Eleições presidenciais e liberdades

Estas eleições ficam marcadas pelo clima de medo da pandemia e, na impossibilidade de campanha eleitoral dos candidatos, pela permanente e inaceitável presença do PR na campanha em que disse que não fazia. E não faz, fazem-lha. Todos os dias.

No fundo, só o recandidato Marcelo e o provocador fascista, que chegou aos salazaristas adormecidos, foram beneficiados de forma obscena, o último pelo permanente desafio à democracia, altamente conveniente para semear o ódio e tornar-se notícia.

Marcelo chegou ao ponto de acusar as autoridades de saúde, leia-se Governo, de não lhe dizerem em tempo oportuno, por escrito, se podia ou não estar presente fisicamente num debate com todos os candidatos, após um teste, das muitas dezenas que insiste fazer, ter acusado um falso positivo. Nem sequer teve a decência de referir que o teste foi feito na Fundação Champalimaud, só conhecido pelas desculpas apresentadas pela instituição.

É neste candidato que os eleitores PS se revêem? Não percebem que o PR se comporta como se o regime fosse presidencialista, não sendo sequer semi-presidencialista, como erradamente se refere? Tem um papel moderador e de defesa da Constituição.

Merece, aliás, reflexão a necessidade de sufrágio universal, com os poderes que a CRP atribui ao PR, quando a sua designação e legitimação podiam ser atribuídas à AR.

Na situação que arrostamos, verdadeiramente dramática, num ambiente de guerra contra um inimigo invisível, com falta de civismo de tantos cidadãos, é notável que as decisões sejam democraticamente tomadas na AR e que a liberdade de expressão se mantenha.

Que outro regime permitiria o ataque cerrado, a militância partidária, o oportunismo dos bastonários da saúde contra os decisores políticos, que têm suportado com estoicismo a mais demolidora e oportunista campanha contra a abnegada entrega ao serviço público?

Neste ambiente insalubre e atmosfera de medo, sinto orgulho no regime que os militares de Abril legaram, e no Governo que temos numa calamidade onde não se adivinham as consequências e o desfecho.

Sem ligações ao partido do poder, quando quase todos dizem mal, sinto o dever de aplaudir e homenagear o governo, que não se demite de fazer o melhor que sabe e pode.


Crónicas poéticas

(Por Janaina Behling, 20/01/2021)

Olá a toda a gente!

Na última semana falei que lançaria uma campanha colaborativa para a publicação do meu primeiro livro eletrônico de crônicas poéticas e aqui estou! Como muita gente nova foi aparecendo pelo caminho para saber dessa empreitada, interessada no tipo e qualidade da narrativa etnográfica que tenho preparado, a partir de personagens como Regina Shit, Carolina Gerúndio, vou me apresentar de novo:Meu nome é Janaina Behling, 44, mulher negra brasileira, vivendo numa Portugal pandêmica, e quero publicar meu primeiro livro eletrônico de crônicas poéticas que, além de diagramação, revisão e tradução, ainda vai me ajudar a manter a criatividade  e autoestima fluindo, apesar da falta de trabalho e emprego nos últimos meses. Então, toda colaboração é bem vinda, especialmente porque a campanha de financiamento é muito mais que a busca por recursos financeiros, mas uma busca por afetos e engajamentos pela diversidade! Quem quiser contribuir ganha de presente uma edição especial, basta utilizar os dados bancários que constam do folder de divulgação da campanha (é imprescindível a identificação de quem colaborar para eu poder enviar o livro):


NIB: PT 50002 300 004 555 130 641 094SWIFT CODE: ACTVPTPL
Muito obrigada!

Janaina Behling

A pandemia não tem solução?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 20/01/2021)

Se formos ver os mortos com covid-19 por milhão de habitantes desde o início da pandemia, Portugal aparece agora em 28.º lugar entre os piores resultados do planeta. Na semana passada era 30.º.

Se analisarmos apenas os últimos sete dias de dados (ainda sem as mortes de ontem), Portugal surge, tragicamente, em terceiro lugar.

Muitas pessoas, desde março até agora, têm-se manifestado contra as medidas de restrição de circulação, dando o exemplo da Suécia como um país que obtinha bons resultados no combate aos efeitos da pandemia sem impor restrições exageradas.

Se formos ver os números de mortes por milhão de habitantes na Suécia, desde que a pandemia começou, verificamos que ela aparece em 21.º lugar, pior do que Portugal mas não muito longe, e, se nos limitarmos à última semana de dados disponíveis (já com imposição de confinamentos obrigatórios), a Suécia surge em quarto lugar, encostada a Portugal.

Este parece-me ser um exemplo claro de como as maiores ou menores medidas de confinamento serão certamente relevantes, mas não explicam tudo sobre os níveis de contágio e de mortes por covid-19: como é que Portugal e Suécia, com políticas de reação à pandemia tão diferentes, acabam com resultados tão semelhantes?

Podemos dizer, honestamente, que países com serviços de saúde desenvolvidos, com populações com comportamentos sociais e culturais semelhantes, com climas parecidos, com geografias próximas, com políticas públicas muito iguais, têm resultados de resistência à pandemia semelhantes? Não.

Porque é que a Itália, desde março, ocupa o terceiro lugar de mortes provocadas pelo novo coronavírus, a Grã-Bretanha o sexto, a Espanha o 14.º, a França o 17.º e a Alemanha o 37.º? Há assim tantas diferenças nos comportamentos das populações, na gestão da crise pelos governos ou na resposta dos respetivos serviços de saúde para explicar esta divergência tão grande?

E porque é que os piores países do mundo, desde março, são europeus: a Bélgica, a Eslovénia, a Itália, a República Checa, a Bósnia e o Reino Unido?

Como é que não são os Estados Unidos, o Brasil, a Índia ou a Austrália, que nos aparecem muito mais frequentemente nos noticiários com carimbo de “catástrofe coronavírus”?

E porque é que, se olharmos apenas para a última semana, quem aparece no topo das mortes por milhão de habitantes com covid-19 são, novamente, países europeus, por esta ordem: Reino Unido, República Checa, Portugal, Suécia, Eslováquia, Lituânia e Eslovénia? A própria Alemanha aparece em 12.º lugar!

Portanto, ou toda a Europa está a fazer algo de errado em matéria de combate ao coronavírus, ou reúne um qualquer tipo de condição especial que está a favorecer este desastre – e como, em conjunto, estamos a falar da zona do planeta que possui os melhores serviços de saúde (e que nenhum afirma ter entrado verdadeiramente em colapso, apesar da elevada pressão), tenho de concluir que tudo o que os especialistas nos têm estado a dizer sobre esta matéria parece ser tão válido como os horrores que ouvimos sair da boca de Jair Bolsonaro ou de Donald Trump.

Resta, portanto, e infelizmente, o empirismo da experiência que coletivamente temos estado a viver.

Com esse empirismo percebemos, em primeiro lugar, que tentar contratar médicos e enfermeiros com contratos a prazo de quatro meses, em vez de reforçar o Serviço Nacional de Saúde oferecendo contratos permanentes, é o mesmo que não contratar.

Percebemos também que em março, quando fomos todos para casa cheios de medo, a pandemia regrediu.

No verão, dado o recuo de contágios, não foi estúpido tentarmos levar uma vida bastante mais normal.

No outono percebemos que nos tínhamos de voltar a defender e a ser mais prudentes. No Natal e no fim do ano fomos irresponsáveis e a doença disparou.

Em fases diferentes, comportamentos diferentes.

Quando falo em “nós” não estou a aceitar os ralhetes que Presidente da República, governantes, autoridades de saúde e alguns representantes de médicos e enfermeiros estão a dar à população por não estar a respeitar o confinamento geral.

Eles é que são líderes do país, eles é que são os sábios, e se a população não segue as suas indicações, isso acontece, exclusivamente, por culpa deles: ou porque não são claros e coerentes nas orientações; ou porque passam a vida a discutir publicamente uns com os outros, aumentando a confusão geral; ou porque perderam credibilidade e, por isso, autoridade.

Em face dos números de mortos e à lentidão da vacinação, o que há a fazer? Não sei. Mas o empirismo anterior aponta, pelo menos, para mais uma medida de confinamento: o fecho das escolas para maiores de 12 anos. E, infelizmente, para nos fecharmos em casa, com medo e a chorar os mortos.


Jornalista