A televisão e as questões de moral

(António Guerreiro, in Público, 08/02/2019)

Guerreiro

António Guerreiro

Tal como um  milhão e trezentos mil espectadores (segundo os dados audiométricos divulgados), vi os três episódios de estreia de um novo programa de informação da SIC chamado @A Rede.

Neste caso, contava-se a história de uma mulher que criou falsas identidades no facebook, deu-lhes verosimilhança através de contactos telefónicos e conseguiu manipular um grupo de pessoas, não para lhes extorquir dinheiro, mas para as tornar escravas de afectos e emoções extremos induzidos por uma demoníaca manipulação, concebida por uma perversa imaginação narrativa. O caso é certamente verdadeiro, nem podemos imaginar que a SIC estava a fazer com os seus espectadores o que aquele génio da manipulação que só aparece no último episódio, numa imagem desfocada para proteger a sua identidade, fez com as suas criaturas. Mas, na verdade, tudo tresandava a mentira, uma nauseabunda mentira. De tal modo que a partir de certa altura senti que se tinha quebrado o pacto que aquela narrativa estabelecia comigo, enquanto espectador, e passei a olhar as vítimas como vilões e, consequentemente, para o espectador que se ausenta da fraude, o protagonista desta vilania colectiva é aquele que acaba por exercer uma função de manipulação narrativa análoga àquela que o tinham manipulado a ele. Provavelmente, fê-lo de maneira inocente, sem perceber que estava a ser manipulado uma segunda vez para que a sua experiência, a realidade que viveu, resultasse numa ficção da realidade.

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Tudo começa pelo mágico princípio do jornalismo narrativo: “Temos aqui uma bela história, uma história fabulosa”. Tão fabulosa, que permite pôr em acção a estratégia de Xerazade: o espectador fica dependente de uma continuidade narrativa, de um encadeamento que é interrompido e só retomado no dia seguinte. Parece que se segue aqui uma ordem cronológica, natural. Mas não, a história é contada recorrendo aos usos instrumentais da narrativa. Antecipo já as objecções: mas então porque se haveria de evitar essa dimensão narrativa, se se trata de facto de uma história que, podemos até dizer, tem a estrutura da ficção? A narrativização é legítima e necessária. O problema é que, nesta reportagem, os processos técnicos e formais das convenções narrativas se tornam caricaturais. A certa altura, quando deixamos de aceitar o pacto, já só vemos a dimensão formal: a montagem, os enquadramentos, a cenarização, a direcção de “actores”, a representação. Isto é: as técnicas de storytelling. E aquilo que deveria ser um efeito de real torna-se um efeito de mentira e o espectador avisado passa a só ver o império dos artifícios. E isto não é apenas kitsch, com tudo o que o kitsch tem de mentira. É também uma questão de moral e de violência exercida sobre o espectador e sobre aqueles que certamente com a melhor das intenções se tornaram os joguetes de uma entidade que joga aos dados com as suas criaturas. O escritor americano Don DeLillo, depois dos atentados do 11 de Setembro, escreveu um artigo na Harper’s Magazine, onde dizia: “Hoje, a narrativa do mundo pertence de novo aos terroristas”. Esta formulação que pode parecer ambígua, dado o seu contexto, mas De Lillo não queria dizer que a narrativa dominante era a dos terroristas. Ele quis dizer que o próprio modo narrativo se tornou terrorista, Simultaneamente, inscreve-se num campo simbólico onde se confrontam as performances narrativas. A televisão, incluindo os programas de informação, é hoje um ramo, em estado de histeria, da indústria da mentira.

Lançando um veredicto sobre uma cena de um filme de 1960, de Gillo PontecorvoKapo, cuja história se passa num campo de concentração nazi, o realizador francês Jacques Rivette considerou que ela era “uma abjecção, resultado lógico do formalismo” e citou uma frase do crítico Luc Moullet: “A moral é uma questão de travellings”. Esta frase será mais tarde declinada por Godard desta maneira: “Os travellings são uma questão de moral”.

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O Criminoso falhado

(José Gabriel, 23/11/2018)

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Zé Mãozinhas estava inconsolável. Sentia-se injustiçado. E, no entanto, tudo tinha feito para que o sucesso fosse certo. Planeara o seu dia de crime cuidadosamente. Começara, como se impunha, pelo crime de violência doméstica esbofeteando – não sem alguma hesitação – a mulher. Esta, porém, não era boa de assoar e o Zé foi obrigado, sob uma saraivada de socos e pontapés, a refugiar-se na cozinha. Uma vez aí, prosseguiu a cena como pôde partindo toda a louça a que pode deitar a mão. Não era grande façanha, mas era, sem dúvida, classificável como violência doméstica. Fugiu pela janela da cozinha e, dirigindo-se ao quintal contíguo ao seu, aí se propôs prosseguir a sua jornada criminosa agredindo ao pontapé o cão do vizinho. Mas também o canídeo se mostrou pouco colaborante e, ferrando com inusitado vigor a perna do Mãozinhas, lá lhe deixou uma marca inesquecível – como se provava pela ligadura que, agora, envolvia a perna do frustrado agressor.

Quer dizer: um êxito parcial. Seguiu-se o prato forte do plano: o assalto ao tasco do Manel Barriga de Jinguba, agora, respondendo ao surto de turismo, transformado em bar gourmet. Munido da pistola de plástico – uma boa imitação, adrede comprada na Aurora Radiosa, a loja chinesa lá do bairro – o Zé, irreconhecível, com o rosto coberto pelo cachené surripiado à mulher, obteve, finalmente, um sucesso inquestionável. Cento e quarenta euros e mais uns cêntimos! Assalto à mão armada, coisa qualificada.

Pela tarde, sem surpresa, o Zé era preso e levado à presença do juiz. Sujeito a apertado interrogatório, confessou sem dificuldades – e, para surpresa do magistrado, com algum orgulho – os crimes de que era acusado. Era a glória! Detido enquanto esperava pelas medidas de coacção aplicáveis, o Zé esperou, frente à televisão, o inevitável estardalhaço mediático do seu dia de crime. No mínimo, esperava a transcrição do interrogatório a que tinha sido sujeito horas antes. Por isso, e para maior segurança, sentou-se a ver a CMTV.

Mas esperou e desesperou em vão. Ouviu pela enésima vez um interrogatório a uma viúva alegadamente assassina, a gravação de mais duas sessões de perguntas a uns tipos do futebol e outras minudências. Mas sobre ele, Zé Mãozinhas, indubitavelmente o criminoso do dia, nada. Nem uma palavra, nem uma passagenzita do seu confronto com o juiz. Tanto esforço para nada. Ainda por cima, a partir desse dia, teria de enfrentar, quando voltasse para casa, a hostilidade da mulher, a fúria vingativa do cão do vizinho e o rancor do Manel, que nunca mais lhe fiaria um petisco, um copo que fosse.

A Justiça é uma justiça de classe, conjecturava o Zé. As televisões também. Toda a fama para os ricos e todo o esquecimento para os pobres.

Claro que o Zé podia conceber e executar um crime mais cabeludo, coisa que desse verdadeiro escândalo. Mas, no fundo, ele sabia que não passava de um malandro de bairro, um criminoso de pechisbeque. E o Zé chorava a falta de reconhecimento. Fosse pelo que fosse, mas que lhe dessem um qualquer tipo de reconhecimento. Puta de vida.

 

O púlpito dos charlatões

(António Guerreiro, in Público, 23/11/2018)

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António Guerreiro

Na passada segunda-feira vi o programa Prós e Contras, na RTP 1, e a conclusão a que cheguei, no final, é que há assuntos sobre os quais a televisão, seja pelas características e exigências actuais deste medium, seja pela profunda ignorância e filistinismo dos autores e apresentadores dos programas, presta um serviço fraudulento de desinformação, presta-se a ser o veículo de ideias que não deveriam poder ser difundidas e amplificadas num estação pública, em programas que se reclamam do estatuto de serviço público.

O nível da abjecção e da total ausência de pudor é diariamente atingido naqueles programas da manhã e da tarde que supõem a existência de um público lobotomizado. Mas aqui, nos Prós e Contras, apesar da deriva demagógica do título, indiciando que há muita probabilidade de as coisas não correrem bem, supõe-se que é um programa para uma classe de espectadores bem informados, que esperam muito mais do que um serão de entretenimento.

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O último Prós e Contras era sobre as touradas, sobre as razões que levam uns a defender que elas devem ser mantidas e sobre as razões que levam outros a defender que elas deviam ser abolidas. Como sabemos, este debate está instalado entre nós com bastante virulência e já se percebeu que ele é extremamente incómodo para alguns partidos políticos e para o Governo, que quer fugir dele como o diabo da cruz.

É preciso dizer que ele não deve ser desvalorizado, com aquele argumento de que há coisas muito mais importantes e esta não passa de algo inócuo. O que está aqui em jogo, a discussão de fundo, é algo fundamental que se inscreve no cerne da biopolítica contemporânea. A ideia de que está em curso ou já se consumou um animal turn, uma viragem animal, convoca-nos hoje seriamente através de uma bibliografia imensa que se tem produzido nos últimos anos sobre o assunto, vinda sobretudo dos lados da filosofia.

O que descobrimos quando frequentamos esta vasta bibliografia é que a questão animal, nas suas mais variadas dimensões (morais, antropológicas, legais, etc.), incluindo a questão maior de saber se eles podem e devem ser sujeitos de direito, está presente nos grandes obras de filosofia, desde Aristóteles a Heidegger, de Derrida e Martha Nussbaum. Está longe, portanto, de ser uma questão exclusiva do nosso tempo. Daí que seja chocante ouvir pessoas que são chamadas a falar sobre o assunto porque lhes é conferida, por qualquer razão, autoridade para tal, mas discorrem sobre ele com a maior das ignorâncias.

Neste último Pros e Contras destacou-se neste exercício de desinformação e de ignorância um aficionado chamado Luís Capucha, imbuído de filosofia das Lezírias que nem dá para comentar neste espaço. Mas vale a pena revisitar um dos seus argumentos, o de que regime nazi foi muito amigo dos animais e fez legislação que o comprova, para dizer que esse mito com origem na propaganda ( “O nosso Führer ama os animais”) já foi longamente desmentido, em primeiro lugar por Victor Klemperer, o autor de LQI. A Linguagem do III Reich. E, no início dos anos 90, em França, Luc Ferry publicou um livro onde transmitia essa mensagem (e onde traduzia documentos da legislação nazi) que foi muito contestado e deu origem a uma enorme polémica.

Ora, o que se passa entre nós é que alguém (na circunstância, um professor universitário de Sociologia) pode dar-se ao luxo de fazer afirmações na televisão como se fossem verdades irrefutáveis, desconhecendo ou fazendo que desconhece a contestação e a polémica que elas suscitaram.

Este dispositivo retórico, propagandístico e inimigo do saber e da ciência porque é usado com fins exclusivamente ideológicos é o do discurso político, em relação ao qual já criámos muitas defesas, mas não pode ser a regra numa discussão na televisão pública, sobre um assunto sério, para o qual se convida, para o debate, “especialistas”, gente a quem se confere uma qualquer autoridade. O sociólogo, o aficionado, o propagandista e o inimigo do saber, tudo na mesma pessoa, só na televisão é que é possível.