Marcelo infecto

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 14/01/2021)

«Confrontado com uma foto consigo no Bairro da Jamaica e várias pessoas negras, incluindo uma criança, sendo acusado de ter ali ido confraternizar com a “bandidagem”, e ao não reagir à calúnia racista, assim como ao dizer que a sua direita não é a mesma do contendor sem no entanto definir essa direita como deve ser definida, Marcelo falhou na defesa dos valores essenciais da democracia e do Estado de direito. Falhou no que não podia falhar – e menos ainda quando do outro lado do Atlântico, naquele mesmo dia e àquela mesma hora, se tentava, em nome de um dos modelos daquele homem ali à sua frente, derrubar uma das democracias mais antigas do mundo.»

(Fernanda Câncio in Quando lutas com um porco)


Qualquer um pode fazer a experiência, calhando estar esquecido do que viu ou não o tendo visto. A experiência de rever o debate entre Marcelo e Ventura para constatar como o segundo esteve sempre ao ataque e o primeiro nunca conseguiu sequer perturbar a empáfia da escolha de Deus para fundador da Quarta República Portuguesa. Na verdade, o contrário aconteceu, tendo Ventura tido sucesso no arrastar de Marcelo para o bate-boca feirante em que o ilustre Professor se deixou nivelar por baixo e acabou a perder o controlo da pose e das suas responsabilidades institucionais. Num dos casos, chegando ao ponto de violar o sigilo das audiências em Belém. Num outro caso, de uma gravidade distinta mas tão ou mais grave, ao ter concedido ao presidente do partido Chega o estatuto de líder da oposição. Fê-lo quando concordou com Ventura que a ministra da Justiça devia pedir a exoneração ou ser demitida. Repare-se na cena: o solitário deputado de um partido que congrega salazaristas, nazis, racistas, xenófobos e “portugueses de bem” consegue levar o Presidente da República, em cima do início da presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, a fazer uma declaração pública de apoio à campanha do PSD para explorar o caso do Procurador Europeu até ao limite possível da chicana. Não foi Rio que obteve esse trunfo, foi Ventura.

No dia seguinte, António Costa acusou três passarões do PSD de estarem em campanha para conseguir chutar a inútil polémica para um palco europeu – portanto, acusou esse trio de pretender denegrir a imagem de Portugal, posto ser esse o único objectivo tangível das suas declarações e acções. Podemos ver nas palavras de Costa um erro político, ou um excesso retórico que devia ter evitado. Porém, prefiro vê-las como a resposta do primeiro-ministro à posição assumida na noite anterior pelo Presidente da República, o qual tinha optado por voltar a quebrar a lealdade institucional e emporcalhar a responsabilidade constitucional apoiando ataques políticos contra o Governo e interferindo com a autoridade do primeiro-ministro. Tudo isto numa questão simultaneamente escabrosa e pífia que apenas serviu para Rui Rio acabar com os seus “tweets” sobre sondagens e o aeroporto Humberto “Força nisso!” Delgado. Costa defendeu o prestígio de Portugal, sabendo que iria agitar o vespeiro, enquanto o inteligentíssimo e experienciadíssimo Marcelo se deixava manipular por um perigoso tachista que alimenta ódios e arregimenta ignorâncias e desesperos.

Saltemos para a visão pan-óptica, sem a qual a política é uma narrativa incoerente contada por um louco. A posição de força de Costa, e as reacções que tal provocou na direita, começam a compreender-se com o que Ângela Silva, uma jornalista do Expresso que não ambiciona ser mais do que um pé de microfone de Belém, escreveu um dia antes quando mergulhou de cabeça na infâmia de Marcelo com este estouvado título: O baile de Marcelo a Ventura: “Você nunca me disse em Belém que eu era manipulado pelo Governo”. Trago este exemplo para dar conta do maremoto de dissonâncias cognitivas que o império do militante nº 1 do PSD serviu ao público para salvar a imagem de Marcelo e fazer-lhe a papinha e a propaganda. As avaliações ao debate – O melhor Marcelo deixou Ventura KO. Eis as notas dos comentadores do Expresso e SIC – inevitavelmente provocam espasmos de riso logo no relance sobre a tabela da pontuação e ainda antes de lermos a primeira justificação. Tendo em conta que no júri se encontra o admirável Pedro Adão e Silva, vou admitir que não foi só o sectarismo, a hipocrisia e o cinismo a explicarem as avaliações, o asco também foi um factor a influenciar a cognição. O que pretendo realçar, contudo, é que o registo ditirâmbico é a prova mesma do fracasso de Marcelo frente a Ventura.

Espanto? Nenhum. Marcelo foi para o debate com Ventura na intenção de ficar no fundo do corte, devolvendo as bolas sem se mexer muito, sem se aproximar da rede, esperando que fosse o adversário a falhar as jogadas – precisamente ao contrário do que fez no debate com Ana Gomes, para o qual levou munição poderosa e com a qual foi implacável depois da cartada Salgado ter sido usada, não fazendo prisioneiros. Marcelo não queria desvitalizar Ventura e denunciá-lo como o oportunista abjecto que é porque Marcelo quer o mesmo que Rio, Passos e Cavaco: que o próximo Governo seja de direita. Para tal ser possível, o Chega vai ter necessariamente de entrar na equação, restando só saber com que peso. Ventura aparece nas presidenciais para isso mesmo, fazer crescer a sua fatia de mercado e depois negociar nas melhores condições possíveis os tachos à disposição. A actual direita decadente não tem medo nenhum do Ventura porque um aldrabão é um aldrabão, e nada mais, têm disso aos montes à sua volta (como lembrou Salgado, por exemplo). Ou seja, dali não vem qualquer surpresa, pelo que o deixam andar a criar o seu exército de lumpendireitolas na certeza de que o conseguem controlar, e mesmo destruir se ameaçar algum dos seus interesses. A isto esta direita chama “fazer política” e isso não passa da aplicação da ancestral cultura do poder pelo poder que se bebe desde o berço na oligarquia.

A Marcelo bastou dizer que a sua direita é diferente da do coiso para que a claque declarasse KO. Acontece que quem ficou KO foi a cultura democrática e o património republicano ao vermos o Presidente da República a recorrer à sua batina de católico para conseguir verbalizar uma oposição argumentativa contra a prisão perpétua. O mesmo nível indigente no plano intelectual e moral para responder à agenda subversiva e incendiária de quem se declara inimigo do regime nascido do 25 de Abril. Nem sequer, como regista acima a Fernanda Câncio, o momento histórico da invasão do Capitólio inspirou Marcelo para o serviço público de mostrar que Ventura, assumido epígono de Trump, ofende a causa do Estado de direito democrático e o ideal da liberdade.

Os tempos de antena do candidato Marcelo Rebelo de Sousa estão vazios. Ele alega que é para ser justo com os outros candidatos, por causa da sua intensa exposição mediática de 5 anos como Presidente da República e demais actos públicos até às eleições. Não temos de perder uma caloria a tentar encontrar qual seja o mérito ou a bondade do raciocínio porque não existe. Em vez de aproveitar essas ocasiões de comunicação para nos ajudar a lidar com os medos, os apelos ao ódio, as distorções e deturpações sociais, a iliteracia política, a confusão e a depressão que crescem imparavelmente, Marcelo caça no mesmo território do desprezo pelos políticos e pela política. Temos até de reconhecer, vencidos e banzos, que os seus tempos de antena são espectacularmente virais. É que uma pandemia nunca vem só, e Marcelo e Ventura partilham o mesmo vírus populista.


O debate Vitinho, ou o problema da seca

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 13/01/2021)

Pedro Santos Guerreiro

As próximas eleições podem resultar num grave problema de abstenção, enfraquecendo a democracia e fortalecendo candidatos radicais. Como se combate a abstenção com um debate tão maçador como o que pôs (mas nem opôs) os sete candidatos à Presidência? Neste teste, negativaram todos. Numa campanha quase sem campanha, pior que o desperdício de combate político é o tédio. Este tédio. Este bocejo. Se anda tudo a dormir, ninguém acorda.


Há vários tipos de seca: a permanente, a sazonal, a variável e a dos debates eleitorais a sete. Talvez o frio de rachar em estúdio tenha atrofiado os candidatos, mas a questão não está na baixa temperatura, está na ameaça de uma abstenção que seja tão assustadora nas eleições que relegue a possível subida do Chega para escândalo secundário. Até porque debate não houve nenhum. Houve duas horas de Vitinho, de cantiga de adormecer para irmos para a cama cedo.

Não é uma questão menor. Vitorino Silva foi o único a falar nisso, quando colocou a questão de legitimidade do voto se as eleições tiverem menos de 50% de participação, como é por exemplo obrigatório nos referendos para que sejam vinculativos. Há anos que politólogos colocam precisamente a questão da legitimidade do resultado de umas eleições se a abstenção ultrapassar os 50%. Tipicamente, essas análises referem-se a legislativas. Mas abstenção já foi superior a 50% nas duas últimas presidenciais (51,3% em 2016 e 53,5% em 2011). Com um país em confinamento e sem campanha que se veja, o alarme é se o risco de uma abstenção recorde não alarmar ninguém. Com tudo o que isso implica, do ponto de vista da legitimidade democrática mas também do enviesamento dos resultados, pois os partidos mais radicais tendem a ser favorecidos, por terem um eleitorado naturalmente mais mobilizado.

Não foi neste debate a sete que houve mobilização. Ou esclarecimento. Ou o que quer que fosse. O debate foi um enorme bocejo. E em grande parte por causa de Marcelo.

QUANDO MARCELO DESPREZA

O único momento em que houve provocação foi na ronda sobre a relação que deve existir entre um Presidente e um governo, se deve apoiá-lo por vocação ou criticá-lo por impulso. Nessa ronda, todos criticaram Marcelo por ter andado ao colo com o governo. Pela busca de popularidade, pelo afastamento da procuradora-geral da República e do presidente do Tribunal de Contas e por não ter imposto acordo escrito aos parceiros do governo (Mayan), por se reunir com o diretor da PSP durante o caso SEF (Marisa), por precisar de Costa e se embalarem um ao outro (Vitorino), por ser o candidato do PS, salvar a face a Centeno no caso CGD, permitir a lei das expropriações, permitir quatro mil taxas, defender o ex-ministro da Defesa no caso Tancos e não derrubar o governo nos incêndios de 2017 (Ventura), por não ter uma palavra para os trabalhadores da refinaria de Matosinhos mostrando ter os afetos “mal distribuídos” e desproteger os jovens na entrada no mercado de trabalho (João Ferreira), por não usar as Forças Armadas no combate à pandemia, representar a estabilidade do bloco central de interesses e estar pronto para trazer de volta a sua direita num segundo mandato (Ana Gomes). E a que acusações respondeu Marcelo, a quem foi dado um tempo “generoso” de resposta? A nenhuma. Despachou a resposta em dois minutos. Ignorou os candidatos e falou “aos portugueses”, que “percebem”, que “estabilidade está ligada a compromissos”.

Este desprezo é tático, não é soberba. Marcelo sabe que qualquer resposta amplificaria a crítica e potenciaria a polémica. Não passou cartão a ninguém. “Prometi [estabilidade] há cinco anos e cumpri. Ninguém foi defraudado”, porque toda a gente sabia no que estava a votar. E depois listou as crises, para mostrar quão difícil era a obra: a bancária, a saída dos défices excessivos, os fogos, os sindicatos radicais, a pandemia, a crise económica… “tudo isso recomendava um presidente que não fosse de fação mas que aproximasse (…), o PR não cria crises onde já há crises, não cria vazios onde não há alternativas.” Debate encerrado.

Marcelo foi o vencedor da época de debates porque adotou uma estratégia certa para cada um deles. Neste, a estratégia era ser superior aos outros, não lhes responder, mostrar-se como sendo o único presidencial.

A NOTÍCIA: ELEIÇÕES MANTÊM-SE

O resto não teve lume nem faúlha. O país está muito habituado a eleições antecipadas mas não a eleições adiadas. Vamos manter a data das eleições, mesmo em confinamento? A notícia veio daí. Sim porque tem de ser, sim porque nenhum partido defende uma revisão constitucional à pressa, sim mesmo que seja mau para todas as candidaturas, sim mesmo sabendo que a abstenção deverá subir, sim mesmo se adaptar agora a campanha é sabê-la prejudicada à partida. Ninguém destoou. Só houve quem debatesse… com o governo: fê-lo André Ventura (“o governo não preparou devidamente a eleição”) e Tiago Mayan Gonçalves (“a incapacidade de previsão deste governo trouxe-nos a um ponto de não retorno, agora vamos ter de fazer as eleições nas condições que temos”), enquanto Ana Gomes responsabilizou o Parlamento (“não legislou a tempo e horas para permitir o voto por correspondência por emigrantes”).

O debate prosseguiria com participação de privados na saúde. Eis como: João Ferreira ataca empresas privadas, Mayan Gonçalves ataca toda a esquerda, Ana Gomes ataca Marcelo, Marcelo defende-se, Marisa atacou o governo de direita PSD/CDS, Ventura ataca Ana Gomes e concorda com Vitorino Silva, que este diz que “se eu estivesse a morrer não ia escolher um médico do público ou do privado, eu queria era ser salvo”. E foi isto. Ah: e todos defenderam melhores condições salariais para profissionais de saúde e mais investimento para o SNS.

No fim ainda se falou de crescimento económico, mas tirando as visões ideológicas Estado contra privados, ou direita contra esquerda, ou liberais contra os que os chamam neoliberais, pouco a reter e nada a derreter.

Um debate a sete ou é tudo à molhada ou é tudo com as barbas de molho. O receio do arruaceiro Ventura é tão grande que não houve sequer diálogo, quanto mais debate, houve sete entrevistas paralelas. O problema não está só no formato, está nos candidatos. Numa eleição como esta, quase sem ações de campanha, os debates televisivos são os palcos principais.

Aqui, os candidatos não foram todos iguais mas nenhum foi diferente da mediania e da repetição. Suponho que as audiências foram caindo ao longo das duas horas. Receio que a queda continue até uma taxa de abstenção enorme. Não percebo como ninguém está aflito com isso. Mas, na verdade, a resposta até depende de si. Interesse-se, desconfine-se, pegue na esferográfica e vá votar.


Não temer

(Daniel Oliveira, in Expresso, 08/01/2021)

Daniel Oliveira

Não vale a pena ignorar André Ventura. Ele já não é irrelevante e não faltam palcos alternativos. Claro que tem um destaque superior ao seu peso político. Ganhou-o por ser tão telegénico como um reality show grotesco. Apesar de Ventura ter 10% nas melhores sondagens e estar com dificuldades em chegar a um segundo lugar, os debates em que participou foram três dos quatro mais vistos, se retirarmos os que foram transmitidos em canal aberto. Só o frente a frente entre Ana Gomes e Marisa Matias competiu. E, no momento em que escrevo, ainda não conheço as suas audiências com Marcelo. Não se pode ignorar uma novidade perigosa. Porque, dos que gostam aos que a detestam, todos estão a olhar para ela.

Só há uma arma contra Ventura: a democracia. Porque não pode usar a força bruta e discricionária para se defender, a democracia é um jogo cheio de limites e não, como acreditam os seus apoiantes, uma luta sem regras. Ventura conta com o nosso medo para não ter de as cumprir. Nos debates, onde impede oponentes de falar. No Parlamento, onde exige um estatuto de exceção. No espaço público, onde viola a Constituição. Sempre que alguém quer que as regras lhe sejam impostas, há quem tema a vitimização. Mas Ventura não pode estar dispensado das normas de civilidade, do escrutínio mediático e do cumprimento de regras.

Nisto, não se cede. Porque a sua vitimização acabará onde acabou a de Trump: na recusa de resultados eleitorais. O impensável não estava escrito em qualquer guião. É a consequência inevitável da fanatização de apoiantes nas redes e da cobardia cúmplice de aliados de circunstância. Parem de relativizar: esta gente é mesmo perigosa.

Na história da democracia, não faltaram políticos desprovidos de convicções, dispostos a libertar todos os ódios — incluindo os que não sentem — com o exclusivo propósito de alimentar a sua ambição ou vaidade. Mas é irrelevante se acreditam, porque os monstros que libertam são reais e espalham-se de forma viral, tornando todo o espaço público num lamaçal. Por agora, Ventura tem 8% nas sondagens. Não o podemos ignorar, mas podemos travá-lo. Enfrentando-o sem medo. À hora que escrevo, não sei se Marisa Matias foi devorada pela gritaria. João Ferreira tentou resistir, mas a ausência de moderação tornou isso impossível. Já Marcelo, conseguiu resgatar Sá Carneiro e dois Papas das mãos oportunistas de Ventura e deixou muito claro tudo o que os divide. Mas disse, para meu espanto, que nenhuma ameaça para a democracia pode vir de um eleito. Nesse preciso momento, os apoiantes de um Presidente eleito há quatro anos invadiam o Capitólio.

O anónimo Tiago Mayan também foi explícito a traçar as linhas vermelhas. Não manda uma deputada para o país dela, não aceita ataques a minorias étnicas, não recusa os imigrantes que ajudam a construir este país. Mostrou que a fronteira entre a direita e a esquerda não se faz nestes adquiridos civilizacionais, mas nas questões económicas e sociais que me põem nos antípodas do candidato do IL. Ali, faz-se a fronteira da civilidade. Ao fazer esta escolha, Mayan deu uma lição aos líderes do PSD, do CDS e até do IL: só se vence Ventura não deixando que seja alguém que não acredita em coisa alguma a impor à direita aquilo em que ela deve acreditar. Não temendo que o rei do transformismo político chame “travesti de direita” a quem tem valores. No plano das ideias, só a direita pode travar Ventura. No plano dos comportamentos, só a imposição de regras e o escrutínio o farão. Para se proteger, a democracia tem de ser implacável.