O lobby israelita vangloria-se do seu domínio sobre os EUA

(Paul Craig Roberts, in PaulCraigRoberts.org, 26/09/2026, Trad. Estátua de Sal)


Os Estados Unidos não são verdadeiramente um país. São uma província de Israel.


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Elliot Brandt, CEO da AIPAC – o lobby israelita – que tem o privilégio de não ter de se registar como lobby estrangeiro, foi apanhado numa gravação a gabar-se de como é fácil para ele controlar o presidente dos Estados Unidos e os funcionários de segurança nacional de Trump – o conselheiro de segurança nacional e secretário de Estado Marco Rubio, o chefe de gabinete adjunto da Casa Branca para a política Stephen Miller, o diretor da CIA John Ratcliffe e outros.

Numa surpreendente gravação que foi divulgada, ouve-se o CEO da AIPAC, Elliot Brandt, a gabar-se abertamente de como o poderoso lobby pró-Israel manipula figuras-chave do círculo íntimo de segurança nacional de Donald Trump, pressionando-as a apoiar outra guerra custosa e impopular no Médio Oriente em nome de Israel.

O áudio – que pode ouvir-se aqui -, gerou indignação online, alimentando acusações de que a política externa dos EUA está a ser ditada não por interesses americanos, mas por uma máquina de lobby alinhada com interesses estrangeiros com influência irrestrita. Os críticos afirmam que a fuga é mais uma prova de que os Estados Unidos não estão apenas empenhados — estão ocupados.

O coronel norte-americano Lawrence Wilkerson, antigo chefe de gabinete do general de quatro estrelas Colin Powell, secretário de Estado durante a administração de George W. Bush, afirmou:

“Vi a Mossad assumir o controlo do Pentágono em 2002. Não precisaram de qualquer identificação para entrar no edifício através do rio. Subiram até Douglas Feith, o Subsecretário de Defesa para as Políticas — o terceiro homem mais poderoso do Departamento de Defesa. Ocasionalmente, iam ter com Paul Wolfowitz, o Secretário Adjunto da Defesa.” 

Tanto o segundo como o terceiro cargos mais poderosos do Pentágono eram ocupados por judeus sionistas que apoiavam a hegemonia do Grande Israel no Médio Oriente.   Conseguiram levar os Estados Unidos à guerra no Médio Oriente em prol da agenda sionista do Grande Israel – do Nilo ao Eufrates, e hoje do Nilo ao Paquistão.   O 11 de Setembro foi o seu “Pearl Harbor” orquestrado, que lhes permitiu lançar a sua “guerra contra o terror”, que na realidade foi a destruição do Iraque, da Líbia e da Síria pelos Estados Unidos, países que representavam obstáculos à expansão de Israel.   Atualmente, o lobby israelita mantém os americanos em guerra com o Irão, uma guerra que até hoje deixou o Irão como vencedor. 

Trump está ressentido com a derrota militar que trouxe aos Estados Unidos.   Ele tentou esconder isso no meio das suas bravatas. 

Netanyahu, sabendo que Trump não aceita a derrota, preparou o terreno para que Trump escapasse à derrota salvando as aparências com um ataque nuclear ao Irão.  Assim, a ameaça de Trump na terça-feira, 22 de Setembro, perante o mundo inteiro na Assembleia Geral da ONU, deu ao Irão até depois das eleições intercalares nos EUA, a 3 de Novembro, para se render ou ser aniquilado. A aniquilação do Irão exige o uso de armas nucleares por Trump ou por Israel.

O que o mundo testemunhou na passada terça-feira foi o poder absoluto de Israel sobre a política externa norte-americana.   A administração Trump não serve os Estados Unidos.   Não serve os seus aliados da NATO.   Não serve a paz nem a justiça.   A administração Trump serve Israel em detrimento não só de todos os americanos, mas também do mundo inteiro.

No dia 3 de novembro, saberemos qual a percentagem de americanos, se é que existe alguma, que compreende isto.

Fonte aqui.


A D. Helena, sionista de profissão

(Manuel Cruz, in Facebook, 30/08/2026, Revisão da Estátua)


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A senhora D. Helena, sionista de profissão, mentirosa por vocação, acaba de fazer coro com os fedúncios do costume e veio a terreiro atacar, também ela, a Festa do Avante sob a acusação, oh escândalo!, oh blasfémia!, oh ignomínia!, de que estará a acolher, num desprezível gesto de solidariedade, uma organização palestiniana que a UE, essa instituição como se sabe democratiquíssima, decidiu meter no rol das entidades terroristas a abater.

A senhora D. Helena tem toda a credibilidade para o fazer, uma vez que já afirmou coisas como não haver fome em Gaza e outras barbaridades de quem convive com genocidas tão bem como deus com os anjos.

Não tenho por péssimo costume reproduzir o texto de alguém sem mencionar o autor. Neste caso, tenho que o fazer porque chegou-me às mãos sem essa indicação e porque a D. Helena, ao contrário da bela Inês, não pode ser posta em sossego, na sua azáfama diária entre a embaixada de Israel, os estúdios de televisão e os elegantes salões da Câmara Municipal de Lisboa para ganhar a vidinha à custa de muito labor, que o rodovalho anda a custar os olhos da cara e a verdade está pela hora da morte. Eis o texto.

(Nota: A Estátua fez uma breve pesquisa e – sem garantir a 100% – julga que o texto foi publicado em 1ª mão no Facebook, na página Isidro de morais pereira, Crónicas da controvérsia, em 16/08/2026.)


Como pode descer tão baixo? Ela, e os que lhe dão tempo de antena?

Helena Ferro Gouveia é o rosto podre da desumanização contemporânea, aquela que vendeu a sua capacidade de distinguir o certo do errado por um salário de embaixada, e que todas as manhãs acorda para justificar a morte de crianças com o mesmo sorriso profissional de quem vende automóveis usados.

Quando abre a boca para dizer que há jornalistas em Gaza, está a mentir conscientemente, porque sabe que esses jornalistas entram como prisioneiros de guerra, escoltados por soldados armados até aos dentes, em zonas pré-lavadas pelo exército de ocupação, sem possibilidade de ver as fossas comuns, ou os corpos esmagados pelas bombas de mil libras, ou as crianças a morrer de fome nos braços das mães.

E quando cita a Tânia Krämer, omite propositadamente que a jornalista disse que entrava de forma condicionada, o que é o oposto absoluto da liberdade de imprensa, e a prova de que Helena Ferro Gouveia confunde jornalismo com propaganda militar. Quando fala dos mais de 160 jornalistas assassinados em Gaza, tem a desfaçatez de os acusar de serem combatentes, como se isso justificasse o assassinato de civis protegidos pelo direito internacional humanitário, como se o assassinato de jornalistas não fosse um crime de guerra explícito, e como se Israel não tivesse um historial documentado de visar deliberadamente jornalistas para silenciar testemunhas.

Quando menciona médicos e enfermeiros como combatentes, está a repetir a lógica nazista que transformava civis em alvos legítimos, para justificar a destruição deliberada de hospitais e a morte de mais de 500 profissionais de saúde em Gaza, e está a tentar apagar o facto de que o Al-Shifa foi invadido duas vezes, destruído, e transformado em campo de concentração temporário, onde médicos foram torturados, enquanto ela sorria para as câmaras em Lisboa.

Quando fala de história, comete o crime de usar a memória do Holocausto para justificar o genocídio actual, omitindo que os palestinianos não têm culpa pelo que os nazis fizeram aos judeus europeus, e que a Palestina não nasceu no século VII, como ela mente descaradamente, mas é uma terra habitada continuamente por milénios, por cananeus, filisteus, judeus, cristãos e muçulmanos, e que os ashkenazim que fundaram Israel em 1948 têm mais ancestralidade europeia do que semita.

Quando evoca a partição de 1947, omite propositadamente a Nakba de 1948, quando 750 mil palestinianos foram expulsos das suas casas em pijama, à ponta da baioneta, e as suas aldeias destruídas, e os seus campos deitados abaixo, e as suas oliveiras arrancadas. E quando fala de Camp David, omite que Israel nunca aceitou um estado palestiniano viável, mantendo sempre a expansão colonial ilegal na Cisjordânia, com 700 mil colonos que roubam terra, água e vida aos palestinianos, sob a proteção de um exército de ocupação que ela chama de forças de defesa.

Quando afirma que não é genocídio, está a negar a realidade que o Tribunal Internacional de Justiça já reconheceu como plausível, quando determinou que Israel deve parar de matar em Gaza, e quando o Tribunal Penal Internacional pediu a detenção de Netanyahu por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Quando ela diz que o tribunal ainda não decidiu, está a mentir, porque a decisão da CIJ é vinculativa, e ela sabe disso. Quando menciona os 23 mil atentados contra judeus, está a tentar criar uma equivalência moral obscena, entre vandalismo e postagens na internet, e o massacre de mais de 70 mil pessoas em Gaza, onde 70% das vítimas são mulheres e crianças, e onde se destruiu propositadamente todos os hospitais, todas as escolas, todas as universidades, todas as bibliotecas, todos os museus, e se impõe a fome como arma de guerra, matando crianças por desnutrição, enquanto ela almoça em restaurantes de luxo em Telavive ou em Lisboa.

Quando fala da campanha de 640 milhões de euros, está a admitir que Israel gasta fortunas em relações públicas, para comprar consciências, influenciadores, políticos e jornalistas dispostos a repetir que o preto é branco, que o massacre é autodefesa, que o genocídio é guerra, e que as crianças assassinadas são culpadas do seu próprio assassinato.

Helena Ferro Gouveia não é uma “comentadora”, é uma negacionista de genocídio profissional, uma negacionista dos crimes de guerra, uma negacionista da realidade, que usa o sofrimento histórico do povo Judeu como escudo, para justificar o sofrimento que Israel impõe a outro povo.

E o pior é que o faz com a frieza de quem sabe que tem impunidade garantida pelo ocidente colonial, que financia e arma este massacre diário, e que aplaude enquanto Gaza é transformada num cemitério a céu aberto, sob o silêncio cúmplice de quem, como ela, transforma a linguagem humana num instrumento de tortura moral, dizendo guerra quando quer dizer extermínio sistemático, dizendo combatentes quando quer dizer crianças de seis meses, dizendo defesa quando quer dizer dominação colonial racista, dizendo verdade quando quer dizer propaganda de guerra, dizendo jornalismo quando quer dizer lavagem cerebral, e dizendo diplomacia quando quer dizer cumplicidade com crimes contra a humanidade.

Este é o fascismo sionista em acção, não é uma opinião política, é a negação sistemática da humanidade do outro, e Helena Ferro Gouveia é a sua voz em Portugal, a voz que justifica o injustificável, que nega o inegável, que transforma vítimas em culpados e algozes em vítimas, numa inversão perversa da realidade, que só pode existir num mundo onde o poder colonial ainda decide quem merece viver e quem merece morrer em silêncio.

Ela é a porta-voz dessa decisão, a cara amiga do genocídio, a mulher que vendeu a sua alma por uns quantos “trocos”, e que todas as noites deve olhar para o espelho e ver, não um ser humano, mas um instrumento de propaganda de um regime de apartheid assassino.

Um Hitler de duas cabeças

(Boaventura Sousa Santos, in A Viagem dos Argonautas, 20/04/2026)


No que é talvez o melhor livro sobre Hitler, Allan Bullock escreveu em Hitler: a study in tiranny que a filosofia do Hitler é filosofia de albergue dos sem abrigo, uma filosofia que ele aprendeu vivendo nesses albergues de Viena durante algum tempo. Claro que Bullock se esqueceu de pedir desculpa aos sem abrigo porque entre eles há mais de uma filosofia e há sobretudo filosofias contrárias à que ele identifica. Mas a que ele identifica não é menos verdadeira por isso. Tal como resultam de Mein Kampf e dos discursos e práticas posteriores de Hitler, os elementos principais de tal filosofia são os seguintes:

  1. A ideia de luta é tão antiga quanto a própria vida, pois a vida só se preserva porque outros seres vivos perecem através da luta. Nesta luta, os mais fortes, os mais capazes, vencem, enquanto os menos capazes, os fracos, perdem.
  2. Nesta luta, qualquer truque ou artimanha, por mais inescrupulosa que seja, o uso de qualquer arma ou oportunidade, por mais traiçoeira que seja, são permitidos.
  3. Qualquer objectivo que os humanos tenham alcançado deve-se à sua originalidade aliada à sua brutalidade.
  4. A astúcia é crucial: a capacidade de mentir, distorcer, enganar e bajular.
  5. A eliminação do sentimentalismo ou da lealdade em favor da crueldade. Estas foram as qualidades que permitiram aos humanos ascender. E, acima de tudo, a força de vontade.
  6. Nunca confiar em ninguém, nunca se comprometer com ninguém, nunca admitir qualquer lealdade.
  7. A falta de escrúpulos deve surpreender até mesmo aqueles que se orgulham da sua falta de escrúpulos.
  8. Mentir com convicção e dissimular com franqueza.
  9. A desconfiança deve ser acompanhada de desprezo.
  10. As pessoas são movidas pelo medo, pela ganância, pela sede de poder, pela inveja, frequentemente por motivos mesquinhos e insignificantes. A política é a arte de saber como usar essas fraquezas para os fins próprios.
  11. Desprezar as massas: as massas existem para ser manipuladas pelo político capaz.
  12. Os democratas, particularmente os social-democratas, envenenam a mente popular e exploram cinicamente o sofrimento das massas para os seus próprios fins. Os agentes deste envenenamento são os judeus.

A história não se repete e o Hitler morreu. Mas a sua filosofia está presente em dois políticos que dominam a actualidade política internacional. Esses políticos são Benjamin Netanyahu e Donald Trump. Está presente de modos diferentes e por isso é que o Hitler de hoje tem duas cabeças. Netanyahu é a cabeça do horror da guerra, enquanto Trump é a cabeça do horror da paz. Dir-se-á que não faz sentido falar de equivalência a Hitler porque o núcleo central da filosofia dele era o anti-semitismo e os “Hitlers” de hoje, um é judeu sionista e o outro está incondicionalmente ao seu lado. A relação entre o sionismo e o judaísmo é muito complexa. Dada a intoxicação da opinião pública que impera sobre este tema e o cancelamento severo das vozes dissidentes, não é fácil abordar esta questão. Daí que abordá-la seja muito importante para a sobrevivência do pensamento crítico a que, aliás, o judaísmo europeu está intimamente ligado e a quem os intelectuais críticos tanto devem.

            Sionismo e judaísmo

O historiador Yakov Rabkin sumaria assim as contradições entre sionismo e judaísmo:

O sionismo foi, no seu início, um movimento marginal. A oposição à ideia sionista manifestava-se tanto a nível espiritual e religioso como a nível social e político. A maioria dos judeus praticantes, tanto ortodoxos como reformistas, rejeitava o sionismo, referindo-se a ele como um projecto e uma ideologia que entrava em conflito com os valores do judaísmo. Os judeus que aderiram a vários movimentos socialistas e revolucionários viam o sionismo como um ataque à igualdade e como uma tentativa de desviar as massas judaicas da busca pela mudança social. Por fim, aqueles que, graças à Emancipação, se tinham integrado na sociedade em geral e se tinham tornado liberais convictos estavam convencidos de que o sionismo era, tão gravemente quanto o anti-semitismo, uma ameaça ao seu futuro. O nacionalismo judeu foi, assim, rejeitado porque era visto como um perigo não só para o judaísmo, mas também para o estatuto social e os valores políticos dos judeus emancipados (What is Modern Israel? Londres: Pluto Press, 2016, p.122).

Eis mais em detalhe algumas das razões que têm oposto judeus e não judeus ao sionismo[i]. O sionismo é uma forma de nacionalismo que contraria a ideia da diáspora. O fundador do sionismo, Theodor Herzl, considerava que, ao pretenderem a expulsão ou emigração dos judeus, os anti-semitas eram os mais fiéis amigos e aliados do sionismo. O sionismo tem a sua raiz na experiência dos judeus da Europa Oriental, sobretudo depois dos pogroms da Rússia de 1881 que levaram à emigração dos judeus para o Ocidente, criando tensões entre os judeus orientais e os judeus ocidentais. O sionismo reforça a ideia de separação do povo judaico, quando este sempre lutou por integração nas sociedades onde vivia com autonomia para poder praticar livremente a sua religião, já que o judaísmo é uma religião e nada mais. O escritor e publicista judeu austríaco Karl Kraus considerava que a essência do sionismo era o anti-semitismo O sionismo serviu os interesses do imperialismo europeu (britânico) para controlar o acesso aos recursos naturais do Médio Oriente. O Estado de Israel foi pensado como uma colónia europeia de povoamento que garantisse acesso aos recursos naturais e à liberdade do comércio com o Oriente. No seu livro publicado em 1896 Der Judenstaat (O Estado judeu), Theodor Herzl afirma:

Supondo que Sua Majestade, o Sultão, nos concedesse a Palestina, poderíamos, em troca, encarregar-nos de administrar todas as finanças da Turquia. Formaríamos ali uma parte da muralha da Europa contra a Ásia, um posto avançado da civilização em oposição à barbárie. Como Estado neutro, manteríamos contacto com toda a Europa, que teria de garantir a nossa existência (The Jewish State, London, 1946: 30)

O sionismo foi promovido por anti-semitas, como Arthur Balfour, que queriam ver-se livres dos judeus da Europa. Em 1850, não haveria mais de 9700 judeus na Palestina. O sionismo judaico combina-se hoje com o sionismo cristão, que assenta nas ideias da supremacia racial e da extrema-direita, ideias contra as quais os judeus lutaram com grande tenacidade e sacrifício nos últimos cem anos. O sionismo cristão é uma forma disfarçada de anti-semitismo. O sionismo fundamentalista que domina hoje a política de Israel é o grande responsável pelo crescimento do anti-semitismo no mundo, inclusivamente pelo modo como critica os judeus anti-sionistas.  Todos estes argumentos fortalecem a posição de que que o sionismo, longe de servir a causa da religião judaica no mundo, pode significar, a prazo, um golpe duro contra ela.

         Benjamin Netanyahu, o horror da guerra

A lógica do extermínio preside à filosofia securitária e expansionista de Israel. A guerra contra o Islão é religiosa e, como tal, só pode terminar com a extinção ou rendição incondicional do mais fraco. O inimigo a abater tem de ser incessantemente inventado, da Palestina à Síria, do Irão ao Líbano. Acima de tudo, o inimigo não pode renascer das cinzas, daí que seja crucial assassinar mulheres e crianças. A paz é anátema. O expansionismo funda-se num elemento messiânico cujas origens se podem encontrar na obra de Moses Hess, Rome and Jerusalem (1862). É iminente a vitória da ideia judaica, o “Sabbath da história”, como ele a designa. Tem hoje ao seu serviço um novo instrumento messiânico, a inteligência artificial, a nova divindade tão irresponsável quanto os deuses, mesmo quando comete o escandaloso erro de confundir uma escola com um quartel militar, como aconteceu recentemente no Irão.

Tal como Hitler, Netanyahu tem pressa e é incapaz de parar. Tal como Hitler, inventa ou dramatiza agressões para justificar a continuidade da guerra e a tornar cada vez mais violenta. Um pouco de história ajuda a esclarecer.

Foi a pressa de Hitler que ditou o início da Segunda Guerra Mundial com a invasão da Polónia. Militares e diplomatas manifestavam-se contra essa pressa. Göring avisava que a economia já estava a ser afectada pelo esforço exigido pela preparação da guerra. Para não falar dos ingleses de Chamberlain, que não tiveram outra estratégia senão as negociações de paz, Mussolini, parceiro do Eixo, enviou a Hitler em 30 de Maio de 1939 um memorandum secreto em que pedia o adiamento do início da guerra (se essa fosse a decisão) até ao fim de 1942. Hitler não respondeu e o seu silêncio foi interpretado por Mussolini como concordância. Mas, enquanto simulava ser a favor das negociações, Hitler exortava os seus comandantes em 22 de Agosto: “Fechem os vossos corações à piedade. Ajam brutalmente”.

Propunha um tratado de paz com a Polónia que não era mais que a total capitulação da Polónia. Celebrava um pacto de não agressão com o seu declarado “irreconciliável inimigo”, a União Soviética, apenas para ganhar tempo, já que o seu objectivo era conquistar Lebensraum (espaço vital) a Leste e, portanto, um pacto para violar logo que conveniente, ou seja, um ano depois. Definiu a invasão da Polónia como uma blitzkrieg, uma guerra para durar pouco tempo, e justificou-a com a invenção de uma suposta agressão polaca. Num acto de bandeira falsa, os S.S. atacaram a estação de rádio da pequena cidade alemã Gleiwitz, junto à fronteira polaca, vestiram criminosos alemães com as fardas militares polacas e mataram-nos de seguida. Estava encenada mais uma fatal agressão polaca. A 1 de Setembro, Hitler invadia a Polónia. Depois seguiram-se seis anos de carnificina que começou contra combatentes inimigos para terminar contra os milhões de civis inocentes vítimas do holocausto.

            Donald Trump: o horror da paz

Donald Trump é simultaneamente o aliado incondicional de Netanyahu e auto-proclamado anjo da paz. Só no segundo mandato Trump vangloria-se de ter promovido 10 tratados de paz ou cessar-fogos: entre Israel e o Líbano, entre Israel e o Hamas, entre a Arménia e Azerbaijão, entre a República Democrática do Congo e o Ruanda, entre a Índia e o Paquistão, entre Israel e o Irão, entre o Camboja e a Tailândia, entre a Sérvia e o Kosovo, entre o Egipto e a Etiópia. A realidade diz-nos que toda esta actividade em prol da paz tem sido um show de política-espectáculo. Não conseguiu quaisquer resultados permanentes e, no melhor dos casos, permitiu apenas tréguas temporárias. A Ásia Ocidental está a arder ou em escombros.

Mas o mais grave é que quando está em causa um de dois objectivos – o acesso a recursos naturais ou os interesses do seu aliado incondicional, Israel – as propostas de paz de Trump significam, tal como as de Hitler, a capitulação da “outra parte”, o eufemismo para designar o “inimigo irreconciliável”. Em vez de proposta de paz, há o ultimato.

Irão é posto perante a opção entre ser expropriado ou ser destruído. A expropriação inclui não só petróleo, mas os 440 kg de urânio enriquecido a 60%, enquanto a destruição inclui o desaparecimento de uma civilização de 6000 anos. Isto não é uma proposta de paz, é uma provocação ou uma imposição de rendição. Sabemos que os EUA têm uma experiência histórica de destruir civilizações pois foi assim que nasceram. Mas como a história não se repete e por vezes tem uma astúcia cruel, é possível imaginar que quem nasce, destruindo civilizações também pode morrer, destruindo civilizações. De todo o modo, a paz que é proposta é,  a “paz forte” de que fala Netanyahu nos seus escritos,[ii] que não é mais do que a paz do mais forte, a paz do fait accompli. Trata-se, pois, de uma paz violenta. Uma paz horrorosa ao serviço de uma guerra horrorosa.

               Porquê as duas cabeças de Hitler?

Se analisarmos com atenção os discursos e as práticas políticas de Netanyahu e de Trump verificamos que os doze pontos da ideologia de Hitler estão bem presentes. Mas estão presentes de modo diferente e sobretudo com estilos diferentes, e essa diferença não é casual. Visa fortalecer a eficácia de ambos. Enquanto Hitler se encarregava sozinho (com Ribbentrop e Göring e outros) de propor negociações de paz e de boicotá-las quando conveniente e sempre com o objectivo de intensificar a guerra, hoje há uma divisão de trabalho entre dois Hitlers: o que propõe negociações e planos de paz (Trump) e o que as boicota e intensifica a guerra (Netanyahu).  Só por ingenuidade se pode pensar que não estão combinados ou que, pelo menos, não há entre eles um pacto de aceitar tudo o que o outro faz desde que sirva o objectivo comum de destruir os povos islâmicos do Médio Oriente para controlar os recursos naturais e neutralizar a China. A tragédia (e comédia) do nosso tempo é que são precisos dois Hitlers para fazer um Hitler. Um Hitler de duas cabeças, o monstro do nosso tempo.

NOTAS

[i] A bibliografia sobre este tema é imensa e pode ser consultada a partir de textos como: Mazin B. Qumsiyeh, Sharing the Land of Canaan. Londres: Pluto Press, 2004: 67-84 (com bibliografia recomendada); Robert Wistrich “Anti-zionism and anti-semitism” Jewish Political Studies Review , 2004, vol.16, 27-31; Walid Sharif “Soviet Marxism and Zionism”, Journal of Palestine Studies, 1977, Vol. 6, No. 3, 77-97; Mim Kemal Oke “The Ottoman Empire, Zionism, and the Question of Palestine (1880-1908)” International Journal of Middle East Studies,1982, Vol. 14, No. 3: 329-341; Sara Roy, Mark Braverman Ilan Pappe et al Prophetic Voices on Middle East Peace (Claremont Studies in Contemporary Issues Book 1) Claremont Press, 2016; Abdul-Wahab Kayyali “Zionism and Imperialism: The Historical Origins” Journal of Palestine Studies, 1977, Vol. 6, No. 3: 98-112.

[ii] Laura Drake “A Netanyahu Primer” Journal of Palestine Studies, Vol. 26, No. 1 (Autumn, 1996), pp. 58-69; Shalom Lipner “The Chosen People vs. Their Chosen People Israelis Are the Victims of the Political Shenanigans of Their Elected Leaders” Atlantic Council (2020); Anthony H. Cordesman, “ Israel and the Palestinians: From the Two-State Solution to Five Failed ‘States’” Center for Strategic and International Studies (CSIS) (2021).

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