Já não se pode ser católico

(João Gomes, in Facebook, 16/04/2026, Revisão da Estátua.)


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Há um novo mandamento a circular pelo espaço público global: já não se pode ser católico – ou, pelo menos, já não se pode sê-lo em paz, sem levar com um comentário presidencial, uma farpa geopolítica ou um sermão improvisado vindo da Casa Branca.

O mais recente episódio desta curiosa catequese política envolve Trump e o Papa Leão XIV. De um lado, o presidente norte-americano, sempre pronto a distribuir avisos ao mundo como se estivesse a narrar um reality show de proporções bíblicas; do outro, um líder religioso que responde com a irritante serenidade de quem insiste que, apesar das diferenças, ainda é possível viver em paz. Convenhamos: não é exatamente o tipo de resposta que alimenta noticias inflamadas.

Trump, no entanto, parece ter uma dificuldade estrutural com a existência de figuras que ocupem um espaço de autoridade simbólica sem pedir autorização prévia – sobretudo quando essas figuras não seguem o seu guião do conflito permanente. Há algo competitivo nesta postura: como se o palco global fosse pequeno demais para dois protagonistas, e qualquer mensagem de concórdia fosse, por definição, uma afronta pessoal.

O resultado é este teatro algo absurdo em que um presidente se sente na obrigação de “informar” um Papa sobre os males do mundo, como se o Vaticano fosse uma espécie de call center desatualizado da realidade internacional. E, no entanto, a resposta papal – calma, ponderada, quase desarmante – expõe o contraste: de um lado, o ruído grosseiro; do outro, a tentativa de manter algum sentido de humanidade comum.

Para quem observa de fora – e, neste caso, até para um ateu agnóstico sem grande vocação para missas ou rosários – a situação tem algo de revelador. Não sobre a Igreja, nem sobre a fé, mas sobre a dificuldade de Trump coexistir com qualquer forma de autoridade que não seja a sua própria. É como se a existência de outros “papéis importantes no mundo” fosse, em si mesma, uma provocação.

E não se fica por aqui. A lógica parece expansiva: hoje é o Papa, amanhã poderão ser líderes de outras confissões, depois talvez qualquer voz que ouse falar em moderação, diálogo ou complexidade. Afinal, num mundo simplificado a slogans, a nuance é quase uma forma de dissidência.

Entretanto, cresce à volta de Trump uma espécie de ecossistema religioso-político que mistura fé, espetáculo e populismo numa proporção difícil de digerir. Não é tanto religião quanto performance – uma liturgia de aplausos, certezas absolutas e inimigos bem definidos. Nesse ambiente, a dúvida é fraqueza, a empatia é suspeita e a paz… bem, a paz não dá audiências.

Talvez seja isso que mais incomoda: a ideia de que alguém, em pleno século XXI, ainda insista que pessoas diferentes podem coexistir sem se destruírem mutuamente. É um conceito quase revolucionário, pelo menos à luz de certas práticas políticas contemporâneas.

Num mundo onde tudo parece cada vez mais polarizado, ser católico – ou simplesmente defender a convivência pacífica – tornou-se, de repente, um ato quase subversivo. Quem diria?

5 pensamentos sobre “Já não se pode ser católico

  1. Esta choldra putrefacta está finalmente a ser obrigada a perceber (lentamente, diga-se) que afinal o grande, o maior inimigo do ocidente acaba por ser o antes propalado grande amigo, o auto-proclamado rei do mundo e candidato (imagine-se) ao Nobel da paz. E como um choque das trombas contra a parede nunca vem só (ainda bem), acontece que no fim das contas, o antes execrado gande inimigo, a China (cruz, credo, ai o bicho) está a tornar-se a única força capaz de colocar algum bom senso, alguma ordem na mais estúpida das desordens lançada pela dupla americano-sionista contra o Irão sem sequer haver qq razão minimamente seja o que for. Queixa-se o burgesso e com ele todo rebanho da necessidade de reabrir o estreito. Então mas antes não estava a berto? E corja infecta não queria guerra? Pois já ai a têm. Queixam-se do quê? Da sua cegueira manhosa? Da treta da paz pela força? Ora aí está ela bem fresquinha? Querem mais alguma coisinha?

  2. Ontem a polícia estadunidense andou a fazer varreduras na casa de John Prevost, um dos dois irmãos do Papa.
    O homem recebeu nada mais nada menos que uma ameaça de bomba em casa.
    Trump efectivamente não tem religião nenhuma a não ser a do seu próprio ego.
    Mas consegue efectivamente congregar fanáticos grunhos, muitos vindos de cultos de cristianismo militante e com espírito de cruzada.
    E arrepiante pensar nestes termos no Século XXI, mas no Século XXI ainda há gente desta.
    As cruzadas foram para a elite uma forma de conseguir territórios e saques. Não tinham nada a ver com religião.
    Mas alicercaram se em turbas de fanáticos dispostos a matar em nome de Deus. Sem o fanatismo religioso de boa parte da população atrocidades como a cruzada das crianças nunca poderiam ter acontecido.
    E hoje estamos de volta a esse tempo.
    Quem quer que ameaçou a casa de John Prevost estava disposto não a matar mas a virar a vida do avesso a vida de alguém só por ser familiar de alguém descrito como o Anti Cristo por um monte de pastores protestantes fanáticos.
    Não tenho religião alguma.
    Acredito que se houvesse um Deus superior já teria deitado fogo ao Ocidente.
    Se acreditasse nalgum Deus seguiria a religião que disse que Deus não mandou os hebreus andar a matar outros povos a torto e a direito.
    Mas isso sao contas de outro rosário.
    E admissível em pleno Século XXI que alguém seja ameaçado por um qualquer fanático por ser irmao de alguém que fala de paz.
    E inadmissível que alguém seja definido como “terrível”, não sendo chamado coisa pior dadas as evidentes limitações discursivas de quem insulta, por falar de paz.
    Em resumo, o que foi terrível foi não terem acertado mesmo naquela abóbora.
    Desculpem la os defensores de que na realidade quem tem culpa disto tudo são outros mas sem alguém como Trump seria muito difícil para qualquer Estado Profundo justificar toda esta série de canalhices.

  3. Falar de paz com a Rússia nem pensar nisso e bom. Somos logo putinistas, fascistas e tudo o que nos quiserem por.
    No genocídio em Gaza a conversa foi a mesma. Se condenassemos como um atentado não provocado, injustificado e um dos mais nefastos crimes que a humanidade já conheceu o levantamento do guetto de Gaza de 7 de Outubro de 2023 ainda podia ser que se dessem ao trabalho de ouvir o que dissessemos a seguir.
    Caso contrário estamos apoiantes do terrorismo. Como se ser apoiante de Israel não e ser apoiante do terrorismo mais cruel e exercício há 80 anos.
    Mas nem sempre.
    Pessoalmente cortei radicalmente com um contacto de quase 20 anos por o animal ter acusado os desgraçados de ter “mexido num vespeiro pelo que agora era aguentar, mais de 50 mil mortos depois.
    Porque isto sempre haverá vidas que valem mais que outras.
    E agora temos animais, sem ofensa aos animais de penas e de quarto patas, que acham que Israel e os Estados Unidos teem direito a massacrar iranianos porque o regime teria morto milhares de manifestantes.
    Manifestantes que Trump já reconheceu ter armado mas para essa gente isso não interessa nada.
    Por isso resta nos mandar gente dessa ir ver se o mar da tubarão branco faminto e agradecer as vozes lúcidas e corajosas que ainda há.

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