A hora de Putin está próxima

(Paul Craig Roberts, in Resistir, 11/01/2020)

Vladimir Putin é o líder mais impressionante no cenário mundial. Ele sobreviveu e ascendeu numa Rússia corrompida por Washington e Israel durante os anos Yeltsin e restabeleceu a Rússia como potência mundial. Ele tratou com êxito da agressão americana/israelense contra a Ossécia do Sul e contra a Ucrânia, incorporando, a pedido da Crimeia, aquela província russa de volta à Mãe Rússia. Ele tem tolerado insultos e provocações intermináveis de Washington e do seu império sem responder da mesma forma. Ele é conciliatório e um pacificador a partir de uma posição de força.

Ele sabe que o império americano, baseado na arrogância e na mentira, está a fracassar na óptica económica, social, política e militar. Ele entende que a guerra não serve a nenhum interesse russo.

O assassinato de Qasem Soleimani, um grande líder iraniano, na verdade um dos raros líderes da história mundial, empanou a liderança de Trump e focou os holofotes sobre Putin. O cenário está preparado para Putin e a Rússia assumirem a liderança mundial.

O assassinato de Soleimani é um acto criminoso que poderia começar a Terceira Guerra Mundial, tal como o assassinato sérvio do arquiduque austríaco desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Só Putin e a Rússia, com a ajuda da China, podem travar esta guerra que Washington pôs em movimento.

Putin entendeu que a desestabilização da Síria pretendida por Washington/Israel visava a Rússia. Sem advertência prévia a Rússia interveio, derrotou as forças por procuração financiadas e armadas por Washington e restaurou a estabilidade na Síria.

Derrotados, Washington e Israel decidiram ultrapassar a Síria e levar o ataque à Rússia directamente ao Irão. A desestabilização do Irão serve tanto a Washington quanto a Israel. Para Israel, o fim do Irão interrompe o apoio ao Hezbollah, a milícia libanesa que derrotou duas vezes o exército de Israel e impediu a ocupação de Israel do sul do Líbano. Para Washington, o fim do Irão permite que jihadistas apoiados pela CIA tragam instabilidade à Federação Russa.

A menos que Putin se submeta à vontade americana e israelense, ele não tem outra opção excepto bloquear qualquer ataque de Washington/Israel ao Irão.

Para Putin, o modo mais fácil e mais limpo fazer isso é anunciar que o Irão está sob a protecção da Rússia. Esta protecção deveria ser formalizada num tratado de defesa mútua entre Rússia, China e Irão, talvez com a adição da Índia e da Turquia como membros. Isto é difícil para Putin, porque historiadores incompetentes convenceram-no de que as alianças são a causa da guerra. Mas uma aliança como esta impediria a guerra. Nem mesmo o insano criminoso Netanyahu e os enlouquecidos neoconservadores americanos, mesmo quando completamente bêbados ou iludidos, declarariam guerra ao Irão, Rússia, China e, se incluídos na aliança, à Índia e Turquia. Isto significaria a morte da América, de Israel e de qualquer país europeu suficientemente estúpido para participar.

Se Putin for incapaz de se libertar da influência de historiadores incompetentes, que de facto estão a servir os interesses de Washington, não da Rússia, ele tem outras opções. Ele pode tranquilizar o Irão, oferecendo-lhe os melhores sistemas russos de defesa aérea russa, com equipes russas para treinar os iranianos e cuja presença serviria como uma advertência a Washington e Israel de que um ataque às forças russas é um ataque à Rússia.

Uma vez feito isto, Putin pode então insistir em mediar. Este é o papel de Putin, pois não há nenhum outro com poder, influência e objectividade para mediar.

A tarefa de Putin não é tanto resgatar o Irão, mas remover Trump de uma guerra perdida que o destruiria. Putin poderia estabelecer seu próprio preço. Por exemplo, este preço poderia ser o renascimento do tratado INF/START , o tratado de mísseis anti-balísticos, a remoção da NATO das fronteiras da Rússia. Na verdade, Putin está posicionado para exigir o que quiser.

Mísseis iranianos podem afundar qualquer navio americano em qualquer lugar próximo do Irão. Mísseis chineses podem afundar qualquer frota americana em qualquer lugar perto da China. Mísseis russos podem afundar frotas americanas em qualquer lugar do mundo. A capacidade de Washington de projectar poder no Médio Oriente agora que toda a gente, xiitas e sunitas e antigos agentes de Washington como o ISIS, odeia os americanos com paixão é nula. O Departamento de Estado teve de ordenar aos americanos saíssem do Médio Oriente. Como Washingon pode contar como uma força no Médio Oriente quando nenhum americano está seguro ali?

É claro que Washington é estúpido na sua arrogância e Putin, China e Irão têm de considerar isso. Um governo estúpido é capaz de arruinar não só a si próprio como também os outros.

Assim, há riscos para Putin. Mas também há riscos para Putin em deixar de assumir o comando. Se Washington e Israel atacarem o Irão, o que Israel tentará provocar por algum evento de bandeira falsa como afundamento de um navio de guerra americano para culpar o Irão, a Rússia estará em guerra de qualquer maneira. É melhor a iniciativa estar nas mãos de Putin. E será melhor para o mundo e a vida sobre a Terra a Rússia estar no comando.



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Bons ventos

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 16/01/2020)

Alexandre Abreu

Não é preciso recuarmos muito para recordarmos um tempo em que a geringonça era objecto da admiração e inveja da generalidade dos partidos sociais-democratas europeus, incluindo o PSOE em Espanha. E ainda é preciso recuarmos menos para recordarmos como António Costa se referiu ao exemplo espanhol em tom de alerta durante a campanha para as eleições legislativas de outubro passado, apelando ao voto no PS para evitar um impasse negocial semelhante ao que então se vivia em Espanha entre o PSOE e o Unidas Podemos.

Estas recordações têm algo de irónico quando consideramos que em Espanha acaba de ser inaugurada uma solução governativa mais progressista do que foi a geringonça – com o Unidas Podemos no governo e um programa de governo bastante avançado -, ao passo que, em Portugal, o mesmo PS que antes dava lições internacionais sobre a “solução portuguesa” apressou-se entretanto a arrancar pela raiz qualquer veleidade de reedição dessa mesma solução.

Esta inversão de posições não é necessariamente fácil de explicar. Afinal de contas, a maioria apenas relativa do PSOE nas cortes espanholas não é fundamentalmente diferente da posição com que o Partido Socialista saiu das recentes eleições em Portugal. Em contrapartida, claro, faz bastante diferença que em Espanha as forças à esquerda do PSOE estejam no essencial reunidas num único partido, após a união entre Esquerda Unida e Podemos em 2016, e sobretudo faz diferença que a direita espanhola, na tríplice encarnação constituída por Partido Popular, Ciudadanos e Vox, seja bastante mais forte, mais ameaçadora e mais agressiva do que a direita portuguesa.

Quaisquer que sejam as explicações, não há dúvida que a solução governativa espanhola é hoje, do ponto de vista da esquerda, bem mais interessante do que a portuguesa. Para além da Vice-Presidência do governo, o Unidas Podemos detém as pastas ministeriais dos Assuntos Sociais (Pablo Iglesias), Trabalho, Igualdade, Ensino Superior (com Manuel Castells) e Consumo (Alberto Garzón, que, como assinalou há dias a revista norte-americana Jacobin, tem a importância simbólica adicional de ser o primeiro dirigente declaradamente comunista a chegar ao governo em Espanha desde o derrube da Segunda República em 1939).

No que toca à substância da política e das políticas, o acordo de governo de 50 páginas agora assinado prevê o fim da criminalização dos protestos (revogação da “lei mordaça”), a revisão da legislação laboral mais liberalizante e regressiva, o aumento da progressividade da fiscalidade tanto para as empresas como para os indivíduos, todo um capítulo de políticas feministas, o reforço dos apoios sociais, um pacote de medidas para promover o direito à habitação, a eliminação das taxas moderadoras na saúde, a continuação do aumento do salário mínimo e a busca de uma solução política para a questão da Catalunha, entre muitas outras coisas.

É um programa de governo social-democrata que não escapa aos constrangimentos decorrentes das regras orçamentais de Bruxelas e dos encargos associados a uma dívida pública que também em Espanha não anda longe de 100% do PIB, mas é um programa política e socialmente avançado em muitos domínios, seguramente bem mais avançado do que a forma como o PSOE governaria sozinho.

Estou certo, aliás, que para uma maioria do eleitorado (que não dos dirigentes) do PS português esse é um aspecto algo trágico da eutanásia da geringonça promovida pelo seu partido: eles próprios terão noção de que a dependência face aos parceiros à esquerda foi o que puxou pelo melhor da governação na legislatura anterior, da evolução do salário mínimo e das pensões à tarifa social na electricidade, da redução dos preços dos passes nos transportes à reposição da progressividade no IRS, da lei de bases na saúde à integração dos precários do Estado. Como terão noção da falta que fazem os avanços nos domínios em que o PS mais resistiu às propostas de Bloco e PCP, especialmente a revisão da legislação laboral e o reforço do investimento público.

Por agora, é de Espanha que sopram ventos mais progressistas. O novo governo espanhol enfrentará o combate sem tréguas de uma direita profundamente reacionária e as inevitáveis dificuldades de entendimento entre partidos com origens e matrizes ideológicas muito distintas. Também por isso é especialmente importante que esta solução se mostre estável e alcance os resultados a que se propõe no seu programa. Pode ser que daqui a algum tempo Portugal esteja em condições de aprender com a “solução espanhola”.

Príncipe Harry, duque de Sussex®: tão improdutivo como um aristocrata, tão banal como um burguês

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/01/2020)

O poder do mercado é avassalador. Como canta Caetano Veloso, é “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”. E está a destruir a monarquia inglesa, que não é tão bela assim. O príncipe Harry desistiu do privilégio do título em nome do privilégio do dinheiro. Ou, como ele preferiu dizer, em nome da sua “independência financeira”. Ato corajoso? Pelo contrário. Aquilo de que o príncipe desistiu foi dos seus deveres. E, sentado na herança, incluindo a da família real, dispensou apenas 5% dos seus rendimentos – os que eram garantidos diretamente pelo Estado. Sem nenhuma das responsabilidades reais, guardou para si a fama e o estatuto que o privilégio lhe dá, pondo-os a render.

Os duques Harry e Meghan registaram a Sussex ® e SussexRoyal ® e vão viver da marca, sobretudo na América do Norte, onde o showbiz rende mais. O que produz essa marca? Nada. Produz o que o seu estatuto real lhe deu. Um estatuto a que é suposto corresponder responsabilidades. Chamar a isto “independência financeira” é arrojado. Parece-me mais uma forma de chular a monarquia sem sequer se dar ao trabalho de cortar umas fitas, fazer uns discursos anódinos e dar uns beijos por ela.

Há quem compare isto à vida que hoje tem o casal Obama, tentando descansar quem teme o abastardamento do nome real. Dizem que é possível manter a classe. A comparação é absurda. Barack Obama construiu uma carreira política, venceu eleições, governou a maior potência mundial e, sabendo que um Presidente dos EUA não pode ter uma carreira, vive da fama que conquistou com o seu trabalho. Harry limitou-se a nascer. Foi o que teve de fazer para merecer a fama.

Imagino que o gesto dos duques de Sussex ® arrepie qualquer defensor das vantagens da monarquia sobre a República. Que deite por terra a conversa sobre a intemporalidade dos símbolos pátrios (registados ou por registar), representada pelo monarca e nunca por um Presidente da República eleito e transitoriamente no poder.

Mas, como se vê, a monarquia transformou-se em pouco mais do que um ativo para o mundo do espetáculo. A ser usado por quem não tem de ter mais talentos do que qualquer participante num reality show. Basta ser famoso.

O português Fernando Mascarenhas, 12º marquês de Fronteira, mecenas culto e generoso, via o seu estatuto de aristocrata como um dever que herdava com o património, o título e o apelido. Explicou-o numa frase óbvia: “os privilégios trazem consigo responsabilidades.” Nunca aceitarei privilégios de sangue. É por isso que sou republicano. Mas nunca negarei a nobreza a quem a merece, com ou sem título. E se é no título e na herança de um nome que alguém encontra a razão para assumir as responsabilidades do seu privilégio, não deixarei de o respeitar.

No “sermão” que escreveu ao seu sucessor, Fernando Mascarenhas dizia que “qualquer cidadão tem a obrigação de tratar corretamente o seu semelhante, mas o aristocrata tem-na a triplicar, seja pela melhor educação que deve ter recebido, seja pelo crédito de que à partida normalmente beneficia, seja ainda pelo necessário e salutar exercício de dobrar o orgulho que facilmente tenderá a ter”. Nada disto faz sentido para mim. Mas fazia sentido na coerência daquele homem, até porque coerentemente praticou a nobreza de espírito e o que julgava ser o seu dever. E isso chegava e contrasta com o comportamento de Harry e Meghan.

Há qualquer coisa de tristemente poético neste gesto. A lógica mercantil volta a ganhar, esmagando o mundo anacrónico em que vivem reis, rainhas e príncipes, transformados em pouco mais do que estrelas do espetáculo mediático. Mas é a um novo capitalismo que se vergam. Tão improdutivos como um aristocrata, tão comuns como um burguês.