Um Hitler de duas cabeças

(Boaventura Sousa Santos, in A Viagem dos Argonautas, 20/04/2026)


No que é talvez o melhor livro sobre Hitler, Allan Bullock escreveu em Hitler: a study in tiranny que a filosofia do Hitler é filosofia de albergue dos sem abrigo, uma filosofia que ele aprendeu vivendo nesses albergues de Viena durante algum tempo. Claro que Bullock se esqueceu de pedir desculpa aos sem abrigo porque entre eles há mais de uma filosofia e há sobretudo filosofias contrárias à que ele identifica. Mas a que ele identifica não é menos verdadeira por isso. Tal como resultam de Mein Kampf e dos discursos e práticas posteriores de Hitler, os elementos principais de tal filosofia são os seguintes:

  1. A ideia de luta é tão antiga quanto a própria vida, pois a vida só se preserva porque outros seres vivos perecem através da luta. Nesta luta, os mais fortes, os mais capazes, vencem, enquanto os menos capazes, os fracos, perdem.
  2. Nesta luta, qualquer truque ou artimanha, por mais inescrupulosa que seja, o uso de qualquer arma ou oportunidade, por mais traiçoeira que seja, são permitidos.
  3. Qualquer objectivo que os humanos tenham alcançado deve-se à sua originalidade aliada à sua brutalidade.
  4. A astúcia é crucial: a capacidade de mentir, distorcer, enganar e bajular.
  5. A eliminação do sentimentalismo ou da lealdade em favor da crueldade. Estas foram as qualidades que permitiram aos humanos ascender. E, acima de tudo, a força de vontade.
  6. Nunca confiar em ninguém, nunca se comprometer com ninguém, nunca admitir qualquer lealdade.
  7. A falta de escrúpulos deve surpreender até mesmo aqueles que se orgulham da sua falta de escrúpulos.
  8. Mentir com convicção e dissimular com franqueza.
  9. A desconfiança deve ser acompanhada de desprezo.
  10. As pessoas são movidas pelo medo, pela ganância, pela sede de poder, pela inveja, frequentemente por motivos mesquinhos e insignificantes. A política é a arte de saber como usar essas fraquezas para os fins próprios.
  11. Desprezar as massas: as massas existem para ser manipuladas pelo político capaz.
  12. Os democratas, particularmente os social-democratas, envenenam a mente popular e exploram cinicamente o sofrimento das massas para os seus próprios fins. Os agentes deste envenenamento são os judeus.

A história não se repete e o Hitler morreu. Mas a sua filosofia está presente em dois políticos que dominam a actualidade política internacional. Esses políticos são Benjamin Netanyahu e Donald Trump. Está presente de modos diferentes e por isso é que o Hitler de hoje tem duas cabeças. Netanyahu é a cabeça do horror da guerra, enquanto Trump é a cabeça do horror da paz. Dir-se-á que não faz sentido falar de equivalência a Hitler porque o núcleo central da filosofia dele era o anti-semitismo e os “Hitlers” de hoje, um é judeu sionista e o outro está incondicionalmente ao seu lado. A relação entre o sionismo e o judaísmo é muito complexa. Dada a intoxicação da opinião pública que impera sobre este tema e o cancelamento severo das vozes dissidentes, não é fácil abordar esta questão. Daí que abordá-la seja muito importante para a sobrevivência do pensamento crítico a que, aliás, o judaísmo europeu está intimamente ligado e a quem os intelectuais críticos tanto devem.

            Sionismo e judaísmo

O historiador Yakov Rabkin sumaria assim as contradições entre sionismo e judaísmo:

O sionismo foi, no seu início, um movimento marginal. A oposição à ideia sionista manifestava-se tanto a nível espiritual e religioso como a nível social e político. A maioria dos judeus praticantes, tanto ortodoxos como reformistas, rejeitava o sionismo, referindo-se a ele como um projecto e uma ideologia que entrava em conflito com os valores do judaísmo. Os judeus que aderiram a vários movimentos socialistas e revolucionários viam o sionismo como um ataque à igualdade e como uma tentativa de desviar as massas judaicas da busca pela mudança social. Por fim, aqueles que, graças à Emancipação, se tinham integrado na sociedade em geral e se tinham tornado liberais convictos estavam convencidos de que o sionismo era, tão gravemente quanto o anti-semitismo, uma ameaça ao seu futuro. O nacionalismo judeu foi, assim, rejeitado porque era visto como um perigo não só para o judaísmo, mas também para o estatuto social e os valores políticos dos judeus emancipados (What is Modern Israel? Londres: Pluto Press, 2016, p.122).

Eis mais em detalhe algumas das razões que têm oposto judeus e não judeus ao sionismo[i]. O sionismo é uma forma de nacionalismo que contraria a ideia da diáspora. O fundador do sionismo, Theodor Herzl, considerava que, ao pretenderem a expulsão ou emigração dos judeus, os anti-semitas eram os mais fiéis amigos e aliados do sionismo. O sionismo tem a sua raiz na experiência dos judeus da Europa Oriental, sobretudo depois dos pogroms da Rússia de 1881 que levaram à emigração dos judeus para o Ocidente, criando tensões entre os judeus orientais e os judeus ocidentais. O sionismo reforça a ideia de separação do povo judaico, quando este sempre lutou por integração nas sociedades onde vivia com autonomia para poder praticar livremente a sua religião, já que o judaísmo é uma religião e nada mais. O escritor e publicista judeu austríaco Karl Kraus considerava que a essência do sionismo era o anti-semitismo O sionismo serviu os interesses do imperialismo europeu (britânico) para controlar o acesso aos recursos naturais do Médio Oriente. O Estado de Israel foi pensado como uma colónia europeia de povoamento que garantisse acesso aos recursos naturais e à liberdade do comércio com o Oriente. No seu livro publicado em 1896 Der Judenstaat (O Estado judeu), Theodor Herzl afirma:

Supondo que Sua Majestade, o Sultão, nos concedesse a Palestina, poderíamos, em troca, encarregar-nos de administrar todas as finanças da Turquia. Formaríamos ali uma parte da muralha da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização em oposição à barbárie. Como Estado neutro, manteríamos contacto com toda a Europa, que teria de garantir a nossa existência (The Jewish State, London, 1946: 30)

O sionismo foi promovido por anti-semitas, como Arthur Balfour, que queriam ver-se livres dos judeus da Europa. Em 1850, não haveria mais de 9700 judeus na Palestina. O sionismo judaico combina-se hoje com o sionismo cristão, que assenta nas ideias da supremacia racial e da extrema-direita, ideias contra as quais os judeus lutaram com grande tenacidade e sacrifício nos últimos cem anos. O sionismo cristão é uma forma disfarçada de anti-semitismo. O sionismo fundamentalista que domina hoje a política de Israel é o grande responsável pelo crescimento do anti-semitismo no mundo, inclusivamente pelo modo como critica os judeus anti-sionistas.  Todos estes argumentos fortalecem a posição de que que o sionismo, longe de servir a causa da religião judaica no mundo, pode significar, a prazo, um golpe duro contra ela.

         Benjamin Netanyahu, o horror da guerra

A lógica do extermínio preside à filosofia securitária e expansionista de Israel. A guerra contra o Islão é religiosa e, como tal, só pode terminar com a extinção ou rendição incondicional do mais fraco. O inimigo a abater tem de ser incessantemente inventado, da Palestina à Síria, do Irão ao Líbano. Acima de tudo, o inimigo não pode renascer das cinzas, daí que seja crucial assassinar mulheres e crianças. A paz é anátema. O expansionismo funda-se num elemento messiânico cujas origens se podem encontrar na obra de Moses Hess, Rome and Jerusalem (1862). É iminente a vitória da ideia judaica, o “Sabbath da história”, como ele a designa. Tem hoje ao seu serviço um novo instrumento messiânico, a inteligência artificial, a nova divindade tão irresponsável quanto os deuses, mesmo quando comete o escandaloso erro de confundir uma escola com um quartel militar, como aconteceu recentemente no Irão.

Tal como Hitler, Netanyahu tem pressa e é incapaz de parar. Tal como Hitler, inventa ou dramatiza agressões para justificar a continuidade da guerra e a tornar cada vez mais violenta. Um pouco de história ajuda a esclarecer.

Foi a pressa de Hitler que ditou o início da Segunda Guerra Mundial com a invasão da Polónia. Militares e diplomatas manifestavam-se contra essa pressa. Göring avisava que a economia já estava a ser afectada pelo esforço exigido pela preparação da guerra. Para não falar dos ingleses de Chamberlain, que não tiveram outra estratégia senão as negociações de paz, Mussolini, parceiro do Eixo, enviou a Hitler em 30 de Maio de 1939 um memorandum secreto em que pedia o adiamento do início da guerra (se essa fosse a decisão) até ao fim de 1942. Hitler não respondeu e o seu silêncio foi interpretado por Mussolini como concordância. Mas, enquanto simulava ser a favor das negociações, Hitler exortava os seus comandantes em 22 de Agosto: “Fechem os vossos corações à piedade. Ajam brutalmente”.

Propunha um tratado de paz com a Polónia que não era mais que a total capitulação da Polónia. Celebrava um pacto de não agressão com o seu declarado “irreconciliável inimigo”, a União Soviética, apenas para ganhar tempo, já que o seu objectivo era conquistar Lebensraum (espaço vital) a Leste e, portanto, um pacto para violar logo que conveniente, ou seja, um ano depois. Definiu a invasão da Polónia como uma blitzkrieg, uma guerra para durar pouco tempo, e justificou-a com a invenção de uma suposta agressão polaca. Num acto de bandeira falsa, os S.S. atacaram a estação de rádio da pequena cidade alemã Gleiwitz, junto à fronteira polaca, vestiram criminosos alemães com as fardas militares polacas e mataram-nos de seguida. Estava encenada mais uma fatal agressão polaca. A 1 de Setembro, Hitler invadia a Polónia. Depois seguiram-se seis anos de carnificina que começou contra combatentes inimigos para terminar contra os milhões de civis inocentes vítimas do holocausto.

            Donald Trump: o horror da paz

Donald Trump é simultaneamente o aliado incondicional de Netanyahu e auto-proclamado anjo da paz. Só no segundo mandato Trump vangloria-se de ter promovido 10 tratados de paz ou cessar-fogos: entre Israel e o Líbano, entre Israel e o Hamas, entre a Arménia e Azerbaijão, entre a República Democrática do Congo e o Ruanda, entre a Índia e o Paquistão, entre Israel e o Irão, entre o Camboja e a Tailândia, entre a Sérvia e o Kosovo, entre o Egipto e a Etiópia. A realidade diz-nos que toda esta actividade em prol da paz tem sido um show de política-espectáculo. Não conseguiu quaisquer resultados permanentes e, no melhor dos casos, permitiu apenas tréguas temporárias. A Ásia Ocidental está a arder ou em escombros.

Mas o mais grave é que quando está em causa um de dois objectivos – o acesso a recursos naturais ou os interesses do seu aliado incondicional, Israel – as propostas de paz de Trump significam, tal como as de Hitler, a capitulação da “outra parte”, o eufemismo para designar o “inimigo irreconciliável”. Em vez de proposta de paz, há o ultimato.

Irão é posto perante a opção entre ser expropriado ou ser destruído. A expropriação inclui não só petróleo, mas os 440 kg de urânio enriquecido a 60%, enquanto a destruição inclui o desaparecimento de uma civilização de 6000 anos. Isto não é uma proposta de paz, é uma provocação ou uma imposição de rendição. Sabemos que os EUA têm uma experiência histórica de destruir civilizações pois foi assim que nasceram. Mas como a história não se repete e por vezes tem uma astúcia cruel, é possível imaginar que quem nasce, destruindo civilizações também pode morrer, destruindo civilizações. De todo o modo, a paz que é proposta é,  a “paz forte” de que fala Netanyahu nos seus escritos,[ii] que não é mais do que a paz do mais forte, a paz do fait accompli. Trata-se, pois, de uma paz violenta. Uma paz horrorosa ao serviço de uma guerra horrorosa.

               Porquê as duas cabeças de Hitler?

Se analisarmos com atenção os discursos e as práticas políticas de Netanyahu e de Trump verificamos que os doze pontos da ideologia de Hitler estão bem presentes. Mas estão presentes de modo diferente e sobretudo com estilos diferentes, e essa diferença não é casual. Visa fortalecer a eficácia de ambos. Enquanto Hitler se encarregava sozinho (com Ribbentrop e Göring e outros) de propor negociações de paz e de boicotá-las quando conveniente e sempre com o objectivo de intensificar a guerra, hoje há uma divisão de trabalho entre dois Hitlers: o que propõe negociações e planos de paz (Trump) e o que as boicota e intensifica a guerra (Netanyahu).  Só por ingenuidade se pode pensar que não estão combinados ou que, pelo menos, não há entre eles um pacto de aceitar tudo o que o outro faz desde que sirva o objectivo comum de destruir os povos islâmicos do Médio Oriente para controlar os recursos naturais e neutralizar a China. A tragédia (e comédia) do nosso tempo é que são precisos dois Hitlers para fazer um Hitler. Um Hitler de duas cabeças, o monstro do nosso tempo.

NOTAS

[i] A bibliografia sobre este tema é imensa e pode ser consultada a partir de textos como: Mazin B. Qumsiyeh, Sharing the Land of Canaan. Londres: Pluto Press, 2004: 67-84 (com bibliografia recomendada); Robert Wistrich “Anti-zionism and anti-semitism” Jewish Political Studies Review , 2004, vol.16, 27-31; Walid Sharif “Soviet Marxism and Zionism”, Journal of Palestine Studies, 1977, Vol. 6, No. 3, 77-97; Mim Kemal Oke “The Ottoman Empire, Zionism, and the Question of Palestine (1880-1908)” International Journal of Middle East Studies,1982, Vol. 14, No. 3: 329-341; Sara Roy, Mark Braverman Ilan Pappe et al Prophetic Voices on Middle East Peace (Claremont Studies in Contemporary Issues Book 1) Claremont Press, 2016; Abdul-Wahab Kayyali “Zionism and Imperialism: The Historical Origins” Journal of Palestine Studies, 1977, Vol. 6, No. 3: 98-112.

[ii] Laura Drake “A Netanyahu Primer” Journal of Palestine Studies, Vol. 26, No. 1 (Autumn, 1996), pp. 58-69; Shalom Lipner “The Chosen People vs. Their Chosen People Israelis Are the Victims of the Political Shenanigans of Their Elected Leaders” Atlantic Council (2020); Anthony H. Cordesman, “ Israel and the Palestinians: From the Two-State Solution to Five Failed ‘States’” Center for Strategic and International Studies (CSIS) (2021).

A Estátua de Sal precisa da sua ajuda. Click aqui.

Netanyahu é um fantoche de Trump?

(Por E&R, in La Cause du peuple, 09/04/2026, Trad. Estátua)


Os israelitas estão furiosos: não foram consultados por Trump e pela sua equipa (pode-se presumir que o traidor Kushner os avisou) sobre a trégua de duas semanas negociada entre os iranianos e os americanos, através dos paquistaneses.


Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Netanyahu quer destruir tudo; quer mesmo arrastar o Irão de volta à Idade da Pedra, enquanto Trump quer controlar o petróleo vendido aos chineses. O primeiro é um assassino, o segundo é um capitalista. Por vezes os seus caminhos cruzam-se, outras vezes separam-se. Netanyahu e o seu gangue de genocidas tentarão, portanto, tudo para sabotar uma paz que, é certo, é frágil. Daí os bombardeamentos maciços no Sul do Líbano sob o pretexto de visar combatentes do Hezbollah, que Israel nos vinha dizendo há dois anos que tinham sido erradicados. Mentira sobre a mentira…

O Hezbollah ainda existe obviamente; teve tempo para se esconder — como os iranianos com os seus mísseis balísticos e instalações nucleares — porque ninguém confia na entidade sionista, que não é mais do que mentiras sobre mentiras e massacres sobre massacres. E depois surpreendemo-nos que as coisas acabem mal para os pobres judeus que, na realidade, são os escudos humanos da sua oligarquia! Isto já aconteceu várias vezes na história, e os judeus polacos dos shtetls na URSS e na Polónia, entre 1939 e 1945, podem atestá-lo: foram claramente sacrificados no altar da criação do Estado de Israel em 1947.

Hoje, os judeus, que se dizem perseguidos em todo o lado, encontraram finalmente um refúgio, mas curiosamente, perseguem todos os seus vizinhos, assassinam-nos, queimam-nos vivos e continuam a organizar ataques falsamente antissemitas em todo o mundo para manter a narrativa de vitimização.

Mas tal já não engana mais ninguém; estamos a chegar ao fim de uma era. Até o NYT, uma publicação assumidamente israelo-americana (a versão esquerdista do complexo militar-industrial dos EUA), não consegue deixar de afirmar que Trump foi enganado pelos israelitas. A fonte francesa é Christophe Ginisty, autor de um livro sobre Trump, apresentado como um fantoche do Estado profundo, cuja parte visível é a equipa de conselheiros do presidente, aqueles que preparam os seus famosos relatórios.

“O New York Times acaba de publicar o relato mais condenatório sobre Trump desde o início da guerra. E é uma bomba. Jonathan Swan e Maggie Haberman, dois jornalistas da Casa Branca, revelam como Trump tomou a decisão de entrar em guerra contra o Irão. O que descrevem é exatamente o que analiso em *O Fantoche da Casa Branca*. Aqui estão os factos.

Netanyahu vendeu um sonho. A 11 de Fevereiro, na Sala de Situação, o Primeiro-Ministro israelita apresentou um cenário em quatro actos: matar o Líder Supremo, destruir o exército iraniano, desencadear uma revolução popular e instalar um novo regime. Chegou a mostrar uma montagem de vídeo com os “futuros líderes” do Irão. Trump respondeu: “Parece-me bem”. Numa única frase, selou o destino da região.

No dia seguinte, a CIA disse que tudo não passava de conversa de circunstância. As partes 3 e 4 do discurso de Netanyahu — a revolução popular e a mudança de regime — foram descartadas como uma “farsa” pelo próprio Ratcliffe. Rubio traduziu: “Por outras palavras, é tudo balela.” O general Caine acrescentou: “Este é o procedimento padrão de Israel. Exageram na propaganda e os seus planos nem sempre são bem elaborados”. Trump ouviu. E mesmo assim disse que sim.

Vance viu tudo. O vice-presidente foi o único na sala a opor-se abertamente, alertando que a guerra poderia “destruir a coligação política de Trump”, que o estreito de Ormuz era o verdadeiro ponto vulnerável e que ninguém poderia prever uma retaliação iraniana quando a sobrevivência de um regime estivesse em causa. Ele disse: “Sabes, acho que isso é uma má ideia.” Mas se quiser fazer isso, eu apoiá-lo-ei.” Isto não é coragem política. Isto é deferência.

Susie Wiles observava. A chefe de gabinete, que tinha as suas preocupações, sentiu que “não era da sua conta” comentar uma decisão militar perante outras pessoas. Ela “incentivou os assessores a partilharem as suas opiniões”. Ela permaneceu em silêncio. O General Caine nunca disse que não. Expôs os riscos: stocks de munições cada vez mais reduzidos, o Estreito de Ormuz e a ausência de um caminho claro para a vitória. Depois disse: “Se vocês ordenarem a operação, os militares irão executá-la.”

Trump, por sua vez, “só ouviu o que queria ouvir.” E Trump assinou a bordo do Air Force One, 22 minutos antes do prazo estabelecido pelo seu próprio general: “Operação Fúria Épica está aprovada. Sem abortos.”Boa sorte.” É assim que se vai para a guerra no século XXI. Não com uma deliberação solene. Não com uma votação no Congresso. Não com uma estratégia de saída. Com uma apresentação de diapositivos de Netanyahu, um “parece-me bem” e um bilhete enviado de um avião.

Em “O Fantoche da Casa Branca”, escrevo que os verdadeiros decisores são aqueles que preparam as apresentações a que Trump assiste. Netanyahu compreendeu isso melhor do que ninguém. Encenou um espetáculo visual de uma hora na Sala de Situação, com o Mossad como pano de fundo, vídeos de “futuros líderes” e a promessa de uma vitória rápida e decisiva. E Trump disse que sim. Enquanto Vance, Rubio, Wiles e Caine assistiam.”

Isto levanta uma nova questão, uma vez que Trump, sempre a raposa astuta, não podia desconhecer que o plano israelita de mudar o regime em 72 horas (e porque não em 10 minutos com a ameaça de um ataque nuclear?) era instável. O facto de o NYT ter revelado o processo pode fazer parte de um plano maior para culpar os israelitas pelo fracasso da operação, uma fuga de informação orquestrada por este presidente que não se importa de parecer tolo. Daí a imagem do coelho gigante na varanda, que o ridicularizou — deliberadamente! — em todo o mundo. Há sempre um vício maior, precisamente quando se pensa que o desvendou.

O verdadeiro resultado desta guerra?

Um Irão enfraquecido, forçado a arrastar-se até à mesa das negociações em Islamabad, mas com uma carta na manga: o Estreito de Ormuz e o bloqueio de um quarto do tráfego mundial de petróleo. Os estados do Golfo, esgotados e abandonados pelos Estados Unidos; e um Israel a lamber as suas feridas, escondendo-as. Aí, insistem em apenas 3 mortos e 5 feridos na Guerra dos Quarenta Dias. Na realidade, o país sofreu terrivelmente. A Jeune Nation enviou-nos um artigo da Al-Manar que resume o balanço oficial desta segunda guerra Irão-Israel: o custo económico desta farsa de país, por si só, é exorbitante.

Economicamente, o Yediot Aharonot estimou o custo da guerra em aproximadamente 65 mil milhões de shekels [18 mil milhões de euros, nota do editor], um valor preliminar que não inclui todas as perdas económicas indirectas, como a queda do crescimento ou o declínio do investimento. Este custo divide-se em mais de 50 mil milhões de shekels em custos militares diretos e aproximadamente 10 mil milhões de shekels em custos civis diretos, além de mais milhares de milhões em perdas indiretas não contabilizadas em crescimento, investimento e produção. […]

Em relação aos danos materiais, o quadro alarga-se com novos dados revelados pelo jornal Ma’ariv, que noticiou a destruição ou degradação de mais de 5.000 edifícios em Israel desde 28 de Fevereiro, reflectindo a extensão da destruição que afeta as infraestruturas e as zonas residenciais. Para ilustrar a dimensão desta destruição, o Yediot Aharonot referiu que o Irão lançou aproximadamente 670 mísseis e 765 drones contra Israel desde o início da guerra.

Conclusão: Graças a Trump, ou por causa dele, o Israel de Netanyahu está a tornar-se cada vez mais inviável e inabitável. Este não é o momento para promover a Aliá, e, no entanto, os judeus franceses continuam, sob a pressão amigável do seu rabino, a imigrar para Israel, como se costuma dizer, para escapar ao antissemitismo que acreditam ser galopante em França, particularmente o da França Insubmissa (LFI). Pessoalmente, se tivéssemos de escolher entre Rima Hassan e um míssil Shahab, não hesitaríamos durante três horas: escolheríamos Rima.

Fonte aqui

A guerra que já estava perdida antes de começar

(Luís Rocha, in Facebook, 18/03/2026, Revisão da Estátua)

This is what the “America first” looks like 🙂

Ajude a Estátua de Sal. Click aqui

Há guerras que começam com mísseis, outras com discursos patrióticos ou nacionalistas, e depois há aquelas que começam com um homem a olhar para o espelho e a ver um génio estratégico onde, na realidade, está apenas um vendedor de carros usados com acesso a um botão perigosamente nuclear. Esta pertence, sem margem para dúvida, à última categoria.

Durante anos, andaram a provocar o Irão como quem atira amendoins a um tigre enjaulado, convencidos de que a jaula era eterna, inquebrável e, sobretudo, americana. Sanções aqui, assassinatos ali, ameaças embrulhadas em conferências de imprensa com bandeirinhas atrás. Tudo muito civilizado, muito democrático, muito “ordem internacional baseada em regras”, regras essas que curiosamente mudam sempre que Washington muda de humor. Ou de parvo na Casa Branca.

E depois há o outro artista desta opereta. Benjamin Netanyahu, ou, para os amigos, Bibi, o homem que olha para o Médio Oriente e vê um tabuleiro de Risco onde todas as peças lhe pertencem por direito divino, histórico, bíblico e, já agora, também imobiliário. A sua visão é tão simples, que é quase básica. Expandir, esmagar, controlar, e chamar a isso segurança.

Uma espécie de colonização com drones, muito moderna, muito higiénica, muito televisionável.

E como qualquer bom espectáculo de variedades precisa de um ajudante, entra em cena Donald Trump, o equivalente geopolítico de um caniche obediente com acesso a um arsenal industrial militar. Um tipo que confunde diplomacia com chantagem de casino mafioso e estratégia com birra de reunião de condomínio.

E a relação entre ambos verifica-se apaixonante. Bibi aponta, Trump ladra. Bibi pressiona, Trump assina. Bibi acena com a ameaça iraniana, e Trump, de coleira bem ajustada, decide que a melhor forma de mostrar força é fazer exactamente o que lhe pedem. Uma demonstração impressionante de soberania de bordel. Alugada.

E assim se constrói uma guerra idiota.

Mas o mais fascinante, verdadeiramente fascinante, é a surpresa. Aquela expressão quase infantil de espanto quando o Irão responde. Como se fosse impensável que um país com décadas de resistência, com uma estrutura militar assimétrica sofisticada e com uma paciência quase civilizacional decidisse, finalmente, devolver o golpe.

“Mas como?!” perguntam eles.

Como? Talvez porque passaram anos a tratá-lo como um alvo e nunca como um actor de cultura milenar e com uma taxa de literacia de 94%. Mau regime, mas muita cultura e inteligência. Coisa pouca.

Entretanto, o Estreito de Ormuz, o gargalo por onde passa grande parte do sangue energético do planeta, transforma-se num aperto de garganta global. E aí, subitamente, a guerra deixa de ser um vídeo de propaganda e passa a ser um problema sério. Daqueles que fazem tremer bolsas, governos e certezas.

Mas há um detalhe ainda mais triste nesta tragédia. O império que se julgava omnisciente começa a revelar não fraqueza material, mas algo mais perigoso, uma espécie de alucinação patriótica.

Enquanto se entretém a bombardear desertos e a distribuir democracia com mísseis, os Estados Unidos MAGA vivem mergulhados numa narrativa quase mística onde continuam a ser o centro do mundo, o árbitro da história, o adulto na sala, mesmo quando ninguém lhes pediu para organizar a festa.

Uma nação ideológica convencida de que manda no mundo por decreto divino, enquanto o resto do planeta começa, discretamente, a ignorar as ordens.

Não por rebeldia ideológica, mas por simples e clara exaustão.

E aqui está o verdadeiro ponto que vai doer. Esta guerra não está a ser perdida no campo de batalha.

Está a ser perdida na incapacidade de compreender o adversário. Na arrogância de achar que superioridade tecnológica resolve tudo. Na ilusão de que poder militar substitui inteligência estratégica.

Donald Trump, no meio disto tudo, continua obviamente fiel a si próprio. Burro que nem uma maçaneta. A tomar decisões como quem escolhe ingredientes numa pizza, a reagir em vez de pensar, a confundir ruído com força. Um homem que transformou a política externa numa extensão do seu ego e que agora descobre, tarde demais, que o mundo real não assina acordos de guerras parvas.

Já o Bibi segue firme, consistente na sua visão colonizadora que avança, envolta na narrativa da segurança. Obstinado mas desaparecido das conferências de imprensa.

Fazendo prova de vida através de clipes gerados por IA.

Fazendo supor que possa realmente ter sido “escolhido” para estar junto do criador.

No fim, quando o pó assentar, se assentar tão cedo ou se alguma vez assentar, não será a vitória que ficará na memória.

Será a estupidez.

Aquela estupidez persistente, arrogante, quase artística, de acreditar que se pode incendiar uma região inteira e sair de lá com as mãos limpas e a reputação intacta.

E talvez, só talvez, alguém pergunte, com um ligeiro atraso histórico, se o verdadeiro problema seria realmente o Irão.

Ou se seria a convicção delirante de que o mundo inteiro existe para ser gerido por um homem superlativamente patético ao serviço de outro com inclinações genocidas e delírios de superioridade religiosa.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

https://www.bbc.com/news/world-middle-east-24316661

https://www.reuters.com/world/middle-east

https://www.theguardian.com/world/iran

https://www.aljazeera.com/middle-east

https://www.cfr.org/backgrounder/what-strait-hormuz

https://www.brookings.edu/topic/middle-east

https://www.csis.org/regions/middle-east