Divagando ao sabor das teclas

(Carlos Esperança, in Facebook, 14/01/2026)

José Miguel Júdice

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Procurando não ser excessivamente frívolo nem demasiado sério, numa época em que já não sabemos quem levar a sério, nem tudo é motivo de tristeza e perplexidade.

Há, aliás, em Portugal, motivos de satisfação.

Marcelo deixou de aparecer em todos os canais televisivos, a todas as horas, e a França, para fingir que Macron está vivo, anunciou a abertura de um consulado na Gronelândia.

Donald Trump mostra que é o rei e que a razão da força é a única razão de que precisa.

Paulo Rangel chamou o embaixador do Irão a pedir explicações pelo assassínio, nas ruas, dos manifestantes contra ditadura teocrática dos Aiatolas. Se tivesse feito o mesmo com o embaixador de Israel perante o genocídio em Gaza e o embaixador dos EUA pela invasão da Venezuela, com sequestro e rapto de Maduro, deixaria um lugar na História.

Trump insiste que a Gronelândia será dele, está por esclarecer se a título pessoal, como o ex-Congo Belga era do rei Leopoldo II, ou se dos EUA. Em Portugal teme-se que o desmiolado ministro Nuno Melo venha a ter conhecimento do Tratado se Tordesilhas e, na sua imprudência, recame a Gronelândia e possamos ver os Aliados a morrer de riso.

E para falar de coisas sérias, Portugal vai aceder a um empréstimo de 5,8 mil milhões de euros sob os auspícios do Mecanismo de Assistência à Segurança para a Europa (SAFE) sem que ninguém se preocupe com o pagamento do capital e dos juros.

Foi denunciado um caso de assédio por Cotrim de Figueiredo. É tão grave não aceitar a presunção de inocência do acusado como desvalorizar a queixa da vítima num país onde a mulher surge sempre como culpada. Mas há uma nota de humor do mandatário em sua defesa: «Um tipo inteligente e sofisticado tentava seduzir uma senhora a dizer aquelas coisas horrorosas?».

Foi aqui que percebi a diferença entre o Chega e a IL. A IL é o Chega da classe alta e o Chega o sonho dos pobres e ressentidos. Obrigado José Miguel Júdice.

A entrevista a Boaventura de Sousa Santos – reflexões

(Raquel Varela, in Facebook, 01/04/2025, Revisão da Estátua)


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Vi a entrevista de Boaventura Sousa Santos que me merece vários comentários, longe dos apedrejamentos costumeiros.

O primeiro é a gravidade do que ali foi dito – destruído nos media e na academia, do qual foi afastado de vários lugares, disse que nunca viu um único documento ou prova contra si. Isto em qualquer Estado de direito basilar era intolerável. Os traços autoritários dos Estados vêm com pés de lã: nos EUA estas políticas começaram por alegadamente proteger as vítimas (mulheres, negros) e hoje servem para despedir mulheres e negros, homens e brancos, desde que se oponham a Trump. A suspensão dos direitos nunca pode ser defendida para ninguém e muito menos por gente de esquerda. Porque acaba a voltar-se contra as pessoas de esquerda. Abre-se a caixa da pandora da inquisição.

A ténue crítica de Boaventura aos media. Os mesmos jornais que têm a agenda do Metoo e nunca publicaram nada sobre dezenas de casos de queixas de assédio por professores de direita e de extrema-direita – alguns deles com processos disciplinares concluídos.

E, aqui, creio que Boaventura não compreendeu inteiramente o que se passou. A sua posição face à Ucrânia não foi determinante.

Boaventura é um dos poucos intelectuais deste país que pensa realmente (e eu discordo das suas teses e sempre discordei, nunca o “bajulei” e nunca deixei de o criticar), mas as suas teses não são estruturalmente incómodas. Por isso o seu projeto Alice, que citou amplamente, foi acarinhado pela UE porque defende a tese de que é possível regular o capitalismo na Europa assegurando direitos. O mesmo para as teses da epistemologia do sul – teses “campistas”, que se opõem à noção de luta de classes substituindo-a por uma noção de lutas autónomas, norte versus sul, homens versus mulheres, negros versus brancos.

Creio que a verdadeira razão foi outra. A Universidade portuguesa mergulhou na Nova Gestão Pública. É preciso afastar os catedráticos, para substituir as direções das universidades por gestores.

Boaventura é o alvo perfeito: o catedrático emérito de esquerda, coordenador de um projeto milionário, abatido, em direto. Se ele foi, os outros que tenham medo! Foi essa a mediatização. O último reduto da autonomia universitária está na figura do catedrático, que por conservadorismo resistia ao produtivismo gestionário.

Com os Conselhos Gerais das universidades dominados por externos á Academia, e com as faculdades a mudar estatutos para que não-catedráticos sejam eleitos, em breve teremos professores-gestores auxiliares a mandar nos professores catedráticos. Foi o que aconteceu nos hospitais, onde enfermeiros-gestores mandam em médicos; e irá acontecer também nos advogados, com a mudança do estatuto dA carreira imposta pelo PRR. A ideia é acabar com a autorregulação do trabalho.

Não vou perder tempo a explicar que o catedrático é uma figura fundamental. Pior que a Universidade conservadora medieval é a Universidade gestionária, liderada por métricas e plataformas, geridas por gestores-professores, que são autênticos sociopatas. E em que, claro, se criarão – e já criaram – condições para que o assédio sexual e moral seja muito pior do que no velho sistema medieval.

A isto juntam-se as avaliações da FCT, que divide o dinheiro pelos laboratórios de Humanidades – abatendo o CES sobra mais para os concorrentes.

E agora a parte mais importante da entrevista. O erro fulcral. Boaventura disse que estas mulheres não estiverem à altura em entrevistas, textos, artigos e contratos e por isso nunca conseguiram um lugar.

Tenho sincero desprezo pelos métodos inquisitoriais destas mulheres mas o que não falta neste país são milhares de mulheres e homens doutorados que concorrem aos projetos da FCT e ganharam, escreverem bons artigos, fazem investigação, são excelentes docentes e…não têm lugar. E é isso que cria este pântano – não é que “não estiveram à altura“. É que 75% do trabalho universitário é feito por precários. A quem prometem que “talvez” se ele fizer mais um concurso vai ter um lugar. Ora, estamos a falar de doutorados. Quem é doutorado deve ter um emprego seguro, para a vida, o doutoramento é a prova máxima.

E o que tem acontecido é que os poucos lugares são distribuídos de forma injusta. E serão sempre, porque todos os doutorados estão em pé de igualdade, por isso inventam-se critérios alegadamente justos mas arbitrários. Os defensores dos precários, muitas vezes, usam a cenoura de que “talvez venha um lugar para ti“, para ter os seus votos na luta dentro das instituições e depois negoceiam lugares para os seus apoiantes, esperando que os outros, cansados, emigrem. É este sistema que gera o assédio, que gera a denúncia caluniosa, e que gera todo o mal-estar existente nas universidades.

Lamento não ter visto Boaventura dizer isso mesmo – acusar o neoliberalismo, mas dizer que quem trabalha bem teve lugar, é uma contradição. A Universidade portuguesa transborda de pessoas que trabalham e não têm lugar. O lugar é dado aos obedientes, e como não há lugar para todos os obedientes, sobram também os ressentidos, e as falsas denúncias e, claro, os assediadores, que perseguem quem se lhes opõe.

A única forma de combater isto é defender lugar para todos os doutorados e autogestão democrática. Onde se criam relações de confiança e em que pode haver abraços, e ainda bem, sim ainda bem que nos abraçamos! É porque há confiança.

É preciso recusar-se a participação na distribuição de lugares a uns, deixando outros de fora. Mas isso chama-se greve. Nunca foi feito. É preciso uma luta coletiva que corporize a recusa a fazer parte do jogo pernicioso. Ou fazemos como um dia fizeram os estivadores, até serem despedidos na pandemia – ou há lugares para todos ou ninguém trabalha -, ou então vamos assistindo a diretores de institutos e instituições a distribuirem lugares para 25% deixando os outros 75% com a cenoura do “se publicares muito, se fores a muitos congressos, vais ter lugar…“.

Tudo correu mal neste episódio de “vigiar e punir” e que uniu a esquerda pós-moderna e a direita “atira a pedra ao Boaventura“. Depois deste episódio mais homens vão ter medo de galantear – sobra-lhes, no fim, apenas o Tinder, uma depressão por falta de afetos, e um contrato formal de consentimento jurídico. E muito mais mulheres – vítimas de assédio que apresentam provas e queixas nos lugares corretos, os tribunais – vão ter medo de o fazer porque o que estas mulheres fizeram foi mais um contributo para descredibilizar todas as mulheres.

Boaventura podia ter aproveitado esta entrevista para defender um sistema universitário com carreiras para todos, justas. E por isso, liberdade científica. O que fez foi defender a lei do mais forte (alegadamente em função do mérito) nos contratos.

Cabe-me – por fim – dizer que sou a favor do piropo; que acho o assédio moral e sexual deplorável, que sou contra a denúncia anónima, que acho que as custas judiciais devem ser eliminadas, e deve haver advogados bem pagos pelo público para defender as mulheres; que piropo, galanteio, assédio e violação são TRÊS COISAS muito DIFERENTES.

E que a notoriedade que se dá a tudo isto na Academia, e o desprezo pelas mulheres violadas ao sair do seu trabalho por turnos na periferia das cidades, só demonstram a total falta de noção da “bolha académica e mediática“.

Pode ver a entrevista a Boaventura aqui

Rubiales: entre o feminismo e a hostilidade aos homens

(Maria Afonso Peixoto, in Página Um, 01/09/2023)

No auge do movimento MeToo, Marianne Williamson, uma escritora norte-americana e candidata presidencial pelo Partido Democrata nas últimas eleições, fez uma publicação na sua página de Facebook em que alertava para os excessos do clima persecutório instalado em relação aos homens, dizendo que, no que toca ao assédio, “existe uma diferença” entre um “criminoso” e um “idiota”.


Ler artigo completo aqui.


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