Possível base avançada da CIA pode transformar Venezuela numa Ucrânia 2.0

(Por RT in Diálogos do Sul, 29/01/2026)


Possíveis objetivos dos EUA incluem desestabilizar e atacar Cuba e Colômbia; a continuidade do governo chavista na Venezuela, porém, poderia dificultar os planos de Trump.


A Agência Central de Inteligência dos EUA, a CIA, está montando um posto avançado permanente na Venezuela, de onde supostamente replicará seu trabalho realizado na Ucrânia. Isso poderia significar desde controlar políticos locais até transformar o país em uma base operacional avançada para mudança de regime.

Com o presidente venezuelano Nicolás Maduro sob custódia dos EUA e a presidenta interina Delcy Rodríguez cooperando com Washington, a “prioridade número um” de Washington é estabelecer um “anexo” da CIA em Caracas, disse uma fonte anônima dos EUA à CNN nesta terça-feira (27). Muito antes da abertura formal de uma embaixada dos EUA, esse posto avançado permitirá que agentes da CIA se aproximem do governo de Rodríguez e de partidos de oposição, e “mirem terceiros que possam ser ameaças”, afirmou a fonte.

Que a CIA queira expandir suas operações na Venezuela não é surpresa. O presidente dos EUA, Donald Trump, autorizou a agência a conduzir operações encobertas na Venezuela em outubro passado, três meses antes de Maduro ser sequestrado por forças especiais dos EUA. Após a incursão, o diretor da CIA, John Ratcliffe, foi o primeiro alto funcionário estadunidense a visitar a Venezuela para se reunir com Rodríguez e seus chefes militares.

No entanto, um comentário da fonte da CNN se destaca. Parafraseando o oficial, a CNN disse que o trabalho da CIA na Venezuela seria paralelo ao “trabalho da agência na Ucrânia”.

O que a CIA fez na Ucrânia?

Em 2024, o New York Times publicou um relato surpreendentemente franco das atividades da CIA na Ucrânia. Falando muito tempo depois dos fatos, fontes estadunidenses e ucranianas descreveram como um telefonema em 2014 iniciou uma cadeia de eventos que culminaria em uma guerra aberta com a Rússia.

Plantão Venezuela: entenda a situação venezuelana com Vanessa Martina-Silva no YouTube.

No início daquele ano, dias após o presidente Viktor Yanukovich ter sido derrubado no golpe do Maidan orquestrado pelos EUA, o novo chefe da espionagem do país, Valentin Nalyvaichenko, ligou para o chefe da estação da CIA em Kiev e pediu ajuda para reconstruir o aparato de inteligência da Ucrânia. A CIA aceitou, trabalhando primeiro com o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU, na sigla em inglês), que atua como uma agência de polícia secreta, e depois com sua agência de inteligência militar (HUR, na sigla em inglês).

A agência treinou e equipou uma força paramilitar conhecida como Unidade 2245. Essa equipe conduziria operações de sabotagem e assassinato em território russo muito antes da escalada do conflito ucraniano em 2022, segundo o New York Times e a ABC News. O atual chefe do gabinete do líder ucraniano Volodymyr Zelensky, Kirill Budanov, serviu nessa unidade e passou a liderar a HUR de 2020 até o início deste mês.

Tamanho era o valor de Budanov como ativo, que a CIA o levou de avião a um hospital militar nos EUA quando ele foi ferido em uma incursão na Crimeia em 2016.

A agência também treinou “uma nova geração de espiões ucranianos que operavam dentro da Rússia, por toda a Europa, e em Cuba e outros lugares onde os russos têm grande presença”, e supervisionou “um programa de treinamento, realizado em duas cidades europeias, para ensinar oficiais de inteligência ucranianos a assumir de forma convincente identidades falsas e roubar segredos na Rússia”, informou o New York Times.

Em fevereiro de 2022, a CIA havia construído mais de uma dúzia de bases subterrâneas perto da então fronteira da Ucrânia com a Rússia. “Sem elas, não haveria como resistirmos aos russos”, disse ao NYT o ex-chefe do SBU, Ivan Bakanov.

“Os serviços de inteligência dos EUA, como a CIA e outros, estiveram presentes na Ucrânia muito antes de o golpe eclodir”, declarou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, em 2024. “Após o golpe, eles se instalaram ali. Ocuparam um andar inteiro, talvez até dois andares, no prédio do SBU. Ninguém tem dúvida disso. A Ucrânia é governada por anglo-saxões e por alguns outros países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia (UE).”

O que os EUA estão planejando na Venezuela?

Os objetivos da CIA na Venezuela e além não são claros. No entanto, algumas suposições gerais podem ser feitas com base em declarações da Casa Branca.

Imediatamente após o sequestro de Maduro, em 3 de janeiro, Trump advertiu que Cuba é a próxima a “estar pronta para cair”. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse no dia seguinte: “Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, ficaria preocupado”, e tanto o portal Politico quanto o Wall Street Journal relataram desde então que Rubio está pressionando por uma mudança de regime em Cuba até o fim deste ano.

Ter uma presença permanente da CIA na Venezuela ajudaria os esforços de coleta de inteligência dos EUA e aproximaria agentes de potenciais aliados em Havana — que mantém extensos laços comerciais e diplomáticos com Caracas. No momento, autoridades estadunidenses dependem de exilados cubanos em Miami para obter informações sobre elos frágeis no governo cubano, segundo o Wall Street Journal.

Trump também advertiu o presidente colombiano Gustavo Petro para “cuidar do seu traseiro”, dizendo a repórteres que uma operação militar na Colômbia “soa bem” para ele. A Venezuela compartilha uma fronteira de 2.200 km com a Colômbia, o que significa que, se Trump interviesse contra Petro, ativos da CIA na Venezuela provavelmente estariam envolvidos.

Todas essas possibilidades, no entanto, dependem do sucesso da agência em penetrar o governo de Rodríguez e em encontrar colaboradores entre a oposição. Diferentemente da Ucrânia pós-Maidan, o governo de Maduro permanece no poder, ainda que com Rodríguez, mais amigável com os EUA, à frente. Ainda assim, Rodríguez condenou publicamente “as ordens de Washington relativas a políticos na Venezuela” e declarou que somente os venezuelanos resolverão as diferenças e os conflitos internos do país.

Em entrevistas e discursos públicos, Maduro acusou repetidamente a CIA de trabalhar para minar seu governo e removê-lo do poder. Ele provou estar certo no início deste mês, e seus funcionários provavelmente estarão extremamente cautelosos em relação aos agentes estadunidenses que estejam montando operações na Venezuela. Em contraste, Nalyvaichenko e os outros chefes de inteligência da Ucrânia “cortejaram assiduamente a CIA”, segundo o New York Times.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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Duas mulheres – uma submissa e vendida, outra forte e determinada

(João Gomes, in Facebook, 16/01/2026)


A Venezuela é do seu povo.


Há gestos que dispensam explicação porque se explicam a si próprios. Quando Maria Corina estende a mão e nela coloca um Prémio Nobel da Paz para o “oferecer” a Trump, não estamos perante diplomacia, mas perante uma cena de teatro político de quinta categoria. Um teatro pobre, previsível e, sobretudo, profundamente revelador.

O Nobel, símbolo supostamente universal de ética, paz e autonomia moral, é ali reduzido a moeda de troca. Não para o povo venezuelano, não para a democracia interna, mas para o altar do poder imperial. Não é um gesto de gratidão; é uma tentativa de compra. Compra de reconhecimento, compra de tutela, compra de um poder que não nasce do voto nem da rua, mas do despacho de um gabinete em Washington.

Maria Corina não entrega apenas uma medalha. Entrega uma ideia: a de que a Venezuela não se governa a partir de Caracas, mas a partir da Casa Branca. Entrega a soberania embrulhada em simbolismo barato e chama-lhe “liberdade”.

Do outro lado, no Parlamento venezuelano, Delcy Rodríguez fala. E o contraste é evidente. Não há prémios, não há genuflexões, não há selfies imperiais. Há um discurso duro, incómodo para o Ocidente, mas politicamente coerente: a Venezuela tem problemas, tem crise, tem feridas abertas – mas não está à venda.

Rodríguez não promete submissão. Promete resistência. Não promete obediência externa. Promete fidelidade a um projeto político que, goste-se ou não dele, continua a ser reconhecido por uma parte substancial do povo venezuelano como expressão da sua identidade histórica. A revolução bolivariana surge ali não como nostalgia, mas como linha vermelha: negociar, sim; render-se, não.

É aqui que a diferença entre as duas mulheres deixa de ser pessoal e passa a ser estrutural. Maria Corina representa a velha elite latino-americana que sempre acreditou que o poder se herda ou se pede emprestado ao império. Delcy Rodríguez representa – com todos os limites – a ideia de que o poder se disputa internamente, com conflito, com custo, com dignidade.

O mais inquietante, porém, não está apenas em Caracas. Está nas redações europeias, nos chanceleres ocidentais, nos comentadores que aplaudem este teatro grotesco como se fosse normal que um país soberano precise de bênção estrangeira para existir. Trump surge como maestro deste circo tardio, distribuindo legitimidades como quem distribui sanções, transformando a política internacional num reality show de chantagem e submissão.

E o Ocidente continua dócil, cúmplice, ajoelhado, até com medo. Em nome da “democracia”, aceita-se a humilhação simbólica de um povo inteiro. Em nome da “ordem internacional”, normaliza-se o rapto de presidentes, o estrangulamento económico, a ingerência descarada. É por isso que este momento exige algo mais do que indignação venezuelana. Exige uma resposta latino-americana. A história da América Latina é uma história de países isolados, derrotados um a um. A lição é antiga e clara: quando um cai sozinho, todos aprendem a obedecer.

Hoje é a Venezuela. Amanhã será outro. O contributo das nações latino-americanas não é retórico; é estratégico. Cooperação regional, defesa mútua da soberania, rejeição coletiva da tutela externa. Não como gesto ideológico, mas como instinto de sobrevivência política. Porque países que aceitam que outros sejam vendidos acabam, mais cedo ou mais tarde, por aparecer também na montra.

E a Venezuela lembra algo que o Ocidente preferia esquecer: os povos não são prémios, nem as nações são moedas.

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Xi e Putin: da promessa multipolar à prática seletiva da soberania

(Por Ilhéus, in Diálogos do Sul, 09/01/2026)


A análise das posturas da China e da Rússia em relação à Venezuela e à Palestina revela que a multipolaridade não implica, necessariamente, no equilíbrio normativo ou em responsabilidade compartilhada.


A conjuntura internacional contemporânea evidencia, de forma cada vez mais nítida, a primazia do interesse estratégico sobre qualquer noção consistente de ordem normativa global. A reação limitada da Rússia e da China diante das ações unilaterais conduzidas pelos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump — incluindo intervenções diretas, coerções extraterritoriais e a ruptura explícita de princípios de soberania — não pode ser compreendida como simples omissão. Trata-se do resultado de um cálculo racional fundamentado na lógica do sistema internacional. Portanto, diz respeito menos a uma suposta incapacidade e mais a uma escolha estratégica. Isso mesmo.

A análise desses comportamentos revela um traço estrutural do mundo atual. A coexistência de múltiplos centros de poder (EUA, China e Rússia) não implica, necessariamente, no equilíbrio normativo ou, ainda, em responsabilidade compartilhada. Ao contrário, frequentemente produz uma fragmentação da resposta internacional, na qual cada potência avalia os acontecimentos externos à luz de seus próprios interesses imediatos, priorizando estabilidade interna, projeção regional e, logicamente, as vantagens econômicas. 

Cálculo estratégico

A questão palestina ilustra, de forma emblemática, essa dinâmica de omissão seletiva. Apesar de décadas de violações reiteradas do direito internacional humanitário por Tel Aviv, das resoluções ignoradas e de um histórico contínuo de assimetria de poder, as grandes potências mantêm uma postura que oscila entre o silêncio estratégico e a retórica inócua. Como principal aliado de Israel, os EUA exercem um papel ativo na neutralização de mecanismos internacionais de responsabilização, utilizando seu poder para impedir sanções efetivas ou intervenções multilaterais. Essa posição inviabiliza soluções estruturais e legitima a perpetuação do massacre sob a lógica da exceção permanente.

Rússia e China, embora adotem um discurso formalmente favorável à causa palestina e à solução de dois Estados, reproduzem, na prática, uma postura de baixo engajamento. Suas manifestações em fóruns internacionais raramente se traduzem em ações concretas capazes de alterar o equilíbrio de forças. Esse modo de agir decorre, em grande medida, da avaliação de que a questão palestina não constitui um interesse estratégico central, mas trata-se de um tema útil para fins retóricos, especialmente na crítica à hegemonia estadunidense. Assim, a defesa do direito internacional aparece como instrumento discursivo, e não como compromisso político efetivo. 

Essa omissão revela que a proteção de populações vulnerabilizadas e a aplicação consistente das normas internacionais permanecem condicionadas à conveniência das grandes potências. A Palestina, nesse sentido, torna-se um território em disputa, um símbolo da falência do chamado multilateralismo contemporâneo. A incapacidade — ou falta de disposição — por parte da China e da Rússia em assumir responsabilidades efetivas nesse conflito evidencia que a multipolaridade atual não corrige as assimetrias do sistema internacional, mas apenas redistribui o poder de ignorá-las.

Nesse contexto, a violação da soberania venezuelana e a captura de suas lideranças políticas tornam-se eventos secundários no cálculo estratégico de atores globais cuja atenção está voltada para disputas consideradas mais centrais à sua segurança e influência. A atenção desses atores permanece direcionada a disputas consideradas centrais à sua segurança nacional, à manutenção de zonas de influência e à preservação de vantagens econômicas e militares — fato que contribui para a normalização de práticas que, em outros contextos, seriam amplamente combatidas.

A Rússia, inserida em um cenário de prolongada tensão militar, sanções econômicas persistentes e disputas territoriais concentradas em seu entorno estratégico imediato, tende a hierarquizar os conflitos internacionais segundo critérios de relevância geopolítica e retorno estratégico. Para Moscou, regiões consideradas periféricas — como a América Latina — ocupam um lugar secundário em sua agenda de segurança nacional, sendo frequentemente avaliadas mais por seu potencial simbólico e discursivo do que por sua capacidade de produzir ganhos concretos em termos militares, econômicos ou políticos. Nesse sentido, conflitos nessas áreas são instrumentalizados, sobretudo, como elementos de retórica diplomática — e não como arenas prioritárias de intervenção efetiva.

Manutenção da flexibilidade geopolítica

Embora o governo russo recorra, com frequência, ao discurso da legalidade internacional, da soberania estatal e da não intervenção como fundamentos de sua política externa, tal postura revela-se seletiva e contingente. Esses princípios são mobilizados principalmente quando convergem com seus interesses estratégicos, ou quando podem ser utilizados para questionar a legitimidade de ações ocidentais, em especial dos Estados Unidos e de seus aliados. Contudo, Moscou não demonstra disposição consistente para defender tais normas de maneira universal, uma vez que a consolidação de uma ordem internacional rigidamente baseada em regras poderia limitar sua própria margem de manobra em conflitos nos quais busca afirmar zonas de influência ou justificar ações unilaterais.

Além disso, uma resposta mais contundente à atuação de Donald Trump na Venezuela implicaria riscos significativos para a Rússia. Envolver-se diretamente em um confronto com os EUA em um terreno distante de seus interesses vitais significaria dispersar recursos já comprometidos em frentes consideradas prioritárias (como a Ucrânia), além de potencialmente ampliar o isolamento econômico e diplomático imposto por sanções internacionais. Essa atitude poderia implicar também a narrativa estratégica russa de resistência ao expansionismo ocidental, porque deslocaria o foco de seus próprios conflitos para uma disputa indireta que pouco contribuiria para seus objetivos centrais.

Dessa forma, a contenção de Trump não se apresenta como uma prioridade estratégica para Vladimir Putin — de fato (falando-se pragmaticamente), seria um risco desnecessário dentro de um cálculo racional de custos e benefícios. Ao optar por uma postura de condenação apenas retórica, sem tradução em ações concretas, a Rússia preserva sua capacidade de crítica ao unilateralismo estadunidense, ao mesmo tempo em que evita compromissos que poderiam enfraquecer sua posição em áreas consideradas mais relevantes. Trata-se, portanto, de uma estratégia de “gerenciamento do sistema internacional”, na qual a defesa de princípios normativos cede espaço à preservação de interesses nacionais e à manutenção da flexibilidade geopolítica.

A China, por sua vez, opera conforme uma racionalidade ainda mais pragmática. Sua política externa privilegia previsibilidade, estabilidade econômica e preservação de fluxos comerciais globais. A paciência — poderíamos dizer assim — tem o protagonismo. A confrontação direta com os EUA, especialmente em cenários que não afetam diretamente seus interesses vitais, é sistematicamente evitada. Ainda que Pequim reafirme, em fóruns multilaterais como a Organização das Nações Unidas (ONU), o princípio da não-intervenção e da soberania estatal, sua atuação concreta demonstra que tais princípios funcionam mais como instrumentos discursivos do que como fundamentos inegociáveis de ação política.

Nesse contexto, o pragmatismo estratégico adotado pela Rússia e também pela China produz efeitos diretos sobre a credibilidade e a coesão do Brics enquanto bloco. Embora o agrupamento tenha sido concebido como um espaço de articulação entre potências emergentes — com potencial para contrabalançar a hegemonia ocidental e defender uma ordem internacional mais multipolar —, sua atuação concreta revela limitações estruturais profundas. A ausência de respostas coordenadas diante de crises que envolvem diretamente a soberania de um de seus parceiros estratégicos evidencia que o Brics opera mais como uma plataforma de convergência econômica e simbólica do que como um ator político coeso.

Lógica seletiva

Os comportamentos de Moscou e de Pequim reforçam essa fragilidade. Ao priorizarem seus interesses nacionais imediatos (e evitarem custos elevados em nome de uma ação coletiva), ambos sinalizam que o compromisso com o bloco é condicionado e, sobretudo,  utilitarista. As diretrizes que orientam suas políticas externas, embora racionais a partir do ponto de vista estatal, enfraquecem a capacidade de o Brics se afirmar como alternativa realmente efetiva ao poder do Ocidente. Sem mecanismos objetivos de solidariedade política, de defesa mútua ou de ação coordenada em crises internacionais — como a que ocorre neste momento após a invasão da Venezuela pelos EUA — o bloco permanece limitado a declarações genéricas e à cooperação seletiva.

Ademais, essa postura revela uma assimetria interna que compromete a legitimidade do Brics como projeto de governança global. Rússia e China — enquanto potências com maior capacidade material — tendem a utilizar o bloco como instrumento complementar de suas próprias ambições, e não como espaço de construção de posições comuns fortalecedoras do Norte Global. Essa dinâmica gera desconfiança entre os demais membros, ao tempo em que reduz o potencial do Brics de atuar como fórum capaz de defender (de forma consistente) princípios como soberania, não-intervenção e reforma das instituições internacionais.

Assim, o pragmatismo russo e chinês, ao evitar confrontos diretos e custos elevados, contribui paradoxalmente para esvaziar o discurso político do Brics. O bloco permanece relevante no campo econômico e financeiro, mas incapaz de transformar afinidades retóricas em ação coletiva concreta (uma grande pena!). Essa limitação, além de  enfraquecer sua projeção internacional, expõe a grande dificuldade de construir uma alternativa sistêmica em um ambiente internacional ainda fortemente marcado pela lógica do poder, da hierarquia e do interesse nacional.

Diante desse quadro, Donald Trump avança. Sua política externa — marcada pelo unilateralismo e pela instrumentalização da força — encontra um ambiente internacional permissivo, no qual a retaliação efetiva é substituída por comunicados oficiais e apelos diplomáticos. Desse modo, o sistema internacional deixa de funcionar como um mecanismo de contenção e é convertido em espaço de administração de danos, no qual violações são toleradas desde que não ameacem diretamente os interesses centrais dos demais atores hegemônicos.

O caso venezuelano, portanto, evidencia a substituição do direito internacional por uma lógica seletiva de poder, a partir da qual normas são aplicadas ou suspensas, conforme a posição relativa dos Estados envolvidos. Ao não interromperem a escalada estadunidense, a Rússia e a China protegem seus próprios interesses imediatos, ao tempo em que reforçam uma estrutura internacional em que a força se sobrepõe à legalidade (apesar de seus discursos).

Muitos e muitas poderão me adjetivar de “excessivamente pessimista”. A ausência de perspectivas mais promissoras não decorre de uma postura cética gratuita da minha parte, mas da observação recorrente dos padrões que estruturam o sistema internacional contemporâneo. Não vislumbro (no horizonte imediato) o surgimento de mecanismos capazes de reverter esse quadro. Vejo a consolidação de uma ordem internacional marcada pela normalização da exceção, pela relativização do direito e pela crescente tolerância à violação de princípios fundamentais. Essa ausência de “luz no fim do túnel”, portanto,  não é uma conclusão emocional, mas uma constatação (racional) diante de um sistema que tem demonstrado notável capacidade de reproduzir suas próprias assimetrias.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui.

(*) Leia também “Traição? Aliança com EUA? Desmontando a operação psicológica de Trump e as falácias anti-chavistas“, aqui

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