A polícia não serve para salvar vidas?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/08/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

É interessante verificar que foi dos que mais violentamente costumam reagir a qualquer critica às forças policiais que vieram as reações mais indignadas com o comportamento da GNR em Monchique. Uma parte desta reação tem motivações políticas. A morte de uma única pessoa nos incêndios teria, depois de Pedrógão e de outubro, enormes efeitos políticos.

Há quem ache que terá sido o receio por esses efeitos a principal motivação para o Governo ter dado toda a prioridade à preservação de vidas humanas, mesmo que isso correspondesse a perderem-se casas e terras. Ainda que isso fosse verdade, ela não deixa de estar certa por isso. E parece haver entre alguns dos críticos uma indisfarçável amargura por essa opção lhes ter retirado um fortíssimo instrumento de oposição ao Governo. Uma amargura que é, convenhamos, um pouco sinistra.

Mas há outra razão para quem não hesita em defender a polícia sempre que há um espancamento numa esquadra ou na rua, uma carga sobre uma manifestação ou um tiro sobre uma viatura que não pára numa “operação stop” a rasgar agora as vestes pelos direitos dos cidadãos. A divisão que fazem do mundo é entre bandidos, moradores de bairros sociais, arruaceiros e todos os suspeitos do costume, por um lado, e cidadãos comuns, “como todos nós”, por outro. E é com base nesta dicotomia entre normalidade e margens que avaliam a atuação policial. Só por isso se chocaram, aliás, com o espancamento de um adepto do Benfica, em Guimarães, em 2015. E os donos das propriedades de Monchique eram “pessoas como nós”, que apenas queriam salvar o que tinham.

Nas avaliação da ação policial, estas pessoas não aplicam os critérios relevantes para um Estado de Direito ou de necessidade no uso da força, mas critérios que dividem as vítimas da violência policial entre bons e maus, culpados ou inocentes. Pois eu acho que o uso da força pela polícia se mede pela sua necessidade e proporcionalidade. Porque o uso da força não serve para punir – isso só os tribunais podem fazer –, serve para proteger um bem maior do que aquele que, com a sua utilização, é posto em causa.

O uso da força dentro de uma esquadra perante alguém que, mesmo que seja um criminoso, não representa um perigo iminente para si e para os outros é inaceitável e tem de ser tratado como um crime. O uso da força para retirar alguém de uma situação de perigo de vida é não só aceitável como um dever de qualquer força policial.

Estranho é haver quem defenda que a polícia pode pôr em perigo a vida de alguém para defender um bem material mas não deve usar a força para salvar quem, num momento de desespero, se está a entregar à morte para defender a sua casa ou a sua terra. É uma inversão total de valores.

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A direita e o poder

(Carlos Esperança, 13/08/2018)

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(Eis, na imagem, Oliveira e Costa, banqueiro, chefe de quadrilha, que acreditava em Portugal… Ele e o seu amigo Cavaco, grande obreiro da ruína a que ele e os seus amigos levaram o país, depois de o saquearem em proveito próprio, com uma impunidade que brada aos céus e ainda hoje se mantém. 

É esta a direita que temos.

Estátua de Sal, 13/08/2018)


O poder é tão apetecido que dificilmente há quem lhe resista. A direita não sabe viver sem ele e na esquerda há quem vire à direita quando o comboio inverte a marcha.

Quando a direita está em crise, os seus amanuenses anunciam que é o regime; quando o poder se afasta, devora o líder, na ânsia de encontrar outro; o próprio PR, quando vê a família a desfazer-se, dá uma ajuda aos atiradores de serviço, a arremessar insinuações; o jornalismo reverente destaca os funcionários mais truculentos a atiçar fogueiras contra a esquerda; nas redes sociais, televisões, jornais, revistas e sarjetas surgem vuvuzelas a provocar ruído e a vociferar calúnias; os pusilânimes não se coíbem a descontextualizar e manipular declarações dos adversários para os debilitarem.

O que fizeram à frase de António Costa nas declarações sobre o fogo de Monchique “… a exceção que confirmou a regra do sucesso da operação, ao longo destes dias”, é digna de figurar num compêndio da aleivosia. Parecia um concurso, a rivalizar em idiotia com a malvadez da desinformação.

No domínio da imbecilidade, houve quem referisse a “desmesurada preocupação com as vidas humanas”, para acabar no mestre da intriga, José Gomes Ferreira que, no conforto do estúdio da SIC, se referiu a “o critério político no combate técnico ao fogo”, e, numa manifestação de indigência ética, aparentemente desolado com a ausência de mortes, perguntava: “Porque estão a tirar as pessoas de casa, mesmo contra a sua vontade?”. Ignora-se se este sólido talento do jornalismo de intriga teve a noção do despautério.

Perante o esforço desta direita, que se desfaz, sem rumo, sem programa e sem liderança, é um dever não deixar que passem incólumes os avençados da manjedoura reacionária e ultraliberal a quem está confiado o assassínio de caráter dos adversários.

A esquerda, no seu conjunto, incluindo a direção do PS, que deixou imolar o seu partido sem explicar a crise cíclica do capitalismo, que originou a falência do Lehman Brothers e abalou o sistema financeiro internacional, com repercussão nas dívidas soberanas dos países mais vulneráveis, ajudou a consolidar a narrativa da direita, que demonizou o PS, que era o governo de turno durante o furacão.

Cabe à esquerda fazer a pedagogia que deve, sem deixar à solta esta direita que Cavaco patrocinou e desesperadamente quis prolongar com Passos Coelho, Maria Luís e Portas, com o último já substituído pela inefável Dr.ª Cristas e o primeiro, ora catedrático, ainda sem substituto ungido pela direita mais à direita, de que António Costa e os partidos à esquerda do PS nos libertaram.

Marcelo – os incêndios e pulsão por dar bicadas ao Governo. Pergunto: com intervenções destas o seu público alvo são as meninas das nails?

(In Blog, Um Jeito Manso, 12/08/2018)

No outro dia fui à cabeleireira. Enquanto esperava a minha vez, estive sentada perto da bancada onde a técnica de nails, uma jovem com ar de teenager e que vim a saber, no decurso da conversa, que tem vinte e seis anos, produzia a sua arte nas unhas de uma outra, idêntica, com vinte e oito anos. Conheciam-se, não sei se apenas dali, e tratavam-se por tu e por ‘amiga’….


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