Oh, how I love the smell of napalm in the morning!

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/01/2018)

mst

Miguel Sousa Tavares

1 Não há como passar um tempo fora da querida pátria para voltar e perceber que nada do que acontece no mundo é mais importante do que os ‘casos’ que nos consomem e ocupam um dia atrás do outro. Qual ameaça norte-coreana, qual acordo de Governo na Alemanha, qual discussão aberta sobre a sanidade mental do Presidente americano, qual guerra surda de poder no Médio Oriente, qual desmoronar da catástrofe chamada Theresa May, qual visita de Macron à China, no papel de Senhor Europa? Nada disso serve para ocupar a primeira parte de um telejornal, a primeira parte de um jornal diário. Deixemos o mundo de fora, temos coisas bem mais urgentes e interessantes com que nos ocuparmos!

Por exemplo: o suicídio público a que o PSD se entregou, numa longa, absolutamente indigente e, portanto, palpitante, campanha eleitoral para escolher quem será o cordeirinho que António Costa irá comer de ensopado daqui a menos de dois anos. Mas essa palpitante campanha acontece apenas entre eles, como se ganhar o partido fosse suficiente para ganhar o país. Na TVI, apesar dos esforços de Judite de Sousa, nenhum dos dois candidatos pareceu preocupado em atrair a atenção do país. Um peru e um galo combatiam dentro de uma capoeira — que é, por definição, um local fechado. E o tema principal da discussão remetia-nos de volta a 2004 e às “trapalhadas” do Governo de Santana ou a saber quem tinha sido mais leal ao Governo de Passos Coelho. Mas haverá por aí alguém que tenha saudades de 2004 ou de 2014?

2 Grande questão jurídico-constitucional é saber se a PGR pode ou não ser reconduzida após o mandato de seis anos previsto na Constituição. Como sempre os nossos mestres juristas gostam que as leis nunca sejam claras, mas sim ambíguas, o que lhes dá duas oportunidades de brilhar: quando as escrevem e, depois, quando são chamados a interpretar o que escreveram. Não é, seguramente, deficiência técnica: é um modo de vida. Neste caso concreto, a ambiguidade consiste em a letra da lei permitir a recondução e o espírito da lei apontar para o oposto. O que deixa a questão para ser resolvida no âmbito de uma decisão política, que cabe ao Governo e ao PR.

Eis o que o PSD — que nomeou a actual PGR — mais queria. Não podendo agora reconduzi-la como fez com o governador do Banco de Portugal, que reconduziu sem saber se voltaria a ser Governo, o outro “partido de governo” quer, todavia, manter um “direito de pernada” sobre a nomeação de futuros PGR. Eles podem nomear; quem vier a seguir só pode reconduzir quem eles nomearam, sob pena da mais grave das suspeições: querer controlar o Ministério Público. Ora, eu acompanho o consenso geral sobre a boa prestação de Joana Marques Vidal — sobretudo sobre a discrição e ausência de vedetismo com que vem exercendo o cargo e a sabedoria com que gere essa ingovernável instituição que é o MP. Mas já não acompanho o resto, que é apenas um argumento ad terrorem: o de dizer que a sua não-recondução equivaleria a afastar quem se atreveu a “enfrentar os poderosos”. Tal não é verdade, desde logo porque Sócrates, por exemplo, já tinha sido alvo do MP no processo Freeport. Mas não é verdade, sobretudo, porque nenhum PGR controla, de facto, o Ministério Público. Com maior ou menor protagonismo, limitam-se a desempenhar o papel de uma rainha de Inglaterra, com direito anual a um Discurso da Coroa escrito por ela. Duvido que, enquanto magistrada, Joana Marques Vidal tivesse deixado a investigação da ‘Operação Marquês’ durar tanto tempo e atravessar tantas peripécias que em nada prestigiaram a instituição. Ou que tivesse subscrito a junção da ‘Operação Marquês’ à do BES e da PT, que nada têm que ver com ele directamente e que apenas servirá para eternizar o julgamento, criando um daqueles megaprocessos que tanto se diz deverem ser evitados, mas imposto pela tentação de um magistrado de se arvorar em justiceiro de todo o regime. Ao contrário do que os juízos apressados gostam de concluir, no nosso sistema judiciário, o perigo não está em o PGR ficar dependente do poder político, mas sim em ser dependente e refém dos magistrados que alegadamente chefia. E isso faz da escolha de um PGR uma questão menos importante do que se quer fazer crer.

3 Verdadeiramente menor, mesquinho mesmo, é o caso da ida ao futebol do ministro Mário Centeno com o filho. O jornalismo terrorista do “Correio da Manhã” e a turba-multa das redes sociais acham que um ministro só tem duas hipóteses: ou não vai ao futebol ou vai para a bancada para ser sovado durante 90 minutos pela coragem colectiva dos pacatos cidadãos que habitam os nossos estádios. Depois admirem-se se qualquer dia só quiser ser governante quem tiver a ganhar com isso. Aí está o PSD para o exemplificar.

4 O primeiro presidente do Novo Banco, Vítor Bento, veio agora admitir que a resolução do BES, que lhe deu origem, vai custar-nos dez mil milhões (menos um do que a minha própria estimativa). Mas, acrescentou ele, não havia alternativa. Como? Terei lido bem? Dez mil milhões é alternativa a alguma coisa? Gostaria agora de ouvir agora a opinião dos que louvaram a “coragem” da “solução” que Carlos Costa, Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque encontraram para o BES… E isto não é um julgamento sobre a gestão do BES, mas sobre a sua resolução e a forma como foi criado e gerido o Novo Banco. Acharam que era só mudar a administração e o nome e emprestar-lhe cinco mil milhões — que, depois, seriam obviamente devolvidos aos contribuintes. O resultado está à vista. Mas não há maneira de aprendermos: aí está o Montepio para o exemplificar, mais uma vez.

5 Nos Globos de Ouro de Hollywood o traje obrigatório para as mulheres era o vestido preto, símbolo da campanha “Time’s Up”, contra os violadores, os abusadores, os assediadores sexuais machos da indústria cinematográfica americana. Na plateia — onde, segundo a nova polícia de costumes, se sentavam e aplaudiam alguns deles ainda não expostos publicamente — tudo o que era actriz consagrada, actriz na berra ou candidata a actriz usava o símbolo da campanha: #metoo. Todas — as passadas, as presentes e as futuras — autodeclaradas vítimas dos abusos de Harvey Weinstein e outros abusadores como ele. Todas jurando agora terem sido alvo de propostas desonestas, beijadas sem consentimento, apalpadas, encostadas à cama sem defesa. E quantas, pensei para comigo, treparam assim no meio sem nunca terem aberto a boca antes de treparem? E quantas, no clima de caça aos abusadores agora instalado, se atreverão a não dizer “me too” e a vestir a farda oficial se quiserem trepar no meio? Pensamentos obscenos, reconheço, que provavelmente me tornarão alvo de uma denúncia-crime da nossa sempre vigilante Comissão para a Igualdade. Mas eis que o manifesto das 100 actrizes, escritoras e produtoras francesas foi muito além dos meus obscenos pensamentos, ao denunciar “as mulheres auto-retratadas como pobres indefesas sob o mando dos diabos falocratas… numa nova moral vitoriana oculta sob esta febre de levar os porcos ao matadouro”. Ou, como disse a escritora Abnousse Shalmani, uma das signatárias, “este feminismo transformou-se num novo estalinismo, com todo o seu arsenal: acusação, ostracismo, condenação”.

Para já, boicota-se o Polanski, esse porco violador que deixou uma obra inesquecível no cinema. A seguir, virá o Nabokov e a sua “Lolita”, o Hemingway e sua jovem italiana da Finca Vigia, o García Márquez e a sua jovem puta triste, e por aí fora — na literatura, no cinema, na pintura — até que não reste memória de algum génio considerado lascivo. E viveremos todos de consciência tranquila. Até mesmo as mulheres que assediam homens e que oficialmente não existem.

(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)

Anúncios

Time after time

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/12/2017)

quadros

João Quadros

A personalidade do ano da Time em 2017 são as pessoas que denunciaram casos de assédio sexual. De uma forma ou de outra, Donald Trump tinha de ser capa. Segundo ouvi dizer, o Presidente dos Estados Unidos, assim que soube desta notícia, foi abrir a Time nas páginas centrais, na vertical, na esperança que uma delas aparecesse seminua. Se eu pudesse escolher a palavra do ano, escolhia “assédio”, seguido de “alegado”.

No último ano, “descobrimos” que Hollywood é um enorme metro cheio na estação do Chiado. Tudo a apalpar o que pode. É triste descobrir que a meca dos sonhos é povoada pela mesma malta que buzina em Lisboa quando passa por uma jeitosa.

São pessoas com síndrome de Tourette nas mãos, que me desculpem os que o têm. Ser capa da Time não é para todos mas, infelizmente, neste caso, é para quase todas.

Se eu fosse o Trump, podia dizer – “eh, eh, o assédio é capa da Time, devem ter dormido com poucos para conseguir isto!” Ou melhor, “se não fosse eu, o assédio nunca tinha sido capa da Time. Ainda dizem que tenho mão pequeninas.” Para nós, todas estas revelações são chocantes. Apesar de termos um Presidente dos afectos – e beijoqueiro, é verdade -, não temos um Presidente dos apalpões.

Todos tivemos desgostos quando soubemos que o nosso actor preferido, ou realizador favorito, era, na verdade, um tipo todo nu com uma gabardina. Não sou dos que acha que a obra seja apagada. Não podemos confundir o artista com a obra. O importante é que se um dia dermos de caras com esse artista que nos desiludiu, em vez de lhe pedirmos um autógrafo, é optar por um pontapé nos testículos. Seguido de um – “Gosto muito do seu trabalho”.

A esta hora, a caixa de comentários está cheia de garbosos machos a dizer que o Quadros é feminista. Não sou, tenho defeito de fabrico. Dou por mim a olhar para as fotos das assediadas e a dizer – fazia, não fazia, fazia, fazia, arrrrrrrgggghhh! Quem é que pôs aqui uma fotografia da Teodora Cardoso?! Vocês têm cá uma piada!

O facto de o assédio ser capa da Time é um momento importante. Sinceramente, eu estava à espera que fosse o Centeno. É uma grande vitória e um tema intemporal, pode a revista ficar esquecida num consultório de dentista que continua a ser sempre actual, infelizmente. Relembro que, há vinte e tal anos, a capa da Time foi a fome em África.


TOP-5

Time

1. Raríssimas: Vieira da Silva está “de consciência tranquila” – Sou só eu que acho que o ministro fica com gaguez quando fala da Raríssimas? Se calhar, aquela senhora que estava com ele na conferência de imprensa era a terapeuta da fala.

2. Assédio. Empresas norte-americanas estão a optar por jantares de Natal sem álcool – É tornar a coisa ainda mais insuportável.

3. Parlamento Europeu atribui nome de Mário Soares a sala de reuniões em Bruxelas – Onde os deputados costumam ir fazer a sesta.

4. Isabel dos Santos transferiu 238 milhões poucas horas antes do congelamento de bens – É como aquelas senhoras de idade que sabem que amanhã vai estar de chuva porque lhes dói o sítio onde fracturaram o braço.

5. “Ninguém deve ser membro do Governo contrariado”, diz Santos Silva sobre a demissão de Manuel Delgado – Resumindo, “duck face”, sim, beicinho, não.

O que querem os homens?

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 10/11/2017)

assédio

Num ano sem eleições presidenciais na fabulosa e hoolywoodesca América, a October surprise foi protagonizada pelas mulheres que denunciaram a conduta sexual de Harvey Weinstein. O próprio reconheceu a veracidade desses testemunhos, iniciando-se com a queda desse gigante da indústria cinematográfica uma avalanche de casos similares com outras figuras do mundo do espectáculo. Corrente que não se sabe quando nem onde irá parar. Aliás, a dimensão do fenómeno é tal que a perspectiva de se descobrirem “oficialmente” os “podres” da maioria das estrelas consagradas seja qual for a sua área de actividade profissional, obrigando ao seu ostracismo e ao apagamento da sua memória, já não surge como um cenário de desvairada ficção à luz do que se está a fazer com Weinstein e Kevin Spacey.

Estamos a assistir a um momento de mudança de paradigma? Foda-se, claro que sim. Basta analisar o caso inicial, o qual era do conhecimento generalizado do meio durante décadas e que só foi denunciado nesta altura – apesar de tantas mulheres, e tão poderosas no seu estatuto e recursos financeiros, terem sido vítimas ou saberem dos abusos. Apenas uma coerção social tácita, nascida de um calculismo dominante, explica o prolongamento e extensão dos actos de alguém tão exposto pela sua notoriedade e descontrolo. Portanto, independentemente do imprevisível desfecho judicial e das voláteis convulsões morais, a dimensão social parece suficientemente alterada para levar a uma mudança cultural.

Seguir-se-á uma nova era, sendo que por agora a sexualidade masculina é o novíssimo continente desconhecido. Como se pode constatar neste artigo – Why men use masturbation to harass women – os especialistas consultados não fazem sequer a mínima ideia do que poderá estar a gerar comportamentos como os atribuídos ao hilariante LOUIS C. K. Porém, a resposta encontra-se à vista dos curiosos, basta assistir aos seus números em palco para tropeçar em conteúdos retintamente pessoais. E pode-se logo agarrar numa primeira questão: será possível separar a qualidade do seu humor, a eficácia dos seus quadros teatrais, do drama em gente onde o material criativo é arrancada da sua privacidade? Teremos de inverter a vexata questio freudiana, “O que querem as mulheres?”, e darmos atenção a estoutra, potencialmente ainda mais enigmática, “O que querem, afinal, os homens famosos e poderosos que batem pívias à frente do mulherio?”

Todos os homens são sexualmente predadores. Se não o forem, algo de errado se estará a passar. Não há moral nesta realidade, apenas biologia. Uma mulher não poderá jamais saber em que consiste esse estado – ou seja, a mulher não sabe o que é ter “tesão” – tal como um homem não poderá jamais saber o que seja ter o período ou estar grávido. Assim, as mulheres não compreendem o desejo masculino, embora se adaptem com maior ou menor facilidade a ele. Igualmente, os homens não entendem o desejo feminino, e, acima e antes de tudo, não concebem que a mulher possa ter uma radicalmente diferente motivação e dinâmica sexual. Era aqui que o tio Freud patinava, projectando na fêmea o seu masculino e, portanto, redutor e erróneo entendimento do que seja a experiência feminina. Este estado predatório nos homens não é uma escolha, antes uma condição que a biologia e a cultura têm ambas reforçado. O falocentrismo que origina nasce tanto da exterioridade anatómica do pénis como da procura das recompensas químicas geradas nos cérebros masculinos com a fácil ejaculação e, por fim, cristaliza-se numa celebração simbólica inserida numa “luta de géneros” muito parecida com uma luta de classes.

Há uma história imensa por contar. É a história do homem como sexo fraco. E ridículo. Por isso, violento. Por isso, violentador por exigência mecânica. E tão periclitante e efémero na sua erecção sempre triunfal. Que seria deste mundo se as mulheres contassem tudo o que sabem desses seres a quem suportam a fragilidade logo na família, tantas vezes, e ao longo de toda a vida, quase sempre?

Elas ainda não estão capazes de contar o que testemunham directa e indirectamente. Na família, nos amigos, nas festas, no emprego, nas férias, nos consultórios, nas saídas, nas conversas, nos quartos. Mas tinha de se começar por algum lado. Começou-se por um celebérrimo ogre. Só que esse, paradoxalmente, era um alvo fácil. Venham os mais difíceis, os ogres que as mulheres amam. Os ogres que as mulheres perdoam. Os ogres que as mulheres protegem.


Fonte aqui