O massacre da direita é uma péssima notícia

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 30/05/2019)

Daniel Oliveira

Escrevi que a vitória do PS foi pouco mais do que poucochinha. Ganhou 73 mil votos numa eleição com mais votantes e subiu dois pontos percentuais. Dizem que a comparação não é justa, porque o PS está agora no Governo e antes estava na oposição. Acontece que o Governo anterior vinha de fortíssimas medidas de austeridade, este vem de reposição de rendimentos e direitos. Seria normal, como aliás se julgava há uns meses que sucederia, que se estivesse a bater por uma maioria absoluta. O facto deste ser o primeiro primeiro-ministro a subir de votação numas europeias não pode ignorar isto. Este é, há quatro anos e por causa do período de que vimos, um dos governos mais populares da nossa história recente.

O PS só surge como vitorioso incontestado por causa da aparatosa derrota do PSD e do CDS. A sua vitória é poucochinha, a derrota da direita é muito significativa e só começa por parecer menos grave porque já vem de 2014. Os números são assombrosos: 21,9% e 727 mil votos é o pior resultado do PSD em europeias. Em percentagem e em votos. As piores de sempre já tinham sido as últimas, quando concorreu coligado com o CDS e teve 27,7% e 910 mil votos. 6,2% e 205 mil votos também é o pior resultado do CDS em europeias. O pior tinha sido em 1999, com 8,2% e 283 mil votos.

Indo para legislativas, o PSD teve o seu pior resultado em 1976 (24,3%, 1.335.000 votos). Nunca foi tão mau, em percentagem ou votos, em qualquer eleição nacional, como este. O CDS teve percentagens mais baixas em 1987 e 1991 (4,4%), no auge do cavaquismo, mas mesmo assim com mais votantes do que agora. É preciso recuar a 1975 para ver o PSD e o CDS abaixo dos 35% em legislativas. E nas europeias isso só aconteceu em 2009, com 33,3%, e nas últimas, em pleno Governo de austeridade. Olhemos pelo prisma que olharmos, a direita teve um monumental derrota.

A derrota do PCP, que tem sabido representar os sectores sociais intermédios que noutros países dão força à extrema-direita, associada ao massacre da direita é o caldo perfeito para o surgimento de movimentos populistas

Se olharmos para maus resultados passados compreendemos a sua origem com facilidade. Ou foi no período revolucionário, estava a balança muito caída para a esquerda, ou foi depois de um Governo do bloco central, com a entrada de um novo partido que baralhou todo o sistema, ou foi quando o PSD cresceu muito e sugou o eleitorado do CDS, no tempo do cavaquismo, ou foi depois de anos de austeridade. Este resultado é difícil de compreender. Até porque ele não resulta de um bom resultado do PS.

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O mais impressionante é quando se olha para os resultados à lupa. O PSD teve 16% no distrito de Lisboa. Ficou atrás do PCP e do Bloco no distrito de Setúbal, com apenas 10% de votos, o que se repete em grande parte dos concelhos, incluindo o principal. Também é a quarta força no distrito d Beja. E no Algarve fica atrás do BE em concelhos como Portimão e Olhão. Só ganha no distrito de Vila Real, por pouco, e na Madeira. O PSD está, em muitas regiões do país, ao nível de um partido médio. No CDS a coisa é ainda mais trágica. Fica atrás do BE em todos os distritos, incluindo aqueles em que a direita é muito forte. Escapa apenas na Madeira. Fica atrás do PAN nos distritos de Faro e Setúbal. Por um triz não é ultrapassado pelo PAN nos distritos de Lisboa e Porto. É uma razia.

Claro que estes resultados não vão repetir-se nas legislativas. Mas depois de ter passado quatro anos na oposição, podendo recuperar da austeridade que impôs, a direita está na mesma, como se tivesse saído ontem do Governo. Não consegue recuperar o eleitorado perdido pelo desgaste. E não é por uma popularidade extraordinária de Costa, que está muito longe da sonhada caminhada para uma maioria absoluta. Veremos, quando Rio cair, se isto é estrutural ou passageiro.

Se ainda é uma mazela dos tempos de Passos, com os ataques às classes médias e aos reformados (sem os quais a direita não existe), ou se resulta do pouco talento do líder. Mas o massacre é de tal forma impressionante, com voto perdido para o PS, o Bloco, o PAN e os pequenos partidos, que há motivos para ficar preocupado.

A derrota do PCP, que tem conseguido representar os sectores sociais intermédios que noutros países dão força à extrema-direita, associada ao massacre da direita é o caldo perfeito para o surgimento de movimentos populistas. André Ventura é tão incompetente que não conseguiu passar dos 1,5%. Mas tudo está a favor de oportunistas políticos como ele. Esta devastação não é uma boa notícia.


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O PCP não sabe fazer propaganda?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 29/05/2019)

Jerónimo de Sousa

O PCP odeia o culto da personalidade. O medo de cair no erro político do culto da personalidade tem duas origens: a forma como, ao longo de quase um século de história, o Partido Comunista Português educou a sua prática de fazer política e a forma como interpretou os erros e os crimes dos países do bloco soviético, que levaram à desagregação da experiência socialista no Leste europeu (*).

O medo do culto da personalidade molda o formato de propaganda do PCP e, por consequência, estrutura a propaganda da CDU, a coligação partidária com os Verdes com que o PCP concorre a eleições.

Dou um exemplo concreto: ao longo de décadas de intenso combate político, o Partido Comunista Português produziu milhares de cartazes de propaganda. Pois dou um doce a quem me apresente um cartaz de apelo ao voto no PCP, numas legislativas, com a fotografia de Álvaro Cunhal. Se houver um é, quase de certeza, apócrifo ou feito à revelia do próprio dirigente histórico do partido.

Durante muitos anos os únicos cartazes eleitorais do PCP com fotografias individuais de candidatos eram os das eleições presidenciais, dada a natureza nominal da eleição. Mesmo para as autárquicas, a preferência ia para cartazes com letras, composições gráficas abstratas, desenhos, foices, martelos e fotografias de multidões, de trabalhadores, operários, camponeses ou de grupos de candidatos. Só bastante tarde se tornou banal a utilização de cartazes com a fotografia do candidato a presidente de câmara.

Lembro-me, aliás, da polémica no interior do PCP quando, em 1989, para as eleições europeias, a CDU apresentou um cartaz com uma fotografia de Carlos Carvalhas. Lembro-me como isso motivou debates e lembro-me como, a custo, lá se aprovou o princípio político da admissibilidade da utilização, parcimoniosa, de cartazes de propaganda com fotografias individuais de cabeças-de-lista.

Ainda hoje a CDU, nas eleições europeias, puxa habitualmente pela fotografia do seu cabeça-de-lista, como aconteceu agora com João Ferreira, mas para as legislativas não é propriamente elevada a quantidade de cartazes com a fotografia do secretário-geral, Jerónimo de Sousa, diria que é mesmo excecional.

Nos círculos eleitorais distritais para as eleições à Assembleia da República, às vezes, aparecem cartazes com os cabeças de lista da CDU, mas não são os dominantes, o que domina é a repetição massiva do logótipo da coligação.

A propaganda do PCP suportou-se sempre num trabalho contínuo de distribuição de informação porta a porta, fábrica a fábrica, escritório a escritório; numa promoção constante de debates temáticos por todo o país; numa procura de contacto direto com populações.

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Mas a atomização da vida laboral, as dificuldades da vida urbana, a desertificação do interior, as diminuições de funcionários no partido tornam cada vez menos eficaz esse processo de propaganda – é mais difícil ir ter com as pessoas aos locais habituais, porque elas ou não estão lá ou não têm tempo para lá estar.

Quando o PCP explica as suas derrotas eleitorais, como a do passado fim-de-semana, faz sempre um enquadramento das circunstâncias políticas que as motivaram e queixa-se, quase sempre com razão, da desigualdade de tratamento na comunicação social.

No debate interno das próximas semanas tenho a certeza que o PCP vai tentar analisar os motivos de fundo da sua erosão eleitoral e discutir, por exemplo, se vale a pena, depois das legislativas, pensar em manter qualquer tipo de aliança com o PS ou se o conteúdo politico de cariz ecológico da CDU é adequado.

Mas tenho dúvidas que o PCP discuta com profundidade o problema que defronta com a eficácia da sua propaganda. E, no entanto, ele é evidente.

Por exemplo, visito páginas de Facebook e conto números de seguidores.

PS: 77 184 pessoas.

PSD: 146 734.

Bloco (Esquerda.net): 76 163.

CDS-PP: 33 945.

PAN: 156 170.

A página do PCP é seguida apenas por 14 500 pessoas, a dos Verdes por 11 114 e a da CDU por 13 981, valores muito abaixo dos que são alcançados pelos adversários e por um partido ainda pequeno como o PAN.

Se comparar as páginas pessoais dos candidatos às europeias, as diferenças são semelhantes ou piores: basta comparar os 98 848 seguidores de Marisa Matias com os 7 083 de João Ferreira

Mesmo qualitativamente, a mensagem passada nestas páginas de facebook é muito diferente.

Veja-se o início da última mensagem de Marisa Matias: “Ontem foi uma longa noite. Ontem devia ter-me deitado mais cedo porque hoje tinha de regressar a Bruxelas, mas deitei-me estupidamente tarde porque sou uma optimista e queria mesmo ver até ao último voto. A hipótese de eleger o Sérgio Aires, que antes parecia impossível, passou a ser uma urgência na minha cabeça…”

Há muito “eu”, muito “emoji”, muito individuo, muita paixão, muita falsa intimidade nas mensagens dos políticos que usam com eficácia este instrumento de propaganda. Marisa Matias sabe fazê-lo e o Bloco está-se nas tintas para a questão do culto da personalidade.

Comparo com o início da última mensagem na página pessoal de João Ferreira: “Os resultados provisórios das eleições ao Parlamento Europeu confirmam a eleição de dois deputados pela CDU – João Ferreira e Sandra Pereira. A CDU mantém uma importante representação no Parlamento Europeu elegendo dois deputados que são uma garantia sólida, coerente e de confiança na defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País…”

A mensagem é impessoal, distante, infinitiva. João Ferreira não é um líder, é o representante de um coletivo chamado CDU que publica um texto em tom de comunicado partidário. Como instrumento de propaganda, a página no Facebook de João Ferreira é uma quase inutilidade.

Serve esta comparação para exemplificar as dificuldades do PCP na utilização de redes sociais. Se fosse procurar exemplos de utilização do Twiter, do WhatsApp, Instagram ou de simples SMS, os resultados seriam semelhantes.

Estas dificuldades, parece-me, não têm a ver com falta de habilidade ou de sensibilidade para estes meios de comunicação por parte de quem faz a propaganda no PCP.

O problema para os comunistas portugueses é que a utilização das redes sociais na política, para ser eficaz, implica aceitarem práticas que contrariam a sua própria maneira de pensar o mundo, a forma como acham que se deve fazer política, a maneira como se devem debater os problemas. Não é um problema formal, é de conteúdo.

Uma das contradições insanáveis para a propaganda do PCP é que estar no Facebook de forma eficaz implica, sempre, cair no culto da personalidade, quer pela valorização do indivíduo-candidato e correspondente subvalorização do coletivo partidário, quer pelo inevitável tom de adulação ao candidato que as caixas de comentários feitos por seguidores produzem.

As dificuldades com a propaganda não são a razão principal para o fracasso eleitoral de partidos enraizados no país e institucionalizados no regime como o PCP é. Mas são uma componente relevante do problema.

Como é que um partido como o PCP que, no século XX, submetido a extremas dificuldades, revelou imensa energia, inovação, e eficácia na elaboração e distribuição da sua propaganda consegue agora lidar, no século XXI, com instrumentos como as redes sociais, sem trair o seu ideário? Não sei.

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(*) Num livro de Álvaro Cunhal, que me parece muitas vezes ser subestimado, O Partido com Paredes de Vidro, de 1985, o dirigente histórico do Partido Comunista Português explica como o PCP vê o problema do culto da personalidade:

“O culto da personalidade é um fenómeno negativo que comporta inevitavelmente pesadas consequências no partido em que se verifique.

Os elogios públicos e o exagero dos méritos do dirigente objeto do culto são aspetos superficiais.

As questões de fundo são extraordinariamente mais graves.

São as incompreensões e a supervalorização do papel do indivíduo.

É a atribuição a uma personalidade, não apenas do que lhe é devido pelos seus méritos mas do que se deve aos méritos de muitos outros militantes.

É o injusto apagamento da contribuição dos outros militantes, assim como da classe e das massas.

É a prática da direção individual e da sobreposição da opinião individual (mesmo que errada) à do coletivo.

É a aceitação sistemática, cega, sem reflexão crítica, das opiniões e decisões do dirigente.

É a crença ou a imposição da sua infalibilidade.

É o atentismo em relação às decisões do «chefe» e a quebra da iniciativa, intervenção e criatividade das organizações e militantes.

É a falsa ideia de que as tarefas que cabem ao Partido e até à classe operária e às massas podem ser realizadas pelo dirigente objeto do culto.

É o enfraquecimento da consciência comunista e da aprendizagem e responsabilidade dos dirigentes e militantes.

É o enfraquecimento e afogamento da democracia interna nos seus variados aspectos (trabalho coletivo, regra maioritária, independência de juízo e de opinião, prestação de contas).

É o caminho quase inevitável para a intolerância, o dirigismo, a utilização de métodos administrativos e sanções em relação aos que discordem do dirigente objecto do culto, o contradigam ou se lhe oponham.”

E se o BE e PCP falassem um com o outro?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/05/2019)

Daniel Oliveira

Ainda faltam cinco meses para as eleições legislativas. Um verão com ou sem incêndios, meio ano com ou sem casos de famílias, um fim de legislatura com mais ou menos revelações sobre Tancos. Uma caminhada com ou sem greve cirúrgica inorgânica ou revolta nada cirúrgica e bastante orgânica dos professores. Ainda a procissão vai no adro e não sei se foi inteligente a facada que Costa deu aos seus aliados. Ou o ganho foi brutal (não parece), ou precipitou-se. Não devemos cuspir no prato onde ainda vamos ter de comer.

Divergências sempre as houve, algumas com um impacto orçamental bem mais profundo do que este — o resgate do Banif ou a ‘venda’ do Novo Banco, por exemplo. E houve separações em votações, com entendimentos maioritários do PS com o PSD. Não vieram da esquerda ultimatos e ameaças. Ao tentar pôr fim à geringonça sem sequer se dar ao trabalho de avisar os parceiros de maioria (aqueles que permitem que ele governe sem ter ficado em primeiro), António Costa cimentou um ambiente de desconfiança estrutural dentro da maioria que o suporta.

Suspeito que sei como Costa vai tentar resolver isto. Não vai agudizar um confronto com o PCP e com o BE que lhe retiraria a simpatia dos eleitores do PS mais à esquerda. Vai tentar explorar as más relações entre o PCP e o BE. E vai fazê-lo, antes de tudo, na Lei de Bases da Saúde. Não cedendo em nada na relação com os privados (mais altos valores se levantam), mas tendo toda a disponibilidade para regressar ao que tinha aceitado em relação às taxas moderadoras e que o grupo parlamentar do PS também fez andar para trás. Só que dando esse trunfo ao PCP. O objetivo não é premiar os comunistas. Nem sequer é, como prioridade, tramar os bloquistas, com quem disputa mais eleitores. É negociar com um e não com outro, alimentando a competição entre os dois. É dividir para reinar. Se o Bloco fosse esperto diria desde já que, com a redução das taxas moderadoras, irá viabilizar a Lei de Bases da Saúde, desarmado este jogo. Duvido que o seu orgulho ferido o permita.

Mas a questão importante é outra. É a fragilidade de dois partidos que representam quase 20% dos eleitores, concordam em 90% dos temas e não se conseguem sentar à mesma mesa. Não trocam informação entre si, não coordenam posições, não juntam esforços quando partilham objetivos. Isto permite que quem já tem o volante da governação, o controlo do aparelho de Estado e acesso a toda a informação que essa posição lhe dá seja o único que sabe tudo sobre as negociações que se vão fazendo. BE e PCP abdicam do seu poder por infantilidade. É justo dizer que está teimosia vem mais dos comunistas, que sentem um espaço seu ocupado por novatos — já lá vão 20 anos. Mas nunca vi do BE grande vontade de desafiar o PCP publicamente para mais do que isto.

Esta competição suicida é ainda mais idiota quando Bloco e PCP partilham muito poucos eleitores. Não se pede que vão juntos a eleições, até porque a diferença de culturas políticas e de organização tornariam isso impossível, porque têm divergências fundacionais inultrapassáveis e porque seria uma soma negativa: têm eleitorados muito diferentes, valem mais separados do que juntos.

Mas seria mais fácil entenderem-se sobre algumas opções programáticas do que com o PS. Ao não se falarem, facilitam os jogos de António Costa e prejudicam os seus eleitores. Ganha quem fica com todo o poder e toda a informação na geringonça. E isto vai ser muitíssimo evidente nos próximos cinco meses. Começa agora, com a Lei de Bases da Saúde.