As ameaças da “ameaça”

(Rui Pereira, in Facebook, 29/09/2026, Revisão da Estátua)


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A construção do “inimigo” exterior para condicionar a política interior é um truque imemorial da manipulação política. Pode servir como biombo exculpatório do que corre mal dentro de portas. Mas também pode servir para coisas mais sérias, como, por exemplo, a supressão da dissidência, acompanhada ou não de uma “suspensão devida à guerra” dos direitos e liberdades mais ou menos nominais que ainda restam do que outrora era percebido — e até certo ponto respeitado — como “democracia e liberdade”.

Quem ouvir o discurso esquizofrénico das instituições europeias ocidentais sobre a Rússia e as intenções que lhe são imputadas não percebe que os EUA se voltaram colonial-militarmente para a Europa de leste e ártica, enquanto exploram política e economicamente o ocidente-vassalo do continente. Depois de lhe terem destruído o abastecimento de combustível russo, vendem-lhe o seu próprio a preços unilateralmente fixados e, com isso, controlam geopoliticamente e geoeconomicamente o continente até à… Rússia.

A fantochada dos “drones russos” perdidos em diferentes pontos da Europa, dos caças que descolam porque um helicóptero aparentemente russo terá estado 42 segundos em espaço aéreo polaco, de um drone (afinal) desviado pela antiaérea ucraniana que foi despenhar-se em destroços em território lituano, de que os russos dispararam um very-light de sinalização contra um helicóptero militar dinamarquês que se aproximou indevidamente de um navio militar russo que circulava em águas internacionais ou dos atos de “corsário” ensaiados contra a chamada “frota fantasma” russa não passa disso: uma “fantochada”.

É idêntica a outras ao longo da história. Os “hunos” que, na I Guerra, matavam bebés na Bélgica, esmagando-os contra as paredes — imputação feita muitas décadas mais tarde contra as tropas do Iraque que invadiram o Koweit nos anos 1990. As falsas bandeiras do Maine em Cuba, dos navios (não) atacados pelos vietnamitas no golfo de Tonkin, a lista é enfadonha. Mas funciona ou pode funcionar.

Pode vir a servir para, devido “à guerra” dos russos contra nós, impor regimes de exceção, declarados ou não (Agamben falou bem disso sobre o período de entre guerras), com a supressão das forças políticas oponentes (aqui, a corda no pé da “direita” serve perfeitamente no pé da “esquerda”), suspendendo eleições e organizações políticas e cívicas, reinstaurando uma classe de ditaduras ditas brandas que garantam ao extremismo autoproclamado moderado navegar sem cair a onda que ameaça derrubar as suas políticas e os seus agentes.

Não se trata de uma profecia e espero estar enganado. Mas não me surpreenderia se alguns “maus elementos” começassem, mais tarde ou mais cedo, a serem silenciados onde ainda falam, despedidos de onde ainda trabalham, detidos quando os seus passos pelas ruas, depois de vigiados ao abrigo de leis da Segurança Interna, do Segredo de Justiça ou de Estado, começassem por ser degradados primeiro e degredados por fim, nos casos mais inconvenientes, para o pátio das traseiras das nossas “democracias liberais” que conhecemos por cadeias.

Será tudo provisório, a bem das Nações e, sobretudo, da democracia que precisa de se defender dos russos, ou dos chineses, ou dos coreanos, ou dos iranianos, ou de quem venha o diabo e escolha. A História está aí para nos ensinar como dói. Devo estar enganado. Espero estar enganado.

As palmas que faltaram ao Jorge

(Rui Pereira, in Facebook, 23/09/2026, Revisão da Estátua)


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Está certo e é real tudo quanto se escreveu e falou sobre um dos mais inspiradores e talentosos insubmissos das nossas artes e das nossas vidas por ocasião da sua morte.

 Até os carteiristas de cidade, que por vezes lhes presidem e que confundem a salada russa toda da esquerdalhada, vêm a terreiro (do Paço) pretensamente homenageando alguém – que com eles nada mais teve a ver do que opor-se-lhes -, até esses fazem parte da mágoa, embora da mágoa enquanto negócio.

Como há coisas, em todo o caso, que nem aos mortos se perdoam, houve umas palmas sérias que nem na morte o Jorge mereceu. São as referentes às fotos abaixo. As quais não significam que aquele que “não é de ninguém“, como escreveu numa cantiga, se torne, na morte, propriedade de alguém. Somos sempre e apenas daqueles que nos querem bem e daqueles a quem queremos bem.

Discretamente, sem emblemas, reivindicações nem consignas, o PCP (que perdeu também ontem um militante seu, grande intelectual, jornalista, escritor e poeta, José Viale Moutinho – com direito a trinta segundos de telejornal) apresentou sobre a morte de Jorge Palma um voto de pesar ao Parlamento (ver aqui) que será aprovado (por maior ou menor que seja o sapo a engolir pela maioria dos circunstantes).

Porém, como o azedume não pode desencantar o mundo, deixo a reprodução de uma pérola de dois magníficos amigos íntimos e grandes criadores a quem nem os vendedores de banha-de-cobra do reino ousam voltar as costas quando morrem, por muito que o tenham feito e façam enquanto vivem. Falo de A noite passada.

É ver o vídeo abaixo.


A culpa continua a ser do PCP

(Tiago Franco, in Facebook, 03/03/2026, Revisão da Estátua)


Num painel onde estavam Martim Silva (na imagem) e Nuno Ramos de Almeida, discutia-se o tema do momento (guerra no Médio Oriente), quando o zapping me deixou ali (ontem).

Não sei por onde andava o debate, mas no momento em que os comecei a ouvir, dizia o Martim, muitíssimo indignado, que as declarações oficiais do PCP – Partido Comunista Português e do BE não tinham uma, uma só palavra, contra o regime tenebroso do Irão.

Transportei-me de imediato para o início da invasão russa em 2022 onde, o grande tema em debate, para lá dos mortos e coisas menores do género, era se o PCP condenava, ou não, a invasão.

Acho sempre extraordinário que um partido moribundo em Portugal (há pelo menos 15 anos que ouço isso), que é absolutamente ignorado nas suas propostas parlamentares (com consequências para o país como se viu, por exemplo, nas cheias do Mondego), de repente tenha uma importância extrema na análise de conflitos internacionais.

Notem, Portugal não tem política externa. Ninguém, neste planeta, com responsabilidades e peso de decisão, quer saber o que Portugal tem para dizer. Mas em Portugal, aparentemente, não há analista de direita para quem as preocupações do PCP com o mundo não sejam uma arreliação. O mesmo se aplica ao BE mas em menor escala, especialmente desde a saída de Mariana Mortágua.

O que é que (mais) um ataque ilegal, com mortes de civis, tem que ver com o regime em causa? Como é que fazemos sequer essa análise? Se for um regime bárbaro pode ser bombardeado porque não simpatizamos com os seus líderes? E quem é que decide o nível de brutalidade de um regime a partir do qual o ataque passa a ser aceitável? Sou eu? És tu? É o Martim?

É que, segundo a HRF (Human Rights Foundation), 54 a 72% da população mundial não vive em regimes democráticos. Estamos a falar de 5 mil milhões de habitantes espalhados por 95 países. Há bombas para esta gente toda? Imagino que não.

Assim sendo, resta-nos ir massacrando quem não alinha connosco, preferencialmente entre os que tenham petróleo para a viagem ficar mais barata, e olhando para o lado sempre que um aliado (Arábia Saudita, essa democracia livre) esquartejar um jornalista qualquer.

Na dúvida seguimos a tabela de “terrorista”, ou “combatente da liberdade”, fornecida pela CIA. Tem resultado muitíssimo bem ao longo dos anos e trouxe-nos até aqui. O ponto na História em que Trump, um cobarde que fugiu ao serviço militar cinco vezes, bate no peito com um exército formado pelos filhos dos outros e Melania, uma eslovena acompanhante de luxo, preside a sessões nas Nações Unidas. A verdadeira terra das oportunidades, dizem-me.

Nada disto importa, nada disto muda o mundo em que nos obrigam a viver. O que realmente importa é, com urgência, pedir ao PCP que valide o sétimo bombardeamento de um país soberano, no espaço de um ano, por parte dos autodenominados policias do mundo.

Martim e amigos, tenham juízo.

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