Catarina e o bêbedo

(Tiago Franco, in Facebook, 29/11/2025, Revisão da Estátua)


É incrível pensar no nível de burrice que um país precisou de semear para que 20% da população caia no conto do vigário.


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Aos poucos o cenário está a mudar. Os jornalistas já não parecem ter a mesma paixão, ou paciência, para o espectáculo que o André tem para oferecer. Os comentadores de serviço, até os da direita mais clássica, deitam conversa de imigrantes e corrupção pelos olhos. Até já lhe dizem que, agora, é dele a cassete que marca a espuma dos dias.

Passaram apenas 6 anos mas já há saturação de um discurso que é sempre uma cópia de um sucesso estrangeiro qualquer. Ontem até os cristãos da Nigéria foram para o barulho, repetindo uma narrativa da Casa Branca. O rapaz de Mem Martins é o Tony da Carreira da política. Se ouve algo que lhe agrada, troca um Sol por um Fá e segue para bingo.

Poderá ainda enrolar mais uns aspirantes a bots mas dificilmente passará deste registo do tio bêbedo. Repete, repete, repete. Grita, grita, grita. É indiferente o que lhe perguntam porque responde o que quer. E diz, continuamente, coisas que são mentira sem sequer se dar ao trabalho de justificar.

Passou 10 minutos de dedo em riste a culpar a geringonça pelas leis que conduziram à imigração ilegal. Catarina Martins, pelo menos 3 vezes, explicou-lhe que se é ilegal, então vai contra as leis que foram aprovadas. Ventura é jurista, percebe a incongruência, mas quer dizer…qual é o eleitor do Chega que vai sequer perder tempo a perceber a lógica de um raciocínio?

Poucas horas depois do debate já a ChegaTV tinha milhares de visualizações exactamente sobre um vídeo onde se acusava Catarina Martins de ser responsável pela imigração ilegal. E assim se faz política, assim se moldam as mentes.

Quando José Alberto de Carvalho falou sobre o Cardeal Patriarca e as suas declarações, a propósito do discurso de ódio reinante na sociedade, Ventura insurgiu-se dizendo que a comunicação social só focava no discurso de ódio quando este apontava ao Chega. Ora…o jornalista de serviço não disse que as palavras eram dirigidas ao Chega. A pergunta foi “a quem acha que o Cardeal Patriarca se referia?”. Obviamente Ventura enfiou o barrete sem sequer compreender que o estava a fazer.

Catarina Martins foi de uma elegância e inteligência à prova de bala. Em tempos achei que a sua presidência era prejudicial para o BE mas ontem foi magistral.

O Andrezito foi reduzido a uma banalidade incrível de histérico sem norte que, ao que parece, vai sendo cada vez mais frequente. Finalmente os adversários percebem como lidar com uma máquina de propaganda que enche a boca de merda a cada 2 minutos.

Sobrará a Ventura sempre um Calafate, um Moita de Deus, um João Marques (acho que é esse o nome do gajo com voz de cana rachada da CNN) e mais dois ou três comentadores para lhe tentarem limpar a imagem. Mas está mais difícil, o cheiro é insuportável e já há analistas que vão mudando de bancada, como quem não quer a coisa. Cada um tem o Bugalho que merece.

É absolutamente irrelevante que o Ventura tenha muito mais votos do que a Catarina Martins. Ele usa esse argumento quando não lhe sobra mais nada. Se 10 pessoas te tentarem convencer a beber água da sanita, mesmo que fiques sozinho com a tua Luso, em princípio não és tu que estás errado. O Ventura ter 1 milhão de votos diz pouco sobre ele, até porque as convicções dependem da semana e do tema das redes. Mas diz quase tudo sobre o país em que vivemos.

Todo o discurso de André Ventura tem uma duração máxima de 20 minutos. Ou é desmontado em direto ou é apanhado nos “fact checking” que se fazem a seguir. É incrível pensar no nível de burrice que um país precisou de semear para que 20% da população caia no conto do vigário.

Um povo onde 40% das pessoas estão no limiar da pobreza antes das transferências sociais mas que, acreditam piamente que essa condição se iniciou há 3 ou 4 anos, quando um paquistanês lhes entregou uma pizza.

Catarina Martins e o BE cometeram vários erros nos últimos anos. Ontem corrigiram alguns e sem misericórdia encostaram o bully à parede.

Quem ainda não percebe onde está o Ventura, quem o inspira e para onde ele quer ir, quase que merece que o destino do pastor se cumpra.

Dos debates aos comentários

(António Guerreiro, in Público, 28/11/2025)

António Guerreiro

Os comentadores mostram, mesmo se não têm consciência disso, o estado de exasperação do discurso político. São convocados por um vazio que lhes coube, em jeito de missão, preencher.


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Os debates na televisão entre os vários candidatos à Presidência da República seguem um modelo que se aproxima do stand-up. Mesmo que os candidatos nada façam para cumprirem os protocolos e as exigências desta forma de espectáculo, eles são coercivamente enquadrados nele e avaliados pelo grau de competência demonstrado na performance por um júri que representa o papel da opinião pública e encena uma versão abreviada daquilo que desde o Iluminismo se chama “espaço público”. O júri é composto por um conjunto de pessoas designadas como “comentadores” cuja tarefa é encerrar o espectáculo com os seus juízos críticos e apreciações quantificadas.

Neste modelo de debate procura-se um ganhador e um perdedor. E ganha sempre quem revela mais destreza na eloquência, quem consegue ter alguma habilidade para argumentar e um certo sentido da dialéctica (qualidades, aliás, cada vez mais escassas) naquele ambiente muito pouco favorável a tais realizações. Ali, muito embora pareça que se trata de política, a despolitização é a regra.

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O júri cumpre um papel essencial: é ele que, em última instância, dá sentido às performances. Sem ele, o espectáculo da contenda ficaria incompleto e seria muito mais desinteressante. É preciso sublinhar o clash, promovê-lo, encontrar no discurso político um sentido agónico. As polarizações que caracterizam o ambiente político em que vivemos, os tropismos que fazem emergir os extremos, têm os seus utensílios retóricos reconhecidos e valorizados. São eles os mais valorizados e a eles recorrem com frequência os participantes nestes debates porque têm uma eficácia táctica. Esses instrumentos tácticos dominam os debates e asseguram a vitória a quem melhor se servir deles. E a táctica é o que os comentadores observam com mais facilidade, logo, o que garante nota alta.

Na época em que a crítica literária e da arte tinha adquirido uma enorme pujança, impôs-se a ideia de que os juízos sobre a poesia têm mais valor do que a própria poesia (e poesia vale aqui pela arte em geral). Hegel, nas suas lições de Estética, explica porquê: porque a obra de arte deixou de satisfazer as necessidades “espirituais” que nela tinham encontrado as épocas precedentes; e, por isso, na sua “suprema destinação”, a arte chegou ao seu fim. Assim é hoje com a política e o debate político: manifestações de um final de festa.

Em tempos de despolitização, o que tem algum valor e suscita o interesse da audiência são os juízos sobre os debates e as performances dos seus protagonistas. Os comentadores mostram, mesmo se não têm consciência disso, o estado de exasperação do discurso político. São convocados por um vazio que lhes coube em jeito de missão preencher. E são afectados pelo demónio da reversibilidade: eles comentam o discurso dos candidatos ou estes calculam o seu discurso para resultar num comentário? Quando a noção de época correspondia a um tempo histórico muito mais longo e a um “espírito” que a autonomizava e lhe conferia sedimentação, instituiu-se a ideia de que há períodos de decadência; e a proliferação do comentário seria a marca mais conspícua desses períodos (refiro-me, evidentemente, a um género de comentários cuja manifestação é uma literatura e uma filosofia secundárias). O barroco trans-histórico e os finais de século serviram com alguma verosimilhança essa ideia de decadência.

A desvalorização da linguagem política é o sintoma de uma doença, um mal-estar da democracia.

O conceito de pós-democracia, como sabemos, fez o seu caminho com alguma indefinição, mas, ainda assim, de maneira útil. Já estamos habituados a que, sempre que o prefixo “pós” se impõe como declinação de algo novo, mas que resulta de uma profunda inflexão do antigo, a certa altura se comece a pensar em modo “des”. É o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).

A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário.


O preço da botija de gás

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 12/04/2025)

(Este foi um debate entre os problemas concretos da grande maioria e o catecismo distópico da governação para uma minoria de iluminados. Ainda bem que o Milei lusitano não sabe pregar aos peixes, não sabe o preço da botija de gás e, sobre a Argentina, só sabe que é lá longe… Resumindo: cilindarado.

O debate na íntegra, entre Paulo Raimundo e Rui Rocha, pode ser visto aqui

Estátua de Sal, 12/04/2025)


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Conheço o Paulo há aproximadamente 25 anos. Não fez qualquer curso de oratória, não é visita frequente de estúdios de televisão, não bebe aperitivos em festas privadas com outras figuras da política, da economia e da comunicação social, não trata banqueiros e empresários por tu.

Fomos muitos os que aprendemos com ele e tantos outros, entre cargas policiais, na universidade das ruas. Que ele saiba o preço da botija de gás e que a carregue ele próprio em ombros para casa só surpreende porque estamos demasiado habituados a que nos vendam líderes políticos que vivem distanciados dos trabalhadores e do povo.

Quando Leonardo di Caprio se sentou à mesa com os ricos na primeira classe do Titanic, não sabia que talheres usar. Aquilo a que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou ‘habitus’ é inculcado de geração em geração para que uma determinada classe social pareça sempre acima dos que vivemos em permanência na terceira classe. Aprendem como falar, são estimulados desde cedo a conviver com formas superiores de arte, frequentam as melhores universidades, convivem entre si e têm o capital social de se defender enquanto classe. Nesse sentido, governam para si e para os seus. Para defender a sua ideologia têm jornais, rádios e televisões. É por isso que mesmo dando prejuízo não abdicam desses meios.

É neste campo mediático, onde permanentemente se silenciam sindicatos, coletividades, associações de mulheres, moradores de bairros pobres e, naturalmente, comunistas, que o Paulo tem de se bater.

Em condições absolutamente desfavoráveis, o Paulo mostrou que é um de nós e que, ao lado do seu partido, luta por cada um de nós. Fala como nós, carrega botijas de gás como nós, recebe mal como nós e revolta-se como nós.

 E não é um candidato folclórico para que dele tenhamos compaixão como fizeram com Tino de Rans. É portador de um projeto coletivo, de um programa extenso com propostas em todas as áreas e com a herança de grandes avanços num partido com gente com muita experiência também no poder local.

Num mundo em que fazem tudo para que esqueçamos as nossas raízes, para que apaguemos o nosso ‘habitus’ de classe, lembremo-nos dos nossos pais e avós. Daqueles que trabalhavam descalços no campo, dos analfabetos que despertavam de madrugada e entravam na fábrica ao som da sirene, que fizeram tudo por nós, e que nunca esqueceram a que classes pertenciam.

Quando vivemos na era da religião do empreendedorismo e do individualismo arrivista, recordemos que ser trabalhador não deve ser motivo de vergonha. Por isso, devemos ter orgulho no Paulo Raimundo. Porque é um de nós.