Queixa ou carta aberta: Mulheres Socialistas repudiam programas da SIC e TVI

(Patrícia Carvalho, in Público, 12/03/2019)


Estão os concursos da SIC e da TVI a reproduzir estereótipos femininos?
De um lado há uma mãe e um filho sentados num sofá, a fazer perguntas à possível candidata a casar-se com o rapaz. Perguntam-lhes se sabe cozinhar, se já foi casada, se tem filhos, se fuma. Do outro há um conjunto de homens que em comum têm a profissão de agricultor, que procuram mulheres com quem iniciar uma relação.

As Mulheres Socialistas estão “indignadas” com os dois programas que estrearam na SIC e na TVI no domingo à noite e estão a avaliar se avançam com uma queixa junto da Entidade Reguladora da Comunicação (ERC) ou uma carta aberta, explicou ao PÚBLICO a líder deste departamento nacional do PS, Elza Pais.

“Sabemos que o drama da violência de género, nas proporções que acabamos de ver e denunciar, tem na origem a desigualdade, a relação desigual que leva o homem a achar que é dono da mulher e que quando não a consegue controlar parte para a violência, o assassinato. Temos dois programas de televisão a veicular imagens estereotipadas para manter um status quo que o país inteiro está a criticar e isto só pode merecer o nosso veemente repúdio, como é óbvio”, diz a presidente das Mulheres Socialistas.

Os programas em causa – Quem quer namorar com o agricultor?, da SIC, e Quem quer casar com o  meu filho?, da TVI – colocam várias mulheres a disputar a atenção de homens que procuram um relacionamento, sendo submetidas a questionários que, no segundo caso, são auxiliados pelas progenitoras dos candidatos. O primeiro foi o mais visto do dia e o segundo esteve entre os quatro mais visto em toda a programação diária. Em conjunto, cativaram a atenção de mais de 2,5 milhões de espectadores.

A imagem que ali é passada das mulheres (e também dos homens) foi alvo de várias críticas e a ERC confirma que já recebeu queixas referentes aos dois programas, embora se recuse a revelar quantas foram e qual o seu teor.

Já fonte da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) referiu ao PÚBLICO que, até esta segunda-feira à noite, não tinha chegado qualquer queixa àquela entidade relacionada com este caso. Até ao momento, não foi possível obter um comentário deste organismo ao teor dos dois programas.

Disso mesmo diz estar também à espera Elza Pais para definir a forma como as Mulheres Socialistas irão actuar. “Gostava de saber como vão reagir”, diz a socióloga e deputada, que também já presidiu àquela comissão. Nessa altura, recorda, fez uma queixa na ERC contra um anúncio de uma marca automóvel que comparava uma mulher a um carro. Posteriormente, um outro anúncio, da Audi, em que a mãe de um noivo, prestes a casar-se, “testava” a noiva, para ver se a cerimónia podia prosseguir também causou polémica, levando a marca a retirá-lo do ar.


Polémica obriga Audi a retirar anúncio que compara mulher a carro usado
A Audi, empresa alemã de automóveis, fez um anúncio na China em que compara uma noiva a um carro usado – e as críticas não têm cessado, acusando o anúncio de ser discriminatório para as mulheres. A reacção negativa fez com que a Audi retirasse o vídeo publicitário, considerando, em comunicado, que “não corresponde aos valores da empresa”

“Estas queixas nunca resultam em nada, porque, felizmente, tem que se salvaguardar o princípio de liberdade de imprensa. Mas estes meios têm de perceber que quando escolhem estas imagens para passar este ideia de mulher menorizada, não ajudam nada”, defende Elza Pais, acrescentando: “Todos sabemos que a educação também passa pela comunicação social.”

Admitindo que apenas viu parte de um dos programas, a presidente das Mulheres Socialistas classifica as situações retratadas em ambos como “ridículas” e diz que não mudaria de opinião se a situação fosse o inverso: ou seja, mulheres a avaliarem homens (como aliás, já aconteceu no passado em outros programas televisivos). “A igualdade não passa por inverter as coisas. Passa pelo respeito, pela aceitação de valores, pela liberdade, pela autodeterminação do outro”, argumenta.

A líder das Mulheres Socialistas diz que está neste momento a trabalhar na posição que o departamento vai tomar – e que pode passar por uma queixa à ERC ou uma carta aberta – e que espera ter uma decisão sobre essa matéria “muito rapidamente”.


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Os Prime Time Televisivos

(Por Eldad Manuel Neto, 11/03/2019)

Vivemos tempos difíceis e angustiantes nos áudio visuais. Não sabemos bem quem e como se poderão inverter estes miseráveis programas televisivos que nos impõe a idiossincrasia global. 

Os Big brother, os blind encontros, os taxi surpresa e os fazendeiros que escolhem as rezes candidatas a magistral e competitiva fortuna apoucam a dignidade humana e são aparelhos ideológicos com tremendas consequências educativas, éticas,morais e cívicas que provocam danos e agressões à dignidade das mulheres e homens que a eles assistem.

Os nojentos programas empacotados que importamos do execrável lixo produtor televisivo internacional são inesgotável fonte de proliferação da deseducação cívica e constituem atentados gravíssimos à dignidade da pessoa humana e à Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A urgente denúncia por banda dos partidos na Assembleia da República e nos fóruns associativos desta miserável programação é inadiável!

Num tempo em que se denuncia e combate a violência doméstica e se defende a igualdade do género as televisões inundam os consumidores com execráveis vómitos na sua programação.


A televisão e as questões de moral

(António Guerreiro, in Público, 08/02/2019)

Guerreiro

António Guerreiro

Tal como um  milhão e trezentos mil espectadores (segundo os dados audiométricos divulgados), vi os três episódios de estreia de um novo programa de informação da SIC chamado @A Rede.

Neste caso, contava-se a história de uma mulher que criou falsas identidades no facebook, deu-lhes verosimilhança através de contactos telefónicos e conseguiu manipular um grupo de pessoas, não para lhes extorquir dinheiro, mas para as tornar escravas de afectos e emoções extremos induzidos por uma demoníaca manipulação, concebida por uma perversa imaginação narrativa. O caso é certamente verdadeiro, nem podemos imaginar que a SIC estava a fazer com os seus espectadores o que aquele génio da manipulação que só aparece no último episódio, numa imagem desfocada para proteger a sua identidade, fez com as suas criaturas. Mas, na verdade, tudo tresandava a mentira, uma nauseabunda mentira. De tal modo que a partir de certa altura senti que se tinha quebrado o pacto que aquela narrativa estabelecia comigo, enquanto espectador, e passei a olhar as vítimas como vilões e, consequentemente, para o espectador que se ausenta da fraude, o protagonista desta vilania colectiva é aquele que acaba por exercer uma função de manipulação narrativa análoga àquela que o tinham manipulado a ele. Provavelmente, fê-lo de maneira inocente, sem perceber que estava a ser manipulado uma segunda vez para que a sua experiência, a realidade que viveu, resultasse numa ficção da realidade.

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Tudo começa pelo mágico princípio do jornalismo narrativo: “Temos aqui uma bela história, uma história fabulosa”. Tão fabulosa, que permite pôr em acção a estratégia de Xerazade: o espectador fica dependente de uma continuidade narrativa, de um encadeamento que é interrompido e só retomado no dia seguinte. Parece que se segue aqui uma ordem cronológica, natural. Mas não, a história é contada recorrendo aos usos instrumentais da narrativa. Antecipo já as objecções: mas então porque se haveria de evitar essa dimensão narrativa, se se trata de facto de uma história que, podemos até dizer, tem a estrutura da ficção? A narrativização é legítima e necessária. O problema é que, nesta reportagem, os processos técnicos e formais das convenções narrativas se tornam caricaturais. A certa altura, quando deixamos de aceitar o pacto, já só vemos a dimensão formal: a montagem, os enquadramentos, a cenarização, a direcção de “actores”, a representação. Isto é: as técnicas de storytelling. E aquilo que deveria ser um efeito de real torna-se um efeito de mentira e o espectador avisado passa a só ver o império dos artifícios. E isto não é apenas kitsch, com tudo o que o kitsch tem de mentira. É também uma questão de moral e de violência exercida sobre o espectador e sobre aqueles que certamente com a melhor das intenções se tornaram os joguetes de uma entidade que joga aos dados com as suas criaturas. O escritor americano Don DeLillo, depois dos atentados do 11 de Setembro, escreveu um artigo na Harper’s Magazine, onde dizia: “Hoje, a narrativa do mundo pertence de novo aos terroristas”. Esta formulação que pode parecer ambígua, dado o seu contexto, mas De Lillo não queria dizer que a narrativa dominante era a dos terroristas. Ele quis dizer que o próprio modo narrativo se tornou terrorista, Simultaneamente, inscreve-se num campo simbólico onde se confrontam as performances narrativas. A televisão, incluindo os programas de informação, é hoje um ramo, em estado de histeria, da indústria da mentira.

Lançando um veredicto sobre uma cena de um filme de 1960, de Gillo PontecorvoKapo, cuja história se passa num campo de concentração nazi, o realizador francês Jacques Rivette considerou que ela era “uma abjecção, resultado lógico do formalismo” e citou uma frase do crítico Luc Moullet: “A moral é uma questão de travellings”. Esta frase será mais tarde declinada por Godard desta maneira: “Os travellings são uma questão de moral”.