Trump e as pitonisas

(Por Estátua de Sal, 20/01/2017)

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Estive a seguir nas televisões (SIC Notícias e RTP3) as cerimónias de tomada de posse de Donald Trump e, apesar de não ser surpresa, todos os discursos dos comentadores de serviço aponta para a chegada dos dias do Apocalipse.

Uma das características do futuro é o seu carácter incerto e imprevisível pelo que fico espantado com tanta certeza e tantos dotes de vidência que enformam os ditos personagens.

Eu sempre achei que o presente e o passado, sobretudo este, é que seriam entidades certas e abordáveis. Mas não. Para estes opinantes o passado é opaco. O presente é um limbo.

Como se o passado, e mormente o presente, fossem o melhor dos mundos, estivéssemos no Paraíso, na terra do maná ilimitado e agora vem o malandro do Trump dar cabo de tudo e destruir a nossa felicidade.

Como se a miséria não grassasse pelo planeta. Como se as desigualdades não tivessem atingido níveis vergonhosos. Como se as ameaças de Guerra globais não estivessem no horizonte, como se o terrorismo não campeasse pelo mundo, como se os Estados não estivessem em decadência e cercados pelos interesses da grande finança que ninguém controla, como se as liberdades e as democracias não estivessem ameaçadas. Como se milhões de crianças e refugiados não estivessem cada vez mais espezinhados pela expulsão das suas terras ancestrais devido aos conflitos que os EUA patrocinam para prosseguirem a pilhagem dos recursos dos seus territórios, nomeadamente o petróleo do Médio Oriente.

Sobre este cenário de caos que caracteriza o presente do mundo, os ditos comentadores nada sabem e nada dizem. Ocultação total. Vivemos, para eles, no melhor dos mundos, mundo que Trump vai destruir e ameaçar. Também não lhes pagam para o dizer. Quem lhes paga é quem beneficia com o status quo atual, que o engendrou e que o pretende manter.

Sobre o discurso de Trump, nada diferente do que seria expetável, em que repetiu os pontos marcantes do que sempre disse na sua campanha, Make the America Great Again, empregos para a América, infraestruturas, luta contra o Daesh, renegociação de acordos comerciais, aposta no investimento interno em detrimento de despesas militares em aventuras belicistas no exterior. E promessa de que vai lutar contra os interesses instalados em Washington, devolvendo o poder ao povo. Contrariamente à tradição, Trump não apelou ao consenso unanimista da Nação, mas reconheceu que vai enfrentar meia nação contra si, e falou, no essencial, para o eleitorado que o elegeu. Podia ter recuado nas suas propostas agora que já foi eleito. Não o fez e aí foi corajoso e coerente. O que obrigou, de forma inédita nestes atos de tomada de posse, o próprio Obama a fazer uma declaração opondo-se ao discurso de Trump! Extraordinário. Os dados estão lançados. A guerra entre duas visões diferentes para os EUA e o mundo em confronto, de forma visível, sem filtros, ao vivo e em direto.

Se a sua prática futura se irá manter na mesma linha só o futuro o dirá. Eu, pela minha parte, não tenho as certezas que os comentadores de serviço hoje evidenciaram, e acho que se deve esperar para ver.

Pessoalmente não gosto do personagem. Mas há um detalhe que não posso ignorar. Foi eleito segundo as regras democráticas em vigor nos EUA, para o bem ou para o mal. Tem por isso o direito de seguir as suas políticas, porque elas dimanam diretamente do voto popular.

É preocupante que todo o discurso da comunicação social dominante seja orientado para prefigurar como se pode impedir que Trump as siga, para lhe travarem as intenções, para o retirarem do cargo inclusive. Porque tal leva a concluir que já aceitaram e propõe como sendo normal a ditadura de um sistema de poderes ocultos que tudo controla, sendo as eleições uma farsa cujos resultados só são válidos e aceitáveis quando sufragam a manutenção e reforço do dito sistema de poderes.

Depois, outra linha de ataque a Trump é analisar as suas propostas como não exequíveis, porque nunca foram executadas, porque há forças que se lhe vão opor tenazmente, porque há um sistema de check and balances no sistema de poderes americano, e porque o presidente tem poderes limitados. Ou seja, os próprios comentadores, acreditam numa espécie de governo invisível, nos EUA e no mundo, que está acima da vontade de Trump, ou de qualquer Presidente, seja ele qual for.

Por paralelismo, lembrei-me que era o mesmo tipo de ideias e críticas que se faziam por cá aquando da tomada de posse do Governo da Geringonça. Porque a solução nunca tinha existido, porque não iria funcionar, porque era contranatura e por aí fora. Viu-se que esses grandes intérpretes e pensadores estavam errados porque a realidade não se comporta de acordo com os seus desejos.

É uma grande chatice meus caros comentadores. A realidade que vocês nos querem servir e que querem fazer passar por informação respeitável e fiável é uma espécie de cavalo indomável e à solta. E com tanto falhanço e incongruência nas vossas pregações já ninguém vos leva a sério. O vosso discurso é cada vez mais uma espécie de ovo partido e sem gema.

Um vazio de indigência e propaganda barata, promovendo os interesses de quem vos paga. Um pároco de aldeia faz melhor. E se as redes sociais vos preocupam é porque elas são, em parte, responsáveis por vos desmascarar. E por isso só me resta dizer: vivam as redes sociais.

 

Mais Salgado

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 20/01/2017)

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Foi a notícia do dia, o ex-presidente do BES estava no Departamento Central de Investigação e Acção Penal para prestar declarações no processo Marquês. O MP suspeita que Salgado deu ordens para transferir dinheiro para Sócrates. Ao fim de quase três anos ainda há notícias do dia da operação Marquês. Não sei se isso é bom.

À Operação Marquês juntou-se a falência do Universo Espírito Santo e o Monte Branco: Salgado é arguido nos três processos. A Judiciária devia escrever SALGADO com os dossiês dos processos como fazem com tijolos de haxixe. Com mais esta acusação, Ricardo Salgado já tem currículo para ser presidente do Parlamento Europeu.

Confesso, quando ouvi a notícia, fiquei admirado. Ricardo Salgado, que agora já podia ir para onde quisesse, estava no DCIAP?! Provavelmente, não havia neve em St.Moritz.

Depois de ter sido ouvido durante várias horas no DCIAP, como é hábito, ficámos a saber (sabe-se lá como) que, desta vez, o MP pedia uma medida de coacção pesada para Ricardo Salgado. Termo de identidade e residência era insuficiente para os procuradores da “Operação Marquês” e sai muito caro pôr polícia à volta daquela moradia. Salgado ainda leva a PSP à falência.

O ex-presidente do BES ia, de seguida, ser ouvido pelo célebre juiz Carlos Alexandre, que iria decidir a medida aplicar. Esperava-se castigo severo mas, afinal, Salgado regressava a casa proibido de se ausentar do país.

O MP, segundo as fontes, queria medidas de coacção mais pesadas mas, provavelmente, o charme do Doutor Ricardo Salgado foi demais para uma alma simples como a do Carlos Alexandre. Uma coisa é o Pinto de Sousa, que ele topa que veio das berças como ele, outra o Doutor Salgado, que sabe usar vinte e quatro talheres desde que nasceu. Mais duas horas de conversa, e um prego do Gambrinus, e o Doutor Salgado ainda conseguia convencer o juiz Carlos Alexandre a comprar o Novo Banco.

De resto, o “castigo” que Salgado levou foi não poder falar com Sócrates. Mais de dois anos depois do caso ter começado, Salgado não pode falar com Sócrates. Agora é tarde. A única coisa que evita são os telefonemas de Sócrates a gozar com o Sporting.

O ex-DDT está também proibido de falar com pessoas do “Universo Espírito Santo”. Ou seja, Salgado pode levar um vida normal se ficar afónico. Esta medida é mais pesada, mas seria muito pior se tivesse sido aplicada há um mês. Imagina, o estimado leitor, como seria a ceia de Natal do Doutor Salgado sem poder falar com pessoas do Universo Espírito Santo? Bem sei que, provavelmente, metade da família não lhe quer falar, mas ia ser complicado não poder falar com ninguém. Já estou a ver o Doutor Salgado a imitar um peru para lhe passarem a travessa.

Sobrinha do Dr. Salgado – “O Tio Ricardo esta a ter um AVC, mãe?”

Irmã do Dr. Salgado – “Não, querida, está a pedir para lhe passarem a travessa das carnes frias.”


TOP 5

Monte Marquês do BES

1. “Jornalistas aprovam boicote a conferências de imprensa sem direito a perguntas” – Congresso dos jornalistas dá conferência de imprensa sem direito a perguntas de jornalistas.

2. “Católica melhora previsão de crescimento do PIB para 1,7%” – mas por causa da visita do Papa Francisco.

3. “Ulrich diz que quem pagou resgate os bancos foram accionistas e não contribuintes” – na verdade, somos todos accionistas à força.

4. “Cristas desconfortável com atitude de Passos Coelho” – é para ficar a saber o que sentimos quando ela abre a boca e leva embrulhos para a Assembleia.

5. “PS vai chumbar terça-feira de Carnaval como feriado obrigatório” – se for por causa da gripe e das urgências, faz sentido.

A crise do jornalismo é a crise da democracia

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/01/2017)

Autor

                           Daniel Oliveira

Os jornalistas reuniram-se em congresso, este fim de semana. Infelizmente, por razões pessoais, e com grande pena minha, não pude assistir e participar no debate. Faço-o aqui, dirigindo-me, como se dirigiram os jornalistas que se encontraram no cinema São Jorge, aos leitores. O debate faz-se, hoje, em torno de três crises: a crise laboral que afetou os jornalistas, a crise do modelo de negócio em que a comunicação social se baseava e a crise da regulação, que no caso português está longe de ser nova. As três sombras que pairam sobre o jornalismo estão todas ligadas.

Há algumas décadas que assistimos ao processo de proletarização dos jornalistas. Não há autonomia possível quando 26% dos jornalistas trabalham a recibos verdes e 69% recebem entre 500 e 1500 euros, sendo que metade recebe menos de mil euros e 22% menos de 700. A precariedade e os salários baixos correspondem àquilo que se tornou a função dos jornalistas: produzir em série, sem uma verdadeira autonomia funcional. A isto juntou-se a redução drástica das redações, obrigando cada profissional a fazer várias peças por dia, muitas vezes para vários suportes, sem que sobre qualquer tempo para estudo e investigação. Não há jornalista mais fácil de manipular do que o jornalista sem tempo. Jornalistas mal pagos e a encher chouriços informativos são o sonho de todos os que desejam uma comunicação social amestrada.

O número avançado pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do ISCTE é esclarecedor sobre o estado da liberdade de imprensa: 37% dos jornalistas admitem que o medo de perder o emprego condiciona “muito ou totalmente” o seu desempenho profissional. Muito se fala da independência dos jornalistas face ao poder político, mas esta é a maior limitação à liberdade dos jornalistas.

Esta degradação das condições de trabalho dos jornalistas foi desejada pelo poder político, que, no governo de Cavaco Silva, retirou às redações todo o poder que tinham, deixando os profissionais totalmente dependentes da vontade dos proprietários dos órgãos de comunicação social. Mas foi aproveitada pelos empresários do sector, que conseguiram impor aos jornalistas, mesmo os que trabalham em jornais de referência, o espírito de vendedores de produtos informativos, sem qualquer dever que não seja para com a empresa.

A chegada da Internet e das redes sociais veio agravar uma crise que já existia. O modelo de negócio em que se baseavam os jornais, mas também as televisões e as rádios, ruiu em poucos anos. Hoje, é praticamente impossível encontrar órgãos de comunicação social que deem lucro considerável. Sendo certo que ao fim do modelo antigo ainda não sucedeu, com garantias de sustentabilidade, um modelo totalmente baseado no digital. Continua a ser difícil manter a ideia de que as pessoas devem pagar pela informação, se a querem livre e independente. Em alguns países já se fala na possibilidade do subsídio público (não seletivo) dos órgãos de comunicação social. Mas nem os cidadãos parecem estar ganhos para a ideia, nem se sabe ao certo como isto se faria. Até por ser cada vez mais difícil traçar a fronteira entre o que é e não é jornalismo.

Perante a chegada das redes sociais, os jornalistas tiveram duas reações. Primeiro foi a negação, recusando a sua existência e o impacto que teria no seu trabalho. Depois foi a imitação, apostando tudo na rapidez, na publicação de investigações menos do que parcelares, na repetição do boato (muitas vezes o que é divulgado nas redes), na procura da partilha rápida e acrítica por parte dos leitores. A primeira reação deixou os jornalistas impreparados para o impacto das redes sociais no seu trabalho, a segunda desvalorizou a sua função, tornando-a inútil aos olhos dos cidadãos. Porque quereriam as pessoas ler o trabalho dos jornalistas (e até pagar por ele) se lhes oferecem o mesmo que sites sem credibilidade?

É difícil dizer isto a um jornalista, mas a rapidez e o direto deixaram de ser a sua vantagem. Já todos podem oferecer isso. Os jornalistas terão de aceitar que muitas vezes serão os últimos a dar uma informação. Ganham se tiverem outra vantagem para oferecer: a credibilidade. Quando sair num jornal de referência (os tabloides não me interessam nesta conversa), mesmo que seja o último a falar do assunto, tem mesmo de ser verdade. Ser mais lento, não tentar dar tudo, mas tudo o que se dá tem de ser muitíssimo bem investigado. Não é possível garantir isto com redações em que as pessoas recebem 700 euros para fazerem quatro ou cinco peças por dia.

O facto de os jornais serem hoje um péssimo negócio fez com que os capitalistas, que para além do poder que a posse de um jornal lhes dá procuravam algum lucro, tivessem sido substituídos por mecenas ideológicos, que procuram apenas a influência política, em troca de um prejuízo suportável. Isto não seria grave se garantisse o pluralismo de oferta. Quem tem essa ilusão ignora que o poder económico tem interesses específicos e toda a oferta de informação que dependa muito mais do poder económico do que dos leitores está condenada a servir os interesses de quem a paga.

A crescente dependência da comunicação social em relação ao poder económico é tal que o congresso dos jornalistas foi patrocinado por empresas como a EDP, o Santander, a PT e a Fundação Francisco Manuel dos Santos sem que a organização se questionasse sobre o que isto nos diz. A dependência está garantida quando nem sequer é questionada.

Depois, um problema especialmente grave em Portugal: não há regulação digna desse nome. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) não conquistou, por culpa própria, o respeito dos jornalistas. Não apenas por os jornalistas serem a classe que mais detesta ser escrutinada por poderes que lhe sejam externos, mas porque a ERC parece ter muito pouca capacidade de perceber o que é relevante e depende, em grande parte, de nomeações políticas. Concordo que a autorregulação não chega, mas a regulação tem de ser compreendida como tal, e não como uma forma de interferência política. A resistência dos jornalistas torna-se, no entanto, mais difícil de aceitar quando não garantem, eles mesmos, qualquer tipo de autorregulação eficaz. Mais uma vez, acreditar que profissionais precários, sem qualquer autonomia funcional e com rendimentos de um trabalhador sem qualificações, podem regular a sua própria atividade é esperar que as coisas aconteçam apenas pela força da vontade.

A proletarização e perda de autonomia dos jornalistas, hoje precários, muitíssimo mal pagos e com medo diário de perder o emprego, associada à crise do modelo de negócio em que se baseavam os principais órgãos de comunicação social, hoje dependentes de mecenas ideológicos, sejam eles proprietários ou anunciantes, deixou jornais, televisões e rádios num limbo perigoso. Na tempestade de boatos, meias-verdades e mentiras que as redes socais facilmente alimentam, os órgãos de comunicação social, em vez de funcionarem como terra firme, são uma jangada que vai com a corrente. E contribuem com esta mimetização suicida para uma crise global de confiança que está a minar os alicerces das democracias.

A crise do jornalismo está incluída numa crise mais geral: a crise de todos os agentes mediadores na era da Internet e da globalização. Ela afeta a comunicação social como afeta os partidos políticos, os sindicatos e o Estado. Os jornalistas são uma classe obsoleta. Tão obsoleta como os políticos e como a democracia, que está a ser substituída por um burburinho incessante e inorgânico e pelo poder direto dos empresários e dos mercados. Cabe aos jornalistas reinventar a sua função, contrariando os perigos deste novo tempo em vez de os replicar e ampliar.