tratar do assunto pelas próprias mãos não vá o Diabo fazer das suas no último momento. Pela sua parte, em nome de um accionista que é parte interessada na “Operação Marquês”, como director de um semipasquim onde se paga a caluniadores profissionais, este senhor faz a sua parte. Despacha editoriais do Carvalho.


Fonte aqui

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Dez milhões de idiotas

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 11/05/2019)

MST

1 Afinal, no passa nada: além do “teatro” montado por António Costa, foi tudo uma grande confusão de jornalistas, comentadores, cidadãos e do próprio Mário Nogueira, que cantou vitória após a sessão parlamentar da outra quinta-feira, que todos julgaram ter consagrado o direito à reposição integral do tempo reclamado pelos professores. Nada disso: nunca houve coligação negativa alguma entre a direita e a extrema-esquerda, nunca houve qualquer texto cozinhado a quatro mãos (esqueçam a fotografia aqui publicada sobre eles na sua tarefa legislativa, porque ela não passou de uma montagem). Mais: nem houve votação alguma (versão Rui Rio), ou, se houve, o que se votou foi exactamente o contrário do que foi dito (versão Assunção Cristas). Somos todos idiotas, ninguém percebeu a genialidade táctica de Rio e Cristas, fingindo votar o que não votaram, fingindo dar aos professores o que jamais quiseram dar, fingindo-se comprometidos com um texto de alteração legislativa que afinal nunca existiu. Nada disso: não é verdade, por exemplo, que o BE e o PCP tenham recusado as alterações propostas pelo PSD e CDS, enquanto que estes aprovaram as deles. Foram todos ao engano: a Fenprof, o BE, o PCP, os militantes centristas a quem Cristas teve de escrever à pressa explicando-lhes que uma coisa era reconhecer uma dívida outra coisa era pagá-la, e os notáveis do PSD cuja consternação e revolta Rio teve de ouvir e para quem teve de inventar tantos truques de ilusionismo que por pouco não se fazia desaparecer a si próprio. Somos todos idiotas, dez milhões de idiotas, explicaram-nos eles.

Fiquemos então assim. A política não é para espíritos simples, para deduções apressadas — e é por isso, aliás, que Rui Rio explicou que demora sempre pelo menos dois dias até ter opinião sobre o que quer que seja. Fiquemos com a lição de quem sabe.

Mas apesar de o grosso da tremenda maquinação montada por António Costa e engolida sem espinhas por dez milhões de embasbacados crentes ter sido assim desmascarada por Cristas e Rio, pelo sim pelo não eles lá foram acrescentando alguns argumentos outros, mesmo que conflituando com a sua verdade principal. Por exemplo: nada daquilo acarretando despesa alguma ou sendo para pagar, Rui Rio sugeriu, todavia, que sempre se podia pagar em horário de trabalho ou reformas antecipadas, com a pensão por inteiro. Excelente ideia: mais um regime de privilégio e excepção, que algures vi justificado com o argumento de que há professores a mais e a classe precisa de ser rejuvenescida. Pois: mas votaram eles contra a integração dos 20.000 “precários”, que já se sabia não fazerem falta e que foi a penúltima reivindicação da Fenprof ? E que a classe está envelhecida é uma verdade, mas não estão todas, não está o país inteiro? Vamos todos para a reforma antecipada?

Argumento insistente foi também o do real valor dos milhões envolvidos, apesar de se ter ouvido Assunção Cristas jurar que nem um cêntimo a mais estava em causa. Claro que a questão dos milhões importa: não é indiferente saber se são 300, 400 ou 800 milhões. Mas, independentemente da maneira como se façam as contas, o fundamental não é a questão financeira, mas a questão política, o princípio. Vi o estafado argumento de que se há dinheiro para acorrer aos bancos, pagar as PPP ou as rendas excessivas da electricidade, também há para os professores. É um argumento ao nível de conversa de café, que, aplicado a cada caso e situação, nos levaria rapidamente de regresso ao pedido de socorro. Justamente porque tivemos e ainda temos de pagar por esses desvarios é que sofremos o que sofremos. Porquê, então, saldar contas de um passado em que todos perderam — e muitos bem mais do que os professores — em benefício apenas destes e dos restantes “corpos especiais” da função pública? Porquê recompensar a classe dos professores, onde o absentismo subiu 10% e as despesas com pessoal 700 milhões, apenas nos últimos três anos (números do insuspeito David Justino), ou a dos polícias, com os seus 24 sindicatos e milhares de dirigentes e delegados sindicais, com direito a quatro dias de folga por semana para “trabalho sindical”? Essa é a grande questão. E se todos nós não percebemos a atitude do PSD e do CDS (nem a do BE e do PCP), dá-me a ideia de que também Assunção Cristas e Rui Rio não perceberam o essencial: a revolta surda daqueles que já estão fartos disto e que não viram em todo este episódio nada mais do que um capítulo do método “vale tudo” na caça ao voto. Que eles depois, em lugar de reconhecer que erraram ou de arrepiar humildemente caminho, ainda tenham querido tomar-nos a todos por parvos, é brincar com o fogo.


2 Os números resultantes da acusação do Processo Marquês são de pura demência: 4000 páginas de despacho acusatório, 53.000 de investigação, 77.000 de documentação anexa, 8000 de transcrições de escutas telefónicas, 103 horas de vídeos de interrogatórios e 322 de depoimentos áudio de testemunhas. Tudo isto desaguou nos braços de um só juiz de instrução, que terá a seu único cargo decidir arguido por arguido, acusação por acusação, prova a prova, quais e o quê manda para julgamento. Como é óbvio, o Processo Marquês vai consistir numa tarefa desumana para os seus intervenientes, a começar por Ivo Rosa e magistrados do julgamento, mas também extensível a todos os outros intervenientes, como os jornalistas e todos aqueles que ainda não fizeram o seu julgamento prévio e queiram mesmo saber o que se passou e seguir de perto o trabalho da Justiça.

Num texto sobre o assunto, o juiz Manuel Soares, presidente da respectiva Associação Sindical, insurge-se contra a falta de meios de ajuda ao juiz de instrução, nomeadamente a falta dos assessores previstos na lei. Tem razão, mas não vai ao fundo da questão. O fundo da questão é constatar como a hierarquia do Ministério Público, contra todas as suas proclamações, permitiu que a equipa de magistrados do MP do Processo Marquês, liderada por Rosário Teixeira, pudesse livremente dar à luz um monstro como este, que só para deduzir a acusação precisou de uma dúzia de magistrados a escrevê-la a várias mãos. Porque não havia necessidade nenhuma de assim ser, se Rosário Teixeira, com o apoio de Carlos Alexandre, não tivesse cedido à tentação de fazer o “julgamento do regime”, à conta da acusação contra José Sócrates. Isso tornou-se-me evidente quando, com base na simples opinião de Paulo Azevedo sobre a OPA falhada da Sonae à PT, resolveu envolver também Sócrates no caso e, para fechar logicamente o círculo e socorrendo-se da “delação premiada” oferecida à muito pouco recomendável testemunha Hélder Bataglia, envolvê-lo também com o BES. Isso acrescentou uns milhares de páginas e dezenas de testemunhas ao processo desnecessariamente — pois, se achou que tinha elementos suficientes para tal, o podia ter remetido para um outro processo, a cargo de outro magistrado. Assim, além de mais, salvo melhor opinião, só veio enfraquecer a acusação quanto ao restante, deixando a impressão de que, se juntou a PT e o BES ao processo já no final da investigação, foi porque achou que o que tinha até aí contra José Sócrates era fraco ou de êxito duvidoso. O facto é que o monstro foi crescendo para todos os lados à vista dos superiores hierárquicos do procurador, que nada fizeram para o impedir e que assim deixaram ser entregue em tribunal um processo que, pela sua dimensão absurda, é virtualmente impossível de ser decidido sem levantar tantas ou mais dúvidas do que certezas. Justamente o contrário do que se pedia e se dizia pretender.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O curioso é que

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 22/03/2019)

José Sócrates

Não existe nenhum político nem jornalista, nenhuma celebridade ou a caminho, nenhum figurão ou gato-pingado na comunicação social que defenda Sócrates. É ao contrário, diariamente aparecem referências aviltantes e caluniosas na imprensa, na comunicação social e no Parlamento a Sócrates. Diariamente. Estes produtores logomaníacos de ataques a Sócrates, com vária motivação e díspar agenda, carimbam como “defensor de Sócrates” qualquer dos raros que se limitem a apontar eventuais falhas e evidentes abusos no modo como a Justiça e a sociedade têm tratado Sócrates nas fases da investigação e da acusação da Operação Marquês. E esses são raros porque muitos dos que igualmente constatam, de acordo com a sua consciência, que o regime lida com Sócrates como se fosse um réu político igualmente não lhe querem dar mais nenhuma manifestação de lealdade, sequer compaixão, ao sentirem-se traídos e confusos, arrependidos ou assustados. A factual responsabilidade moral de quem não evitou a histórica violência judicial e política que se abateu sobre ele, e sobre os seus, gera este acrescido linchamento colectivo em que se assiste ao uso da Justiça como mera liturgia de uma condenação já anunciada e imperativa. Só a integridade, coragem e liberdade de Ivo Rosa faz a diferença no que com Carlos Alexandre estaria agora a ser a continuação do auto-de-fé começado ao ser detido no aeroporto.

Se ninguém defende Sócrates, seria concebível alguém defender o Câmara Corporativa e o Miguel Abrantes? Nem aqui nem em metade dos infinitos universos paralelos. Pelo que a surpresa (ou falta dela) é simétrica, ver quem aparece a atacar esse blogue que está inactivo há mais de três anos. E que é um blogue. Um blogue.

Quando falam dos blogues de Sócrates, de promessas não cumpridas, de truques da oposição ou do governo, estão a falar de palha. Sim, de palha, que até pode servir para entreter um debate mas que não tem nada a ver com a realidade, nem com o que se pode passar de grave nestas eleições europeias. Os Abrantes do Sócrates não passavam da porta de nenhum site pró-russo nos Balcãs…

Ricardo Costa

Ricardo Costa sabe que Sócrates tinha “blogues”. Um plural indefinido e pasquineiro que cumpre a função de sugerir estarmos perante uma operação assustadora, a obra de um exército clandestino que por pouco não conseguiu hipnotizar a população inteira através do recurso aos bigbrotherianos e mefistofélicos “blogues”. Magnânimo e misericordioso, no acto mesmo de despejar o que tinha acabado de ler sobre “fake news” escrito na estranja, o mano Costa amnistia os “Abrantes de Sócrates” – mas só porque, na comparação, essa multidão não parece em condições de influenciar as próximas eleições europeias e porque, tecnicamente, é bandidagem que fica um pouco aquém do que conseguem actualmente fazer os russos. Um craque, este crânio com sabor a laranja que usa o império Balsemão para nos ajudar a entender a (sua) realidade.

CVM – O momento polémico do debate parlamentar desta semana foi introduzido pelo deputado Carlos Abreu Amorim do PSD, que invocou uma notícia recente da revista Sábado em que se dava conta de que o cabeça de lista do PS às próximas eleições europeias, o ex-ministro Pedro Marques, fez parte da rede de contactos daquele célebre blogue chamado Câmara Corporativa, alegadamente pago por José Sócrates para o defender publicamente. Este episódio parlamentar pareceu-lhe naquele contexto uma canelada política do PSD ao PS ou considera a questão pertinente, esta do blogue Câmara Corporativa?

PM – […] É evidente que o PS, como outros partidos de poder, já tem o seu historialzinho de desinformação, e desse tipo de blogues anónimos. Blogues anónimos que têm fontes obviamente bem colocadas, que têm acesso a documentos, a historiais das pessoas… A Câmara Corporativa não era um blogue de amadores, claramente. Era um blogue feito com pessoas que forneciam informações algumas das quais que não são de acesso fácil ou livre. […]

CVM – O curioso é que, tratando-se de um debate sobre desinformação, o representante do PS nesse debate, o deputado José Magalhães, acabou ele próprio por responder com uma informação falsa, dizendo que não respondia àquela questão levantada pelo PSD porque o assunto, disse José Magalhães, estaria em segredo de justiça, o que não corresponde à verdade dado que a acusação do Processo Marquês é pública.

Governo Sombra

Carlos Vaz Marques é jornalista e jornalista premiado. Porém, não é evidente que participe nesse estatuto profissional e com essa responsabilidade no Governo Sombra. Aliás, se formos a avaliar pelas evidências, o que temos é uma simulação de jornalismo que serve o propósito farsante de compor um boneco caricatural adentro de um espectáculo de entretenimento, política e calúnia. Acima temos um glorioso exemplo disso mesmo.

A pergunta lançada, e previamente combinada, omite que o caso judicial à volta do Câmara Corporativa só estabeleceu haver pagamentos suspeitos a partir de 2012. Essa omissão deixa na audiência a sugestão de que toda a actividade do blogue em causa, logo desde a sua concepção e início de actividade, está associada a pagamentos que, de alguma forma, se podem relacionar com Sócrates e com o período em que foi primeiro-ministro. Pedro Mexia, por tal ignorar ou por tal querer também esconder, não informou o público acerca dos factos. Em vez disso, regurgitou vacuidades com ar de quem sabe estar a falar para borregos. Começou pela mentira do anonimato, a cassete favorita da bronquite crónica. “Miguel Abrantes” é um pseudónimo, a pseudonímia não é equivalente ao anonimato, mas talvez o consultor do Presidente da República na área cultural não conheça autores, em desvairados campos de produção autoral, que tenham optado por assinarem as suas obras com pseudónimos. É uma hipótese, seguramente mais benévola do que a singular hipótese alternativa – a de Pedro Mexia ser um pulha, feliz da vida por ganhar dinheiro como caluniador profissional. Mesmo admitindo que o Mexia ignorava dados civis do indivíduo que assinava como “Miguel Abrantes”, tal não lhe permitia carimbar essa prática como anonimato a menos que tivesse tentado contactar o autor para recolher dele informação biográfica e civil sem sucesso, primeiro, e depois investigado se a pessoa em causa realmente se furtava à identificação pela sociedade. Ora, não era nada de nadinha disso que se passava, como a própria investigação do Ministério Público atesta. Pura e simplesmente, tratava-se de alguém que defendia a sua privacidade, escolhendo aqueles com quem estabelecia relações de proximidade comunicacional e vivencial – como consta que se pode fazer em liberdade. O Mexia não era um desses, pelos vistos. É disso que se queixa, de não ter privado com os happy few? E precisa de recorrer a um solecismo para tal, imitando a brigada dos estúpidos?

Veio de Carlos Vaz Marques, contudo, a surpresa de ter inventado uma inacreditável aberração informativa e deontológica. Ao pintar José Magalhães como mentiroso, o brilhante e bonacheirão jornalista anunciou ao povo que o blogue Câmara Corporativa e o autor Miguel Abrantes aparecem na acusação da Operação Marquês. Ora, disso ainda ninguém tinha ouvido falar, a começar pelos procuradores que redigiram a acusação e que se limitaram a previamente tirar uma certidão para futura investigação a respeito do tal celebérrimo e todo-poderoso blogue. Daí, como disse o mentiroso Magalhães, essa matéria estar em segredo de justiça. Por estar ainda a ser investigada, vejam só. Porém, o Sr. Marques, ladeado pelo erudito consultor presidencial para a Cultura, pelo impante presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho e pelo mais adorado e antisocrático dos espoliados do BES, resolveu dar uma lição ao deputado (socialista logo mentiroso), de caminho pondo na ordem o Ministério Público que aparenta não conseguir lidar com a rapidez e facilidade com que no Governo Sombra se criam “verdades”. Numa próxima emissão surgirá a denunciar Ivo Rosa por ainda não ter convocado ninguém ligado ao Câmara Corporativa a prestar contas no tribunal, algo que com Carlos Alexandre teria sido das primeiras audiências a acontecer, é certinho. E, perguntam os ingénuos, o magnífico jornalista pediu desculpas públicas ao malandro do socialista, sequer admitiu no programa seguinte não fazer a mínima ideia do que se passa na Operação Marquês para além de achar aquilo maravilhoso como ganha-pão para explorar à doida e sem vestígios de decência? Pois, não sejam ingénuos, seus ingénuos.

RAP – […] É claro que tem graça, é bem lembrado, o PSD falar no blogue do Miguel Abracadabrantes e lembrar a capacidade de produção de fake news que Sócrates tinha, mas se calhar é preciso fazer uma arqueologia da produção de fake news e lembrar que quem produziu esse produtor de fake news foi também uma fake news, designadamente aquela que Santana Lopes tentou, na qual tentou insistir, dizendo que ele gostava era de outros colos, ele Sócrates. E essa foi uma fake news que depois serviu durante muito tempo de álibi a José Sócrates para “Oh, isso do Freeport… Também diziam aquilo dos colos!” E assim sucessivamente, durante muito tempo, mesmo. Já para não falar do caso Casa Pia, atenção. Já para não falar no modo como a direcção do PS foi, esteve debaixo de fogo, a propósito do caso Casa Pia. Aí, não sei exactamente, quer dizer, desconfio, mas não sei quem foram os produtores de fake news, mas toda a gente desconfia. E pronto, e é isso.

Governo Sombra

É muito difícil ser humorista, carreiras de desgaste rapidíssimo. Veja-se como a genialidade de Herman José só durou uma década, o resto sendo (salvo fogachos) a penosa repetição forçada do que foi no início pujante originalidade e relevância. O mesmo se poderia dizer do Raúl Solnado, de quem só aqueles com mais de 70 anos conseguem recordar o apogeu e quem tenha menos de 50 mal sabe quem foi. Ao Ricardo Araújo Pereira acontece o mesmo, tendo entrado em rápido processo de esgotamento da inspiração há uns bons anos. A saída do armário de José Diogo Quintela e Tiago Dores, agora vedetas na indústria da calúnia e no activismo político da direita do ódio, poderá também ajudar a entender a deriva daquele que se pinta como diletante eleitor do PCP num festim de cinismo e palhaçada.

Ora, o palhaço em causa teve tempo para preparar o número onde pela enésima vez se iria insultar e ofender Sócrates no Governo Sombra. Como podemos ler, o que lhe saiu é um jorro de verrina que abdica por completo da intenção humorística. Trata-se de uma colagem desconexa, ininteligível, bêbada, de referências canalhas. O desconchavo foi tal que até o extraordinário jornalista Carlos Vaz ficou embaraçado, sem perceber um boi do que se estava a passar na cabeça do inteligentíssimo Ricardo. Uma cabeça que usa o seu poder mediático para um certo tipo de combate político onde os assassinatos de carácter e a calúnia são a munição preferida. Que ele tenha lá chegado pela facilidade de se juntar à turba linchadora e pela motivação de vingança onde vê Sócrates como um alvo muito menos arriscado para atacar do que Ricardo Salgado, isso é absolutamente indiferente.

No fundo, e a toda a superfície, contemplarmos o alvoroço que um singelo blogue – cuja audiência seria de um punhado de milhares de leitores na melhor das hipóteses; metade deles, ou mais, que o liam para o poderem detestar, ou porque lhes dava muito jeito em ordem a poderem chafurdar na conspiracionite e na chicana para “fazerem política” e venderem-se na comunicação social como algozes dos “socráticos” (cujo caso mais notável, portanto mais vergonhoso, foi o do Pacheco Pereira) – causa na elite da direita partidária e seus impérios mediáticos ilumina o estado intelectual e moralmente putrefacto da direita decadente. E o facto de continuar a ser um alvo conspícuo para a pulhice fica como monumento à sua qualidade cívica.

O que deixava os direitolas fulos não eram as “mentiras” do Câmara Corporativa, quem lhes dera encontrarem lá uma que fosse. Precisamente ao contrário, o que não suportavam era a capacidade de um singelo blogue para desmontar as mentiras torrenciais de uma direita dominadora do espaço mediático. Uma direita que apostou tudo na baixa política e nas golpadas por se saberem uma real bosta incapaz de conquistar o poder apenas no páreo dos projectos políticos para a comunidade que somos. Curioso, né?

Fonte deste artigo aqui