A Rota da Seda e Israel

(Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 30/10/2018)

Voltairenet-org_-_1-486-19cd8

(Enquanto a nossa comunicação social brinca aos detectives à procura das passwords do Silvano ou do nome do papagaio que sabia do encobrimento de Tancos, o mundo roda, os chineses trabalham, quais formigas, e da geopolítica que na hora da verdade faz mover a economia mundial, nem uma notícia, já nem digo uma réstia de análise.

Por isso, aqui fica este texto que nos ajuda a perceber melhor algumas das jogadas que irão seguir-se, a curto e médio prazo, no xadrez mundial.

Comentário da Estátua, 08/11/2018)


Pequim desenvolve sem cessar o seu projecto da «Rota da Seda». O seu Vice-presidente, Wang Qishan, empreende uma digressão pelo Próximo-Oriente que o conduziu a, nomeadamente, quatro dias em Israel. Segundo os acordos já assinados, a China controlará em dois anos o essencial do agro-alimentar israelita, da sua alta tecnologia e das suas trocas internacionais. Deverá seguir-se um acordo de livre comércio. Toda a geopolítica regional se verá, assim, virada do avesso.


A visita do Vice-presidente chinês, Wang Qishan, a Israel, à Palestina, ao Egipto e aos Emirados Árabes Unidos visa desenvolver a «Nova Rota da Seda».

No Outono de 2013, a China tornou público o seu projecto de criação de vias de comunicação marítimas e, sobretudo, terrestres através do mundo. Ela desbloqueou somas colossais e começou a concretizá-lo a toda a velocidade. Os principais eixos passam tanto pela Ásia, como pela Rússia, em direcção à Europa Ocidental. Mas ela planifica (planeja-br) também vias através da África e da América Latina.

Os obstáculos à Nova Rota da Seda

Este projecto encontra dois obstáculos, um económico, o outro estratégico.

De um ponto de vista chinês, este projecto visa exportar os seus produtos segundo o modelo da antiga «Rota da Seda», que, do século II ao XVº , ligava a China à Europa através do Vale de Ferghana, do Irão e da Síria. Tratava-se da época do transporte de produtos de cidade em cidade, de modo que em cada etapa eles eram trocados por outros de acordo com as necessidades dos comerciantes locais. Pelo contrário, hoje em dia, a China ambiciona vender directamente na Europa e no mundo. No entanto, os seus produtos já não são exóticos (sedas, especiarias, etc.), mas, sim idênticos aos dos Europeus e, muitas vezes, de qualidade superior. A rota comercial transforma-se em auto-estrada. Se Marco Polo ficou deslumbrado pelas sedas do Extremo Oriente, sem equivalente em Itália, Angela Merkel está em pânico com a ideia de ver a sua indústria automóvel esmagada pelos seus concorrentes chineses. Os países desenvolvidos terão pois, ao mesmo tempo, que negociar com Pequim e preservar as suas indústrias do choque económico.

Ao exportar maciçamente a sua produção, a China irá assumir o lugar comercial que o Reino Unido primeiro só depois com os Estados Unidos ocupam desde a revolução industrial. Foi precisamente para conservar esta supremacia que Churchill e Roosevelt assinaram a Carta do Atlântico e que os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial. É, portanto, provável que os Anglo-Saxões não hesitem em empregar a força militar para obstruir o projecto chinês [1], tal como fizeram em 1941 face aos projectos alemão e japonês.

Desde logo, em 2013, o Pentágono publicou o Plano Wright, que previa criar um novo Estado a cavalo sobre o Iraque e a Síria para cortar a Rota da Seda entre Bagdade e Damasco. Esta missão foi concretizada pelo Daesh (E.I.) de tal modo que a China modificou o traçado da sua rota. Finalmente, Pequim (ou Beijing- ndT) decidiu fazê-la passar pelo Egipto e, assim, investiu na duplicação do Canal de Suez e na criação de uma vasta zona industrial a 120 quilómetros do Cairo [2]. Identicamente, o Pentágono montou uma «revolução colorida» na Ucrânia para cortar a Rota europeia, ou ainda distúrbios na Nicarágua para criar obstáculos à construção de um novo canal ligando os oceanos Pacífico e Atlântico.

Apesar da importância, sem precedentes, dos investimentos chineses na Nova Rota da Seda, é preciso lembrar que no século XV a China lançou uma formidável frota para proteger o seu comércio marítimo. O Almirante Zheng He, «o eunuco das Três Joias», combateu os piratas do Sri Lanka, construiu pagodes na Etiópia e foi em peregrinação a Meca. No entanto, após o seu retorno, por razões de política interna, o Imperador abandonou a Rota da Seda e queimou a frota. A China fechou-se então sobre si mesma. Não se deve, portanto, considerar que, de um ponto de vista chinês, o projecto actual está de antemão garantido .

Num passado recente, a China investiu no Médio-Oriente com o único fito de se aprovisionar em petróleo. Construiu refinarias no Iraque, que foram infelizmente destruídas pelo Daesh (EI) ou pelas Forças Ocidentais que fingiam combater os islamitas. Pequim tornou-se, igualmente, o principal comprador do ouro negro saudita. Assim, construiu no Reino o gigantesco complexo petrolífero de Yasref-Yanbu por 10 mil milhões (bilhões-br) de dólares.

JPEG - 33.2 kb
Assinatura da concessão do porto de Haifa ao Shanghai International Port Group

Israel e a Nova Rota da Seda

Os laços entre Israel e a China datam do mandato do Primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, cujos pais fugiram dos nazis para se instalarem em Xangai. O predecessor de Benjamin Netanyahu tentara estabelecer relações fortes com Pequim. Os seus esforços foram apagados pelo seu apoio a um dos grupos de piratas na Somália, encarregado por Washington de perturbar o tráfego marítimo russo e chinês à saída do Mar Vermelho [3]. O escândalo foi evitado à justa. A China foi autorizada a estabelecer uma base naval em Djibuti e Ehud Olmert foi afastado da política.

Desde 2016, a China negocia com Israel um acordo de livre comércio. Neste contexto, o Shanghai International Port Group comprou a concessão de exploração dos portos de Haifa e Ashdod de modo que, em 2021, a China controlará 90% do comércio israelita. A Bright Food adquiriu já 56% da cooperativa dos kibutz Tnuva, e poderia aumentar a sua participação, de tal modo que a China controlaria o essencial do mercado agrícola israelita. O fundador da loja “em linha” Alibaba, Jack Ma, que veio a Telavive incluído na delegação oficial chinesa, não escondeu a sua intenção de comprar muitas “start up” israelitas afim de incorporar a sua alta tecnologia.

O armamento é o único sector importante da economia israelita preservado do apetite chinês. Em Setembro, o Professor Shaul Horev organizou uma conferência na Universidade de Haifa, com a ajuda do norte-americano Hudson Institute, para alertar os oficiais-generais do Pentágono sobre as consequências dos investimentos chineses. Os intervenientes sublinharam, nomeadamente, que estes contratos expunham o país à uma espionagem intensiva, tornavam difícil a utilização do seu porto para os seus submarinos lançadores de engenhos nucleares, e os seus laços com a Sexta frota norte-americana.

O antigo Director da Mossad, Ephraim Halevy, a quem se reconhece a proximidade com os Estados Unidos, sublinhou que o Conselho de Segurança Nacional jamais havia deliberado sobre estes investimentos. Eles haviam sido decididos unicamente segundo uma lógica de oportunidade comercial. Coloca-se, pois, a questão de saber se Washington autorizou, ou não, esta reaproximação entre Telavive e Pequim.

Ninguém se deve iludir sobre as razões que permitiram à China estabelecer uma base militar em Djibuti, e parece pouco provável que Pequim tenha concluído um acordo secreto com Washington para este novo traçado da Rota da Seda. É claro, os Estados Unidos não estariam preocupados quanto a um colapso económico da União Europeia. No entanto, a longo prazo, a China e a Rússia são forçadas a entender-se para se preservar dos Ocidentais. A história mostrou que estes últimos tudo fizeram, e continuam a tudo fazer, para desmantelar estas grandes potências. Por conseguinte, se uma aliança sino-americana seria a curto e a médio prazo favorável a Beijing, depois ela conduziria à eliminação subsequente da Rússia e da própria China.

Os acordos sino-israelitas levam sobretudo a pensar que, de acordo com a fórmula de Lenine, «Os capitalistas venderam a corda com que virão a ser enforcados».


Fonte aqui

Anúncios

A vitória morna dos democratas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/11/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Ontem, esperava-se pela confirmação de que os democratas conseguiam conquistar a maioria do Congresso, já que o Senado era praticamente impossível. Conseguiram. Isto onde permitir garantir que o debate sobre os cuidados de saúde fica onde está, impedir cortes nos apoios sociais, bloquear mais benefícios fiscais para as grandes empresas e impedir muitas das medidas que o presidente tem planeado para a imigração.

No limite, até permite um processo de impeachment, que seria um erro sem que os democratas estivessem em condições de se apresentar como alternativa. E não faria descansar ninguém quando o ultraconservador Mike Pence é o homem que se segue. Os democratas podem, de certeza, fazer a vida dos republicanos num inferno. E terão a oportunidade de o investigar, que é sempre o seu maior problema. O anúncio de “sucesso tremendo”, no twitter do Presidente, foi por isso francamente exagerado. Os próximos dois anos serão bem mais difíceis para ele do que os anteriores.

Mas os democratas ficaram bem longe da onda azul com que sonhavam. Apesar de terem crescido e vencido no voto popular, acabaram por perder senadores e as grandes esperanças em eleições de governadores não se realizaram. A maior aposta de Donald Trump estava no Senado e correu bem. Quem julgue que a perda de congresso é um cartão vermelho a Trump não olhou para os resultados com atenção. A oposição costuma vencer as intercalares. E a onda azul não aconteceu porque Trump se envolveu na campanha e tentou fazer dela um referendo a si mesmo.

Os democratas sabiam disso e não fizeram desta campanha um confronto sobre Trump. Conseguiram, por uma vez, unificar o discurso em vez de se dispersar em dezenas de temas mais ou menos identitários. E não deixaram que fosse Trump a definir a agenda. Falaram de Medicare. Segundo um inquérito do “Washington Post” nos 69 distritos fundamentais destas eleições, o único assunto tão importante como “Donald Trump” para os eleitores eram os “cuidados de saúde”. Curiosamente, Trump não escolheu o seu maior trunfo, que é a situação económica. O tema é demasiado complicado, demasiado simpático e pouco mobilizador. Preferiu dedicar a campanha a uma caravana de imigrantes que centro-americanos que se dirige para a fronteira. A verdade é que a exploração do medo vale, para Donald Trump, mais do que o seu sucesso económico. E, se os democratas não tiverem um candidato que mobilize, as duas coisas juntas irão garantir-lhe a reeleição.

MULHERES E MINORIAS

Para além de saber que espaço de manobra teria Donald Trump a partir daqui, estas eleições estavam cheias de novidades. Que se anunciaram logo nas primárias, com 474 mulheres a concorrerem para o congresso e 47 mulheres a concorrem para governadoras. Um aumento de 60% em relação ao recorde anterior que se deveu sobretudo ao Partido Democrata, responsável por 75% das mulheres que se apresentaram nas primarias para o congresso e 70% das concorrem às assembleias estaduais. O Congresso terá pelo menos 100 mulheres, coisa nunca vista. Mikie Sherrill, de New Jersey, Lauren Underwood, do Illinois, Abigail Spanberger, da Virginia, ou Scharice Davids, do Kansas (nativo-americana e gay) são algumas das estrelas do dia.

A outra novidade foi o crescimento de candidatos de minorias étnicas. Dois ganharam especial relevância. Os dois negros, os dois democratas, os dois com progressistas (ala esquerda), os dois ficaram a muito pouco da eleição: Andrew Gillum e Stacey Abrams. Gillum bateu-se por uma vitória na Florida, Abrams foi a primeira mulher negra candidata a governadora. Chegou até às urnas através de uma longa campanha de recenseamento dos negros da Geórgia. Fica, como nota, a chegada de duas muçulmanas e de duas nativo-americanas pela primeira vez ao congresso.

A vitória dos democratas foi morna. Os sinais de viragem à esquerda, que apareceram mas ficaram aquém do anunciado, e a chegada de gente comum e de muitas mulheres ao Congresso dão alguma esperança

Não desprezo nenhuma destas tentativas de romper com bloqueios raciais e de género. E ficou aquém do que poderia ter sido: a eleição de Stacey Abrams na Georgia, a primeira candidata negra a governadora, seria de tal forma importante que Obama, Hillary e Sanders se empenharam nela. Mas todos nos lembramos do momento histórico em que Barack Obama foi eleito. E só alguém muito distraído não percebe o que significou para uma história de descriminação racial nos Estados Unidos. Mas foi depois de Obama que Donald Trump venceu. Porque as marcas deixadas por uma brutal crise financeira mudaram os EUA. Também a vitória de Hillary Clinton teria sido um momento histórico para as mulheres. Mas não mudaria mais do que Obama mudou. A escolha de uma candidata marcada pela sua relação íntima com Wall Street e com todos os interesses de que Washington é refém para enfrentar Trump foi fundamental para a sua vitória. Era tudo o que Trump precisava para ser ele a representar a revolta americana contra o sistema. Como explicou Alexandria Ocasio-Cortez, uma socialista eleita ontem para o Congresso por Nova Iorque com quase 80%, não chega ser mulher ou de uma minoria étnica. Apesar de ser mulher e porto-riquenha, quando o seu oponente democrata nas primárias puxou dos pergaminhos cosmopolitas, ela respondeu: “o que está em causa não é a diversidade ou a raça, é a classe”.

MAIS À ESQUERDA?

É uma vitória democrata que não pode ser contestada ter uma Câmara dos Representantes que trave a agenda fiscal e xenófoba de Trump. E é um passo em frente ter uma representação política que reflita cada vez mais a diversidade dos Estados Unidos. Mas a questão fundamental era saber se estas eleições preparavam o caminho para travar a reeleição de Trump daqui a dois anos. E isso dependeria, do meu ponto de vista, de alterações internas no Partido Democrata. Que passavam por uma renovação política, dando mais força a uma agenda progressista e motivadora, e uma renovação de pessoal político (concorreram 158 estreantes, um recorde absoluto), com a chegada de gente capaz de representar o cansaço dos norte-americanos. Por isso estive atento ao candidatos que tiveram a audácia política de desafiar um consenso moralmente derrotado dentro do Partido Democrata.

Ficou o amargo de boca de ver Andrew Gillum, Stacey Abrams e Beto O’Rourke com o futuro adiado. E a certeza que Trump não foi um embaraço para os republicanos. Foi um trunfo

Casos como Andrew Gillum e Stacey Abrams, candidatos democratas mais à esquerda em estados que não são liberais, ou da candidatura de Beto O’Rourke, um liberal com uma agenda descaradamente progressista para a imigração e em defesa das minorias no Texas (apesar de, ao contrário de Gillum e Abrams , não ser consensual que esteja no campo progressista), jogavam um papel importante. Os três perderam por muito pouco em Estado difíceis, conseguiram resultados que há uns meses seriam inesperados e, com eleitorados tidos por conservadores, não caminharam para o centro para conquistar os votos. A primeira candidata negra a governador, na sulista Geórgia e nos EUA, ficou a 2% de Brian Kemp e conseguiu o melhor resultado dos democratas para governador desde 1998, o negro progressistas Andrew Gillum ficou a 1% de Ren DeSantis e o liberal pró-imigração Beto O’Rourke ficou a 3% de Ted Cruz no vermelhíssimo Texas. Os três morreram na praia e as suas derrotas fizeram a diferença entre a festa e a desilusão. Não faltará quem, entre os democratas, responsabilize a esquerda por estas derrotas. Mas a verdade é que três candidatos improváveis, com discursos improváveis, morderam vitórias quase impossíveis e abriram um caminho. E os três são novas estrelas políticas no campo democrático.

Foi Ocasio-Cortez, uma empregada de mesa de 29 anos, que deu o pontapé de saída às surpresas que começaram a virar os democratas à esquerda. Com um décimo do dinheiro do seu opositor, um democrata com duas décadas de Congresso que deveria vir a ser o líder da bancada democrata, Ocasio esmagou-o com 60% dos votos no distrito eleitoral que inclui parte de Queens e do Bronx. Depois dela, muitos outros surpreenderam. Sobretudo muitas outras. Inspirados por Bernie Sanders, vários candidatos progressistas fizeram cair a velha oligarquia democrata com uma agenda descarada. Mas a coisa não se fica pela agenda ideológica. Houve candidatos centristas que também representaram uma revolução no Partido Democrata. Vêm da base e conquistaram a pulso um lugar nestas eleições. É o caso Abby Finkenauer, foi eleita para o congresso, pelo Iowa, com apenas 29 anos. Não tem dinheiro para ter um carro novo ou casa própria. A chegada deste tipo de pessoas à alta política é um sinal de que alguma coisa está a mudar.

A esperança para uma mudança no Partido Democrata está mesmo nos eleitores. Entre os maiores apoiantes das candidaturas rebeldes estiveram sempre os jovens. Aqueles que começaram a pensar em política depois da crise financeira. Uma crise que deixou marcas politicas profundas que as cúpulas dos dois principais partidos norte-americanas desprezaram. Que se traduzem em números expressivos: hoje, 37% dos norte-americanos têm uma imagem favorável do socialismo. Entre os eleitores com menos de 29 anos esse número salta para os 51%, mais 12 pontos percentuais do que há oito anos. Quando Sanders concorreu às primárias democratas os seus opositores no partido diziam que o septuagenário apenas conseguiria os votos da sua faixa etária. Acabou com mais de 70% do voto jovem.

Muito mais do que a divisão do congresso entre democratas e republicanos e do que o número de afro-americanos ou de mulheres eleitas, é da capacidade dos democratas representarem em esperança o que Trump representou em ódio que depende o futuro. Perderam essa oportunidade em 2016 e o mundo está a pagar por isso. Esperamos que não as voltem a perder daqui a dois anos.

Ontem, a vitória foi morna. Mas, por uma vez, tiveram uma mensagem clara sobre um tema – cuidados de saúde –, não sendo nem reativos, nem dispersos. Os sinais de viragem à esquerda, que apareceram mas ficaram aquém do anunciado, e a chegada de gente comum e de muitas mulheres ao congresso dão alguma esperança. Ficou o amargo de boca de ver, por três unhas negras, Andrew Gillum, Stacey Abrams e Beto O’Rourke com o futuro adiado. E a certeza que Trump não foi um embraço para os republicanos. Foi um trunfo.

COMO PODE (dgie)? Ou O SÍNDROME DE ESTOCOLMO (revisitado)!

(Joaquim Vassalo Abreu, 07/11/2018)

juizo

Já uma vez aqui escrevi acerca deste síndrome, mas em contexto claramente diferente, como poderão (ver aqui), mas desta vez num âmbito um pouco diferente, mas tendo como base a essência do célebre síndrome: o que leva um preso, cadastrado ou um privado da sua Liberdade a acabar por se relacionar com o o seu carrasco ou, neste caso, um votante votar em quem sempre o oprimiu e oprime…como se a sua memória, ou a memória colectiva, não existissem?

Ou, de outro modo, quem tendo sido escorraçado da sua Pátria por quem lhe tirou ou sugou todo o seu suor, a ela volte, ou não, mas continue a votar, nunca saberei em nome de quê, e mesmo que o saiba nem acredito que o sei ( uma questão quase clubistica?), naqueles mesmos que os escorraçaram…é algo que, como justificação ou razão, apenas poderei reportar para o célebre síndrome…porque para o racional entendimento  nunca poderei reportar…

Mas um síndrome de que nunca padeceram os velhos resistentes, aqueles que durante anos e anos foram mortificados nas cadeias, nas cadeias para onde os mandaram privando-os da Liberdade e da Vida ( para além da Família…), apenas por lutarem pelos seus, pelos mais fracos, por aqueles que, mesmo tendo vontade, ainda tinham um conhecimento da “politica” e da relação de Classes ainda sofrível, mas tinham um sentimento e um conhecimento enormes das Injustiças!

E sinto pena, muita pena, que muitos povos de muitos países, o nosso inclusive, a quem pelos vistos não lhes foi ensinada a História, a História do seu País e do Mundo, e ainda das suas Famílias, perante um problema actual, um problema em que toda a sua cultura Humanista, Histórica, e de abraço com a Verdade deveria ser dirigida para a sua elevação, dirija os seus votos a favor dos carrascos dos seus avós, dos seus pais e de muitos dos seus parentes, em nome de uma simples coisa: do seu ocasional egoísmo!

Mas que, de imediato, se verifica, e eles próprios logo verificaram, ter sido o seu acto apenas dirigido pelo ódio…A quem? A quem sempre os defendeu mas que, em determinado momento histórico, os desiludiu! Com toda a razão o pensaram mas sem qualquer razão esse ódio executaram. Porquê? Porque o seu ódio circunstancial obviou o retorno ao poder de quem sempre os renegou e baniu… E que, de imediato, os informou de que, pese o seu voto, os continuaria a banir…

Pois é… e aqui estamos! Lindo serviço fizeram os eleitores da emergente Classe Média Brasileira que agora resta como réstia da esperança de alguma vez lá entrar…Os que desejando paz nos bairros e nas Favelas votou numa arma em cada casa e na militarização dos seus bairros…Os que desejando uma Escola Pública decente e progressiva, acabaram por votar num espécime chamado Frota que, instado pelo seu mestre, proclama uma arma em cada escola e o abandono de tudo o que sejam culturas humanísticas, isto é, Marxistas, segundo eles!

Ora tudo isto demonstra uma tremenda incultura política, uma tremenda iliteracia acerca de tudo o que seja Social e, acima de tudo, um conservadorismo tão profundo, tão arreigado e tão antiquado que, mesmo observando a actualização das pessoas com os aspectos mais fúteis dos tempos, nada lhes conseguimos ver nem quanto à Cultura, nem quanto aos Costumes, nem quanto ao viver em Sociedade, que implica o dar e o receber, o aceitar e o promover, o reclamar e o propor, o perceber e o instar, o exigir e o condescender, em suma tudo isso o que faz a Democracia e o que nos faz sentir parte integrante da mesma…

Mas saber-se que se vai votar e, de imediato, se vai arrepender, simplesmente por um desejo punitivo que, também de imediato, se sabe se vai virar contra si próprio; saber-se que, no fundo, se está a entrar num terreno deveras perigoso e, mesmo assim, se resolve experimentá-lo, com o imediato arrependimento, já se sabe e de quem já o sabia…além de triste é doentio!

Mas, pior ainda, votar-se sem saber de nada; votar-se sem nunca ter ouvido nada; votar-se sem nunca ter escutado alguém que alguma vez lhe tivesse ensinado fosse o que fosse; votar quem na vida só sabe o que é obedecer e quem, pior ainda, na vida só anseia ser como o rico, como o patrão…e vota nele?

Perdão para todos eles…não sabem o que fazem, mesmo fazendo mal, muito mal…até a si próprios! Como pode?

Mas pode…


Fonte aqui