Quem não gosta da Festa, bom sujeito não é

(António Filipe, in Expresso Diário, 01/08/2022)

O que de mal tem a Festa do Avante para os seus detratores é ser uma grande realização construída pelo PCP, não apenas para os seus, mas para todos os que nela queiram participar. Num tempo em que o espaço público e mediático se instala um discurso de ódio e o anticomunismo faz parte do livro de estilo, a Festa do Avante é um inimigo a abater.


Quem não gosta do samba/bom sujeito não é
ou é ruim da cabeça/ou doente do pé

Dorival Caymmi (“Samba da minha terra”)

Foram muito difundidas há uns anos as imagens de Marcelo Rebelo de Sousa, então pré-candidato à Presidência da República, em alegre convívio na Festa do Avante (adiante designada por Festa) com artistas, com visitantes anónimos (para ele) e com dirigentes do PCP. Não foi caso único, nem sequer incomum. Ao longo destes anos, convivi muitas vezes na Festa com deputados e militantes destacados de outros partidos que foram à Festa, ou para aproveitar a oportunidade rara de assistir a um concerto de música sinfónica para milhares de pessoas ao ar livre, ou para ver este ou aquele artista, ou para ver um outro espetáculo ou exposição do seu interesse, ou por aceitar participar num debate (sim, participei em debates na Festa ao lado de personalidades publicamente ligadas a outros partidos), ou porque gostam da Festa e lhes apeteceu ir.

Ao longo dos muitos anos que a Festa já leva, muitos milhares de artistas passaram pelos seus palcos, desde músicos e cantores míticos já desaparecidos, como Max Roach, Richie Havens, Miriam Makeba, Mercedes Sosa, José Afonso ou Adriano, até ao que de melhor teve e tem a música portuguesa, brasileira, e de outras partes do mundo. O critério para a atuação na Festa nunca foi a opção partidária. Que o digam os muitos artistas que já nela participaram e que nunca se identificaram partidariamente com o PCP.

Contudo, a Festa não é só espetáculos musicais. Tem uma bienal de artes plásticas, exposições sobre temas diversos, um teatro, um cinema, um espaço Ciência, um espaço para crianças, um vasto programa desportivo, uma feira do livro e do disco com apresentações de obras e sessões de autógrafos, para além de bares e restaurantes representando todas as regiões e culturas gastronómicas representadas em Portugal, para além de restaurantes incluídos nos stands internacionais. E a Festa também é política, obviamente. Para além do comício politicamente marcante de domingo, a Festa tem debates políticos, exposições, presença de partidos comunistas e progressistas de muitos cantos do mundo, e é uma realização promovida pelo PCP e construída pelo seu trabalho militante.

Por isso, a Festa nunca teve boa imprensa. Na melhor das hipóteses é quase ignorada. Quase sempre, é vilipendiada. É conhecida a fábula das receitas. Às segundas, quartas e sextas, a Festa gera receitas milionárias, mas às terças, quintas e sábados, e nos mesmos órgãos de comunicação social, dá prejuízos ruinosos. Por vezes há acusações de participarem organizações que os EUA acham que são terroristas (como já aconteceu com o ANC de Nelson Mandela). E há dois anos, a propósito da epidemia, valeu tudo o que a desonestidade conseguiu imaginar, numa campanha sistemática e orquestrada contra a realização da Festa que incluiu a instrumentalização de comerciantes locais, o depoimento de batalhões de tudólogos, a caricata apresentação no Jornal da Noite da SIC de uma capa falsa do New York Times onde a Festa seria criticada (imagine-se), as acusações de que a Festa seria responsável pelo agravamento da pandemia, para depois silenciar que a Festa, tendo respeitado todas as indicações da DGS, mesmo as especialmente exageradas, foi um sucesso e demonstrou que a vida pode continuar desde que sejam tomadas as devidas medidas de segurança.

Neste ano de 2022, a campanha contra a Festa tem uma nova faceta e, diria eu, que às vezes ainda sou ingénuo, impensável, que é o autêntico bullying, e até ameaças diretas, de que são vítimas os artistas que vão participar, o que obrigou alguns deles, muito justamente, a defender-se publicamente e outros a aceitar submeter-se a entrevistas em modo de interrogatório policial de quem já vai condenado à partida. Claro que não faltaram, para animar a narrativa, artistas que não foram convidados a dizer que não participariam se tivessem sido, ao modo da fábula da raposa que, por não chegar às uvas, dizia, “são verdes e não prestam”.

Tudo visto e ponderado, o que move os detratores da Festa? É haver música sinfónica? É haver centenas de artistas, dos mais aos menos consagrados, a participar em vários palcos? É o teatro, o cinema, os livros e os discos? É o desporto ou a Ciência? É a gastronomia? Nada disso. Ao atacar a Festa atacam quem nela participa e o que nela se faz. Não hesitam em atacar e denegrir grandes músicos e cantores. Não hesitam em atacar a Cultura, a Ciência, o Desporto que tenha presença na Festa. Mas o móbil é o ódio.

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O que de mal tem a Festa para os seus detratores é ser a Festa do Avante. É ser uma grande realização construída pelo PCP, não apenas para os seus, mas para todos os que nela queiram participar e a um preço relativamente acessível. Num tempo em que o espaço público e mediático se instala um discurso de ódio e o anticomunismo faz parte do livro de estilo, a Festa do Avante é um inimigo a abater, e tanto mais poderoso que não se deixa abater.

Assim, no primeiro fim de semana de setembro, vão lá e disfrutem. Podem ir ao comício, assistir a debates ou intervir se quiserem, ver espetáculos de música, cinema ou teatro, comprar um livro ou um disco, comer o que mais vos agradar, do leitão ao vegan, num espaço de convívio e tolerância. Ninguém vos pergunta em quem votam ou a que partido pertencem. E se lá forem pela primeira vez, vão perceber o que quem a conhece já percebeu há muito, que quem não gosta da Festa, bom sujeito não é.


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O aprendiz do arquitecto Saraiva e o alvo do costume

(Tiago Franco, in Pagina Um, 29/07/2022)

Durante anos, longos anos, a União Europeia fez todo o tipo de negócios com a oligarquia russa. A Alemanha, por exemplo, motor europeu, escolheu ser parceira no sector energético enquanto lhes vendiam armas. Quem não se lembra do nosso Sócrates a fazer jogging na Praça Vermelha? Ou do nosso Paulinho das Feiras (Portas) a vender Vistos Gold para cidadãos russos? Ou até, do nosso Cotrim de Figueiredo, presidente do Turismo de Portugal nos idos de 2014, a anunciar a aposta no mercado russo e na atracção de rublos, enquanto o Donbass era invadido por separatistas apoiados por Putin?


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Milhazes e a comunidade LGBTK, etc, etc

(Tiago Franco, in Facebook, 21/07/2022)

Um dia vamos discutir como o jornalismo monotemático e de massacre 24/7, promove a rock star algumas figuras absolutamente desinteressantes e também labregos em barda. Até esse dia chegar, temos que ir levando suavemente com personagens como este Milhazes, o Carona da Ucrânia.

O Avante tem um mel muito especial porque atrai todo o tipo de pessoas. Quem gosta, quem não gosta, quem um dia gostou e quem nunca gostará. Todos falam, como diria a Lena D’Água, bem ou mal, mas todos falam.

Curiosamente nunca vi uma referência, deste Milhazes ou de outro boneco qualquer, sobre festivais, universidades de verão ou outro evento realizado por partidos políticos. Isto de sermos todos muito democráticos mas marrarmos diariamente no vermelho com pedidos de cancelamento, é uma definição muito própria da coisa inventada pelos gregos.

O PCP não tem culpa do Avante ser de facto a melhor festa organizada por um partido político em Portugal. Embora o ChegaFest tivesse aparecido com toda uma nova roupagem para a música de elevador e a universidade de verão do PSD também ter uma playlist de Vangelis boa. Ou era a do PS? É difícil distingui-los. Mas o ponto aqui é, o discurso de “não sei como o artista X vai ao Avante, uma festa organizada por um partido que apoia o regime Y”, que já me começa a irritar e a trazer um cheirinho a mofo de Santa Comba.

A primeira vem com essa do apoio aos regimes e tal. Vamos lá a ver se nos entendemos, uma coisa são os regimes que a turba diz que o PCP apoia (a Rússia, por exemplo) outra é a realidade. Não é por se repetir muitas vezes uma mentira que ela passa a verdade. E mesmo que o PCP apoiasse a Rússia…que diferença isso faz para a política nacional ou a vida dos portugueses em geral?

Preocupar-me-ia mais se o PCP apoiasse o fim do SNS, da escola pública ou se estivesse metido nos favores à banca. É que isso é que influencia a vida dos portugueses que pagam impostos, não são os regimes estrangeiros num mundo onde Portugal tem o peso de um grão de areia na política externa.

Anda o PCP a levar há 20 anos com a narrativa da Venezuela e bastou os mercados do petróleo ficarem engatados, para os EUA (na voz do Biden) declararem a Venezuela como uma democracia amiga a quem se deve comprar uns barris. Isto depois de ouvir o Macron a dizer que é preciso substituir os russos pelos sauditas. Farto de hipocrisia sobre democracias ando eu!

Andava o Chega a defender o fim do SNS e da escola pública, o PSD a mandar o pessoal emigrar e a aumentar os impostos, o PS a alimentar as PPPs e os bancos, o CDS a rebentar com o parque habitacional e a comprar submarinos e nunca vi ninguém a insurgir-se contra nada que estes estarolas organizassem.

Eu quero lá saber se o partido comunista da Galiza está no Avante ou se os colombianos têm lá uma barraca. Essa merda muda alguma coisa naquilo que é o baixo salário do português, a carga fiscal gigante e os roubos da banca? Não, pois não? Mas as políticas do centrão já nos colocam aí, certo? Então preocupem-se com os regimes estrangeiros quando o nosso for de primeiro mundo.

E agora aparece esta anedota deste Milhazes, a indignar-se em horário nobre porque a Carminho ou o Paulo Bragança vão à festa. É preciso ter uma paciência para este gajo… Já não há nada para dizer sobre vilas ardidas ou hospitais arrasados? O PCP tem que levar com estes gajos durante o Covid, guerras e primeiros de Maio? Que respeito pela democracia é esse quando, abertamente, se prestam ao frete de tentar boicotar a Festa e os seus participantes?

Já agora, duas notas, ó Milhazes. Essa do “não conheço os outros participantes” deve ser porque o Vitorino já é um caso perdido ou porque, lá em casa, só passa Pussy Riot. Mais Riot. Pelo discurso noite após noite, algo me diz que pussy nem tanto.

Elucidou-nos ainda o ex-camarada Milhazes que, a Bia Ferreira, e cito, “é uma destacada representante da comunidade LGBTK, etc, etc e vem à festa de um partido que apoia regimes que perseguem membros dessa comunidade”.

Desde logo Milhazes, tu que estás tão preocupado com a comunidade, explica-me lá, o “K” antes do etc, etc, é de quê? Kings? Kiwis? Kunanis?

Sobre regimes já falámos, é chover no molhado, mas conta-me, por favor, onde é que alguma vez, em Portugal, o PCP teve um discurso discriminatório contra qualquer comunidade. Fosse pela sua orientação sexual, etnia, origem, etc?

É que há de facto um partido (às vezes dois) em Portugal com esse tipo de discurso mas, que me lembre, não ouvi o Milhazes muito indignado por saber que o Rui Bandeira, com um cabelo tão sedoso como o da Carminho, lá ia cantar.

Desejo que a guerra acabe quanto antes para que os ucranianos deixem de ser utilizados num tabuleiro que não é o deles. Mas mentiria se não dissesse que, depois de fechadas as cortinas, não via com bons olhos o regresso do Milhazes ao buraco onde passou os últimos 40 anos. Quase que tenho saudades do Carona e das lágrimas em direto.


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