Um Hitler de duas cabeças

(Boaventura Sousa Santos, in A Viagem dos Argonautas, 20/04/2026)


No que é talvez o melhor livro sobre Hitler, Allan Bullock escreveu em Hitler: a study in tiranny que a filosofia do Hitler é filosofia de albergue dos sem abrigo, uma filosofia que ele aprendeu vivendo nesses albergues de Viena durante algum tempo. Claro que Bullock se esqueceu de pedir desculpa aos sem abrigo porque entre eles há mais de uma filosofia e há sobretudo filosofias contrárias à que ele identifica. Mas a que ele identifica não é menos verdadeira por isso. Tal como resultam de Mein Kampf e dos discursos e práticas posteriores de Hitler, os elementos principais de tal filosofia são os seguintes:

  1. A ideia de luta é tão antiga quanto a própria vida, pois a vida só se preserva porque outros seres vivos perecem através da luta. Nesta luta, os mais fortes, os mais capazes, vencem, enquanto os menos capazes, os fracos, perdem.
  2. Nesta luta, qualquer truque ou artimanha, por mais inescrupulosa que seja, o uso de qualquer arma ou oportunidade, por mais traiçoeira que seja, são permitidos.
  3. Qualquer objectivo que os humanos tenham alcançado deve-se à sua originalidade aliada à sua brutalidade.
  4. A astúcia é crucial: a capacidade de mentir, distorcer, enganar e bajular.
  5. A eliminação do sentimentalismo ou da lealdade em favor da crueldade. Estas foram as qualidades que permitiram aos humanos ascender. E, acima de tudo, a força de vontade.
  6. Nunca confiar em ninguém, nunca se comprometer com ninguém, nunca admitir qualquer lealdade.
  7. A falta de escrúpulos deve surpreender até mesmo aqueles que se orgulham da sua falta de escrúpulos.
  8. Mentir com convicção e dissimular com franqueza.
  9. A desconfiança deve ser acompanhada de desprezo.
  10. As pessoas são movidas pelo medo, pela ganância, pela sede de poder, pela inveja, frequentemente por motivos mesquinhos e insignificantes. A política é a arte de saber como usar essas fraquezas para os fins próprios.
  11. Desprezar as massas: as massas existem para ser manipuladas pelo político capaz.
  12. Os democratas, particularmente os social-democratas, envenenam a mente popular e exploram cinicamente o sofrimento das massas para os seus próprios fins. Os agentes deste envenenamento são os judeus.

A história não se repete e o Hitler morreu. Mas a sua filosofia está presente em dois políticos que dominam a actualidade política internacional. Esses políticos são Benjamin Netanyahu e Donald Trump. Está presente de modos diferentes e por isso é que o Hitler de hoje tem duas cabeças. Netanyahu é a cabeça do horror da guerra, enquanto Trump é a cabeça do horror da paz. Dir-se-á que não faz sentido falar de equivalência a Hitler porque o núcleo central da filosofia dele era o anti-semitismo e os “Hitlers” de hoje, um é judeu sionista e o outro está incondicionalmente ao seu lado. A relação entre o sionismo e o judaísmo é muito complexa. Dada a intoxicação da opinião pública que impera sobre este tema e o cancelamento severo das vozes dissidentes, não é fácil abordar esta questão. Daí que abordá-la seja muito importante para a sobrevivência do pensamento crítico a que, aliás, o judaísmo europeu está intimamente ligado e a quem os intelectuais críticos tanto devem.

            Sionismo e judaísmo

O historiador Yakov Rabkin sumaria assim as contradições entre sionismo e judaísmo:

O sionismo foi, no seu início, um movimento marginal. A oposição à ideia sionista manifestava-se tanto a nível espiritual e religioso como a nível social e político. A maioria dos judeus praticantes, tanto ortodoxos como reformistas, rejeitava o sionismo, referindo-se a ele como um projecto e uma ideologia que entrava em conflito com os valores do judaísmo. Os judeus que aderiram a vários movimentos socialistas e revolucionários viam o sionismo como um ataque à igualdade e como uma tentativa de desviar as massas judaicas da busca pela mudança social. Por fim, aqueles que, graças à Emancipação, se tinham integrado na sociedade em geral e se tinham tornado liberais convictos estavam convencidos de que o sionismo era, tão gravemente quanto o anti-semitismo, uma ameaça ao seu futuro. O nacionalismo judeu foi, assim, rejeitado porque era visto como um perigo não só para o judaísmo, mas também para o estatuto social e os valores políticos dos judeus emancipados (What is Modern Israel? Londres: Pluto Press, 2016, p.122).

Eis mais em detalhe algumas das razões que têm oposto judeus e não judeus ao sionismo[i]. O sionismo é uma forma de nacionalismo que contraria a ideia da diáspora. O fundador do sionismo, Theodor Herzl, considerava que, ao pretenderem a expulsão ou emigração dos judeus, os anti-semitas eram os mais fiéis amigos e aliados do sionismo. O sionismo tem a sua raiz na experiência dos judeus da Europa Oriental, sobretudo depois dos pogroms da Rússia de 1881 que levaram à emigração dos judeus para o Ocidente, criando tensões entre os judeus orientais e os judeus ocidentais. O sionismo reforça a ideia de separação do povo judaico, quando este sempre lutou por integração nas sociedades onde vivia com autonomia para poder praticar livremente a sua religião, já que o judaísmo é uma religião e nada mais. O escritor e publicista judeu austríaco Karl Kraus considerava que a essência do sionismo era o anti-semitismo O sionismo serviu os interesses do imperialismo europeu (britânico) para controlar o acesso aos recursos naturais do Médio Oriente. O Estado de Israel foi pensado como uma colónia europeia de povoamento que garantisse acesso aos recursos naturais e à liberdade do comércio com o Oriente. No seu livro publicado em 1896 Der Judenstaat (O Estado judeu), Theodor Herzl afirma:

Supondo que Sua Majestade, o Sultão, nos concedesse a Palestina, poderíamos, em troca, encarregar-nos de administrar todas as finanças da Turquia. Formaríamos ali uma parte da muralha da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização em oposição à barbárie. Como Estado neutro, manteríamos contacto com toda a Europa, que teria de garantir a nossa existência (The Jewish State, London, 1946: 30)

O sionismo foi promovido por anti-semitas, como Arthur Balfour, que queriam ver-se livres dos judeus da Europa. Em 1850, não haveria mais de 9700 judeus na Palestina. O sionismo judaico combina-se hoje com o sionismo cristão, que assenta nas ideias da supremacia racial e da extrema-direita, ideias contra as quais os judeus lutaram com grande tenacidade e sacrifício nos últimos cem anos. O sionismo cristão é uma forma disfarçada de anti-semitismo. O sionismo fundamentalista que domina hoje a política de Israel é o grande responsável pelo crescimento do anti-semitismo no mundo, inclusivamente pelo modo como critica os judeus anti-sionistas.  Todos estes argumentos fortalecem a posição de que que o sionismo, longe de servir a causa da religião judaica no mundo, pode significar, a prazo, um golpe duro contra ela.

         Benjamin Netanyahu, o horror da guerra

A lógica do extermínio preside à filosofia securitária e expansionista de Israel. A guerra contra o Islão é religiosa e, como tal, só pode terminar com a extinção ou rendição incondicional do mais fraco. O inimigo a abater tem de ser incessantemente inventado, da Palestina à Síria, do Irão ao Líbano. Acima de tudo, o inimigo não pode renascer das cinzas, daí que seja crucial assassinar mulheres e crianças. A paz é anátema. O expansionismo funda-se num elemento messiânico cujas origens se podem encontrar na obra de Moses Hess, Rome and Jerusalem (1862). É iminente a vitória da ideia judaica, o “Sabbath da história”, como ele a designa. Tem hoje ao seu serviço um novo instrumento messiânico, a inteligência artificial, a nova divindade tão irresponsável quanto os deuses, mesmo quando comete o escandaloso erro de confundir uma escola com um quartel militar, como aconteceu recentemente no Irão.

Tal como Hitler, Netanyahu tem pressa e é incapaz de parar. Tal como Hitler, inventa ou dramatiza agressões para justificar a continuidade da guerra e a tornar cada vez mais violenta. Um pouco de história ajuda a esclarecer.

Foi a pressa de Hitler que ditou o início da Segunda Guerra Mundial com a invasão da Polónia. Militares e diplomatas manifestavam-se contra essa pressa. Göring avisava que a economia já estava a ser afectada pelo esforço exigido pela preparação da guerra. Para não falar dos ingleses de Chamberlain, que não tiveram outra estratégia senão as negociações de paz, Mussolini, parceiro do Eixo, enviou a Hitler em 30 de Maio de 1939 um memorandum secreto em que pedia o adiamento do início da guerra (se essa fosse a decisão) até ao fim de 1942. Hitler não respondeu e o seu silêncio foi interpretado por Mussolini como concordância. Mas, enquanto simulava ser a favor das negociações, Hitler exortava os seus comandantes em 22 de Agosto: “Fechem os vossos corações à piedade. Ajam brutalmente”.

Propunha um tratado de paz com a Polónia que não era mais que a total capitulação da Polónia. Celebrava um pacto de não agressão com o seu declarado “irreconciliável inimigo”, a União Soviética, apenas para ganhar tempo, já que o seu objectivo era conquistar Lebensraum (espaço vital) a Leste e, portanto, um pacto para violar logo que conveniente, ou seja, um ano depois. Definiu a invasão da Polónia como uma blitzkrieg, uma guerra para durar pouco tempo, e justificou-a com a invenção de uma suposta agressão polaca. Num acto de bandeira falsa, os S.S. atacaram a estação de rádio da pequena cidade alemã Gleiwitz, junto à fronteira polaca, vestiram criminosos alemães com as fardas militares polacas e mataram-nos de seguida. Estava encenada mais uma fatal agressão polaca. A 1 de Setembro, Hitler invadia a Polónia. Depois seguiram-se seis anos de carnificina que começou contra combatentes inimigos para terminar contra os milhões de civis inocentes vítimas do holocausto.

            Donald Trump: o horror da paz

Donald Trump é simultaneamente o aliado incondicional de Netanyahu e auto-proclamado anjo da paz. Só no segundo mandato Trump vangloria-se de ter promovido 10 tratados de paz ou cessar-fogos: entre Israel e o Líbano, entre Israel e o Hamas, entre a Arménia e Azerbaijão, entre a República Democrática do Congo e o Ruanda, entre a Índia e o Paquistão, entre Israel e o Irão, entre o Camboja e a Tailândia, entre a Sérvia e o Kosovo, entre o Egipto e a Etiópia. A realidade diz-nos que toda esta actividade em prol da paz tem sido um show de política-espectáculo. Não conseguiu quaisquer resultados permanentes e, no melhor dos casos, permitiu apenas tréguas temporárias. A Ásia Ocidental está a arder ou em escombros.

Mas o mais grave é que quando está em causa um de dois objectivos – o acesso a recursos naturais ou os interesses do seu aliado incondicional, Israel – as propostas de paz de Trump significam, tal como as de Hitler, a capitulação da “outra parte”, o eufemismo para designar o “inimigo irreconciliável”. Em vez de proposta de paz, há o ultimato.

Irão é posto perante a opção entre ser expropriado ou ser destruído. A expropriação inclui não só petróleo, mas os 440 kg de urânio enriquecido a 60%, enquanto a destruição inclui o desaparecimento de uma civilização de 6000 anos. Isto não é uma proposta de paz, é uma provocação ou uma imposição de rendição. Sabemos que os EUA têm uma experiência histórica de destruir civilizações pois foi assim que nasceram. Mas como a história não se repete e por vezes tem uma astúcia cruel, é possível imaginar que quem nasce, destruindo civilizações também pode morrer, destruindo civilizações. De todo o modo, a paz que é proposta é,  a “paz forte” de que fala Netanyahu nos seus escritos,[ii] que não é mais do que a paz do mais forte, a paz do fait accompli. Trata-se, pois, de uma paz violenta. Uma paz horrorosa ao serviço de uma guerra horrorosa.

               Porquê as duas cabeças de Hitler?

Se analisarmos com atenção os discursos e as práticas políticas de Netanyahu e de Trump verificamos que os doze pontos da ideologia de Hitler estão bem presentes. Mas estão presentes de modo diferente e sobretudo com estilos diferentes, e essa diferença não é casual. Visa fortalecer a eficácia de ambos. Enquanto Hitler se encarregava sozinho (com Ribbentrop e Göring e outros) de propor negociações de paz e de boicotá-las quando conveniente e sempre com o objectivo de intensificar a guerra, hoje há uma divisão de trabalho entre dois Hitlers: o que propõe negociações e planos de paz (Trump) e o que as boicota e intensifica a guerra (Netanyahu).  Só por ingenuidade se pode pensar que não estão combinados ou que, pelo menos, não há entre eles um pacto de aceitar tudo o que o outro faz desde que sirva o objectivo comum de destruir os povos islâmicos do Médio Oriente para controlar os recursos naturais e neutralizar a China. A tragédia (e comédia) do nosso tempo é que são precisos dois Hitlers para fazer um Hitler. Um Hitler de duas cabeças, o monstro do nosso tempo.

NOTAS

[i] A bibliografia sobre este tema é imensa e pode ser consultada a partir de textos como: Mazin B. Qumsiyeh, Sharing the Land of Canaan. Londres: Pluto Press, 2004: 67-84 (com bibliografia recomendada); Robert Wistrich “Anti-zionism and anti-semitism” Jewish Political Studies Review , 2004, vol.16, 27-31; Walid Sharif “Soviet Marxism and Zionism”, Journal of Palestine Studies, 1977, Vol. 6, No. 3, 77-97; Mim Kemal Oke “The Ottoman Empire, Zionism, and the Question of Palestine (1880-1908)” International Journal of Middle East Studies,1982, Vol. 14, No. 3: 329-341; Sara Roy, Mark Braverman Ilan Pappe et al Prophetic Voices on Middle East Peace (Claremont Studies in Contemporary Issues Book 1) Claremont Press, 2016; Abdul-Wahab Kayyali “Zionism and Imperialism: The Historical Origins” Journal of Palestine Studies, 1977, Vol. 6, No. 3: 98-112.

[ii] Laura Drake “A Netanyahu Primer” Journal of Palestine Studies, Vol. 26, No. 1 (Autumn, 1996), pp. 58-69; Shalom Lipner “The Chosen People vs. Their Chosen People Israelis Are the Victims of the Political Shenanigans of Their Elected Leaders” Atlantic Council (2020); Anthony H. Cordesman, “ Israel and the Palestinians: From the Two-State Solution to Five Failed ‘States’” Center for Strategic and International Studies (CSIS) (2021).

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Vamos respirar um pouco, mas sempre atentos. Porque o touro ainda está na arena…

(Joaquim de Freitas, in Facebook, 09/04/2026, Revisão Estátua.)

A man angrily shouting with raised finger facing three silent men in hats in shadow
Imagem gerada por IA

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Na verdade, isto não é exclusivo do século XXI. Acabei de ler uma biografia de Adolf Hitler. Muitas das mesmas táticas de sabotagem faziam parte do plano de Hitler. Claro, a violência já existia antes da guerra, mas conquistar o público, apresentar–se como o salvador, focar nas queixas, criar ódio contra o “outro” (para Hitler, comunistas, judeus, vencedores da Primeira Guerra Mundial que impuseram o Tratado de Versalhes; para Trump, liberais, elites, a mídia, aliados estrangeiros, imigrantes) e prometer um paraíso para aqueles que o seguissem era parte central do plano.

As comparações entre Trump e Hitler são notáveis: autoimagem messiânica, exigências de lealdade, disposição para atacar quem não se ajoelha, semear a divisão, pregar o ódio etc.

No entanto, cheguei à conclusão de que Trump não é Hitler. Trump é caótico demais. Hitler era muito mais ideológico, focado e não mentalmente preguiçoso como Trump. Em última análise, a falta de ideologia e de princípios fundamentais de Trump torna-o muito mais propenso a mudar de posição e até mesmo a aliar-se à oposição, já que o seu único objetivo é pessoal, ou seja, Trump vence. O verdadeiro perigo com Trump não é o homem em si, mas os ideólogos que o cercam. E eles esperam pela sua vez…

A derrocada dos Estados Unidos começou com o rumo a uma sociedade de consumo, onde a riqueza se torna um fim em si mesma. Tudo o mais na vida, da família à política, fica em segundo plano. Os indivíduos são idolatrados pela sua riqueza, não por quaisquer realizações reais ou benefícios para a Humanidade. O mercado é o novo Deus. Assim, acabam com pessoas votando voluntariamente num homem cujo único atributo conhecido é ser um vigarista consumado. E um amigo de Epstein.

E, quando leio algo na internet ou numa publicação de direita — ou ouço Trump declarar que os democratas vão arruinar o país porque tirariam o direito às armas, abririam as fronteiras a traficantes assassinos e aboliriam o seguro saúde —  parece impossível que alguém possa realmente acreditar nisso tudo, mas obviamente, muitos acreditam.

E essas pessoas acham que é aceitável abusar e traumatizar crianças porque, caso contrário, uma “invasão” de imigrantes os destruirá, ou que todos devemos ter acesso a armas de assalto que podem matar dezenas de pessoas em segundos, ou que criar um sistema de saúde que cubra todos é uma conspiração socialista, apesar de muitas nações já terem implementado isso.

A razão e a lógica parecem nunca importar, nem os factos (que, segundo Trump, parecem ser todos gerados por “notícias falsas”). Acho inacreditável que tantos eleitores possam ser tão crédulos. E talvez esteja ai o grande problema da América.

Conheço bastante bem os Estados Unidos. Passei anos no interior de muitas das suas grandes empresas, no meu trabalho comercial. Nasci em Portugal e vivi vinte anos sob o jugo dum ditador. Como amador de História há muitos anos, frequentemente me perguntava como pessoas, noutras nações, pareciam sucumbir tão facilmente a regimes totalitários. E, uma vez firmemente sob o jugo de um ditador, porque levavam décadas para se libertar da tirania.

Também me perguntava se nos Estados Unidos, algum dia, estariam sob tal ameaça. Depois do que vimos em Minneapolis, americanos serem assassinados por uma milícia fascista, disse: é urgente, aqui estão. Não estão “perto” de um estado totalitário. Não se estão aproximando de uma ditadura. Estão já lá, agora.

Muitos dos direitos constitucionais estão já ameaçados, graças a este “presidente” e aos seus bajuladores. E talvez já tenha passado o tempo em que protestos em massa poderiam ao menos limitar os danos causados por Trump — ao menos fazê-lo refletir um pouco antes de enviar bebés hispânicos para campos de internamento na América.

Lembro-me muito bem do movimento pelos direitos civis, do movimento contra a Guerra do Vietname e do movimento feminista. E lembro-me do ativismo — da disposição, da geração jovem da época — de se manifestarem, de correrem riscos em defesa dos seus direitos e, com tantos jovens sofrendo, de impedirem uma guerra cruel e sem sentido. Como hoje no Irão…

Avançando para os dias de hoje, fico profundamente triste com o pacifismo que vejo. Mas, por mais que eu tente, não consigo entender porquê, dezenas de milhares de jovens americanos, não estão nas ruas de todas as cidades dos EUA semanalmente. Sim, issopode acontecer, lá. Já aconteceu, lá!

Se os americanos não estão preocupados com o futuro da democracia americana, é porque não estão prestando atenção. Se os americanos estivessem preocupados, Trump não teria sido eleito presidente.

E o resto do mundo poderia respirar…

A Ordem do Dia

(Daniel Oliveira, in Expresso, 26/08/2021)

Daniel Oliveira

A 20 de fevereiro de 1933, 25 industriais encontraram-se com Hitler e ofereceram 2 milhões de marcos à campanha nazi. Empresas que hoje são motores da Alemanha e da Europa. Éric Vuillard descreve a reunião, em “Ordem do Dia”. Hitler não foi o chefe de lunáticos que assaltou o poder, contra a vontade da elite. Foi a solução de recurso dessa elite. Têm saído notícias de empresários que financiam o Chega. Ele é um reforço musculado do sistema. Reductio ad Hitlerum? Não. Estou a dizer que, como escreve Vuillard, “não se cai duas vezes no mesmo abismo, mas cai-se sempre da mesma forma”


A 20 de fevereiro de 1933, 25 industriais e banqueiros encontraram-se com Adolf Hitler, que 15 dias depois iria a votos e precisava de dois terços do Parlamento para aprovar a Lei de Concessão de Plenos Poderes, o que acabaria por a ser possível graças ao apoio do Partido do Centro Católico. A reunião, com o objetivo de recolher dinheiro para a campanha, foi na residência oficial do Presidente do Reichstag, Hermann Göring. Éric Vuillard descreve-a, em “Ordem do Dia” (Prémio Goncourt 2017, publicado em Portugal pela D. Quixote), preenchendo os espaços vazios com notas ficcionais.

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Na reunião estariam Wilhelm von Opel (Opel), Ernst Tengelmann (Gelsenkirchener Bergwerks), Fritz Springorum (Hoesch), August Rosterg (Wintershall), Karl Buren (BUBIAG e membro do Conselho da BDA – confederação patronal alemã), Georg von Schnitzler ( IG Farben), Hugo Stinnes Jr. (membro do conselho da Associação Industrial Alemã), Ludwig von Winterfeld e Wolf-Dietrich von Witzleben (Siemens), Wolfgang Reuter (Demag), August von Fink (filho do fundador da Allianz) e mais alguns industriais, banqueiros e figuras que viriam a ter relevo na política económica nazi. Só naquele dia, a fina flor da finança e da indústria alemã ofereceu ao Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães dois milhões de marcos. A reunião só fica na História porque a História foi severa com o que aconteceu depois. Aquele era um encontro banal. Negócios, apenas. O encontro com Hitler foi afável, com frases amenas e de atenção para cada um dos convidados.

Escreve Éric Vuillard: “O essencial da mensagem cingia-se a isto: era preciso pôr termo a um regime fraco, afastar a ameaça comunista, suprimir os sindicatos e permitir que cada patrão fosse um Führer na sua empresa.” O objetivo não era a subversão do sistema, era a salvaguardar o que interessava no sistema: a prosperidade daquelas respeitáveis fortunas. Depois da saída de Hitler e de novo discurso de Goering, repetindo as mesmas ideias, Hjalmar Schacht, presidente do banco central alemão até 1930 e futuro ministro da economia de Hitler até 1937, sorriu e rematou: “E agora, meus senhores, é passar à caixa!”

Mas quem ali estava não eram aquelas pessoas. Era a BASF, a Bayer, a Agfa, a Opel, a IG Farben, a Siemens, a Allianz, a Telefunken, a Varta (então Accumulatoren-Fabrik Aktiengesellschaft), a Krupp. Quase todas ainda existem, quase todas com os mesmos nomes. Estes motores da economia alemã e europeia não se limitaram a ajudar Hitler a chegar ao poder. Lucraram com a exploração do trabalho dos campos de concentração. Buchenwald, Ravensbrück, Sachsenhausen, Flossenbürg, Dachau, Natzweiler-Struthof, Dora-Mittelbau, Gross-Rosen, Neuengamme ou Auschwitz serviram empresas como a Krump, a BMW, a Siemens, a Bayer, a Agfa, a Telefunken ou a IG Farben (a última explorava uma enorme fábrica em Auschwitz). Algumas foram, mais tarde, forçadas a indemnizar sobreviventes do Holocausto ou seus herdeiros, usando o gesto para uma limpeza publicitária, mas sempre contrariadas ou em valores irrelevantes para o dano causado e o lucro garantido.

Hitler não foi o chefe de um grupo de lunáticos que assaltou o poder, contra a vontade da elite de então. Foi a solução de recurso dessa elite. E a razão porque falo deste exemplo extremo é porque em todas as outras vitórias da direita autoritária, mesmo que muito menos extremas, aconteceu o mesmo.

Um grande empenhamento de doutrinação ideológica conseguiu que se instalasse uma associação automática entre capitalismo e democracia. E essa associação passou a fazer-se de forma ainda mais ousada, entre capitalistas e democracia. Haverá, na elite económica, quem tenha mais ou menos amor à democracia. Haverá muito poucos para quem esse amor supere o apego aos seus próprios interesses. E há momentos da História, que nem sequer são excecionais, em que a democracia e a liberdade são inimigas dos seus interesses.

Os que se movem pelo lucro não têm outros valores que não seja o lucro. A liberdade ou a democracia interessa-lhes na medida em que lhes serve, dispensando-as quando são um empecilho. Não desprezam nem acarinham o poder do Estado. Precisam do Estado para impor as suas “reformas”, defender os seus negócios e a sua propriedade e reprimir as veleidades democráticas do povo. Dispensam o Estado quando ele limita o seu poder.

Haveria, entre os “respeitáveis” industriais que financiaram a entrega do poder absoluto a Hitler, alguns nazis. Outros tratavam apenas da “ordem do dia”, fazendo contas aos seus benefícios e necessidades de curto e médio prazo. Depois, havendo mão de obra disponível em campos de concentração, aproveitaram. São só negócios. Muitos seriam antissemitas, mas todos perceberiam a enorme vantagem de ter um agitador que, perante o povo, apontasse o dedo para bem longe deles. E isso também não mudou.

Têm saído notícias sobre vários empresários já com algum peso a financiar o Chega – esperemos que todos o façam dentro da lei. Não há, nesse apoio, nada de estranho. Pelo contrário, ele é natural e acontece com quase toda a extrema-direita por esse mundo fora. Estranho é que, por enquanto, ainda seja tímido. O Chega é muitas vezes apresentado como antissistémico. A palavra tem a fluidez necessária para ser usada por todos. Ela só pode ser traduzida com rigor quando nos entendemos sobre o que é o sistema. E, para os que são contra o sistema, ele é apenas aquilo a que se opõem. Mas se assumirmos que o sistema é, antes de tudo, o económico, o Chega é o oposto de um partido antissistémico. É um reforço musculado do sistema. Basta ler o programa social e económico do partido de 2019, antes do apagão a que chamaram “clarificação”.

Os empresários que agora financiam André Ventura são os que sentem que as coisas estão maduras para impor as suas “reformas” de forma mais expedita. Também eles acharão que o sistema é o que não gostam: o que limita a sua liberdade absoluta. Se o Chega crescer, outros, talvez mais “respeitáveis”, irão seguir-lhes o exemplo e pôr ali as suas fichas.

Estou a cair na falácia argumentativa conhecida por Reductio ad Hitlerum? A própria ideia desta falácia, que tenta isolar o horror nazi como algo absolutamente excecional, é conveniente, porque nos quer fazer acreditar que o que aconteceu ali não nasceu de processos políticos banais e repetíveis. Mas que fique claro: não estou a dizer que Ventura é nazi. É mesmo só oportunista. O que estou a dizer é que a sua função, para esta elite, é a de sempre. A melhor resposta à acusação é dada por Éric Vuillard: “Não se cai duas vezes no mesmo abismo. Mas cai-se sempre da mesma forma, com uma mistura de ridículo e de pavor. (…) O abismo está rodeado de moradas imponentes.”


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