O PSD ainda está na geringonça?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 05/12/2019)

O debate entre os candidatos começou da pior forma para o PSD. Pelas contas de merceeiro, com uma medição de desempenhos que levou a alguns momentos ridículos, como a responsabilização de Rui Rio por resultados tidos quando era vice-presidente ou o regresso dos resultados de Luís Montenegro nas candidaturas à Câmara de Espinho ou uma distrital. Em resposta, Montenegro explicou as condições difíceis em que concorreu à autarquia do norte. Ou seja, assumiu que, tal como dissera Rui Rio em relação às legislativas, as condições em que se concorre são relevantes. E Rui Rio repetiu a responsabilização dos opositores internos. O que, num partido com a história do PSD, cola mal.

É natural que num confronto interno se faça um debate sobre os créditos de cada um. Mas não é um debate que nos diga respeito. Um debate entre candidatos a um partido, quando passa na televisão, deve sair do que apenas é importante para os militantes. E a viagem de Rui Rio à Maçonaria (cuja obediência eu também considero incompatível com a liderança de um partido), acabando a dizer que acredita em notícias desmentidas, foi um dos momentos mais infelizes. Rui Rio optou, mais uma vez, pelo julgamento de tabacaria que sempre criticou.

Passado este momento penoso, chegou-se ao debate que é relevante para os próximos anos: como o PSD fará oposição ao PS? A posição de Montenegro é das que resulta sempre em todos os partidos: o sectarismo. Mas será difícil, caso chegue à liderança, manter a fasquia onde a colocou. Afirmar que não precisa de ver o Orçamento para dizer que vota contra (Pinto Luz explicou que era preciso dar a aparência de que se tinha esperado para ver e ser contra) é incompreensível para qualquer pessoa normal. Rui Rio, nessa matéria, tem o discurso do senso comum. Pelo menos para os eleitores – outra coisa são os militantes.

Para explicar o seu posicionamento, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz construíram uma fantasia sobre a atual situação política. É como se a “geringonça” continuasse a existir e toda a estratégia do partido se baseasse nessa ideia. Só que a “geringonça” não morreu apenas em teoria. Morreu na prática. Não há acordos e não há interesse, nem do Bloco de Esquerda nem do PCP, em prolongar uma relação com os socialistas que não lhes trará vitórias programáticas ou eleitorais.

Se o PSD tem um problema é o PS ter-lhe comido o centro. O retrato fantasioso resulta da necessidade em justificar a incomunicabilidade com o PS, que galvaniza os militantes

A partir desta fantasia, os dois candidatos construíram uma segunda fantasia, ainda mais distante da realidade: a de um PS radicalizado, totalmente amarrado a uma política esquerdizante e socializante. Até de amor à Venezuela se falou. Se isso não foi verdade durante a “geringonça”, onde o papel de bloquistas e comunistas foi forçar devolução de rendimentos perdidos e reversão de medidas impostas no período da troika (onde se incluíram a renacionalização da TAP e o recuo nas concessões dos transportes urbanos, as duas muito recentes e mal explicadas), vai para lá do delirante neste momento. Se o PSD tem um problema é o PS ter-lhe comido o centro, não é ter-se radicalizado à esquerda.

Este retrato fantasioso não resulta de uma dificuldade de perceção. Resulta de uma necessidade. Montenegro e a sua versão moderada precisam dele para justificar a incomunicabilidade com o PS, que galvaniza mais os militantes do que os eleitores. Que não é seguramente justificada, como tentaram fazer crer, pela história do partido que fez inúmeras revisões constitucionais com os socialistas. Uma estratégia que corresponde a uma radicalização à direita que transformaria o PS num partido charneira, que ocuparia todo o centro e não, como querem fazer imaginar para consumo interno, o lugar de líder de um bloco da esquerda que morreu no início de outubro. Esse episódio político passageiro durou apenas a anterior legislatura e terá, na melhor das hipóteses, o seu último momento na aprovação deste Orçamento de Estado, demasiado precoce para uma crise política.

Com base nesta fantasia o debate deslizou para o que poderia ser interessante: as grandes clivagens políticas e ideológicas que definem o confronto de alternativas. Fora a construção de uma história muito própria do país, em que o PSD foi quem “instaurou uma verdadeira democracia liberal em Portugal” e até “construiu o terceiro sector”, apenas duas ideias estiveram presentes: baixar impostos sobre as empresas e dar mais espaço ao privado no Serviço Nacional de Saúde, ignorando a recorrente suborçamentação do SNS, responsabilidade de vários governos. E depois, o velho, estafado e enganador debate que contrapõe um crescimento económico baseado nas exportações ao aumento do consumo interno, como se um e outro fossem contraditórios. Bem à moda portuguesa, que vê a ideologia do outro como uma doença e a nossa como “reformismo”, todas as divergências com o PS, as reais e as imaginadas, foram tratadas como “complexos ideológicos” dos adversários.

No fim, ficou uma sensação estranha: sabemos que Luís Montenegro é mais à direita e Rui Rio mais ao centro, estando Miguel Pinto Luz, que até nem se safou mal, algures no meio deles. Mas isso só se percebe na relação que prometem ter com o PS, chumbando tudo, chumbando tudo mas fingindo que se pensa no assunto ou chumbando quase tudo quase de certeza. Entre eles, não houve sinal de divergências políticas substantivas. E o PSD tem abrangência suficiente para elas existirem. Talvez não aconteça porque diferenças menos acentuadas não permitem caricaturas sobre os “complexos ideológicos” dos outros ou simples frases de efeito sobre a “agenda reformista” deles próprios. Uma agenda que vá para lá de baixar impostos às empresas e privatizar partes do SNS. O país ficou a saber o que cada um quer fazer na oposição, não percebeu o que os distinguiria no poder.


A medir Centenos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 24/09/2019)

Daniel Oliveira

(O que é que o partido que vai ganhar as próximas eleições, o PS, tem para oferecer ao País? Centeno! Porra, é ganhar com fraca ambição, mesmo por pouco, por poucochinho, como disse Costa de Seguro no rescaldo das eleições europeias de 2015.

E o que tem o líder do maior partido da oposição, o PSD, para oferecer? Outro Centeno! Porra, parecem dois putos a medir as pilas, perdão os Centenos: O meu é maior que o teu… 🙂

Moral da história: Estamos feitos com estes dois subservientes dos ditames de Bruxelas.

Comentário da Estátua, 24/09/2019


O debate entre Rui Rio e António Costa foi entre gestores. No sentido em que não sublinharam grandes clivagens políticas, apenas debateram escolhas de governação com os mesmos propósitos. Rui Rio não aproveitou as grandes discordâncias que diz ter em matéria de impostos. Não desfez o argumento de Costa quanto às razões do aumento do défice externo. Mais importante: não conseguiu mostrar nenhuma divergência de fundo quanto à estratégia económica do Governo. Acabou a concordar com os passes sociais, limitando-se a discutir o timing. E na educação concentrou-se na questão da disciplina, falando ao coração de professores e pais, mas não mostrando qualquer sinal de ter um estratégia para o sector. António Costa falou das conquistas destes quatro anos mas ficámos a saber pouco sobre os objetivos para os próximos quatro. Tem sido esse, aliás, o mote da sua campanha: falar do que fez (com outros, que agora despreza), não mostrar grande caminho para a frente.

O debate foi vivo e Rio, apesar de um momento em que quase se colocou no lugar de futuro líder da oposição, esteve desenvolto. Sei que as baixas expectativas em relação a Rio tornam qualquer prestação normal numa estrondosa vitória. Mas quando o líder da oposição se concentra na discordância de pormenor, sem conseguir vincar uma diferença política clara, é quem está no poder que fica a ganhar.

A medição de centenos exibe a ausência de uma clivagem clara entre os dois candidatos. O momento mais agressivo de Costa no debate com Rui Rio foi para Catarina Martins, confirmando que esta campanha prece ser entre os partidos da esquerda. Porque é no peso relativo destas forças que decidirá o futuro da governação

A melhor metáfora deste debate foi mesmo dada por Rui Rio: “O António Costa tem um Mário Centeno mas eu também tenho o meu Mário Centeno”. A que Costa respondeu: “Olhe, mas eu não troco o meu pelo seu.” Esta medição de centenos exibe bem a ausência de uma clivagem clara entre os dois candidatos. Para Costa é bom, porque em equipa que ganha não se mexe. Para Rio, mesmo que o tom mais aguerrido ajude a animar as hostes, continua a servir apenas para ser candidato à oposição. Não é por acaso que o momento mais agressivo de António Costa foi reservado para Catarina Martins, que nem estava no debate. Tendo o objetivo de a rebater, acaba por confirmar o que ela tinha dito: que esta campanha prece ser entre os partidos da esquerda. É natural que assim seja. É no peso relativo destas forças que decidirá o futuro da governação.

À noite, Catarina Martins acabaria por se atirar para a casca de banana que Costa lhe deixou de manhã. Respondendo à reescrita da História, fez o que ele queria que ela fizesse. O “arrufo” que Costa alimenta, com provocações quase diárias que no meu podcast levou até ao limite, tem três objetivos: passar a ideia que os entendimentos futuros são impossíveis para justificar a necessidade da maioria absoluta, tentar convencer as pessoas que a “geringonça” não teve nada a ver com o BE (um bocado forçado) e agradar ao eleitorado de direita que embirra com o Bloco. A líder do BE não resistiu, apesar de ser tão óbvio. Procurou mesmo o confronto que só servia Costa. Só não estou seguro que esta estratégia seja assim tão boa para o PS. A sensação de arrogância que passa só torna mais preocupante a ideia de maioria absoluta. Mas como a direita não conta, Costa pode arriscar.


Em duas horas de debate a seis, quem atacou mais foi…

(David Dinis e Sofia Miguel Rosa, in Expresso Diário, 24/09/2019)

Assunção Cristas. Mas António Costa, desta vez, não se ficou à defesa. As estatísticas do debate contam quais foram os dois alvos preferenciais da discussão, quem foi o alvo preferido de Costa, quem foi espectador ou passou despercebido. Veja os números.

Se um debate se ganhasse apenas pela quantidade de críticas lançadas, Assunção Cristas seria a clara vencedora. Ao longo das duas horas de debate foi quem mais criticou os adversários: 25 vezes, 19 das quais dirigidas a António Costa.

2. O líder socialista não se ficou atrás: na resposta ao adversários, disparou 23 vezes – com a curiosidade de os distribuir mais: 7 contra Catarina Martins, 6 contra Rui Rio e Assunção Cristas, só três contra Jerónimo e o PCP e uma contra o PAN. Está confirmado quem, na geringonça, é o alvo preferencial de Costa.

3. Na linha ofensiva, Catarina Martins vem ainda no pódio: 13 críticas feitas, 9 contra António Costa. O duelo Costa-Catarina foi marcante sobretudo no final, quando disputaram quem gosta menos da geringonça (ou quem está mais de pé atrás para a repetir).

4. Nesta luta, Rui Rio foi sobretudo espectador: o líder do PSD atacou só nove vezes, menos uma do que Jerónimo de Sousa e só mais uma do que André Silva do PAN. Rio apontou mais vezes, porém, a António Costa (8 vezes, contra 6 de Jerónimo e 5 de André Silva). A dada altura do debate, aliás, Rui Rio disse à moderadora que estava satisfeito, porque não tinha pago bilhete e estava a assistir ao espetáculo (quando Costa e Catarina discutiam passado e futuro da geringonça). A imagem é realista.

5. O alvo de (quase) todas as críticas foi, claro, Costa. Sofreu mais de metade dos ataques da noite do debate a seis: 47 contra 42 dos restantes debatentes. A maioria, como pode ver no quadro, vindas de Assunção Cristas e Catarina Martins. Rui Rio foi terceiro.

6. Quem mais passou despercebido? De longe, o líder do PAN. Só fez 8 críticas e sofreu 2. André Silva, sem surpresa, centrou quase todas as suas intervenções na questão ambiental (e na corrupção, mesmo no fim).

7. Rui Rio foi quem sofreu mais ataques, a seguir a Costa. Foram 14, seis dos quais do líder socialista. Assunção Cristas só lhe lançou uma farpa no final: a líder centrista estava entre Costa e Rio e acabou o debate a passar os papéis que um queria entregar ao outro, dizendo “eu faço a ponte entre o Bloco Central”.

8. Quanto aos temas dominantes, a divisão é fácil de fazer: à direita, as críticas a Costa foram muito centradas na carga fiscal, ao passo que à esquerda acabaram dominadas pela legislação laboral (muito por via da moderadora). A falta de investimento público e, consequentemente, os problemas dos serviços públicos foram comuns à esquerda e direita.