Os Simplícios

(Carlos Matos Gomes, in Facebook, 17/07/2022)

Os domingos deviam ser dedicados a São Simplício. Aos Simplícios, em geral. O domingo é o dia de glória dos simplícios na comunicação. É o dia sagrado dos resolvedores de problemas à la minute. O dia em que não é necessário chamar a empresa Desentop (passe a publicidade) para qualquer dificuldade em casa e no mundo. Está tudo resolvido.

Leio nos jornais, vários, e vejo nas televisões:

Fogos? Arrancam-se os eucaliptos, os pinheiros, limpam-se florestas, multam-se os velhotes que têm uma leira de terreno. Contratam-se mais meios. Aqui, como em Espanha, na França ou na Grécia.

Serviço Nacional de Saúde? Contratam-se mais médicos, enfermeiros, auxiliares (Portugal tem um dos melhores rácios de médicos por habitantes), contratam-se mais camas no privado (onde não faltam meios)!

Ucrânia? O Zelenski e os seus oligarcas são os nossos heróis e quem quer heróis paga-os (como dizia uma italiana que foi rainha em Portugal).

Inflação? Diminuem-se os impostos, aumentam-se os salários!

Energia cara? Compra-se o petróleo e o gás russo através de intermediários americanos, sauditas, indianos!

Professores? Contratam-se, mesmo que não haja alunos.

Caos nos aeroportos? Constroem-se mais aeroportos: Montijo, Beja, Alcochete, Alverca, Tancos.

Os simplícios resolvem! Os simplícios ao poder! Os simplícios, não opinam: acusam antes de perguntar o que aconteceu! Eles são mais rápidos que a sombra. Já sabem tudo! Eu entendo os simplícios como gente sem respeito pelos outros.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A horda

(José Gabriel, 20/01/2022)

A barragem de promoção da direita mais acéfala e reacionária nas televisões é brutal. Deixei de ter vontade de fazer humor com esse facto. A horda está excitada. As coisas estão, hoje, a atingir níveis pornográficos.

Chegamos ao ponto de qualquer frase mais à esquerda de António Costa ser considerada extremismo. Tudo à esquerda do PS é extremismo a exterminar da sociedade portuguesa.

Ainda veremos esta semana, provavelmente, a dona Ferreira Leite anunciar outra vez a guerra civil promovida pela esquerda e a dona Ferreira Alves propor, de novo, a extinção do PCP. O desespero desta corja é visível, como visível é o esforço para aproveitar a oportunidade que pensam ter.

Cita-se implicitamente Salazar e explicitamente Adriano Moreira em nome da democracia e remetem-se todas as entidades pensantes fora deste círculo para a esquerda radical. Eles pensam que chegou um qualquer dia de regresso a um imaginado chiqueiro passado.

Eles, na ânsia de servir, ultrapassam a encomenda dos mandantes, porque conseguem, com o seu rastejar e vociferar, tornar-se inconvenientes para a causa que pensam promover. Mas se eles só têm isto para mostrar, se estes são os seus melhores manipuladores de consciências, estou indignado, mas descansado.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Não há sexo na cidade

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 18/12/2021)

Clara Ferreira Alves

Basta dizer a palavra sexo e sai um clickbait. Sexo, dinheiro e morte são chamarizes que nunca passam de moda. “Sex and the City”, “SATC”, apareceu com esta vantagem. Uma série sobre o sexo e a vida sexual de quatro mulheres afluentes e emancipadas, dotadas de excelente guarda-roupa, na luzente cidade de Nova Iorque e no recinto exclusivo de Manhattan, com sentido de humor feminista, escrita por um gay chamado Darren Star. Uma estrela que tinha tudo para dar certo. E deu. “O Sexo e a Cidade” tornou-se uma espécie de símbolo da década feliz, os anos 90, depois da sida primordial e antes do terrorismo, da tecnologia destruidora da civilização de Gutenberg e da pandemia. Uma década de otimismo em que o capitalismo liberal deu ao mundo ocidental uma prosperidade nunca vista e alimentou o sonho da democracia planetária. O fim da História.

Era uma série que tinha o mérito da restituição da futilidade no recital de lágrimas das vidas quotidianas. Não uma futilidade vã, um escape de razões e ações mais sérias destinado a fazer rir ao observar com acuidade os tiques e toques de um grupo de gente mimada, as tribos manicuradas de Manhattan. Com o tempo, “SATC” transformou-se num culto e não apenas entre as mulheres do mundo que viam televisão americana. Os homens também achavam piada aos nortes e desnortes de Carrie Bradshaw, a escriba, Samantha Jones, a bomba sexual, Charlotte York, a colegial cor de rosa, e Miranda Hobbes, a mulher de carreira. Adaptado de um livro da escritora e colunista Candace Bushnell, a verdadeira Carrie, a série trazia para o ecrã a candura sexual da descoberta dos sexos, e não apenas do sexo, e a libertação das mulheres na esteira de “Fear of Flying” e da pioneira Erica Jong. A primeira que resolveu escrever romances em que o erotismo vagamente pornográfico é transformado num depoimento feminista que começaria assim: todos os homens são ridículos, incluindo os homens bonitos, se uma mulher for suficientemente esperta para perceber isso. Ou seja, a mulher fica por cima em todas as relações sentimentais.

Saiba mais aqui

Para os homossexuais, antes da emancipação plena e dos direitos ganhos, “SATC” era não só um ponto de auto-observação e libertação como uma fantasia drag, por causa das roupas ostensivas e da intimidade sem pecado entre rapazes e raparigas, sem que a opção sexual fosse um drama ou uma batalha pessoal. Depois das tragédias do VIH, “SATC” instituiu uma apreciação mais alegre do universo gay. Que se contrapunha à escuridão dos anos 80, da sida como estigma e de filmes hard como “Cruising, A Caça”, de William Friedkin, que ia destruindo a carreia de Al Pacino. A caricatura do casal homossexual, que hoje seria considerada ofensiva por este ou aquele grupo de ofendidos, funcionava como o alívio cómico da espessura heterossexual dos homens da série e sobretudo do alpha male Mr. Big, outra caricatura. O nome indica tudo.

Antes do nascimento da doutrina politicamente correta, antes da censura e da perseguição, antes do cancelamento e da ofensa, as pessoas, homens e mulheres antes da imposição da fluidez de género, eram livres. Nenhuma hierarquia se sobrepunha às outras, o riso cancelava a intolerância.

A velha e sólida aliança entre mulheres e homens gays, baseada no respeito mútuo e, no caso feminino, no conforto que as mulheres sentiam pela ausência da ameaça patriarcal ou marialva, emprestava à série alguns dos melhores momentos.

A personagem feminina oposta a Mr. Big, que começa por ser o malandro clássico que não se quer comprometer, era a de Samantha, que usava os homens como brinquedos sexuais. Claro que Samantha era não só um papel ingrato para a atriz, ficou colada à personagem, como um papel irreal. Não haveria por aí muitas mulheres com aquela dose de autoconfiança e sentimento predador.

O evidente exagero de todas as personagens, falas e ações dava a “SATC” o mérito da evasão da realidade. E por cima pairava a luz de Nova Iorque, a metrópole da infinita possibilidade. É a mesma Nova Iorque privilegiada e bonitinha de Woody Allen de Nora Ephron, com o mito dilatado pelo poder da televisão. Um lugar onde as desgraças são anuladas pela carga emocional positiva, como se dizia nos anos 90, que a cidade injetava nos habitantes. A cidade carregava as baterias depois do desgosto e da desilusão.

Nos anos 90, as mulheres rumavam a Manhattan para fazer a voltinha “SATC”, com paragem obrigatória na Magnolia para queques com creme. E, nesses anos descuidados e otimistas, anos de enriquecimento, a cidade devolvia em dobro tudo o que nela se investia, incluindo o sonho. O sonho estilhaçou-se no dia 11 de Setembro de 2001.

Em 2021, aquela Nova Iorque desapareceu. A cidade, acossada pela pandemia e por movimentos sociais e políticos que escapam ao controle da racionalidade, acossada pelos anos Trump (que era, nos anos 90, um cómico, simpático e ilustre habitante doirado de Manhattan e uma vedeta dos tabloides que não se levava a sério e adorava aparecer), acossada pelos escândalos e os resgates da crise financeira, acossada pelo terrorismo e o racismo que trouxe na cauda bifurcada, acossada pelos confinamentos e os terrores covid, não é nem pode ser a mesma cidade da década prodigiosa.

Os atores de “And Just Like That” podem ter voltado a colocar a máscara, mas os traumas estão lá, na perplexidade com que as três mulheres enfrentam a mudança de modos e costumes, a novíssima censura social, a supremacia tecnológica sobre a literária. E nada disto tem graça. Elas já não conversam sobre sexo e sobre homens, conversam sobre a velhice e a morte, a doença, as rugas, a humilhação infligida pela passagem do tempo. A vida tal qual ela é.

O argumento não tem, nem pode ter, a menor ideia do que é ser jovem neste milénio, e o único jovem da série, o filho de Miranda, aparece como um descerebrado neutro que pratica sexo com a namorada ao lado dos pais ou num concerto de piano, com o ruído de Samantha e sem a leveza dela. É uma cena grotesca, tal como a cena em que os pais pedem ao filho um abraço. A caricatura falida de uma geração incompreendida por alguém que vem de outra era. A caricatura também não funciona em nenhuma das três sobreviventes. Onde havia humor resta anacrónico exagero. Os trapos e chapéus burlescos, a prosperidade como obscenidade, a fleuma do casamento clínico, a cirurgia plástica e o botox. Carrie é uma podcaster porque os livros não vendem, Miranda é uma aluna insegura e Charlotte uma dondoca sem virtude salvífica. A união do grupo vem apenas de estarem na mesma jangada geracional, sem rumo e sem propósito. O tempo não perdoa. E os maus argumentos ainda menos.

O único que continuava sem perda, alpha male até ao fim, morre no primeiro episódio. O anticlímax, ditado pela necessidade de retirar o ator de cena. E começamos com um funeral. Not good. Mr. Big morre numa bicicleta Peloton, e logo se seguiu um vendaval de marketing da Peloton para demonstrar que as suas bicicletas não provocam ataques cardíacos. O anúncio da Peloton, com Mr. Big/Chris Noth vivo e de boa saúde em companhia de uma vívida treinadora, acaba por ser a única gargalhada, lateral. Na América nada se perde, nada se cria e tudo se transforma.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.