Bolsonaro e a verdadeira face da extrema-direita

(Manuel Loff, in Público, 17/09/2025)


A sentença e o apuramento material do que foi o fracassado (mas efetivamente planeado) golpe de Estado bolsonarista dá-nos uma ajuda decisiva para interpretar o que é a ultradireita dos nossos dias.


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A sentença ditada contra Bolsonaro é verdadeiramente histórica: num contexto de pleno funcionamento do Estado de Direito, impõe a um ex-Presidente uma pena de prisão de mais de 27 anos, a mais pesada de entre as que foram pronunciadas contra os sete conspiradores, condenados por haverem formado uma “organização criminosa armada” para “[tentar a] abolição violenta do Estado Democrático de Direito” brasileiro. Ao contrário dos EUA, onde os processos abertos pelos mesmos motivos contra Trump foram bloqueados com o seu regresso à Casa Branca, o Brasil teve a coragem de levar por diante transparentemente o julgamento de um ex-Presidente que consegue, ainda, polarizar ao extremo a sociedade.

A sentença e o apuramento material do que foi o fracassado (mas efetivamente planeado) golpe de Estado bolsonarista, dá-nos uma ajuda decisiva para interpretar corretamente o que é a ultradireita dos nossos dias. Ela permite desmentir definitivamente qualquer das teses que nela veem uma simples variante da direita, um mais do mesmo, que, ainda que radical, mostra respeito pelas regras do jogo eleitoral e reivindica a “liberdade” de rejeitar as mudanças culturais e sociais das últimas décadas e de insultar e agredir quem as defende e a elas livremente aderiu. A ultradireita (Trump, Bolsonaro, Chega) não é nada disto. Julgá-la a partir do que ela era há 20 anos, como julgar Mussolini e Hitler antes de desencadearem guerras e genocídios, é eliminar a historicidade dos fenómenos. É pretender que o Chega fora do poder será o mesmo se chegar ao poder. Ou pensar, até há dois anos, que Israel, essa “vibrante democracia”, como lhe chama Von der Leyen, seria incapaz de cometer o genocídio que hoje comete à frente de todas as nossas consciências.

A violência (a real, praticada, e a potencial, a que os Estados se reservam nas suas políticas de “emergência”) está no centro do programa e da prática política da extrema-direita. Não apenas a verbal (hoje banalizada em toda a sua boçalidade), mas a física: contra imigrantes (atacados em plena rua no Porto, encostados à parede em Lisboa, ou “caçados” em Torre Pacheco, com direito a elogio de Ventura), ativistas e simples cidadãos que se manifestem contra o racismo, ou defendam a democracia contra a ameaça neofascista.

E a violência de Estado. Além de a preparação do golpe bolsonarista ter começado bem antes do episódio final do assalto a Brasília, e ter tido muito mais componentes do que a estritamente militar, recordemos que, entre os conspiradores, foram condenados três generais do Exército — responsáveis no Governo pela defesa e pela segurança — e um almirante. Foi na cúpula do poder do Estado que o golpe se preparou, e, ainda que tendo fracassado, cumpriu-se a estratégia que conhecemos do fascismo histórico: a chegada ao poder, por via de coligação ou outra, permite à ultradireita comprometer no seu projeto autoritário militares e forças de segurança. Essa é, não tenhamos dúvidas, a estratégia do Chega entre nós.

A despudorada reação de Trump ao processo contra Bolsonaro, impondo sanções comerciais (o “tarifaço”) em represália contra a atuação de juízes que se limitaram a cumprir a Constituição, além da dimensão de imperialismo em estado puro, traz-nos a segunda grande lição a extrair deste processo: a da natureza transnacional do neofascismo dos nossos tempos, a mesma que teve o fascismo na época de Hitler. Tecer alianças, fazer “empréstimos ideológicos, partilhar estratégias e hibridizações culturais”, o que permite falar de um “internacionalismo fascista” (Ugo Palheta, La nouvelle internationale fasciste, 2022). Hoje, exprime-se numa retórica teatral, que invoca um cristianismo de fachada (denunciado como anticristão logo pelo Papa Francisco) e funde racismo supremacista, culto das armas e da morte, incitação ao ódio e à violência contra as esquerdas, criação de um ambiente de guerra civil que procura legitimar a necessidade de uma transição autoritária que acabe definitivamente com a democracia.

Os dias que vivemos são, todos, dias de resistência. Têm de ser.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

3 pensamentos sobre “Bolsonaro e a verdadeira face da extrema-direita

  1. Não se podem combater os Bolsonaros na sua terra e apoiar os Bolsonaros noutro país.
    Era como ilegalizar mos aqui o Chega, infelizmente não vai acontecer, e apoiarmos o Vox em Espanha.
    A Internacional fascista exige uma frente unida de combate em especial nesta hora negra em que o fascismo tomou de vez os Estados Unidos, uma potência de recursos ilimitados que sempre apoiou o fascismo em todo o lado e agora ainda mais vai apoiar pois que caiu numa ditadura fascista.
    Trump e um velho mas o vice pode durar mais 50 anos e no pé em que as coisas estão e até de duvidar que haja eleições em moldes normais daqui para a frente.
    A boleia da morte de Charlie Kirk muita gente já foi corrida dos empregos por alegadamente celebrar o acontecimento em especial nos meios de comunicação social.
    Pelo menos uns organização de esquerda já foi considerada organização terrorista e provavelmente haverá prisoes nos próximos dias.
    A população parece assistir a tudo isto em choque não dando pio nem contra nem a favor. O medo paralisante esvaziou as ruas que dantes se enchiam de protestos quando a polícia assassinava mais um negro ou era anunciada mais uma guerra da América.
    Entretanto o velho celerado e recebido com pompa e circunstância no Reino Unido onde um rei celerado louva o seu empenho na resolução de conflitos.
    Um pais que agora cais nas garras do fascismo caíra numa miséria negra e numa repressão sem precedentes.
    E e por isso que o Governo da Venezuela tem de ser apoiado e não hostilizado por gente que se diz de esquerda.
    Porque não podemos perder mais ninguém, mais nenhum país, para as garras do fascismo.

  2. Concordo. Não parece ter lógica nenhuma a não ser a cobardia que o Governo do Brasil apoie os Bolsonaros venezuelanos que quero fazer a Maduro o que os golpistas brasileiros lhe queriam fazer a ele.
    Desta vez não haveria prisão, a mesmo limpar lhe o sarampo.
    Será esse o fim de Maduro se essa gente chegar ao poder ou, pior anda, a cela de uma sórdida prisão americana pois que esses trastes acusam o desgraçado de capitanear um fictício cartel de Los Soles e ate puseram um charuto premio sobre a sua cabeça a boa maneira do Faroeste.
    E e indecente que o governo brasileiro não tenha uma palavra a dizer quanto a isso.
    O partido de Maduro conseguiu ampla vitória nas últimas eleições municipais e nem os trastes do costume se atreveram desta vez a dizer que houve fraude tão espontâneas eram as reações de um povo farto de bloqueios e que não esqueceu o que passou nos anos 90 mesmo sem bloqueios.

  3. E no entanto o próprio Lula da Silva (e o seu PT) consegue o cúmulo da hipocrisia de condenar o governo da Venezuela pelo “crime” de andar há +20 anos a defender-se livre e soberana e democraticamente de um sem fim de tentativas de golpe semelhantes, feitas pela extrema-direita fascista venezuelana que é, tal como o Bolsonaro e o Milei e companhia, traidora do seu próprio país e vassala corrupta do império dos EUA e do naZionismo genocidas.

    Se Lula da Silva continuar a não reconhecer Nicolás Maduro (e o seu PSUV) como legítimos governantes e DEFENSORES da Venezuela, e continuar a impedir a adesão da Venezuela ao programa de parceiros dos BRICS+, então esta vitória do Brazil (da Justiça brasileira) será uma mera vitória temporária e insignificante no quadro geral das coisas.

    Imaginemos que, na melhor das hipóteses, Lula fez isto à Venezuela só de forma temporária, só para consolidar o “centro” eleitoral no Brazil (que quase lhe escapou nas eleições Presidenciais, e escapou por completo na eleição dos senadores e congressistas), só para ter uma posição mais vantajosa no confronto com os EUA, e só para tirar um possível argumento aos Bolsonaristas descontentes com o julgamento e sentença do fascista golpistas analfabeto Bolsonaro.
    Mesmo nesta melhor das hipóteses (ou a hipótese menos má), o comportamento de Lula da Silva não deixa de ser calculista e até covarde.

    E repare-se na hipocrisia e ironia da coisa: o Brazil que Lula chama de Democrático, terá agora um opositor (Bolsonaro) preso, enquanto que na “ditadura” da Venezuela os N golpistas e traidores continuam todos à solta: Henrique Capriles, Leopoldo Lopez, Juan Guaidó, Maria Corina Machado, etc, só para citar alguns que deram mais a cara nos últimos 10 anos.

    Mas isto já vem desde há quase 3 décadas, e simplesmente o imperado genocida Obama colocou sob esteróides o golpismo Venzuelano após a morte do LIBERTADOR Hugo Chávez, um golpismo iniciado pelo imperador genocida Bush assim que o povo Venezuelano se atreveu a ser soberano e democrático e a expulsar o FMI e companhia após a repressão e austeridade assassina dos anos 90. O imperador genocida Biden deu continuidade à coisa, e o imperador genocida Trump, que chegou a tenter invadir a Venezuela com “ajuda humanitária” da USAID (ao estilo de Gaza…) parece agora disposto a envolver directamente as tropas do império.

    Portanto, se pudesse falar cara a cara com Lula da Silva, eu perguntava isto: para que serve esta vitória temporária no Brazil, se o próprio Lula da Silva está do lado dos “Bolsonaros” Venezuelanos?!?

    Uma pergunta que poderia perfeitamente fazer também aos “democratas” de “esquerda” e “anti-fascistas” do BE e do Livre, que cada vez mais parecem uma PsyOp do império (i.e. da oligarquia Neoliberal globalista) para impedir que certos eleitores vão votar em quem é realmente democrata e de Esquerda e anti-fascista, e também patriota e anti-imperialista.
    Afinal de contas, enquanto que um PCP a condenar os terroristas e criminosos de guerra da NATO é incomodativo, um Rui Tavares ou uma Mariana Mortágua numa flotilha no Mediterrâneo a mandar tweets de apoio aos Guaidós e Mobdlandes e Zourabichvilis e Zelenskys, é algo que não só não incomoda nada o império dos EUA, como pelo contrário vai exatamente de encontro aos planos desse império genocida.

    Mas se em Portugal, uma mera província patética desta império com um povinho todo vítima de lavagem cerebral da maquina de propaganda ocidental, eu ainda percebo o porquê de existirem aberrações (ou idiotas úteis) como o BE e o Livre, já no Brazil, um país gigante e soberano membro dos BRICS (i.e. parceiro da Rússia, China, e Sul Global), isto fica mais difícil de entender. Fica aliás impossível de aceitar.

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