APONTAMENTOS DO CONGRESSO DO PSD

(In Blog O Jumento, 19/02/2018)
rio_cong
O PSD deixou de ser o partido preferido pela extrema-direita chique para ser o mais social-democrata possível, ainda que ninguém perceba muito bem o que é a social-democracia de Sá Carneiro, Cavaco Silva, Durão Barroso, Pinto Balsemão, Santana Lopes, Passos Coelho ou Rui Rio.
Depois de destruir a classe média acusando-a dos males do consumo e de ganhar acima do devido afirma-se amante dessa mesma classe média, depois de defender o “ajustamento”, isto é, uma redução linear de todos os salários, defende agora melhores rendimentos. O partido que liberalizou as regras da lei laboral está agora preocupado com a precaridade, os que fizeram baixar de forma brutal a taxa de natalidade são agora campeões na preocupação com a população.
Os opositores de Rui Rio transformaram-se agora numa espécie de ala dos namorados, Passos Coelho afirmou-se um soldado e todos os seus assumiram o mesmo estatuto, uns imitaram o líder e Montenegro assumiu mesmo que passaria à reserva, para esperar o melhor momento para disputar a liderança de Rui Rio.
Pedro Santana Lopes concorreu à liderança do PSD e percebeu que “quem vai ao mar perde o lugar”, de um dia para o outro perdeu um bom tacho para ficar no desemprego. Teve de ir ao congresso resolver o seu problema, deu uma cambalhota e quase parecia um caniche do novo senhor. Esqueceu muito depressa os seus recentes apoiantes, armou-se em seu representante e ganhou estatuto no partido. Já pode ambicionar um lugar no Parlamento Europeu e com a nova posição no PSD tem direito a uma quota de avenças para juristas decididas por gente do PSD.
De um momento para o outro assistimos á conversão de muitos liberais em social-democratas de primeira água, tendo à sua cabeça o cristão novo que agora é secretário-geral, passou de ideólogo do liberalismo extremista de Passos a ideólogo de Rui Rio. Outro caso de cambalhota foi o de Elina Fraga, eram poucos os que sabiam que a tinham como companheira de militância no PSD, agora têm-na como vice-presidente sem nunca ter colado um cartaz durante uma campanha eleitoral.
Cavaco Silva preferiu ver o congresso do alto do seu pedestal, não se misturando com a arraia miúda, mas não deixou de tentar algum protagonismo à custa dos outros do seu partido. Fê-lo de forma tão miserável que ninguém se deu ao trabalho de dar pela sua existência, ver um ex-presidente ameaçar contar o que ouviu durante as audiências presidenciais dos líderes partidários foi um dos momentos mais degradantes da política portuguesa, algo de tão baixo nível que ninguém se deu ao trabalho de comentar. A intervenção de Cavaco Silva através da entrevista ao Expresso serviu para mostrar que o senhor de Boliqueime não é como o Vinho do Porto, não melhorando com a idade, é uma zurrapa que com o tempo se transforma num vinho cada vez mais azedo.
Passos saiu e se não fosse a incapacidade de esconder a sua raiva por a esquerda o ter impedido de prosseguir com a sua agenda política mesmo sem maioria parlamentar mereceria o elogio; ainda assim fez o melhor discurso do congresso. Em contraposição, os discursos de Rui Rio foram pobres e até Santana Lopes já não é o que era, parece que a idade lhe está a pesar em todos os aspectos.

Rui Rio lê bem os discursos, o problema é quando não os leu e julgando tratar-se de uma contradição engasga-se e volta a engasgar-se. Depois de acabar de afirmar que a causa da crise financeira tinha sido um crescimento assente no consumo, Rui Rio engasga-se quando lê que a grande prioridade é um aumento do consumo, leu e releu, aquele que o vídeo oficial tinha acabado de apresentar como um grande economista levou uns longos segundos para perceber o que supostamente ele próprio tinha escrito. Lá se lembrou de dizer que aquela era uma frase importante.
Ficamos agora a aguardar que Rio explique melhor a sua tese das culpas do consumo, depois de anos a sermos castigados pela austeridade como se fosse uma penitência pelo excesso do consumo eis que vem Rui Rio, ignora as responsabilidades várias numa crise que começou ainda em 2008 e bem longe de Portugal e que apanhou o sistema financeiro atolado no pote de mel do crédito ao consumo. A tese da culpa de Passos Coelho, que aparece aqui sustentada por Rui Rio de forma quase ingénua, ou talvez não, serviu para implementar uma brutal transferência de riqueza dos pobres e da classe média baixa para os ricos e, em particular, para a banca. Mas o grande economista andou tão escondido que nem deve ter dado por isto.

Rui Rio apoiou todas as políticas e ainda muito recentemente declarou que teria ido mais longe  na brutalidade do que Maria Luís Albuquerque, por várias vezes se manifestou contra aquilo a que designaram por “reversões”, mas agora usa todas as consequências sociais funestas resultantes das política que apoiou como bandeira pessoal. Foi contra as reversões da austeridade brutal, mas é o paladino defensor da reversão das consequências sociais da austeridade que apoiou e cujo aprofundamento ainda hoje defende, com a proposta de aceleração da redução do défice.

Anúncios

A armadilha da política à direita face a um PS moderado

(José Pacheco Pereira, in Público, 17/02/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Como quem me lê há algum tempo sabe, a classificação direita-esquerda nunca foi muito de meu agrado. É mais histórica do que actual, introduz várias confusões no plano político, não é fácil de definir a não ser pelos extremos, ou pela redução ao par optimismo-pessimismo antropológico, e é mais afectiva e volitiva do que factual. Mas, seja como for, por muito que eu não gostasse da distinção, agora sou “obrigado” a usá-la, exactamente quando uma acentuada radicalização da vida política portuguesa a tornou mais simples e… mais pobre. Um dos aspectos desse empobrecimento foi o retorno a classificações mais simplistas, e pouco há a fazer.

De um modo geral, sabemos se um grupo político ou um político é da esquerda ou da direita porque sabemos mais coisas sobre ele que nos ajudam a colocá-lo de um lado. Nuns casos, a distinção faz-se na religião ou nos costumes, noutros na posição face ao Estado, noutros no olhar “social” que cada um tem. Mas muitas destas distinções estão desfocadas. Por exemplo, há gente à direita que defende a liberalização das drogas ou que se considera com orgulho membro da comunidade LGBT, e gente à esquerda que é muito reaccionário nos costumes ou que é pessoal e profissionalmente muito capaz na defesa do “capital”. Não é preciso ir mais longe do que os EUA para perceber que grupos como os libertários são ao mesmo tempo contra qualquer sistema de segurança social e muito próximos dos anarquistas em matérias de sociedade.

Outro aspecto que contribui para esta confusão, se se quiser ser rigoroso, é a posição face ao “patriotismo”, mesmo definido no seu mínimo sentido de preocupação em não dissolver os interesses nacionais num qualquer “internacionalismo”, que os ignore ou prejudique. Ora, tradicionalmente, a direita colocava-se do lado “patriótico” e associava-se às instituições que representavam esse lado, como era o caso das Forças Armadas. O extremo dessa política é o Make America Great Again e a ridícula parada que Trump quer fazer para se colocar num papel de generalíssimo. Ora, hoje, PS e PSD são no seu “europeísmo” os partidos internacionalistas, tendo aceitado restrições dramáticas à soberania nacional, enquanto o PCP ficou isolado na sua afirmação do “patriotismo”. E, mesmo hoje, um partido como o PS está mais próximo das Forças Armadas e é mais “atlantista” do que o PSD, que, pelas suas escolhas para ministros da Defesa e excessivos cortes orçamentais, mostrou desleixo face às Forças Armadas. Está tudo trocado se ficarmos apenas pela dicotomia esquerda-direita.

Também na história política portuguesa depois do 25 de Abril a distinção esquerda-direita, fora de um uso identitário em grande parte testemunhal, conheceu um considerável ocaso. Saiu desse ocaso – em que se era comunista, centrista, social-democrata, socialista, maoísta, como identidades determinantes – com o duplo processo da criação do Partido Popular no CDS e do Bloco de Esquerda, em que quer uns, quer outros começaram a usar a classificação para se identificarem. Os efeitos são múltiplos, e um deles é a bipolarização, com a definição de afinidades confrontacionais. O PS, o Bloco de Esquerda e o PCP passaram a ser a “esquerda”, o PSD e o CDS, a “direita”. O centro foi esmagado e encolheu e tornou-se um lugar mal frequentado. A principal “vítima” deste processo foi o PSD cujos dirigentes dos últimos anos, antes, com a troika e depois da troika, passaram a sentir-se e a sentar-se na “direita” sem qualquer sobressalto ideológico e programático e deslocaram-se para longe do posicionamento centro-direita-centro-esquerda do passado. O último dirigente do PSD que conscientemente não queria situar o partido como cabeça de uma frente de direita foi Cavaco Silva, na tradição de Sá Carneiro.

O PSD ainda há-de compreender da pior maneira que um dos seus problemas foi deixar o PS ocupar o centro político, com um Governo de frente de esquerda, no qual a condução da política é essencialmente centrista.

Por seu lado, ao sair do centro político, um partido como o PSD altera não só a sua identidade genética como fica preso a um sistema comunicante de temas e argumentos que é capturado pelo pensamento, os temas, os interesses e os objectivos da direita, que precisa do PSD para ganhar as eleições, mas que pouco o respeita como partido. O PSD acaba por ser o monstro que parte toda a loja de porcelana, porque tem muito mais eleitores do que o CDS ou a nova direita radical do Observador, mas é a eles que tem na cabeça e no comando. Vai recrutar cada vez mais à direita, vai dar voz e papel a muitas posições que nada têm a ver com a sua tradição, e tornar-se incapaz de travar uma direita populista e agressiva que anda por aí nas redes sociais e que representa sempre uma reserva que pode ser mobilizada da pior maneira.

Ora, a ocupação do centro pelo PS – e não haja ilusões de que o “Governo da esquerda” da “geringonça” é hoje efectivamente um Governo centrista – está a torná-lo cada vez mais no partido que atrai o eleitorado moderado. O modo como foi feita oposição depois da queda do Governo Passos Coelho não se baseava tanto numa análise errada da situação económica, mas mais numa política que acabava por ser tribunícia e que, por isso, parecia radical a muito eleitorado que no passado apoiou o PSD e hoje se afastou dele.

O PSD erra se pensa que a aceitação e popularidade que se vêem nas sondagens do PS são apenas devidas a manipulações propagandísticas, e não compreende que hoje a maioria do eleitorado moderado que lhe dava no passado não só maioria como capacidade reformista prefere o PS e não tem medo da “geringonça”.

Há apenas um problema e não é pequeno: é que o retorno à dualidade frente de esquerda-frente de direita é impeditiva de haver reformas. E é aqui que o PSD se pode colocar de forma mais eficaz como partido reformista, mas a condição fundamental é que não pode cair nos cantos de sereia da direita. É por isso que, contrariamente ao que se tem dito, adversários e jornalistas, a mudança de atitude de Rio quanto a entendimentos com o PS é até agora a sua principal vantagem política, a única que pode apaziguar os eleitores moderados que poderiam então escolher de novo ao centro. E é aí que reside a grande fragilidade da “geringonça”: ela bloqueia as reformas necessárias. Mas também é aí que a deslocação do PSD para a direita tem o mesmo efeito: bloqueia também a capacidade reformista do PSD.

A ideia de que o objectivo único dos partidos é ganhar o poder é atractiva para os aparelhos e para os militantes clubistas, mas é vista como insensata pelos eleitores, a começar por muitos eleitores que se afastaram do PSD nestes anos de radicalização. E, contrariamente ao que se diz, é mais eficaz em termos eleitorais do que se pensa. O PSD só cresce se se apaziguar com um eleitorado moderado e que quer reformas, e que o PSD abandonou. E mesmo os resultados tão gabados do PSD em 2015, quando analisados, revelam uma considerável usura política e social, que ainda serviu para ser o primeiro partido, mas que foi insuficiente para contrariar a perda da maioria absoluta, que é o único modo como se pode governar se o confronto for direita-esquerda. Costa percebeu-o e Portas também, Costa fez a “geringonça” e Portas foi ganhar dinheiro como lobista internacional. E o PSD ficou todos os dias a perder eleitores, sem perceber nada do que se estava a passar. Agora ou continua na mesma, ou muda. E não é nada fácil.

 

“Prof” Coelho

(Soares Novais, in a Viagem dos Argonautas, 18/02/2018)

passos_moldura

Agora, o retrato de Passos vai repousar no casarão da “São Caetano”, à Lapa. Entre todos os outros “ex”. Possivelmente, não muito longe da moldura que aconchega o do seu amigo Marcelo, que ainda há dias fez o seu elogio fúnebre. Será um retrato a preto e branco. Mesmo que tenha pousado com a sua conhecida gravata azul-bebé.

E que o retratista tenha feito mil e um retoques. Não há “Photoshop” que seja capaz de dar cor a um homem cinzento, que já nasceu velho e cuja única rebeldia foi um dia sonhar com a entrada num musical do La Féria.

Por ora, segundo foi noticiado, Passos, licenciado tardio em Economia, vai dar aulas. Em universidades privadas. Como é da praxe. É o que lhe resta, pois, ao que consta, a Mota Engil não o convidou para emparceirar com o seu ex-vice Portas. Talvez por não acreditar nos seus méritos; ou, quiçá, por temer que finalmente a senhora Procuradora Joana mande investigar a sua gestão na Tecnoforma. Em parceria com o seu ex-amigo e ex-doutor Relvas.

Passos vai dar aulas em várias universidades privadas, pois. É um vírus que resiste! As “privadas” continuam a insistir que precisam de ex-governantes, para fazerem lobby junto do Ministério da Educação. E eles, os convidados, ficam todos contentes. Além de que tais convites melhoram o seu estatuto.

Por isso é que as universidades privadas têm tantos professores de aviário! E formam tantos licenciados de aviário! Ou, simplesmente, coelhos mansos cuja maior ambição é abanar a cauda perante os Schäuble deste mundo…